Scarloon Leandro I - Doença
4 A Final, Finalmente
A luta chegou.
A final.
Parei nos corredores que levavam à arena e respirei fundo. Meu coração batia firme, mas não acelerado. Diferente da primeira vez. Naquela ocasião, eu mal pisara no ringue e já estava no chão. Dez segundos. Uma piada.
Hoje era diferente.
Senti uma mão no meu ombro.
Antes que eu pudesse reagir, a Mestra me envolveu em um abraço. Nada incomum. Ela adora abraços. Mas este foi mais apertado. Mais longo.
— Se você perder, vou quebrar sua cara — ela sussurrou no meu ouvido.
Um sorriso escapou.
— Beleza. Pode deixar.
Me soltei e entrei na arena.
Subi os degraus.
A arena estava lotada. Scars de todas as formas vibravam nas arquibancadas, suas energias preenchendo o ar com eletricidade.
O outro lado do ringue estava vazio.
Claro.
Pablo não estava lá. Ele tinha que fazer sua entrada triunfal. Afinal, ele já acreditava que essa luta terminaria como todas as outras.
Tenho até dó dele.
Vi a silhueta no fundo do túnel.
Ele caminhava devagar. Com pose. Com soberba. Cada passo seu fazia estacas de rocha brotarem do chão — e se desfazerem logo em seguida, como se o próprio solo se curvasse diante de sua presença.
Quando pisou na arena, o narrador explodiu:
— E SENHORAS E SENHORES, HOJE NOS TEMOS NA FINAL O ATUAL CAMPEÃO DOS TORNEIOS, PABLO! COM SEU IMPAR PODEROSO DE PEDRA!
A plateia aplaudiu.
Mas não toda.
Cerca de um terço permaneceu em silêncio. Não por desinteresse. Mas porque já sabiam o que esperar. O dono do torneio, inclusive, havia proibido Pablo de participar de algumas edições depois da minha décima derrota seguida.
Eu recusei participar daquelas.
Meu objetivo não podia ser completo sem a parte essencial dele.
O narrador continuou:
— E ELE, O HOMEM QUE TEM UM IMPAR PECULIAR PRA LUTAS, LEANDRO! COM SEU IMPAR DE DOENÇA!
Peculiar.
Bufei baixinho. Eu também não gostava do meu impar quando descobri.
Me coloquei em posição de luta.
Pablo me encarou com curiosidade — algo novo. Ele sempre me olhou com desdém. Hoje, havia algo diferente.
— Por qual motivo você não foi nas lutas que eu não participei? — perguntou. — Achei que tivesse desistido depois de tantas derrotas.
— Eu tava ocupado — respondi, relaxado. — Sabe como é.
— Fazendo o que? Se lamentando por ser um fraco?
— Nah.
O juiz apitou.
— Comecem!
Pablo avançou.
Direto. Sem hesitação. Era seu estilo: confiança bruta. Ele sabia que era forte, então nem se preocupava em testar o oponente.
Mas hoje é diferente.
Até agora, eu só havia usado o muco para chicotes e casulos. Mas eu aprendi algo novo.
O muco escorreu dos meus dedos — mas, desta vez, não formou um chicote. Ele ganhou vida. Ondulou, se enrolou no meu braço como uma serpente viscosa, e endureceu. Eu chamo isso de... [Gripe = Endurecimento]
Pablo chegou com o punho fechado, a mão transformada em pedra maciça.
Eu levantei o braço coberto.
CRACK!
O impacto ecoou.
Pablo arregalou os olhos.
O muco endurecido absorveu o golpe. Não era tão duro quanto a pedra, mas era perto o suficiente. E ele sentiu isso.
Nos segundos de confusão, cobri minha outra mão.
A técnica que aprendi com minha Mestra: criar muco em alta velocidade no alvo e endurecê-lo no impacto.
POW!
Meu soco acertou o rosto de Pablo com força total. Ele cambaleou para trás, mas se apoiou em uma coluna de rocha que brotou do chão.
Sua mão tocou o local do golpe.
Espantado, em choque.
Aproveitei.
— Qual o problema, Pablo? Vai chorar?
Seus olhos incendiaram.
Com fúria, ele ergueu os braços. Rochas enormes surgiram ao seu redor, flutuando no ar como meteoros esperando comando. Sua voz saiu grossa:
— Você quem vai chorar quando eu ganhar de novo!
