Scarloon Leandro II - Tosse
3 A FLORESTA
A floresta me engoliu.
Caminhei sem rumo, os galhos arranhando meus braços, as folhas secas estalando sob meus pés. A noite estava densa, pesada, como se o próprio ar tivesse engrossado depois do que aconteceu.
Minha mente não parava.
Quem é esse tal de Adam?
Por que ele apareceu do nada?
Foi ele quem fez aquele massacre?
O que ele quis dizer com "Você será uma ótima Mada"?
Tantas perguntas. Nenhuma resposta.
A única coisa que eu sabia era que precisava encontrar um lugar seguro. Um lugar para pensar. Para respirar. Para sobreviver.
Ao longe, gritos ecoavam de vez em quando. Cortavam a noite como facas e desapareciam no silêncio. Eu não queria pensar no que aquilo significava.
Apenas anda, Leandro. Anda e não para.
Depois de minutos que pareceram horas, encontrei.
No fundo da floresta, entre árvores tão densas que mal deixavam a luz passar, havia uma pequena clareira escondida. Um local meio afundado, coberto por folhas, como se a própria natureza tivesse criado um esconderijo para quem precisasse sumir do mundo.
Entrei.
O cansaço bateu como uma maré. Sentei no chão, encostei a cabeça em um tronco e olhei para cima.
E vi.
A lua.
Aquele rosto. Minguante. Sorridente.
Até poucos dias atrás, eu achava aquela imagem charmosa. Diferente. Quase amigável.
Agora, aquele sorriso me trazia calafrios.
O mesmo sorriso que ele tinha.
Desviei o olhar. Suspirei.
TEC.
Meu corpo reagiu antes do pensamento.
Um galho quebrado. Perto.
Virei na direção do som, já em posição de luta. Meus músculos estavam tensos, prontos. A febre pulsava nas veias, esperando o comando.
Um Scar saltou dos arbustos.
Corria na minha direção, os olhos arregalados. Não era ataque — era desespero. Seu rosto estava pálido, sua respiração ofegante. Ele corria de algo.
TCHS.
O som veio seco. Rápido.
Um espinho atravessou o peito do Scar antes que ele pudesse gritar. Seu corpo tombou no chão, os dedos arranhando a terra molhada. Ele agonizou por alguns segundos. Depois, ficou imóvel.
Meus olhos seguiram a trajetória do espinho.
No limite da clareira, havia alguém.
Cabeça triangular com pontas arredondadas. Olhos estreitos. Postura ereta. Sua mão ainda estava erguida, pronta para usar o Impar novamente.
Ele me viu.
Um espinho brotou do chão aos meus pés.
Desviei no reflexo. A ponta afiada rasgou o ar onde eu estivera um segundo antes.
O homem pisou na cabeça do Scar agonizante, como quem esmaga um inseto. O som foi nauseante.
— O que você tá fazendo? — minha voz saiu fria.
Ele hesitou. Seus olhos me analisaram.
— Ugh? Pera aí… — ele franziu a testa. — Você é o Leandro, né?
Ele me conhece.
— Nossa, cara — ele balançou a cabeça, um sorriso nervoso surgindo em seus lábios. — Que azar do caralho.
Sua postura mudou. Antes confiante, agora havia algo diferente. Receio.
— Sim, eu mesmo — respondi, sem baixar a guarda. — Posso saber por que você matou essa pessoa?
— Ela tentou me matar — ele respondeu rápido, as palavras saindo apressadas. — Só dei o troco.
— Então você não fez por mal?
— Isso mesmo. Eu só fiz pra não morrer. Era eu ou ele.
O silêncio durou um segundo.
Lancei o chicote de muco.
Ele não esperava. O muco enrolou seus pulsos com a rapidez de uma serpente, prendendo suas mãos antes que pudesse usar o Impar.
— Acha que me engana? — minha voz saiu baixa, controlada. Dei um passo à frente. — Essa pessoa estava fugindo. Estava com medo. E além disso, você me atacou assim que me viu. Tentou me matar.
Outro passo.
— Acha que eu vou acreditar que você só estava se defendendo?
Seu rosto empalideceu. O nervosismo virou pânico.
— Calma! — ele se debateu contra o muco, inútil. — Eu só fiquei com medo de você, então decidi atacar primeiro! Só como um aviso!
Ativei a febre.
Avancei.
Minha mão agarrou sua cabeça com força, os dedos pressionando as laterais do crânio. Ele tentou recuar, mas o muco segurava seus braços.
— EI! ME SOLTA!
Espinhos brotaram de seus ombros, tentando me acertar.
Tink. Tink. Tink.
Quebraram contra a Armadura Lazuli que eu já havia formado antes de prendê-lo.
— Escuta — minha voz saiu calma. Muito calma para o que eu estava sentindo. — Eu realmente não estou num bom momento.
Apertei mais forte.
— E sabe de uma coisa? Eu sei que você matou esse cara. E pretendia me matar também.
Seus olhos se arregalaram.
— Então que tal? — sorri. — Vou fazer o que tem que ser feito.
O muco escorreu dos meus braços, envolvendo ele por completo. Camada após camada, formando um casulo azul-escuro. Seus gritos abafados ecoavam de dentro, surdos, distantes.
Segurei o casulo com ambas as mãos.
Ativei a febre.
E o lancei para cima com toda a força que eu tinha.
Ele subiu. Subiu. Subiu. Um ponto escuro contra o céu noturno.
Coloquei a mão na cabeça.
Dor.
Acumulei. Concentrei. A energia pulsou na minha palma, laranja, vibrante, esperando.
Mirei.
BOOM!
A explosão rasgou a noite.
O casulo se despedaçou no ar. Pedaços voaram para todos os lados. E então…Chuva.
Sangue. Órgãos. Pedaços de pele. Caíram ao meu redor como uma tempestade macabra. Algo molhado e quente escorreu pelo meu rosto.
Não me limpei.
Fiquei ali, no meio da clareira, com a chuva vermelha caindo sobre mim.
Isso deveria me afetar.
Eu havia matado alguém. Pela primeira vez. Com as próprias mãos.
Mas, sendo sincero…
Isso nem se comparava ao que eu tinha visto horas antes.
E havia algo mais.
Uma parte de mim… sentiu satisfação.
Como se, de repente, diante da possibilidade da morte, eu me sentisse bem em livrar o mundo de pessoas assim. Gente que matava por matar. Gente que via os outros como obstáculos a serem esmagados.
Que merda de pensamentos são esses?
Fiquei parado, olhando para os restos espalhados no chão.
Isso é errado.
O que me diferencia de quem mata qualquer um?
A intenção?
Droga.Quanto mais eu pensava, mais errado aquilo soava.
É melhor eu esquecer isso.
Criei um pequeno casulo de muco. Apenas o suficiente para me cobrir. Deixei alguns buracos para a passagem de ar — não queria sufocar dentro da minha própria proteção.
Deitei no chão frio da clareira.
O cansaço pesava nos meus ossos. A exaustão do treino. O horror da noite. A fuga.
O combate.
Sara.
Seu rosto surgiu na minha mente. De joelhos. O braço no chão. O sorriso trêmulo.
"Talvez a gente se encontre mais tarde, em algum dia."
Fechei os olhos.
"Aí a gente pode olhar o pôr do sol juntos." O sono veio como um abismo
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