Saudade

28 Visões de mim


Notas iniciais
Olá, Amores! Esse capítulo é o último da Regina e que capítulo difícil. Foi complicado tentar explicar todo o crescimento dela, foi difícil fechar seu momento. Eu espero que gostem, eu realmente espero que gostem. Quero dedicar esse capítulo a Miss Isles, ela recomendou Saudade e cada recomendação me enche de felicidade. Muito obrigada por isso. Desculpe qualquer erro. Eu não revisei devidamente, estou nervosa. Boa leitura.

Vê-la ir sempre me parte. Ver aquele trem se afastando me traz lembranças da minha decisão mais difícil. Eu precisava daquela decisão torturante. Eu não estava pronta para a Srta. Swan. Tentei esquecê-la de formas diferentes, tentei seguir com uma vida cheia de páginas insignificantes.

Tentei seguir com um casamento acabado em seu início. Tentei guardar um sentimento que não compreendia, vi seu debater violento me lembrando das ondas que desejei, que ainda desejo.

Observei como uma telespectadora meus dias se tornarem pálidos. Vi de perto as consequências insuportáveis de uma escolha.

Aquela decisão precisava ser tomada, eu precisava arcar com minhas escolhas, precisava crescer vivendo sem ela. Sem seus olhos verdes cheios de verdade. Precisava perceber por mim, sem empurrões, sem lanternas, sem nortes, sem brilhos ou sorrisos em armações. Precisava perceber que minha felicidade não estava na comodidade, não estava na estática de anos. Não estava nos cuidados que eu pensei dar ao meu marido que clamava meu nome.

Ele precisava de mim, mais que qualquer coisa, eu precisava de mim.

Eu aprendi a sorrir de um rosa desconcertado.

Aprendi a sorrir de um esmeralda acanhado.

Como voltar a poça opaca de um casamento acabado?

Eu esqueci de mim por uma obrigação que era só minha, ou acreditei ser só minha. Foi necessário o mais profundo sentimento para me encontrar. Foi necessário esquecer o significado dos dias para perceber o lugar que precisava estar. Foi necessário o silêncio dos sorrisos para correr.

Eu corri, eu gritei, eu busquei, eu chorei, eu me descasquei, eu me despi de uma camada dura. Eu me transformei, eu me transcendi, eu aprendi a sorrir por uma brisa.

Emma me ensinou como andar com passos leves, como parar de me esconder em meu muro antigo.

Hoje eu caminho para fora da estação sentindo minhas camadas se desfazendo, vejo minhas Reginas antigas me deixando, caminho para minhas novas versões, minhas partes escondidas. As escuras, as claras, as rudes e as leves.

Lembro do dia em que Zelena entrou em meu escritório pedindo explicações de uma noite que quero esquecer, abstrair. A noite que vi Emma se quebrar uma segunda vez, a noite que a quebrei.

Lembro das acusações descabidas da minha irmã, – descabidas pra mim – lembro da falsa versão de felicidade que criei. Estabilidade não cria lembranças únicas.

Zelena acreditou.

Eu apenas duvidei.

Parecia distante e utópico me arrepiar por um olhar, ansiar uma alegria que não era minha. Parecia absurdo viajar quilômetros para ser lembrada, para explicar uma escolha, para mostrar que lutaria por alguém. Para me Justificar.

Eu nunca lutei por alguém.

Emma me apresentou uma Regina que ninguém mais via.

Eu aprendi e reaprendi, conheci minhas dimensões, e vivo em todas elas.

Aquela solidão acompanhada não me atormenta mais, as horas com sorrisos falsos, cumprimento obrigatórios, noites frias, as correntezas dos dias agitados, tudo isso se tornou fumaça branda, passageira.

Hoje eu sou pedaço, sou inteira, sou tempestade e cores. Hoje eu sou brisa. Hoje eu sou Regina.

********

Minhas semanas iguais ainda são iguais. Passo dias contados esperando um retorno, esperando ela voltar de sua cidade. Meu novo copo me faz companhia enquanto as horas deslizam insistentes.

— Ela disse que vai voltar. – Minha mania de conversar com um objeto que não vai me responder continua a perturbar minha sanidade. – Por que eu ainda tenho você?

Mania, costume, gosto de pensar nos motivos, nas razões. Gosto de olhar um copo e ver minhas pegadas. Todos os erros me trouxeram a esse exato momento e não posso me arrepender deles.

Trabalho para espantar a lerdeza do tempo, para esquecer minha ansiedade e minha vontade. Trabalho para sair do tédio dos meus dias sem verdes, sem óculos, sem sorrisos ainda tímidos.

