Saudade

16 Suas Folhas


Notas iniciais
Olá, pessoas que eu amo. Eu apareci com dois capítulos. Eu precisei escrevê-los juntos e posta-los juntos. Minha dinâmica na fic me obrigou a isso,e se eu terminasse da forma que esse termina sem mais capítulos você arrancariam meu....deixa pra lá kkkk Quero agradecer aos comentários do último capítulo, foram muitos e foram lindos. Muito obrigada mesmo pelo carinho. Desculpe qualquer erro. Boa leitura.

“Eu quero ela de volta!”

Foi libertador sentir o peito inflar ao soltar a frase que me engasgava. As palavras vagaram por minha pele tempo demais. As guardei com medo do resultado.

Zelena abriu um sorriso aliviado por finalmente eu ter percebido o que todos viram há muito tempo. Eu vi o lugar que quero estar, que preciso estar. Eu simplesmente coloquei minha felicidade no final de uma vasta lista de prioridades inferiores. Não que o fato de Robin estar em uma cadeira de rodas seja menor que meus desejos, mas minhas responsabilidades com ele já deveriam ter acabado há muito tempo. Eu já deveria ter partido e rumado a imensidão verde.

Acredito que tenha lutado para esquecê-la, ou acreditava que um dia isso desapareceria, se esconderia, diminuiria. Srta. Swan estava se debatendo em meu peito enquanto eu sorria para amigos estranhos.

Meus novos e verdadeiros amigos, observavam Emma por uma abertura transparente em meu peito. Eles a viram suplicar uma saída e eu a calava com assuntos rotineiros.

Hoje isso acaba. Ela fugiu da prisão em que a coloquei, e agora sorri triunfante para mim. Meus delírios me assustam.

Killian estava eufórico.

— Vamos atrás da nossa loira.

Ruby mostrava uma certa inquietação. Ficou desconfortável com a frase que soltei. Não consigo entender seus motivos, recebi o apoio e o aval de uma irmã mais velha, claro, após inúmeros sermões por minhas escolhas.

— Ruby? – Busco explicações com apenas um nome.

— Precisamos conversar. – Todos que sabiam se calam.

“Precisamos conversar”

Por que sempre que me sinto corajosa e decidida, uma mão crava suas unhas em mim e me puxa para baixo?

“Precisamos conversar”

Não me lembro de receber boas notícias após uma frase assim. Deixamos meus amigos e os convidados no jardim, pude ouvir minha mãe reclamar da minha fuga, mas ela sempre reclama de tudo. Nos trancaremos no escritório. Aquela festa perdeu o sentindo após minha percepção. Pra mim, ela não existia mais.

— O que você pretende fazer? – Ruby me pergunta com a seriedade que nunca teve enquanto eu fecho a porta.

— Ainda não sei.

— O que pretende fazer, Regina? – Ela insiste em uma resposta que deconheço.

— O que aconteceu?

— Antes, eu preciso saber o que você pretende fazer. – Isso está muito estranho.

— E eu preciso da verdade, Ruby.

Ela vasculha rastros de dúvidas e não encontra.

— Ela está com alguém.

“Puxada para baixo”

Eu tenho a impressão de sentir as minhas mãos sangraram ao segurar minhas convicções que tentam violentamente fugir de mim. Foi muito pretensioso da minha parte, acreditar ela estaria sentada em algum banco às margens de algum lago, me esperando aparecer e fingir ignorar sua existência.

Eu desejei tanto essa superação. Desejei que seguisse sua vida ao esquecimento, tocar meus desejos está sendo terrivelmente doloroso. Sempre a imaginei caminhar para o sorriso, mas a imaginar sorrindo para alguém é irritante. Imaginei seu peito relaxado por não bater em sofrimento, mas imaginar seu peito se agitar por outra pessoa é destrutivo.

Eu estou com ciúmes e não tento esconder isso.

Senti meus músculos pesados pela raiva que não posso sentir. Eu estou com outra pessoa, ou estava, não tenho o direito da raiva, ainda não, do ciúmes, da tristeza que me escala. Também não tenho direito de desistir do que eu quero por saber que a loira que guardei está com outra pessoa.

No meio do meu ciúme e de tudo que está correndo em mim, eu quase me empurro para mais fundo. Por segundos, penso que as certezas dos sentimentos dela eram tolas inverdades, eram buscas por algo que precisava, mas que não existia. Que o vermelho que eu acreditei, era apenas um mocassim pálido.

Ruby esperou eu mastigar e engolir a notícia. Ficou sentada em uma poltrona perto da estante. Viu as palavras se tornarem uma tatuagem mal feita em mim, marcada de uma forma que eu não queria.

— Regina, agora me responda. O que pretende fazer?

"O que eu pretendo fazer?"

Quando me dei conta das minhas vontades irrefutáveis, meus questionamentos estavam adormecidos. Agora minha insegurança escondida está gritando com minhas certezas.

Eu a encarei tentando voltar ao meu estado real. Tentando acreditar em mim, no que eu deveria fazer. Tentando passar por cima do meu medo crescente. Tentando não voltar a viver tudo que quero fugir.

