16 de Outubro de 1817

Um Scar corria pela floresta.

Seu corpo estava ensanguentado. Um dos braços havia sido arrancado — o toco sangrava em jatos irregulares. Sua respiração era ofegante, desesperada.

Droga... — ele sibilou entre os dentes. — Eu acho que consegui fugir de—

— COF!

A rajada sônica veio da escuridão.

Seu corpo foi arremessado contra o tronco de uma árvore com força brutal.

POW!

Ele ficou preso ali, os olhos arregalados.

Fiiit! Fiiit! Fiiit!

Projéteis azuis pontiagudos perfuraram seu peito, seu pescoço, seu rosto. Um após o outro, até que seus olhos perderam o brilho.

Sai da sombra.

Olhei para o cadáver grudado na árvore. A pele roxa já começava a perder a cor, escorrendo em lágrimas viscosas.

— Era melhor ter aceitado sua morte, demônio.

Sete anos.

Sete anos desde que fiz o pacto com Rafael. Sete anos de caçada implacável.

Matei mais de dez mil demônios. Pelo menos quatro por dia, todos os dias, sem falhar.

Eles pararam de aparecer com tanta frequência. A floresta ficou mais silenciosa. Os ataques, mais raros.

Mas eu não parei.

A floresta se abriu diante de mim. E lá estava — a estrutura que eu não via desde aquele dia.

O coliseu.

Meus passos ecoaram nas pedras enquanto eu entrava. O lugar estava mais vazio do que eu lembrava. As arquibancadas, antes cheias de Scars sedentos por sangue, agora estavam desertas. A poeira cobria os assentos como um sudário.

Mas eu não estava ali para lutar.

Passei pelos corredores familiares, subi as escadarias, segui o caminho que meu corpo já conhecia de cor.

A porta da sala estava entreaberta.

Entrei.

O homem estava sentado à mesa. Sua cabeça redonda, coroada por aquela esfera que eu nunca soube explicar, se voltou na minha direção.

Mas não estava sozinho.

Ao seu lado, um garoto. Jovem. Rosto redondo com um símbolo estranho — uma espécie de paz deitada — estampado na testa. Olhos vivos, curiosos, saltitantes.

Assim que me viu, ele apontou o dedo na minha direção.

— Ei, Rafa! — sua voz era animada demais para quem estava prestes a enfrentar Madas. — É esse o cara que vai me ajudar?

Rafa? Então esse era o nome dele. Rafael. Rafa. Nunca tinha me chamado para um primeiro nome.

— Sim, Samuel — respondeu Rafael, com a calma de sempre. — Ele vai derrotar a Rainha do Sangue.

Os olhos do garoto — Samuel — brilharam.

— Entendi. — Ele começou a alternar o olhar entre mim e Rafael. — Então ele deve ser forte pra caramba.

Aproximei-me da mesa.

— Iai — falei, encarando o jovem. — Você é o Samuel, né?

Ele olhou para Rafael com uma expressão de fingida surpresa.

— Eu tô mesmo famoso, né?

Riu sozinho. Ninguém riu com ele.

Rafael ignorou a cena e me indicou uma cadeira.

— Pode sentar aqui. Vamos só discutir o plano.

Me sentei.

Basicamente é o seguinte — Rafael começou, apoiando as mãos sobre a mesa. — Samuel derrota o Nono Mada, e você, a Oitava. Mas para que este plano seja completo, Leandro, você precisa retirar o Fragmento de Medo da Rainha.

— Fragmento de Medo? — repeti.

— É o nome que eu dei para o 1% do poder de Adam que ela possui. — Rafael fez uma pausa. — Você precisa desconectá-lo dela.

— Mas como ele vai fazer isso, Rafa? — Samuel interrompeu, franzindo a testa. — Ele não tem meu poder.

— Simples.

Rafael ergueu a mão. Seu artefato surgiu entre seus dedos como se sempre estivesse ali.

Uma espada.

Mas não uma espada comum. Ela tinha o formato de uma tesoura — duas lâminas que se encontravam em um ângulo perfeito, prontas para cortar o que estivesse entre elas.

— Este é meu artefato — Rafael explicou. — Com ele, eu posso fazer exatamente o que precisamos. Desconectar o Fragmento de Medo.

