Scarloon Leandro II - Tosse
7 O PLANO
O homem do trono cruzou as mãos sobre o peito. Seus olhos me avaliaram por um instante, como se pesasse cada palavra antes de soltá-las.
— Eu irei te explicar só o essencial do plano — disse ele, a voz grave. — Afinal, tem algumas etapas que não são do seu interesse. E nem tenho intenção de explicá-las.
— Pode falar somente o necessário — respondi, impaciente.
Ele assentiu.
— Adam é o Dono da Bola. Atualmente, ele é o ser mais poderoso de toda
Scarloon. Mas ele está bem… convencido. — O homem fez uma pausa dramática. — Ele tem os Madas, servos com quem firmou um pacto. Os Madas são obrigados a obedecer às suas ordens. Para cada Mada, ele deu 1% do seu poder.
Meus olhos se estreitaram.
— Sabe o que isso significa? — ele perguntou, como quem aplica um teste.
— Que ele está com 90% do poder original?
— Exato. — Ele ergueu um dedo. — Mas ele não é idiota. Se algum Mada morrer, o poder de Adam volta para ele.
Ele cruzou os braços.
— Mas você me pergunta: como vamos derrotar esse monstro?
Eu realmente não vejo muitas brechas. Apenas lembrar da presença de Adam fazia meu estômago se contrair. Aquele ser distorcia o ar ao seu redor. A atmosfera inteira mudava na presença dele.
— Um Scar chamado Samuel — o homem continuou —, com seu Impar de Cópia, é a solução.
Cópia.
Um Impar realmente versátil.
— Ele pode copiar Impares e movimentos de seus alvos. — Os olhos do homem brilharam. — Então eu tenho um plano. Fazer Samuel copiar meu Impar e desconectar as porcentagens do poder de Adam dos Madas. Depois, conectá-las em si mesmo. Tornando-o consideravelmente mais forte.
Entendi.
Ele vai provavelmente atrás dos Madas para pegar os 10% do poder de Adam e usá-los contra o próprio criador.
Mas isso é suficiente?
— E claro — ele acrescentou, como se lesse meus pensamentos —, eu tenho uma teoria. Mas não quero arriscar a vida de Samuel nesse instante. Então isso só vai acontecer em último caso.
Fiquei curioso. Que teoria seria essa?
Mas antes que eu pudesse perguntar, uma ideia mais urgente ocupou minha mente.
— Escuta — interrompi. — Eu tenho que fazer algo antes de entrar nesse plano. Eu preciso derrotar a Sara.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Sara? A Rainha do Sangue?
Um sorriso involuntário escapou.
Ela realmente está usando o nome que eu sugeri? Foda.
— Sim — confirmei. — Eu preciso derrotá-la. Não vou deixar Samuel matá-la. Ele pode ficar com a porcentagem do poder de Adam, mas vai ser eu quem vai enfrentá-la.
O homem me observou por um longo momento. Depois, assentiu.
— Entendi seu objetivo, Leandro.
— Nesse caso, deixa eu te situar de uma coisa importante. — Ele se levantou do trono e caminhou até uma mesa onde um mapa de Scarloon estava estendido. — Cada Mada tem sua hierarquia de nível de poder. E a Rainha do Sangue está na oitava posição.
Caralho.
Ela realmente está forte, então.
— Minha ideia agora — ele continuou, traçando linhas imaginárias no mapa — é que você e Samuel derrotem dois Madas ao mesmo tempo. Você cuida da Rainha. E Samuel, do nono mais forte: o Demônio das Chamas.
— Entendi — respondi, sem hesitar. — Não vejo problema.
Ele me olhou com seriedade.
— Mas se você não conseguir, certifique-se de durar o suficiente para aliviar o trabalho de Samuel.
— Eu vou derrotá-la — minha voz saiu firme. — Isso nem era para ser uma dúvida.
Ele sorriu.
— Então vou te explicar o dia exato em que você vai entrar em ação, Leandro.