Respirei fundo reunindo as letras para formar a frase correta.

— Eu vou atrás dela.

Não sei se ao menos acredito em mim.

***********************************************************************

A conversa com Robin foi terrível. Ele me ofendeu, me acusou de larga-lo em um momento delicado, ameaçou tirar minha sociedade, jogar minhas roupas na fonte, chorou e fez tudo que uma criança crescida faria. O interessante foi que, cada palavra agressiva direcionada a mim foi absorvida com um sorriso verdadeiro, e isso só o irritou mais. Estar naquele momento decisivo me trouxe alivio e uma alegria. A culpa não teve lugar na arquibancada dos meus sentimentos.

Não pensei que larga-lo me traria tanta felicidade. Andei em direção a saída ouvindo sua voz indignada atrás de mim, caminhei com uma leveza que só senti nos meus vinte dias de realização. Aqueles vintes dias que nunca foram esquecidos e que nunca serão, mesmo se eu não a tiver de volta.

Coloquei uma mala grande no carro, e dirigi para o apartamento que ainda estava lá ocupado por lembranças. Eu não consegui deixar de sorrir, meu rosto estava paralisado em uma expressão exultante. Senti o vento entrar em meus cabelos, o cheiro do dia, a cor das decisões e tudo estava belo demais.

Parei no prédio espelhado que tanto senti falta e continuei para um outro caminho. Hoje eu quero o prédio de tijolos vermelhos, quero o 204.

Viro a esquerda familiar.

Bato na porta por educação, minhas batidas estavam eufóricas. Ruby atende e pergunta.

— Primeiro passo?

Eu não consigo mesmo deixar de sorrir hoje.

— Primeiro passo.

Ela abre o sorriso que fez minha irmã se apaixonar, grita e me abraça. Continuo achando que a espontaneidade e a transparência são sintomas do apartamento apertado.

— Primeiro passo? – Zelena aparece com a mesma pergunta.

— Primeiro passo. – Ruby dá minha resposta.

Nós três nos abraçamos no meio do corredor de portas numeradas. Sentimos um quarto par de braços perguntando.

— Por que estamos nos abraçando? – Meu cafajeste favorito.

— Regina se separou do Robin.

Eu não sei como explicar a dança que o Sr. Jones começou a fazer. Foi estranho, engraçado e divertido.

É tão realizador receber a aprovação de pessoas que importo. Receber os abraços e o sorriso de um trio que chamo de família. Depois de minutos de receptividade, entramos e eu fui direto para o quarto dela.

É a primeira vez que quebro o limite que me impus. Me recusei a entrar no cubículo da desistência. Foi assim que o chamei desde o dia que comecei a frequentar seu espaço. Sento em sua antiga cama, olho um móvel despido e empoeirado. Imagino seus vários livros encantando a agora, estante triste.

Da minha bolsa, tiro o livro de capa preta, com suas páginas gastas pelas várias lidas, todas tentando a trazer para mim. Ele não saia da minha bolsa, não saia de perto. O transformei em meu copo. O coloquei delicadamente em seu devido lugar, naquela estante vazia. Sentei na cama que abraçou seu corpo por várias noites. Passei a mão tentando buscar sua pele. Deitei tentando a ter. Não tenho direito de tira-la de uma felicidade conquistada, mas preciso tentar ser essa felicidade.

Me entristeço ao pensar em sua nova pessoa, na dona do seus toques e seus olhares. Foi quando vi folhas escondidas no alto do móvel de livros. Folhas carregadas de Morenas, Casacos, Reginas, Robins, Saudades, Mills e Nuncas. Folhas escritas por uma letra que nunca vi. Folhas dela.

Folhas de Emma Swan cheias de mim.

“Você ainda sente, Swan?”

— Eu vou te buscar.

Ler seus sentimentos me trouxe a saudade guardada. Sua intensidade ajudou minhas buscas. Eu quero isso e preciso tentar. Preciso alcançar.

Não quero a estática. Quero movimentos onduladamente amarelos, quero estados esverdeados.

Quero dias Cappuccinos.

***********************************************************************

Segundo passo.

Minhas ansiedade cresce e meu medo me lota. Pego minha coragem, minhas chaves, minha mala para cinco dias, “meu” livro de capa preta e minha paixão dourada. Me despeço dos meus amigos e parto para Camden em meu carro preto. Houveram discussões, houveram pedidos de companhia, não vi como uma boa ideia chegar acompanhada por uma guarda real, guarda que era dela.

Dirijo vendo pelo retrovisor minha antiga vida se afastar. Não quero voltar para ela, mas sei que existe uma feia possibilidade.

Serão três horas de reflexão inútil.

“Não vou desistir.”

Três horas de medo incontável.

“Não posso desistir.”

Três horas de certezas quentes.

“Só acredite em mim”

Três horas de Chopin.

O dia está bonito e tento aproveitar o céu azul e o calor gostoso. Tento não tremer pela rejeição, minhas mãos suam pelo nervosismo pré-maturo.

— Estou pateticamente apaixonada.

Começo a rir no meio do nada com a estrada zombando da minha loucura, vendo o horizonte distante me apontar assustado. Estou indo atrás de alguém, estou indo buscar a mulher que me escolheu. Emma me escolheu.