— Sim! — Samuel bateu na mesa, animado. — É assim que eu retiro os fragmentos. Eu copio o artefato do Rafa, desconecto o poder do Mada e reconecto em mim.

Que coisa complexa e simples ao mesmo tempo.

Rafael girou a espada-tesoura entre os dedos. Depois, ativou seu Impar.

Flick.

Um som seco. Como um botão sendo pressionado.

— Pronto — disse ele, calmamente. — Desconectei o artefato de mim.

Ele apontou a espada na minha direção.

Flick.

— Agora você é o dono.

— Que?

Olhei para minha mão. A espada-tesoura não estava ali — mas eu sentia ela. Como se algo tivesse sido transferido de Rafael para mim. Uma conexão invisível, mas sólida.

— Eu apenas te emprestei meu artefato — Rafael disse, soltando um pequeno suspiro. — Então vê se me devolve depois. Mas você entendeu o que é pra fazer, né?

— Sim — respondi, fechando os punhos. — Vou retirar o Fragmento de Sara e dá-lo pro Samuel.

— Ainda bem que você presta atenção nos planos.

Samuel se virou para Rafael, indignado.

— O que você quer dizer com isso? Quer falar algo na minha cara, diz logo!

— Acho que não preciso dizer nada, Samuel. — Rafael coçou o olho, indiferente. —

O mais importante… — ele se levantou — …acho que não temos mais tempo para perder. Vocês já podem ir na direção da base dos Madas.

— Deixa comigo, Chefia! — Samuel já corria para a porta, animado como um garoto indo para um parque de diversões.

Mas antes que eu pudesse segui-lo, a voz de Rafael me chamou.

— Só uma coisa, Leandro…

Andávamos pela floresta. Samuel à frente, pulando de galho em galho como se não houvesse perigo algum. Eu atrás, os passos mais pesados, a mente mais ocupada.

— Ei, Leandro — ele disse de repente, virando-se para mim enquanto caminhava de costas. — Seu Impar é Doença mesmo?

Fiquei surpreso.

— Sim. O Rafael te contou?

— Não. — Ele sorriu. — Eu acabei de descobrir.

Muco escorreu de seu rosto. Azulado. Brilhante. Meu muco.

Ah.

Lembrei. Ele tem o Impar de Cópia. Descobriu assim que me tocou, ou talvez só de me olhar.

— Seu Impar é bem versátil, né? — comentei.

— Sim. Tenho vários Impares copiados armazenados para casos de emergência. — Ele brincava com o muco, moldando-o entre os dedos. — Mas eu normalmente uso o próprio Impar do meu inimigo contra ele.

Pausa.

Ele franziu a testa, observando a substância escorrer.

— Mas o seu Impar é meio diferente. Não sei como usaria ele de forma eficiente.

— Eu também não sabia o real potencial do meu Impar quando usei ele pela primeira vez — respondi, lembrando dos dias no Dôjo, dos treinos intermináveis, da Mestra sempre ao meu lado. — Ele tem condições bem específicas para funcionar de verdade.

Samuel olhou para mim com um sorriso aberto no rosto.

— Eu acho que ele não vai ser muito útil para mim.

O sorriso desapareceu. Seus olhos ficaram mais sérios.

— Mas, Leandro… por que você quer lutar contra a Rainha do Sangue? Ela tem um nome muito macabro e é uma das mais fortes. — Ele inclinou a cabeça. — Tô curioso sobre suas motivações.

A pergunta pegou pesado.

Por que eu quero lutar contra ela?

— Eu fiz uma promessa — respondi, os olhos fixos no caminho à frente. — E a Rainha do Sangue causa muitas mortes a Scars inocentes. Então eu sinto que devo pará-la.

— Uma promessa? — Samuel se aproximou, os olhos brilhando de curiosidade. — Poderia me contar?

Que moleque enxerido, né?

— Não.

Ele não pareceu ofendido. Pelo contrário, acenou com a cabeça como se entendesse perfeitamente.

— Entendi. Deve ser algo bem sério para não me contar. — Seus olhos se voltaram para frente. — Mas se o Rafa confia em você, quer dizer que você é bem forte.

Não havia sarcasmo em suas palavras. Nem desafio. Apenas… constatação.

