Scarloon Leandro I - Doença
3 Batalhas Intermedíarias
Dia 10 de dezembro.
Hoje é o dia.
Cheguei cedo. O estádio já fervia. Scars de todos os cantos vibravam nas arquibancadas, seus Impares lançando faíscas, sombras e luzes pelo ar. O cheiro de competição era quase palpável.
Olhei para o painel de confrontos.
Primeira luta.
Eu.
Um sorriso se abriu em meu rosto.
Perfeito.
Eu já tinha um plano. Não demonstrar todas as habilidades. Não revelar todas as cartas. O elemento surpresa seria minha maior arma contra Pablo.
O problema era o oponente da primeira rodada.
Emerson. Impar: Buraco Negro.
Franzi a testa.
Buraco negro? Ele cria buracos no meio da arena? Isso não seria trapaça?
Sacudi a cabeça. Não importava. Nunca vi o nome dele antes. Devia ser algum novato.
Vai ser fácil.
A arena brilhou sob os telespectadores.
Entrei com passos firmes, rosto fechado, confiança estampada em cada movimento. A multidão rugiu.
Do outro lado, Emerson surgiu.
O narrador ergueu a voz, e seu eco preencheu todo o estádio:
— ALOOOOOO, MEUS SCARS FAVORITOS! Hoje teremos mais um torneio incrível, e a primeira rodada é só para esquentar! De um lado, LEANDRO, cujo IMPAR é a DOENÇA! E do outro… EMERSON, cujo IMPAR é o BURACO NEGRO!
Meus olhos focaram em Emerson.
Rosto circular. Traços diagonais sulcando suas feições como cicatrizes. E um olhar… furioso. Como se já me odiasse sem nunca ter me visto.
O juiz levantou a mão.
— Comecem!
Eu não hesitei.
[Gripe = Chicotes Grudentos]
O chicote de muco estalou da minha mão como uma serpente azul-escura. Lancei com destreza, mirando direto no peito de Emerson.
Seus olhos se arregalaram. Surpreso. Lento demais.
CRAK!
O golpe acertou em cheio.
Mas antes que eu pudesse comemorar, Emerson estendeu a mão. Uma esfera negra surgiu em sua palma — um vazio que parecia sugar a luz ao redor.
O chicote atingiu o buraco.
E foi consumido.
Rompeu no meio como papel queimando.
Foda.
Emerson se concentrou no meu chicote destruído, provavelmente esperando que eu recuasse para reagrupar.
Errado.
Avancei.
Ele percebeu tarde demais. Preparou um soco, mas eu já estava no seu espaço. Minhas mãos brilharam com energia laranja.
Toquei seu peito.
[DDC] ou dor de cabeça.
BOOM!
A explosão o arremessou para trás, seus pés raspando o chão. Ele caiu de joelhos, ofegante.
— Droga… — sibilou.
Recuperou o equilíbrio rápido. Sua mão já se movia para gerar outro buraco negro.
Mas eu fui mais rápido.
[Gripe] Outro chicote. Mais rápido. Mais preciso.
Enrolou seu pulso como uma cobra estrangulando a presa.
— O quê?! — Emerson se debateu, tentando se soltar. O muco grudento não cedeu.
Aproveitei. Mais muco. Cobri seus braços, seu tronco, prendendo seus movimentos.
Ele estava imobilizado.
Mas não o suficiente.
Coloquei as mãos na cabeça. [DDC] O formigamento desceu pelos meus braços, acumulando nos punhos.
Fechei os dedos.
E enterrei ambos os punhos na barriga de Emerson.
BOOOOM!
A explosão levantou uma nuvem de poeira. O som que veio depois foi o único que importava:
Thud.
O corpo de Emerson bateu no chão. Inerte.
Silêncio.
E então, a arena explodiu.
O narrador gritou, eufórico:
— NOCAUTE! LEANDRO AVANÇA PARA AS QUARTAS DE FINAL!
Respirei fundo. Meu coração batia forte, mas meu rosto permaneceu impassível.
Primeira vitória.
Saí da arena sem olhar para trás.
No corredor de acesso aos vestiários, eu o vi.