Meus dias não são feitos de Emma’s, mas são os melhores, os mais cheios e os mais vazios. São feitos de sensações e reações. São feitos de risadas esquecidas, de corações abertos e transparências. Emma não cria meus dias, ela os colore, por isso meu anseio por dias vermelhos, amarelos, castanhos, verdes e cinzas. Claros e escuros.

Olho minha mesa e os papéis vestidos de muros separam meu antes e depois. Separam minha vida acomodada e minha vida descoberta. Eu me sinto livre, me sinto bem, meu nome nessas páginas escritas fecha minha jornada.

Não posso dizer que Robin sente essa mesma felicidade que emana de mim. Eu me senti calma em cada crise desesperada dele, em suas súplicas e chantagens. Respirei com facilidade em cada uma delas. Expliquei que não o amava, compadeci com seu sofrimento ou sua comodidade. Nosso casamento era isso, cômodo, fácil.

A comodidade não pode nos privar da felicidade escondida em uma floresta de espinhos.

Eu entendi.

Ele não.

Lembro de caminhar em sua direção, tocar seu rosto com sincero carinho, sorrir e dizer “Você merece alguém que te ame e essa pessoa não sou eu”.

Ele ainda estava coberto de esperança.

Minha separação previsível foi uma surpresa para a maioria que não conhece meus traços, meus passos, meus calos. Lidei com cada pergunta intrometida e desagradável. Ignorei os desavisados.

De todos os “desconhecidos”, Sra. Cora foi a pior. Minha mãe sempre viu meu casamento como uma oportunidade, não como uma felicidade. Ouvi frases duras e acusativas, mostrando como eu desperdicei uma “união perfeita”, um “par perfeito”. Lembrou-me dos anos desperdiçados e da “pessoa ideal” perdida.

Meu conceito de “união perfeita”, “par perfeito” ou “pessoa ideal”, vem com sorrisos na chuva e dias sem palavras, cobertos de silêncios cheios e peitos abertos. Vem com olhos e respiração. Vem com lareira e céu nublado.

Vem com o simples das horas. Vem com a alegria do nada. Com a satisfação de acordar e saber.

Enquanto suas palavras contornavam meu corpo, eu sorri. Sorri por entender que nada importava. Sorri por saber que minhas decisões e apenas minhas, poderiam traçar meus caminhos. Percebi o egoísmo por trás de falsas preocupações.

Olhei minhas mãos e enxerguei meu amanhã. Enxerguei minhas decepções e minhas conquistas, e estas, só eu posso tocar, alcançar. Só eu posso correr para a linha de chegada e descobrir se valeu ou não a pena. E quando esse dia chegar, quando eu finalmente descobrir, vou perceber que tentei, que lutei com tudo que podia. Que não desisti de mim por frases, por lágrimas, por cortes.

— Regina, você está pronta? – Zelena me arranca das lembranças recentes.

— Estou.

Me recomponho e retorno para a realidade do hoje. Pego meu casaco azul e penso no encantamento de Emma com minhas peças escuras. Ela gosta de cada pedaço em mim, até os imperceptíveis para o mundo.

Caminho ouvindo meus saltos ecoantes, o passar forte, amedrontador.

Entramos em meu carro e dirijo. Dirijo pela cidade antiga com visões novas. Dirijo para meu lugar de refúgio e conforto, o lugar que nunca a levei. Hoje percebo meu receio em me sentir invadida. Quero compartilhar meu momento, minha mesa em um deck e meu pôr do sol.

Entramos e o garçom já conhecido apenas acena com a cabeça.

Gosto do meu tempo com minha irmã. Gosto de ouvi-la esbravejar sobre o mundo e se derreter por uma morena. Estamos em um momento que nunca sonhamos. Zelena com seus olhos brilhantes e focados, apaixonada. Ela se sente bem em nossos sábados.

Eu? Bem...

— Obrigada, Zelena.

— Pelo o que? – Seus cristalinos esperando entender o agradecimento.

— Por entrar em meu escritório, gritar comigo e me pedir para tentar. Por se preocupar com uma loira que nunca viu. Por enxergar que existia algo. Por me fazer ver que a estática nunca foi o suficiente.

— Você não foi feita para a estática, Regina. E foi um prazer te mostrar que não amava o idiota do seu marido.

— Ex...o idiota do meu ex-marido. – Rimos como se ouvíssemos a melhor piada.

Zelena me obrigou a tentar com seus gritos inconformados.

Conversamos sobre banalidades, sobre Ruby, sobre Emma, sobre Killian. Relembramos nossos caminhos.