Escutei com atenção.
— No dia 16 de Outubro de 1817, você vai lutar contra ela. Samuel vai derrotar cada Mada em um ano. Então, no ano de 1816, ele terá matado o sétimo Mada. — Ele bateu o dedo no mapa. — Conto com você. Isso vai nos economizar tempo e esforços.
— Beleza — respondi, já me levantando. — Agora que sei disso, vou finalmente poder impedir aquela idiota de fazer mais merda.
Ele me olhou com curiosidade.
— Parece que você tem algum envolvimento com a Sara, não é?
Olhei para ele com um sorriso.
— Sim. Diria que a gente foi bem próximo antes dessa merda inteira acontecer.
Ele suspirou, os olhos perdidos em algum lugar distante.
— Depois que Adam despertou, este mundo só virou um mar de morte.
A frase ficou suspensa no ar. E então algo me veio à mente. Algo que ele havia dito antes e que eu não tinha processado completamente.
— Eu só quero que me tire uma dúvida — falei. — O que seria Par?
Ele arqueou uma sobrancelha. Depois, um sorriso irônico surgiu em seus lábios.
— Par? — repetiu, como se saboreasse a palavra. — É a energia do caos. Um poder que vem da violência.
— Como assim?
— Resumidamente — ele explicou, gesticulando com as mãos —, quando você mata um Scar, você ganha Par. Ele aumenta seus status físicos: força, velocidade, resistência, reflexos, sentidos.
Ele fez uma pausa.
— Eu diria que é assim que os Madas ficam mais fortes conforme o tempo avança.
Entendi.
Então quer dizer que quanto mais Scars você mata, mais forte você fica.
Uma engrenagem girou na minha mente.
— Ei — perguntei rápido. — Demônios também dão Par ao serem mortos?
Demônios? — ele franziu a testa.
— Sim, os Scars com pele roxa.
— Ata. — Ele acenou, compreendendo. — Eles são Scars, então sim. Eles receberam ordens para matar ao menos um Scar por semana. Se não, morrem.
— Então eles são apenas Scars que matam até serem mortos por outros Scars — resumi. — E eles nem podem escolher não matar, se não morrem.
— Exato.
Fechei os punhos.
Entendi.
— Então já tenho meu plano para ganhar Par — declarei. — Vou matar cada um deles.
Pode parecer cruel. Afinal, nem todos os demônios são do mal. Mas eles têm que matar Scars para viver. Então se eles morrerem… várias vidas podem ser salvas.
É a conta que precisa ser feita.
Me levantei.
— Já vai? — ele perguntou, surpreso.
— Sim. Não posso perder meu tempo. Tenho que ficar mais forte nesses sete anos.
Virei as costas e caminhei para a saída.
— Leandro — ele chamou.
Parei.
— Boa sorte.
Não respondi. Apenas segui em frente.
A floresta me recebeu com seu silêncio habitual.
Sentei debaixo de uma árvore, as costas contra o tronco, os olhos perdidos nas folhas que balançavam lá no alto.
Sara.
Eu vou derrotá-la.
Não gostaria de matá-la. Mas se ela é uma Mada, provavelmente ainda tem que matar inocentes. Ela não teve escolha. Não sei se ela pode desistir. Mas acho que pelo pacto, ela é obrigada a continuar.
Que droga.
Fechei os olhos. A imagem dela surgiu na minha mente. O sorriso. Os abraços. Os tapas na nuca quando eu ia gritar o nome de Pablo.
Eu sei o que a minha Mestra gostaria que eu fizesse se isso acontecesse com ela.
"Me derrote para salvar essas pessoas, Leandro!"
Abri os olhos.
Essa idiota.
Me levantei. Olhei para a escuridão da floresta que se estendia à minha frente. Os galhos retorcidos pareciam dedos apontando caminhos que eu ainda não conhecia. Mas eu sabia para onde ir.
— Vamos partir para a caçada.
Dei o primeiro passo.
E entrei na floresta.
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