Pablo.
Ele estava encostado na parede, braços cruzados, aquele olhar de sempre — como se já tivesse vencido antes mesmo de lutar.
Meus punhos se fecharam.
Não disse nada. Não olhei nos olhos dele. Eu queria guardar minhas palavras para o momento certo. Ou melhor…
Meus punhos falarão por mim.
Passei foi é direto.
Olhei para o painel novamente.
Próximo oponente: Sávio.
Impar: Conexão.
Franzi a testa.
Conexão? Ele conecta coisas? Que utilidade isso teria em uma batalha?
Bem… não importa!
Eu já tô garantido.
Entrei na arena.
Desta vez, não fui o primeiro a chegar. Sávio já estava lá, parado no centro, com uma postura que misturava calma e ameaça.
O narrador vibrou:
— OLHA SÓ COMO COMEÇAM AS QUARTAS DE FINAL! De um lado, SÁVIO, cujo IMPAR é a CONEXÃO! E do outro, LEANDRO, cujo IMPAR é a DOENÇA!
Analisei Sávio. Rosto quadrático, pontas afiadas, olhos estreitos. Algo nele me dizia para tomar cuidado.
O juiz gritou:
— Comecem!
Sávio moveu os dedos na minha direção.
Não esperei para descobrir o que ele estava fazendo. Ativei a febre, pronto para um movimento rápido.
Bom que eu fiz isso.
De seus dedos, projéteis saíram disparados. Tesouras. Pequenas, afiadas, voando em minha direção como enxame.
[Febre 40°] Um impulso de chamas brancas. Desviei. Corri na direção dele. [Gripe] Chicotes já se formando nas minhas mãos.
Então…
A cabeça de Sávio caiu.
O quê?!
Meu corpo congelou.
A cabeça rolou pelo chão da arena, e meu cérebro demorou um segundo inteiro para processar o que eu tava vendo nesse momento.
Sem sangue.
Não havia uma gota de sangue.
E foi nesse instante que vi: sua mão ainda apontada para mim.
Merda.
Usei o resto da febre para desviar. Mas não foi o suficiente.
CRAK!
Uma dor aguda explodiu no meu ombro direito.
Olhei para baixo.
Meu braço havia caído no chão.
Cortado limpo. Sem dor imediata — apenas um choque frio que subiu pela espinha.
Ele desfaz conexões.
A ficha caiu, igual a casa de quem foi atingido por um meteoro. O Impar dele não era conectar — era desconectar. A cabeça. Meu braço. Ele separava o que estava unido.
Olhei para ele. Sua cabeça já estava de volta ao lugar, como se nada tivesse acontecido.
Droga!
Sem um braço, qualquer luta virava uma surra garantida.
Mas eu ainda tinha uma ideia.
Sávio avançou, confiante.
[Gripe] Eu me cobri com muco. Camada após camada, uma casca viscosa que me envolveu por completo.
Ele parou, confuso.
Do lado de dentro, eu já estava em movimento. Lancei muco em sua direção — um jato certeiro que acertou seu rosto, grudando em seus olhos e boca. Nojento, mas eficaz.
— Mghh! — ele tentou gritar, mas o som saiu abafado.
Em pânico, Sávio usou seu Impar — mas acertou a casca de muco que eu havia deixado para trás. A conexão se rompeu, e a casca caiu no chão.
Era minha deixa.
Saltei da cobertura de muco e o cobri completamente. Braços, pernas, tronco. Ele tentou usar o Impar repetidas vezes, desconectando partes do muco, mas eu criava mais. E mais. E mais.
Tu não vai escapar seu porra!
Ele se debateu como uma minhoca presa na lama.
Foi então que parei.
Olhei para ele. Imobilizado. Indefeso.
Scars têm honra. Lutam de forma justa.
Claro.
Chutei.
Uma vez. Duas. Três. Nem sem quantas vezes pra falar a verdade. Ele tentava se libertar entre os golpes, desconectando aqui e ali, mas eu não parava. Quem tem dó é violão! Cada chute era mais rápido que o anterior.