Olho o horizonte colorido e sou engolida.

— Eu a trouxe aqui. Foi nessa mesa que meu peito debateu com suas histórias. Foi nesse dia que admiti pra mim e falei em voz alta.

Lembro do nosso toque. Um gesto de compreensão, que trouxe um calor diferente.

— O que você admitiu? – Eu sei que Zelena sabe, mas quer me ouvir. Precisa do som da minha voz.

Respiro fundo olho para os olhos da minha irmã.

— Admiti estar apaixonada pela Emma.

Ela sorri.

Ela sorri por mim.

— Bebemos por finalmente Regina Mills aceitar.

— E você? Quando admitiu estar apaixonada pela a Ruby?

Ela para por alguns segundos, procurando em suas lembranças o momento exato.

— Estávamos no apartamento dela, eu estava nervosa, então Killian disse algo e ela gargalhou. Foi quando eu entendi que uma simples risada transforma meu dia.

— Eu te entendo. Sei como é a sensação de satisfação apenas por ver o sol refletido em um par de olhos.

— Exatamente!

Foi uma noite maravilhosa. Soltei todas as palavras presas e escondidas no fundo de mim. Contei para minha ruiva sobre as mudanças, a saudade e todo o sentimento novo e estranho que percorrem minha pele.

Contei sobre a falta de olhos, bocas e o calor que só sinto com ela.

Rimos de nossas próprias descobertas. Eu nunca conversei abertamente com ninguém, precisava dessas horas cheias de sinceridade crua. Foi bom ouvir, foi bom falar.

Compartilhamos o amor distante para uma realidade.

Eu sempre fugi e fingi. Sempre mostrei meu lado forte, ríspido, grosso. Hoje, mostro minhas pétalas, minha calmaria reservada.

Sou várias e mostro todas elas.

Foi uma noite importante de completa abertura. Agora sei que as luzes diferentes para mim, também são para minha irmã. Vi que o céu estralado faz mais sentido pra nós duas.

Nessa noite não me sinto sozinha como em várias outras, me sinto abraçada por família e sei que posso me apoiar. Entendo que não preciso carregar meu mundo. Foi difícil entender isso.

Em minha jornada de conhecimento, aprendi a confiar, aprendi a entender, aprendi a conversar sem palavras. Aprendi a admitir e a voltar. Percebi o que quero, o que busco. Aprendi a não ter medo da desaprovação e vi que posso ser mais.

Vislumbrei a beleza de horas sentada em um banco, apenas aproveitando uma companhia.

Eu cresci com a queda que cada muro. Vi o azul de um dia claro ao ter meu teto destruído por um verde. Fui escancarada e descascada. Fui liberta das correntes que criei. Fui aceita pela correnteza e mudei. Mudei por conseguir enxergar mais alto. Entendi que não preciso me fechar em uma caixa. Abri uma janela em meu quarto branco e a vista é linda.

*****

Sexta-feira.

Estou agitada, ansiosa. Olho para os ponteiros infinitos de um relógio que não anda. Terei um final de semana com horas importantes e cada minuto será contado e aproveitado.

Adoro meus finais de semana com ela.

Meu escritório do 11º andar com nosso copo em meu aparador está mais apertado, mais quente. Emma vai chegar a noite e estou apreensiva, com o nervosismo adolescente que não passa. Nossos vários encontros são sempre primeiros.

Vou buscá-la naquela estação cheia de momentos e despedidas. Cheia de traços do meu passado. Eu desejo não precisar voltar lá. Eu desejo mais horas, mais tempo, mais dias, mas espero com a paciência que nunca tive.

Escuto batidas na porta e sinto o cheiro que espero há dias.

Emma está parada na porta me olhando com seus olhos encantados. – sempre como uma primeira vez – Não aprendi a entender os motivos da sua fascinação em um ser cheio de defeitos incorrigíveis, defeitos que ela ama.

— Senti sua falta.

Ela fala e sinto meu peito inflar e arder com a frase de tom desacreditável.

— Senti saudade dos seus olhos.

Ela sorri inclinando a cabeça com seu jeito encantadoramente acanhado. Vejo seus passos lentos em minha direção e esquecemos o resto, o passado, as pontes. Emma toca meu rosto e o calor da sua pele única me invade, me toma.

Um simples toque move minhas partes e isso me basta.

— Eu voltei para Boston. Eu estou pronta para o amanhã, estou pronta para cair ou emergir. Estou pronta para nós. Eu não quero ficar longe de você, estou cansada dos nossos quilômetros.

A beijo com gosto de alívio, com gosto de começo.

A beijo com gosto de Nós.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Até a próxima