Estranho.

— E você? — perguntei, devolvendo a pergunta. — Qual a sua motivação para derrotar Adam?

Seu rosto mudou. O sorriso vacilou. Por um instante, algo mais velho, mais pesado, surgiu atrás de seus olhos.

— Bom… — ele começou, a voz menos animada. — Eu sou forte. E quando eu encontrei o Rafa, ele disse que eu tenho um potencial enorme. O suficiente para derrotar Adam.

— Sério? — franzi a testa. — Mas isso é o suficiente para você arriscar sua vida assim?

Ele me olhou por um momento. Depois, o sorriso voltou. Aquele sorriso otimista, quase ingênuo.

— Sim. Afinal, se eu não fizer isso, ninguém vai. — Ele deu de ombros. — Pode apostar. Eu vou trazer paz para Scarloon. E todos poderão rir mais uma vez.

Ele apontou o dedo para frente, os olhos estreitando.

— Ali é onde a Rainha do Sangue mora. — Sua voz caiu para um sussurro. — Toma cuidado, Leandro.

— Pode deixar. — Cruzei os braços. — Derrota o Nono Mada.

Samuel sorriu.

— Isso já está garantido.

Nos separamos.

Caminhei sozinho em direção à entrada da base. Uma construção que mais parecia um Dôjo refinado — paredes roxas, vegetação ornamental, silêncio ensurdecedor.

Dois guardas de pele roxa surgiram na minha frente.

— Ei — o da esquerda ergueu o punho. — Quem você pensa que é?

O da direita completou:

— Este local não está esperando visitas.

Eles se posicionaram em pose de luta.

— Vamos dar cabo de você!

POW.

CRACK.

Thud.

Passei pelos corpos caídos e adentrei o salão principal.

O lugar era elegante. Muito diferente do Dôjo onde eu treinei. Ali, tudo parecia mais frio. Mais distante. Como se a própria arquitetura tivesse sido sugada de qualquer calor humano.

Do fundo do corredor, ouvi vozes. Gritos.

— Esse cara matou os guardas! — alguém berrou. — Matem ele!

Múltiplos passos se aproximaram.

— Não façam meu trabalho ser mais difícil — murmurei, preparando o muco.

Mas antes que eu pudesse me mover, uma voz ecoou pelo salão. Firme. Familiar. Inconfundível.

— Parem!

Os Scars roxos congelaram.

Olhei para a direção da voz.

Ela estava ali.

Sara.

Seus olhos se arregalaram. Por um instante, algo antigo brilhou ali — surpresa, talvez até alegria.

— Leandro?

Sua expressão de confusão se transformou. Tornou-se… orgulho?

Ela ergueu a mão para os guardas.

— Vocês, voltem aos seus postos. — Sua voz era calma. Autoritária. — Deixem ele entrar.

Os guardas hesitaram. Depois, se dispersaram.

Sara me encarou. Eu a encarei de volta.

— Vamos parar de enrolação, Sara — falei, sentindo o peso de cada palavra. — Onde você quer lutar?

Ela apenas virou as costas.

— Só me siga.

Atravessamos corredores roxos, passamos por jardins internos, subimos escadarias que pareciam não ter fim.

Em nenhum momento olhamos um para o outro. Mas eu sentia sua presença. A cada passo. A cada respiração.

Finalmente, chegamos a uma área aberta. Um campo de treinamento — maior que o Dôjo antigo. O vento soprava leve.

Sara se virou para mim.

— Olha… — começou, a voz diferente do que eu esperava. — Eu acho que não precisamos mais enrolar. Afinal… esperei tempo demais para este confronto.

— Sim — respondi, assumindo minha posição. — Vamos direto ao ponto.

Nossos olhos se encontraram.

— Tá preparada?

Sua expressão mudou. O que havia ali — arrependimento, talvez — se dissolveu. Deu lugar a algo que eu conhecia bem.

Aquele mesmo brilho dos treinos. A mesma confiança de quem me ensinou tudo o que eu sei.

— Quando quiser, Leandro!

Meu coração bateu mais forte.

Finalmente.

Sete anos de preparação. Sete anos de caçada. Sete anos pensando neste momento.

Vou meter a porrada na minha Mestra.