Cheguei perto da estrutura e vi dois guardas. Postura firme, olhos atentos. Faziam a vigília do local com a frieza de quem já viu muita coisa.

Aproximei-me.

— Oi — chamei. — Que lugar é esse?

Eles me olharam com expressão séria. O da esquerda respondeu:

— É o local onde batalhas são feitas entre Scars. A recompensa pela vitória é um Artefato.

Artefato?

A palavra acendeu algo na minha mente.

— O que seria um artefato? — perguntei.

— Se está perguntando, provavelmente sentiu algo te chamando para este local, não é? — O guarda inclinou a cabeça. — Isso quer dizer que o seu artefato está aqui dentro.

Meu artefato?

— Cada Scar tem seu artefato — ele explicou. — O dono deste coliseu pegou alguns deles e os dá de prêmio para quem vencer as batalhas.

Entendi.

Então eles roubam o que é meu para obrigar Scars como eu a lutar até a morte para recuperá-los.

Que bando de arrombados.

— Saquei — murmurei. — Então quer dizer que eu posso entrar para pegar o meu artefato?

— Exatamente. Se quiser participar, pode entrar e esperar na sala dos competidores. — O guarda fez uma pausa. — Mas saiba: não garantimos a sua sobrevivência.

— Eu sei. — Suspirei. — Não precisa me avisar algo assim. Eu vou entrar nessa batalha.

— Como quiser, senhor. A sala é para aquele lado.

Ele apontou para uma direção dentro do coliseu.

Entrei na área de espera.

Scars espalhados pelos cantos. Alguns com os olhos arregalados de medo. Outros, animados — como se a morte fosse um jogo.

Não gostaria de matar eles.

Olhei para cada rosto.

Mas se entraram aqui, é porque sabiam dos riscos.

Fechei os punhos.

E no caso… o risco sou eu.

Horas se passaram. O silêncio foi substituído por passos pesados. Alguns Scars apareceram para direcionar os competidores para suas posições.

Escolhi meu lugar e esperei.

Pelo que entendi, eram dez Scars por batalha. Cada um por si.

Dez lutadores. Um vencedor.

Os portões se abriram.

Entramos na arena.

O silêncio durou alguns segundos. Ninguém queria começar — afinal, atacar primeiro era se expor.

Então vou quebrar o gelo.

Avancei no mais próximo.

Ele me notou. Preparou uma pose de luta.

Ativei febre — 38 graus. Avancei como um foguete. Meu punho acertou o queixo dele com precisão cirúrgica.

CRACK!

Seu corpo voou para trás, girou no ar, caiu.

Mas ele se levantou rápido demais.

Seus braços se esticaram — esticaram — e vieram na minha direção como chicotes vivos.

Bem elástico, né?

Usei meu muco. Envolvi seus braços, prendendo-os.

Ele retraiu os membros com uma força que me surpreendeu — e os lançou de volta com velocidade triplicada.

Não esperava.

O impacto acertou meu peito. O ar saiu dos meus pulmões. Meu corpo cruzou a arena como um projétil.

No meio do voo, ativei febre para me desacelerar. Criei muco nas costas para amortecer o impacto.

POW!

Bati na parede.

— Esse golpe foi do caralho — sussurrei, o ar voltando aos poucos.

O Scar elástico estava usando uma árvore para desgrudar os braços do muco. Quando se libertou, correu na minha direção.

Zoom.

O olho negro surgiu diante dele.

Catarata.

Ele parou, cego, tateando o ar.

Avancei.

Ele é forte contra ataques físicos… então…

Corri enquanto ele ainda estava cego. Usei febre para saltar — cinco metros acima dele.

Sua visão voltou. Olhou para cima, confuso.

O calor já se concentrava na minha boca.

Chamas Invernais.

Uma coluna de fogo branco desceu do céu.

Ele não teve tempo de gritar. As chamas o envolveram por completo. Quando o fogo se dissipou, seu corpo estava carbonizado. Imóvel.

Pousei no chão.

Olhei ao redor.

Mais cinco Scars restavam.

Alguns certamente eram mais fortes que outros.

Enquanto pensava…

Zoom!

Alguém veio correndo na minha direção em alta velocidade.

— Catarata.

O olho negro surgiu novamente.

O Scar, em plena corrida, tropeçou no próprio susto.

Desviei dele com um movimento lateral. Estendi o pé coberto de muco endurecido no caminho.

Ele tropeçou. Rolo pelo chão como uma pedra.

Chicote de muco. Agarrei suas pernas.

Ele recuperou a visão e tentou se levantar.

— Seu filho da puta! O que vo—

Não o deixei terminar.

Comecei a puxar. A febre nos braços aumentou a força. Girei. Girei mais rápido. A velocidade fez o ar uivar ao redor.

ZOOOOOOOM!

Soltei.

Seu corpo disparou como um míssil — direto em direção a outros dois Scars que brigavam entre si.

POW!

Os três se embolaram no chão, imóveis.

Antes que eu pudesse reagir, um quarto Scar apareceu.

