Say Something
1 O idiota de olhos héterocromáticos
Notas iniciais
Boston, Massachusetts — 6:00 am
POV Olivia Harrison
Sabe aquele momento que você entra em crise existencial? Que você começa a se perguntar qual seu propósito na Terra, o porquê de existirmos, a nossa missão no planeta? Pois é, entrei em crise existencial assim que o despertador tocou, me obrigando a atirar as cobertas para o lado e me levantar da cama. Triste, eu sei. Mas enquanto não descubro o motivo de minha humilde existência, sou obrigada a frequentar um local de encontros da pior espécie que existe: a humana. E pior ainda: os adolescentes. São tão estúpidos que te julgam pela sua aparência, pela roupa que está vestindo, por tudo, menos por ser quem você é.
Depois de colocar fim aos meus dramas matinais, fui para o banheiro fazer minha higiene e tomar um banho. Depois de alguns minutos, saí do banheiro com uma toalha enrolada sobre meu corpo e fui para o closet achar uma roupa para vestir. Optei por uma calça jeans clara básica, uma regata preta e uma blusa cinza de manga comprida por cima. Calcei um vans cinza e coloquei uma touca para disfarçar o ninho no meu cabelo.
Peguei minha mochila e desci. Fui até a cozinha e peguei uma maçã e cumprimentei Ella, nossa empregada, que é como uma mãe para mim, já que minha mãe de verdade me abandonou.
— Bom dia Ella.
— Bom dia querida, ansiosa para o colégio?
— Claro que não, tenho experiências de sobra com "primeiros dias" para saber que será um desastre.
— Quem sabe esse não será diferente...
— É, quem sabe. — Respondi com indiferença. — Vou indo, beijos.
Me despedi de Ella e fui para a garagem pegar meu carro. Entrei, joguei minha mochila no banco do passageiro e segui rumo ao inferno.
No caminho, fui pensando sobre minha vida, e em como tudo mudou depois que ela se foi. Nunca consegui entender o motivo, quer dizer, que tipo de mãe abandona os próprios filhos? Meu irmão que tem sorte, era tão pequeno que nem se lembra dela. E mesmo depois de 7 anos ela ser incapaz de entrar em contato, qualquer coisa, apenas para dizer que está bem. Quer saber? Eu não deveria me importar com quem não está nem aí pra mim. E é isso que vou fazer.
Estacionei o carro e desci. Atravessei e pátio e não dá para deixar de notar os grupinhos formados: os populares (incluindo jogadores de futebol e líderes de torcida), os nerds, os que não estão nem aí para nada... Entrei no prédio principal a fim de encontrar a secretaria e pegar meus horários. Só não contava com o tamanho daquele lugar, nunca encontraria a secretaria. Então resolvi pedir ajuda, mas para quem? Não me sentia confortável em ter que me comunicar com nenhum desses estúpidos. Mas eu precisava chegar à secretaria, então resolvi olhar em volta para ver quem eu poderia pedir ajuda. E foi nesse exato momento que aconteceu.
Não sabia como, mas em 1 segundo fui parar no chão com um elefante (ao menos era o que parecia) em cima de mim, e todos rindo da cena. Quando abri os olhos para encarar a realidade, dei de cara com um par... espera, não era um par, era um olho azul e outro castanho. Ai, enfim, dei de cara com um par de olhos me encarando, e pela cara do elefante em cima de mim, ele estava com raiva, mas era um garoto muito bonito, seu cabelo era liso, com uma coloração meio loiro escuro, enfim, lindo.
— Você é tonta garota? — Disse o estranho, ainda em cima de mim. Lindo, mas um grosso.
— Eu não, mas você pelo visto... E quer fazer o favor de sair de cima de mim? — Acho que ele finalmente se deu conta que estava esmagando meu lindo corpinho, e se levantou. E nem me deu a mão para me ajudar a levantar. Belo cavalheiro...
— Quem mandou ficar parada no meio do caminho olhando para o nada?
— Eu não estava no meio do caminho, você que não tem noção de espaço. Tinha bastante espaço para você passar sem nem precisar encostar em mim, mas é claro que você tinha que dar um jeito de chamar a atenção.
— O que está insinuando?
Revirei os olhos. O que estou fazendo discutindo com esse cara? Realmente não vale a pena. Peguei minha mochila que estava jogada no chão e estava pronta para sair quando ele segurou meu braço.
— Te fiz uma pergunta.
— Que eu não irei responder. Tenha um bom dia. — Me desvencilhei dele e saí andando.