Preparei a febre enquanto ele falava.
Pablo lançou as rochas.
Elas vieram em velocidade, um enxame de projéteis de pedra.
Com a febre ativada, eu me movi como fluido. Desviei de todas. Uma passou raspando. Outra, eu só inclinei o tronco.
Ele veio correndo na minha direção.
Socos. Chutes. Ataques brutais, um após o outro. Suas mãos de pedra cortavam o ar como martelos.
Eu não recuei.
Com as mãos cobertas pelo muco endurecido, eu defendia e esquivava. Mas não atacava. Não ainda. Qualquer abertura poderia dar espaço para um contra-ataque desse puto.
Esperei.
Quando peguei distância, ativei a dor de cabeça — mas sem demonstrar. A energia desceu silenciosamente para minhas mãos cobertas de muco.
Pablo veio com tudo.
Eu continuei a encenação: defendendo, recuando, parecendo em apuros.
Até que ele baixou a cabeça.
— O quê?
Uma rocha veio de trás dele. Projétil traiçoeiro.
Desviei no último segundo, mas deixei o impacto me pegar de raspão. Fingi que fui acertado em cheio. Meu corpo se inclinou para trás, as mãos apontadas diretamente para ele.
Pablo se aproximou para finalizar.
CRACK!
BOOM!
Os estilhaços de muco endurecido explodiram na direção dele. A fragmentação o acertou em cheio — mas sua armadura de pedra absorveu a maior parte.
Desgraçado.
Ele tentou avançar de novo.
CRACK! BOOM!
Outra explosão. Outra distração.
Foi o que eu aproveitei a chance.
Preparei o golpe. [Investida explosiva] Dor de cabeça no punho. Febre nos pés.
Soco explosivo flamejante.
ZOOM!
Avancei como um raio.
Meu punho enterrou na barriga de Pablo com força absurda. A velocidade fez seu corpo ser lançado para trás.
BOOM!
A explosão em queima-roupa estilhaçou sua armadura.
Os fragmentos de pedra voaram para todos os lados. Restaram apenas pedaços nas mãos e pés.
Pablo cuspiu, os olhos em chamas.
— Rggg… Que ódio! — ele rugiu. — Para de usar esses seus truques baratos!
Pablo parou.
E se ajoelhou.
O quê?
Meus instintos gritaram. Ele não estava se rendendo. Ele estava tramando algo.
Uma cúpula de pedra o envolveu completamente.
Aproximei-me cauteloso. Dor de cabeça já se acumulando nos punhos para explodir aquilo.
Então espinhos surgiram rapidamente.
Dezenas. Centenas. Lançados da superfície do domo em todas as direções.
Usei o muco para bloquear. Mas eles não paravam de sair — uma chuva incessante de projéteis pontiagudos.
Ele está ganhando tempo.
Mudei de estratégia. Esperei um espinho se aproximar, grudei ele com o chicote e o mandei de volta.
CRACK!
Perfurou o domo.
Fiz isso duas vezes. Três. Até que o fluxo de espinhos diminuiu.
Ele percebeu que não tá funcionando.
Mas eu sabia o que ele estava fazendo. Enquanto me mantinha longe, ele reconstruía sua armadura por dentro. O domo não era uma defesa — era uma oficina, que cara insuportável.
A cúpula começou a se desfazer.
Pablo surgiu novamente. Armadura renovada. Postura recuperada.
Seus olhos me avaliaram com desconfiança.
Até agora, ele só me viu lutar em curta distância. Provavelmente achava que manter a distância era a chave para me vencer. Achava que eu era só um lutador corpo a corpo.
Errado.
Era hora de mostrar algo novo.
Pablo ergueu rochas.
Ativei a febre e comecei a desviar. Os projéteis vinham de todos os ângulos — até que percebi: ele não estava tentando me acertar.
Ele estava construindo algo.
Rochas se ergueram ao meu redor, formando uma barreira circular. Antes que eu pudesse reagir, o chão se fechou.
Espinhos começaram a brotar do solo, crescendo em minha direção.
Saltei com febre. Corri pelas paredes da barreira, tentando escapar pelo topo.
Uma rocha gigante surgiu acima de mim.
TUM!
A entrada foi selada.
Espinhos subiam. A barreira se fechava.
Pablo observava de fora, o sorriso de vitória já estampado no rosto.
BOOM!
