Scarloon Leandro I - Doença
5 E Depois?
Os meses se passaram.
Continuei treinando, claro. Lutei em outros torneios, mas passei a limitar minhas habilidades. Aumentar o desafio. Depois de derrotar Pablo umas vinte vezes, ele simplesmente parou de aparecer.
Ele não conseguia mais ficar forte.
Eu, por outro lado, continuei aprimorando meus Impares e estratégias. Cada luta era uma nova descoberta.
O prêmio?
Uma estátua do Deus dos Sevos, Umberto. Um troféu roxo que guardei no Dôjo da Mestra. Só isso.
Por conta de me limitar demais, acabei perdendo algumas lutas. Mas faz parte. Ganhar sempre não é meu estilo.
Um dia, Ronaldo apareceu para contar que Sara — a Mestra — andava se gabando por toda Scarloon. Dizia pra todo mundo que era a treinadora do atual campeão. Convidava novos alunos. Formava uma nova geração.
Eu achei graça. Ela sempre foi dedicada. E agora tinha uma legião de Scars com Impares "inúteis" querendo aprender com ela.
Certa manhã, decidi fazer minha caminhada habitual.
Fazia tempo que não aparecia no Dôjo. Andei pelas ruas de Scarloon, sentindo a brisa leve, o movimento dos Scars indo e vindo. O lugar tinha mudado — mas também continuava o mesmo.
Quando cheguei em frente aos portões, parei.
Respirei fundo.
Do lado de dentro, ouvi vozes. Muitas. Gritos de treino. Risadas. Alguém reclamando que o muco havia grudado no teto.
Ela conseguiu.
Sorri.
Empurrei o portão.
A luz da manhã invadiu o Dôjo. Lá estava ela, no centro do campo, rodeada por uma dúzia de alunos. Gesticulava, explicava, ria.
Quando me viu, seu rosto se iluminou.
— LEANDRO! — ela gritou, largando tudo e vindo na minha direção. — Olha só quem resolveu aparecer!
Os novos alunos me olharam com curiosidade. Alguns reconheceram. Outros, não.
— Só passeando — respondi. — Vim matar saudade.
Ela me deu um tapinha no ombro.
— Tá na hora de voltar a treinar, campeão. Tô com uns alunos aqui que têm Impares bem peculiares. Acho que você pode ajudar.
Olhei para o grupo. Rostos novos. Olhares inseguros. Mãos inquietas, como se escondessem poderes que ainda não sabiam usar.
Parecidos comigo.
— É? — sorri. — Quem sabe.
Ela cruzou os braços, o sorriso largo.
— Vai negar? Depois de tudo que eu fiz por você?
Bufei.
— Beleza. Mas só se você parar de se gabar por aí que foi você quem me treinou.
— Mas foi! — ela retrucou, indignada. E então, baixando a voz, sussurrou: — Mesmo que você tenha descoberto metade das coisas sozinho.
Ri.
O sol já estava alto. O Dôjo fervia de vida. E ali, no meio daquele campo que um dia foi vazio, eu percebi:
Aquela chama que ela sempre falava… nunca se apagou.
Ela só esperava alguém para compartilhar essas chamas.
Meio brega, não vou mentir.
Mas, de vez em quando, coisas bregas são legais.
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