CAPÍTULO 02 — OLHO ARDENTE


O sol ainda não havia nascido quando cheguei ao campo de treino.

A prioridade era clara: descobrir o que a febre escondia.

Respirei fundo. Ativei o Impar.

O calor veio como um rio de lava percorrendo minhas veias. Minha pele ardeu. Minha respiração ficou pesada.

— Que calor insuportável… ugh!

Mas desta vez, algo era diferente.

Chamas.

Pequenas línguas de fogo branco dançavam sobre minha pele, como se eu fosse uma tocha prestes a explodir.

— Eu tô vendo! — a voz da Mestra cortou o ar, firme. — Tenta fazer algo com essas chamas!

Me concentrei.

Empurrei o fogo para meus braços. Senti a energia acumular, vibrar, pedir passagem.

Então… soltei.

WOOSH!

Jatos de fogo dispararam das minhas mãos, me impulsionando para trás com uma força que eu não conseguia controlar. O mundo girou. O chão fugiu.

CRASH!

Meu corpo amassou um vaso de planta no canto do campo.

— Ai!

Fiquei ali, atordoado, com o cheiro de queimado pairando no ar. A Mestra apareceu na minha frente, os olhos brilhando de satisfação.

— Você cria chamas — ela disse, como se estivesse saboreando cada palavra. — E pelo que vi, pode lançá-las de qualquer lugar do corpo, ou só pelas mãos?

Pensei por um instante.

— Acho que consigo fazer elas saírem de qualquer lugar — respondei, ainda sentindo o formigamento nos braços. — Dá pra usar esse impulso como uma forma de movimentação rápida…

— Sim! — ela bateu palmas. — Acho que isso é bem eficiente!

Eu olhei para minhas mãos. As chamas haviam sumido, mas a sensação permanecia.

Três habilidades.

Chicote de muco. Esferas explosivas. Propulsão de fogo.

Úteis, sim. Mas ainda fracas comparadas ao poder de Pablo.

Como se lesse meus pensamentos, a Mestra falou:

— Quer saber, Leandro? Você ainda não dominou nenhuma delas. Por isso, eu marquei um cronograma de treinos pra você.

— Sério? Como seria?

Ela estendeu a mão, contando nos dedos.

— Você vai aprimorar cada habilidade em pelo menos um mês. Ou seja, quatro meses para ter uma mudança significativa. E ainda vamos descobrir qual será a quarta doença, né?

— Entendi…

Olhei para minhas mãos novamente. O chicote de muco azulado brilhou entre meus dedos, elástico e grudento.

— Quero começar com esse chicote aqui — decidi. — Ele é bem menos útil do que explodir ou lançar fogo. Então quero ver se consigo controlá-lo melhor.

A Mestra sorriu.

— Ok! Levanta do chão então. Você vai testar todas as possibilidades com esse chicote aí.

Dito e feito.


Três meses depois.

Meu corpo estava diferente. Meus movimentos também.

Três habilidades. Três meses de suor, sangue e repetição.

Mas quando cheguei ao Dôjo naquela manhã, a Mestra me surpreendeu.

— Hoje não vamos treinar — ela disse, já preparada para sair.

— Como assim?

— Vamos estudar. Com uma pessoa especial.

A quarta doença.

Pensei exatamente isso quando ela disse sobre estudar.

Ela me levou por ruas que eu nunca tinha explorado, até uma casa simples, discreta. Nada chamava atenção. Parecia comum.

Até ela bater na porta.

— Ronaldo! — a voz da Mestra ecoou pela vizinhança. — Abre a porta!

Passos. Uma maçaneta girando.

A porta se abriu e revelou um homem de cerca de trinta anos. Seu rosto era redondo, com dois cones de uns dez centímetros saindo do maxilar. Mas o que me chamou atenção foi o olhar. Inteligente. Curioso. Simpático.

— Sara? — ele arregalou os olhos. — O que você tá fazendo aqui? Achei que estaria treinando seus alunos…

Seu olhar se desviou para mim.

— E quem é esse menino? É seu discípulo? — um sorriso surgiu em seu rosto. — Parece ter uns dezoito anos.

Eu hesitei.

Na verdade, eu morri com quinze. Estou em Scarloon há nove anos. Teoricamente, deveria ter vinte e quatro. Mas Scars não envelhecem como humanos.

Antes que eu pudesse explicar, a Mestra interrompeu:

— Ronaldo, esse garoto precisa dos seus conhecimentos de nerd pra poder usar o Impar.

O homem — Ronaldo — cruzou os braços, divertido.

— Entendo. Nesse caso, podem entrar, por favor.


A casa era simples. Nada de extraordinário. Apenas uma sala comum e uma porta ao fundo.

Seguimos Ronaldo até ela.

E quando ele abriu…

Minha respiração prendeu.

Era uma oficina. Aparelhos, engrenagens, livros, anotações, bugigangas espalhadas por todos os cantos. Um verdadeiro laboratório de ideias.

Ronaldo se sentou em uma cadeira giratória e me encarou com a atenção de quem dissecava informações em tempo real.