[Febre]
O último chute veio com aceleração máxima. Meu pé acertou seu peito com uma força que fez o ar estalar.
Sávio voou.
Seu corpo cruzou a arena como um míssil desgovernado — e caiu direto na água fora do ringue.
SPLASH!
O narrador explodiu:
— E NÓS TEMOS O VENCEDOR DESTA BATALHA! LEANDRO ESTÁ QUALIFICADO PARA A SEMIFINAL!
A multidão vibrou.
Mas quando olhei para as arquibancadas, percebi alguns olhares tortos. Alguns Scars me encaravam com desaprovação.
Eles não gostaram dos chutes com a pobre minhoca indefesa?
Bom…
Vitória é vitória.
O próximo confronto veio rápido.
Enquanto o narrador fazia suas falas de sempre, eu já analisava meu oponente.
Cratos. Impar: Gravidade.
Comum. Quase todo Scar de morte por queda desenvolvia esse poder. Mas diziam que Cratos era diferente. Mais habilidoso. Mais perigoso.
O juiz gritou:
— Comecem!
[Gripe] Sempre gripe. Criei dois de uma vez, mantendo distância, testando seus reflexos.
Cratos não se moveu. Apenas ergueu a mão.
Uma esfera roxa surgiu atrás de mim — e eu senti meu corpo ser puxado para trás.
Gravidade.
Meus chicotes grudaram no chão, me ancorando. Mas Cratos sorriu. Avançou na minha direção e criou mais esferas no alto.
Agora eu era puxado para cima e para trás ao mesmo tempo.
Ele quer me derrubar.
Cratos aumentou a intensidade. Uma nova esfera — maior — surgiu além da borda da arena, me puxando para fora.
Meu corpo deslizou. Meus pés perderam contato com o chão.
— Não… — rosnei.
Os chicotes seguraram. Firmes. Mas a força só aumentava.
Ele precisa se concentrar para manter essas esferas.
Foi quando a ideia veio.
Com a mão livre, coloquei os dedos na testa. [Dor de cabeça] Uma esfera de energia laranja se formou e disparou.
Cratos desviou, ágil.
Mas pisou em algo.
Muco.
Grudou em sua perna.
Exatamente.
Descolei os chicotes do chão.
A esfera gravitacional me puxou com força total — e como um estilingue, eu fui arremessado para trás. Mas o muco grudado na perna de Cratos fez o resto.
Ele foi puxado comigo.
CRASH!
A cabeça de Cratos bateu no chão da arena com um som seco. A esfera roxa se desfez.
E o efeito elástico do muco entrou em ação.
Cratos foi lançado na minha direção, desorientado, o corpo mole pelo impacto.
[Febre] Preparei um chute ardente.
O chute veio como um trovão.
Meu pé acertou seu peito no momento exato em que ele chegava. Cratos voou como um pedaço de papel. Para fora da arena. Direto na água.
Eu caí de volta no chão — e aterrissei em pé.
O silêncio durou um segundo.
Depois, a arena veio abaixo.
Olhei para o painel.
FINAL.
Finalmente.
Desci para a área de descanso com o coração martelando no peito.
A adrenalina ainda corria nas veias, mas minha mente já estava lá — na final. Contra ele. O maldito.
Abri a boca para gritar o nome que estava preso na minha garganta:
— Pa—
TAPA!
A mão da minha Mestra acertou minha nuca antes que eu pudesse terminar.
— Não grita assim, Leandro! — ela berrou, os olhos arregalados. — Quer me matar de susto?
Esfreguei a cabeça, meio rindo, meio reclamando.
— Mas, Mestra…
— Nem vem! — ela apontou o dedo no meu rosto. — Você guarda essa energia para a luta. E vai lá e destrói aquele arrogante.
Olhei nos olhos dela. O orgulho brilhava ali, misturado com um nervosismo que ela tentava esconder.
— Vou destruir — prometi.
Ela sorriu.
— Isso aí, meu garoto.
Me virei para o corredor que levava à arena.
Do outro lado, eu sabia, Pablo já estava esperando.
Desta vez, a história vai ser diferente. Vai ser combado até dizer chega!
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