Não sabia exatamente para onde estava indo, apenas segui o corredor. E não sei como, mas consegui chegar ao meu destino.
Peguei meus horários com a secretária e segundo eles, tinha aula de história agora. Sala 21. Agora como diabos vou encontrar essa sala?
— Com licença, precisa de ajuda? — Uma menina de cabelos negros super simpática e com um sorriso lindo me perguntou.
— Ahn, pra falar a verdade sim. Sabe onde fica a sala 21?
— Claro, estou indo para lá. Venha comigo. — Ela sorriu e fez um gesto pedindo para eu acompanhá-la. — A propósito, sou Emma.
— Olivia.
Enquanto andávamos ela tentou puxar assunto comigo:
— Eu vi sua discussão com Derek. Foi incrível.
— Incrível?
— Sim, quer dizer, ele é quase o rei desse colégio. Todos temem o Grande Derek.
— Grande Derek? Isso é uma piada.
— Acredite se quiser, é assim que ele se auto-intitula.
— Ok então...
Chegamos na sala e o professor não tinha chegado ainda. Sentamos juntas e ela me contou o básico sobre ela.
— Moro com meus pais. Os dois tem um escritório de advocacia, então acho que meu destino é ser advogada mesmo.
— E é isso que você quer?
— Sabe, você é a primeira pessoa que me pergunta isso. — Ela sorriu para mim. — Ser advogada nunca foi meu sonho, eu sempre quis fazer medicina. Gosto da ideia de salvar vidas.
— E por que você não conversa com eles.
— Olivia, eles são advogados. Não tem conversa.
Continuamos a conversar sobre sua vida até que ela fala:
— Sua vez de falar um pouco sobre você.
Eu simplesmente odeio ter que falar da minha vida para as pessoas, principalmente para quem eu acabei de conhecer. Tentei contar o mínimo possível.
— Meus pais são separados, moro com meu pai e... — Nem pude terminar de concluir pois o professor entrou na sala dando bom dia a todos. Tenho que agradecê-lo mais tarde.
— Esse semestre falaremos sobre a alta idade média e como ela...
— Com licença professor, podemos entrar?
— Atrasados no primeiro dia de aula Parker? — Questiona o professor.
— Sabe como é né? Estava resolvendo um assunto. — Olhei para trás para ver quem os rostos dos atrasados e só reconheci um: o elefante de mais cedo. E ele olhava fixamente para mim. Revirei os olhos e virei para frente
— Não, não sei como é, e não quero saber o que estavam fazendo. Entrem logo e fiquem em silêncio por favor.
Estava esperando a aula recomeçar quando alguém sussurra no meu ouvido.
— Coincidência não, ruivinha? — Não podia negar que ele tinha uma voz sexy, me arrepiei toda. Mas nem me dei ao trabalho de responder. O professor começou a falar e eu prestei total atenção na aula.
Depois da aula de história, teria aula de química, no laboratório. Entramos, e disse a ela que iria ao banheiro rapidamente. Estava vazio. Fiz o que tinha que fazer e quando estava lavando a mão, a porta se abre e ele entra.
— O que você está fazendo aqui? Esse é o banheiro feminino, não pode entrar aqui.
— Sei muito bem que esse é o banheiro feminino, mas precisava falar com você.
— Eu não quero falar com você.
— E eu não perguntei. Acha que só por que acabou de chegar aqui, pode me tratar desse jeito? Na frente de todos ainda por cima?
— Ah, me perdoe, não sabia que você era o diretor, pra vir me exigir respeito.
— Não, não sou o diretor, mas de uma forma ou de outra eu mando aqui sim, as pessoas me respeitam, ninguém tem coragem de levantar a voz pra mim, e é melhor você ir se acostumando a ser assim também. – Esse garoto deve ser mico de circo né? Não é possível. Respiro fundo e conto até dez.
— Escuta aqui, palhaço, você acha que é quem aqui dentro, hein? Pois se você não sabe, eu irei te dizer. Você é só mais um aluno dentro dessa bagaça, e você tem os mesmos direitos e deveres que qualquer um de nós aqui dentro. Não sei quem te colocou em cima de um pedestal, mas eu acho muito bom você descer por conta própria, se não mais tarde a queda será desastrosa, e eu estarei na primeira fila com um saco de pipoca na mão assistindo. – Despejo tudo de uma vez em cima do cidadão e saio do banheiro sem nem esperar por uma resposta que eu duvido que ele teria. A mente dele deve estar trabalhando até agora pensando em algo útil pra me dizer. Caminho até o laboratório ainda desacreditada que aquele garoto teve a coragem de fazer o que fez.