Agarrou a cabeça de um dos caídos.

Sua mão brilhou. O Scar que ele tocava começou a murchar — a pele enrugando, o corpo secando, a vida sendo sugada.

O mesmo aconteceu com os outros dois.

Em segundos, três corpos se transformaram em cascas ressequidas.

O Scar se levantou. Olhou para mim com um sorriso.

— Muito obrigado — disse, a voz calma. — Pela refeição.

— Que Impar curioso — comentei, observando cada movimento.

— Sim. — Ele deu um passo à frente. — Gostaria de apresentá-lo a você. — Seus olhos brilharam. — O Impar da Fome.

Fome.

Então ele morreu de fome. Natural.

— Gostaria de ser a minha janta? — perguntou, abrindo um sorriso que mostrava dentes afiados.

— Não tô afim, não.

Senti meu olho esquerdo perdendo a visão — uso excessivo de catarata. Minha pele estava mais quente. Meu nariz, entupido.

Esse é o ruim do meu Impar.

— Vamos parar de enrolar — ele disse, a postura mudando. — Afinal, odeio esperar para comer.

Ele avançou.

Velocidade considerável.

Só nós dois agora. Posso usar meu poder por completo.

Limpei a garganta. Aguardei.

Ele chegou perto da minha cara. A boca aberta, pronta para morder.

— COF!

A rajada sônica saiu da minha garganta — a Tosse.

O impacto o arremessou para trás. Ele girou no ar, se recuperou rápido, virou o rosto na minha direção…

…e viu minha mão já apontada.

Dor de cabeça.

A esfera laranja disparou.

Ele desviou. Rápido. Animalesco.

E mordeu meu braço.

A dor foi aguda — como se algo estivesse sendo puxado de dentro de mim. Senti minha energia escorrendo pela ferida.

Ele está absorvendo minha vida.

Sangue escorria pelo meu braço.

FODA-SE.

BOOM!

A explosão saiu da minha mão — direto na cabeça dele.

O impacto me pegou também. Mas o muco já cobria meu corpo, reduzindo o dano.

A fumaça dissipou.

Ele ainda estava de pé.

A cara, desfigurada. Queimada. Sangrando. Mas os olhos ainda brilhavam.

— Eu vou te devorar! — ele rugiu.

PLIM.

O olho negro surgiu.

[Catarata]

Ele parou, confuso, tateando o vazio.

Avancei. Agarrei sua cabeça com as duas mãos. Joguei seu corpo no chão com força.

Ele segurou meus braços. Senti a absorção começar de novo.

Nossos rostos estavam próximos. Olho negro encarando olho negro.

— Quer comer algo? — minha voz saiu rouca. — Engole isso aqui!

COF.

COF.

COF.

COF. COF.

Cinco rajadas. Uma após a outra. A pressão sônica comprimiu sua cabeça contra o chão. Cada impacto afundava mais seu crânio.

Até que ele parou de se mexer.

Seu Impar se esvaiu. Seu corpo ficou mole.

Soltou meus braços.

Me levantei, cambaleando.

— Se loco — murmurei, a voz falhando.

Usar a mesma doença repetidas vezes com intensidade máxima tem um alto custo. Minha garganta ardia. Meus olhos lacrimejavam. O mundo parecia um pouco mais escuro.

Mas eu estava de pé.


10 minutos depois

Levaram-me até a sala do dono do coliseu.

Aparentemente, ele mesmo entregava o prêmio aos vencedores.

Quando entrei, ele estava sentado em um trono.

Parece que todo mundo agora gosta de um trono, né?

Aproximei-me. Ele me observava com olhos calmos, uma expressão que misturava avaliação e… respeito?

— Bem-vindo, vencedor. — Sua voz era grave, medida. — Leandro, não é? Você tem talento.

— Não me enrola — cortei. — Onde é que tá o tal do meu artefato?

Ele sorriu.

— Calma. Eu só queria conversar com você. Sabe, você parece ter um futuro promissor.

— O que você quer dizer?

— Eu tenho um plano. Algo ambicioso. — Ele inclinou o corpo para frente, os olhos brilhando. — Quer saber os detalhes?

Admito que fiquei curioso.

— Ok. Pode me falar.

Ele ergueu o queixo.

— Estou planejando matar Adam.

Meu coração gelou.

— Que?

— Isso mesmo. — Ele se levantou do trono, descendo os degraus com passos lentos. — E esse plano já está em ação. Eu só gostaria de saber se você estaria afim de nos ajudar nisso.

O tempo parou.

Matar Adam.

O ser que criou Scarloon. O dono da bola. O homem que arrancou o braço de Sara e a transformou em uma Mada.

Eu quero matar Adam.

A resposta saiu antes que eu pudesse pensar.

— EU TO MUITO INTERESSADO NISSO!

Ele sorriu.

E ali, naquele salão escuro, com um coliseu ensanguentado aos meus pés…

Eu vi uma chance.

Que oportunidade foda é essa que caiu na minha mesa?

Meus punhos se fecharam.

Acho que tudo muda aqui.