Suas folhas guardadas na minha mala estão cheias de absurdos. Ela sempre esperou uma brecha. Se sentia agradecida com sorrisos pequenos e encaradas breves. Ela me via tão distante, me via mais e no fundo, eu retenho toda a sorte por ter os olhos verdes da sinceridade, da simplicidade, da alegria.

Sou eu quem precisa sentir o agradecimento da sua atenção.

Eu, Regina Mills. Uma mulher rancorosa, amarga, insensível em inúmeros momentos, munida de uma grosseria invejável, o furacão, o vulcão. Emma não se apaixonou pela minha sensibilidade inexistente, minha amabilidade fingida, ela se apaixonou pela tempestade. Ela se apaixonou pelas portas que fechei.

Estou indo atrás da pessoa que viu minha escuridão e se encantou por ela. Estou indo atrás da única pessoa que me conheceu de verdade, negra, fechada, trancada e gostou do que viu. A única que leu meus olhares irritados e sorriu.

— Eu não vou desistir.

Camden.

Estou cheia de recomendações. Tenho nomes de lugares que preciso ir. Hotel, lanchonete, apartamento, pais. Lugares importantes para mim. Meus únicos destinos.

Dirijo devagar sendo observada por olhos de cidade pequena. Acredito que estejam se perguntando sobre a nova turista. Eles não me interessam.

Primeira parada....Hotel.

Não reparo no quarto, nas pessoas, ou na vista para o mar. Tenho um outro objetivo. Jogo tudo e saio. Minhas orientações me ajudam a encontrar o lugar que desejo.

Caminho olhando um mapa estranho delineado por Ruby, com uma praça mal feita e o desenho de uma tenda que acredito ser o coreto. Giro o papel procurando coerências e vejo Granny’s Dinner escrito em uma placa verde logo a minha frente.

“Eu encontrei.”

Meu coração bate gritante. Meu corpo treme, tento trazer aquele tranquilidade ensaiada para perto. Dou um passo em direção a minha felicidade, sinto o trabalhar de cada músculo ansiando aqueles passos. Respiro com pressa, dou mais alguns passos com medo de desistir e a vejo.

Depois de um ano, eu a vejo.

Ela está com seus óculos de sempre, com seu sorriso, servindo pessoas de uma lanchonete cheia. Meus olhos são envolvidos pela lençol das lágrimas da saudade. Deixo de enxergar o dia e passo apenas a ver Emma. Tudo se apaga, ou perde o sentido.

“Como um dia eu pude te tirar da minha vida? Te expulsar?”

Perco o controle dos meus sentidos e as gotas varrem meu rosto. Meus passos são interrompidos pela frase “Ela está com alguém”.

— Eu preciso pensar.

Demoro minutos para me desprender da visão e volto para o hotel não reparado com vista para o mar.

Passo a noite tentando criar planos. Volto às folhas da Srta. Swan e penso em seus planos para chamar minha atenção. Agora, sou eu quem os cria, quem passa horas sonhando com um encontro ou reencontro. Sou eu quem sofre por não ser vista, por ter sido superada. Sou eu quem chora por ela ter alguém.

Hoje eu sou a garota Emma Swan e sinto tudo que ela sentiu.

Acordo de uma noite mal dormida. Tive uma ideia em minhas horas escuras e vou colocá-la em prática. Tomo um banho, visto minhas roupas sociais e um casaco preto. Preciso encontrar minhas intenções.

Ando apressada em direção a porta do hotel, prestes a atravessar, escuto:

Não vai tomar o café da manhã?

Não respondo, apenas penso.

“Não aqui.”

Faço o mesmo caminho do dia anterior e paro no mesmo lugar, como se o pedaço de calçada me prendesse em um estado de medo. Tudo está pesado e me mover está sendo impossível. Não sei se é pavor pela rejeição, novamente me sinto a Emma.

Respiro fundo buscando concentração. Passos são dados até tocar em uma maçaneta velha com a palavra Café em neon logo acima. Giro e entro.

Eu nunca precisei ter tanta ciência de meus movimentos, sinto corpos em minha volta acusando sua existência, mas não os via. Meus saltos foram abafados pela algazarra do lugar. Finalmente consigo me soltar das peças flaneladas e chegar ao balcão. Ela está virada olhando algo importante demais.

Passo segundos olhando tudo que quero hoje. Olhando o corpo que quero sentir ao meu lado, em um banco, em um lago. Sinto seu cheiro antigo, e minha nossa, como eu senti falta dele, como eu senti falta dos cabelos bagunçados, do rabo de cavalo desnecessário. Penso se devo chamar, nas palavras que devo usar e naquelas horas feitas de segundos, penso em Emma, penso em Swan, penso em Srta. Swan, e então eu penso no começo. Eu penso no início de tudo, eu penso no pedido.

— Um macchiato, por favor.

Vejo seu corpo tremer.

Notas finais
Foi isso. Espero que tenham gostado. Vou ficar muito feliz por ler seus comentários nesse e no próximo capítulo.Ele será postado agora. Bjos