A rocha gigante explodiu em estilhaços.
Eu saltei para o ar, inteiro, fumaça saindo dos meus punhos.
A expressão de Pablo se contorceu de frustração.
Ele ergueu os braços. Duas mãos de pedra enormes se formaram ao meu lado — e se fecharam com força.
POW!
O som foi seco. Final.
Entre as rochas, algo escorreu. Líquido. Viscoso.
A plateia prendeu a respiração.
Silêncio absoluto.
Alguém murmurou: "Ele matou…"
Mas então…
Um olho negro surgiu diante do rosto de Pablo.
— O que tá acontecendo? — ele gritou, tateando o ar. — Eu tô cego?!
Quando sua visão voltou, ele olhou para o que havia esmagado entre as mãos de pedra.
Não era Leandro.
Era uma casca de muco. Moldada no meu formato. Vazia.
Clone.
Seus olhos se arregalaram.
Tarde demais.
Atrás dele, a vinte metros de distância, eu já havia acumulado dor de cabeça até meu limite. Minhas mãos brilhavam com energia laranja, prontas para detonar.
Ele começou a se virar.
BOOM!
A explosão o envolveu por completo.
Quando a fumaça se dissipou, sua armadura estava em pedaços. Seu corpo, ferido. Mas ele ainda estava de pé.
Vou resolver isso agora.
Avancei.
Minha temperatura subiu. A febre se espalhou por todo o meu corpo, queimando cada célula, cada fio de Impar que eu tinha. O calor era insuportável — mas eu não parei.
— Respondendo sua pergunta sobre o que eu tava fazendo — minha voz saiu rouca, o vapor escapando pela boca — eu estava treinando…
Todo o calor se concentrou na minha garganta.
…PRA TE HUMILHAR, SEU MERDA!
[Febre 50° Chamas Invernais]
Uma labareda explodiu da minha boca.
O fogo consumiu Pablo por inteiro. Sua armadura derreteu. Seu corpo foi envolvido pelas chamas, desaparecendo no clarão.
Quando o fogo se dissipou, ele estava no chão. Carbonizado. Imóvel.
A gosma ao redor indicava que ele ainda estava vivo — mas completamente apagado.
Silêncio.
E então a plateia veio abaixo.
Scars se levantaram. Gritos. Palmas. Rugidos de aprovação. O som era ensurdecedor.
O narrador, pela primeira vez, largou o tom robótico. Sua voz vibrava de emoção:
— SEEEEEEEEEEEEEENHOOOORAS E SEEEEEEEEEEEENHOOOOOORES! NESTA FINAL DE LUTA, TEMOS UM RESULTADO MAIS QUE SURPREENDENTE! UMA VERDADEIRA REVIRAVOLTA! PABLO PERDE SEU TÍTULO… E O NOVO VENCEDOR É ELE! O CARA! UMA MÁQUINA! LEAAAAAANDROOOOOOO!
A vitória.
Finalmente.
Caminhei para fora da arena sem pressa. Como se não tivesse importância.
No fundo, eu sabia que tinha.
Assim que saí, a Mestra apareceu correndo.
Olhos marejados. Sorriso trêmulo.
Ela saltou em mim.
O abraço foi tão forte que quase me derrubou — mas me segurei no último segundo, equilibrando os dois.
Retribuí.
— Viu, Mestra? — minha voz saiu confiante. — Eu consegui. E nem suei tanto.
Ela se afastou o suficiente para olhar no meu rosto, as lágrimas escorrendo livres.
— Seu pestinha.
Eu não tinha contado a ela sobre o clone de muco. Ela realmente achou que eu tinha sido esmagado.
— Tá tudo bem — acalmei. — Mas me fala… meu plano foi muito massa, né? — Comecei a rir. — Até a Mestra caiu.
— Só te perdoo porque sou muito piedosa — ela limpou os olhos com as costas da mão. — E porque você ganhou o torneio.
O sorriso dela se alargou.
— É — concordei. — Finalmente. Tudo graças a você. Valeu por não ter deixado eu desistir a uns meses atrás.
Ela balançou a cabeça.
— Não precisa me agradecer, Leandro. Eu me sentiria culpada se um dos meus melhores alunos também desistisse de tudo. Não queria cometer o mesmo erro outra vez.
Guardei aquelas palavras.
— Depois dessa vitória — suspirei — vou é descansar agora.
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