Laboratório – 8:40 am
Minha cara não deveria estar das melhores, pois Emma me perguntou o que tinha acontecido, mas disse que não era nada. Parker entra na sala alguns minutos depois de mim e me encara fixamente. Esse garoto não pode ser normal. Foi ai que eu percebi que o lugar ao meu lado ainda estava vago, e ele também percebeu isso. Comecei a rezar para alguém sentar do meu lado, mas não teve jeito. Esse infeliz quer me provocar.
Preferi ignorá-lo, essas pessoas gostam de atenção, e isso é tudo que esse insuportável não vai ter de mim. Ele continuou a me olhar fixamente e abriu um sorriso exalando deboche. Estou com tanta vontade de sentar a mão na cara desse cidadão que não sei se consigo me controlar por muito tempo.
Depois de uns minutos a professora entrou na sala e se apresenta.
— Bom dia a todos, meu nome é Rose, pra quem não me conhece. Estou vendo vários rostos conhecidos, mas tem alguns que são novos na minha aula. Peço que se apresentem, dizendo seu nome, por favor.
Essa é a parte mais chata de primeiro dia de aula, detesto. Fui muito breve, disse meu nome e sobrenome e em qual colégio eu estudei anteriormente. Mais umas duas pessoas fizeram o mesmo e depois a aula seguiu normalmente.
— Como a maioria de vocês devem saber, gosto de sortear as duplas para as aulas de química, justamente para que vocês se conheçam melhor . Desde já aviso que, se não gostar de sua dupla, não vou mudá-los, então é melhor se acostumarem. Vamos começar. – Isso é realmente animador, não conheço ninguém nesse lugar e ainda vou ter que dividir todos os meus conhecimentos químicos com um ser humano.
A professora começou o sorteio, e como não conhecia ninguém, fiquei apenas escutando.
— Derek Parker e Olivia Harrison. — Ah, mas não é possível. Olho para o lado fuzilando o indivíduo e ele apenas sorri.
— Será um longo ano, Olivia. — Comenta o indivíduo, que ainda mantinha aquele sorriso debochado no rosto.
Sem responder, simplesmente faço cara de tédio e deito a cabeça sobre meus braços em cima da mesa. Realmente, será um longo ano.
Cantina do colégio — 10:20 am
— Ele fez isso mesmo? — Perguntou Emma chocada.
— Fez, estou te falando. — Contei a ela o que Derek tinha feito enquanto pegávamos nosso lanche e procurávamos uma mesa.
— Olivia, você arrasou com ele. – Comenta Emma, entre risos.
— Aquilo não foi nada, alguém precisava trazer aquele tosco pra realidade.
Finalmente achamos uma mesa vazia e continuamos a conversar sobre diversos assuntos. A cantina era enorme. Tinha uma espécie de segundo andar e mesas estavam espalhadas por todo o lugar. Parecia mais uma praça de alimentação do shopping. Estava lotada.
— E como será com o dito cujo na aula de química? Vocês vão se matar dentro daquele laboratório.
— Olha que não seria uma má ideia. Claro que quem iria morrer seria ele.
— Você é terrível! – Diz Emma, enquanto morde um pedaço de seu sanduíche.
— Você ainda não viu nada minha querida. – Digo, com um sorriso presunçoso nos lábios.
— E quem é seu parceiro?
— Ethan Jones, um dos melhores amigos do Derek. Mas ao contrário do amigo ele é bem legal. Ele é gentil, engraçado, tem um sorriso encantador. — Disse Emma com os olhos brilhando.
— Ok, já entendi, você gosta dele.
— Claro que não. — Olhei bem para a cara dela a fiquei encarando-a. — Ok, talvez, só talvez, eu goste só um pouquinho dele. Mas ninguém sabe, então por favor, essa conversa nunca existiu. – Assinto com a cabeça e termino de comer. Pelo menos a comida daqui é boa.
Felizmente, o intervalo não teve incidentes. Conversamos bastante e contei o mínimo possível sobre minha vida. Não tivemos nem sinal de Derek e sua turma. Olhei minha grade de horários e vi que tínhamos aula de literatura.
Pátio do colégio — 12:10 pm
Depois de 2 tempos entediantes de literatura, estava finalmente livre para ir para casa. Entrei no carro e dei partida. Poucos minutos depois estava estacionando o carro na garagem.
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