— Me diga — ele começou. — Qual é o seu Impar?

— Doença.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Doença? Ok. Poderia me dar mais detalhes?

Respirei fundo e contei tudo. As descobertas, os limites, as três habilidades que eu havia desenvolvido.

Ronaldo ouviu em silêncio, anotando algumas coisas em um caderno surrado.

Quando terminei, ele fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, havia um brilho analítico neles.

— Você quer que eu te indique alguma doença, ou algum efeito que doenças causam, que possa ser efetivo em uma luta. Algo que você precise sentir para usar. É isso?

Acenei com a cabeça.

Ele se levantou, caminhou até uma estante abarrotada de livros, passou os dedos pelas lombadas.

— Eu tenho algumas sugestões… — murmurou. — Talvez tosse. Ou de repente…

Ele puxou um volume fino e abriu em uma página marcada.

— Catarata.

— Catarata? — repeti, confuso. Nunca tinha ouvido falar.

Ronaldo virou o livro para mim. Havia ilustrações de olhos, textos explicativos.

— Catarata pode ser causada por doenças e é bem comum entre senhores de sessenta anos — explicou. — Acho que você pode tentar manifestar seu Impar pensando nesse conceito. Agora que sabe o que ela faz.

A Mestra, que até então permanecera em silêncio reverente, deu um passo à frente.

— Muito obrigada, Ronaldo — disse com sinceridade. — Isso será de grande ajuda.

Ele sorriu.

— Não tem de quê. Quero ver se você tá treinando ele bem mesmo.


De volta ao Dôjo, eu não perdi tempo.

Sentei no centro do campo, fechei os olhos e ativei o Impar.

Desta vez, direcionei tudo para o olho esquerdo.

O formigamento veio rápido. Uma sensação estranha, como se algo estivesse crescendo atrás da pupila. Minha visão começou a escurecer gradualmente, como se eu estivesse mergulhando em águas turvas.

Até que…

Zoom!

Meus olhos se abriram.

Diante de mim, flutuava um olho negro. Não um olho comum. A pupila era vermelha como brasa. Sombrio. Errado.

Um arrepio percorreu minha espinha.

— O que…

Antes que eu pudesse terminar, a Mestra gritou.

— Eu tô cega! Leandro, eu tô cega! Me ajuda!

Meu coração gelou.

Olhei para ela. Seus olhos estavam idênticos ao olho negro que eu havia invocado. Pupilas vermelhas. Vazias. Cegas.

Ela cambaleou, os braços se estendendo no escuro.

Eu segurei suas mãos. Firme. Para que ela parasse de tremer.

Segundos depois, o olho negro desapareceu. A visão da Mestra voltou.

Ela piscou algumas vezes, ofegante.

— Nossa, que sinistro… — ela riu, sem graça. — Eu fiquei num breu total!

Eu ainda estava processando.

Então é assim que funciona.

— Esse poder deve funcionar quando você encara o olho — analisei em voz alta. — Deixa o inimigo cego por alguns segundos. Versátil. Dá pra desestabilizar e atacar de surpresa.

A Mestra recuperou o fôlego e me deu um tapa no ombro.

— Sim, Leandro. Mas essa foi só a primeira versão. Vamos focar nele por mais um mês e ver até onde isso vai!

Olhei para a palma da minha mão. O poder ainda vibrava ali.

— Ok — respondi, e pela primeira vez em muito tempo, minha voz saiu firme. — Eu já estou me sentindo bem mais confiante.

E então, olhando para o horizonte, eu fiz uma promessa.

— Eles vão ter que esperar por mais uns tempinhos. Mas no dia 10 de dezembro, eu vou derrotar o atual campeão. E finalmente me tornar o vencedor.

A Mestra sorriu. Largo. Verdadeiro.

— Esse é o espírito, meu garoto! Vamo nessa!


Um mês depois.

O treino acabou.

O dia do torneio.

O céu de Scarloon está igual a sempre. As ruas, os rostos, o vento… tudo parece normal.

Mas tem uma coisa que ninguém sabe.

Hoje não vai ser mais uma derrota.

O sabor amargo que me acompanhou por tantas finais vai desaparecer. Hoje, eu vou provar algo novo.

Vitória.

Parei no meio da rua, fechei os punhos e gritei com todas as forças:

— Pablo! Eu vou te esculhambar na porrada, seu lixo!

O eco da minha voz se perdeu entre os prédios.

Ao meu lado, a Mestra deu um tapa na minha nuca.

— Ei, Leandro — ela disse, apertando os punhos. — Para de gritar no meio da rua. Tem gente vendo. Para de passar vergonha, ok?

Abri um sorriso.

— Ok… Eu vou guardar essas palavras para quando eu ganhar o torneio.

Ela me encarou por um momento. E então, contra sua própria vontade, sorriu.

— Isso aí — ela disse, a voz carregada de orgulho. — Vai lá, meu garoto. Mostra para eles quem é o mais forte.

Respirei fundo.

O torneio me esperava.

Pablo me esperava.

E desta vez… eu estava pronto!