Saudade

17 Meus Fantasmas.


Notas iniciais
Viram só? Segundo capítulo está aqui. Eu quero agradecer imensamente a Suprema. Ela é responsável por fics que eu simplesmente amo, como The Bloody Countess, Friends, O Preço da Traição, Do Poder à Sedução. Acredito que muitos conheçam. Eu sou uma fã declarada dos trabalhos dela e eu tive o prazer de receber sua ajuda. Eu estava travada com o comportamento da Emma ao ouvir aquele última frase. Ela não só ajudou no meu bloqueio, como escreveu partes desse capítulo. No capítulo 17, em Meus Fantasmas, eu tive a felicidade de dividir minha escrita com alguém de tamanho talento. Muito obrigada, Suprema. Dedico esse capítulo a você. Desculpe qualquer erro. Boa leitura.

— Um macchiato, por favor.

Meu corpo parou de existir. Ouvir a voz que temi por tanto tempo é irracional. Ouvir as notas que conheço de cor daquele música que me entorpece é delirante. Eu não consigo virar, não posso encarar essa verdade. Sinto tudo em minha volta tremer e a realidade se desfocar.

Deixo de ouvir os pedidos costumeiros e apenas o macchiato me atravessa. Minha respiração sai trêmula e não me lembro exatamente do meu lugar. Demoro em meu estado de incredulidade e tudo que desejo é que ela tenha ido embora, que ela tenha se cansado, desistido, percebido, qualquer coisa, mas que não esteja atrás de mim, me olhando com os olhos que me ganharam tão facilmente.

Meus dias estavam leves com a distância que coloquei, meus pensamentos controlados me confortavam, e todo o desespero voltou com um simples pedido, com simples palavras que nós duas conhecíamos tão bem.

Não tenho coragem, não tenho forças, não tenho sanidade. Com tudo que me falta, me viro para encarar meu passado, para encarar o motivo da minha fuga, o motivo para eu ter largado a cidade movimentada. O motivo para eu ter largado os domingos de leitura. Me viro com a esperança de não ver a mulher que transformou minhas manhãs.

Regina Mills está lá. Eu sabia que estaria. Ainda que o meu interior clamasse para que ela simplesmente desaparecesse em um passe de mágica, que sumisse em uma fumaça roxa, ou que o som de sua voz fosse apenas uma ilusão estabelecida pelo meu inconsciente, parte de mim rezava por ser verdade, parte mim suplicava que aquela voz estivesse ali. Ela está lá. Os seus profundos olhos castanhos se mantém abertos vendo uma imagem do passado, e em seu rosto não há qualquer vestígio de hesitação, de dúvida – Não posso acreditar nessa certeza. — Eu vejo um sorriso brincar em seus lábios, aqueles lábios que foram decorados por mim, que por vezes foram os temas de meus sonhos. Eu a vejo, mas não a enxergo. Os meus pensamentos não são capazes de processar tamanho choque. Eu sei que estou parada há longos segundos, talvez até mesmo minutos, porém eu não consigo me mover, eu não consigo reagir, eu não quero reagir, eu quero que seja uma miragem, um delírio, um fantasma.

Eu quero gritar. Quero deixar claro o quanto ela está errada por estar ali. Eu estava conseguindo viver, eu estava conseguindo superar e agora, ela está aqui. Posso sentir meus pulmões se comprimirem, minha cabeça pesa e, por alguns instantes, o simples ato de respirar se torna quase impossível. Ela está aqui e tudo o que percebo agora, é que me enganei. Eu nunca a superei, e como poderia? Regina doma-me por completo e creio que ela sempre será capaz de fazê-lo. Ainda que eu me afaste, ainda que viaje para o outro lado do mundo e permaneça por incontáveis dias, até que o tempo perca seu sentido para mim. Ela sobreviverá a isso. Ela sobreviverá as minhas tentativas. Ela mostrará que fui falha em tentar negar algo que se mantém tão vívido em mim.

Ela está lá, ela ainda me encara, eu continuo sem saber como reagir. Então eu me viro, eu desisto de manter um olhar. Eu perco. Minhas mãos buscam qualquer apoio, qualquer coisa que possa sustentar o peso que se instalou em meus ombros. A existência se torna uma dor. Eu seria capaz de encará-la novamente? Seria capaz de servi-lhe como se o tempo não tivesse passado e ainda fossemos duas desconhecidas? Desconhecida que eu conhecia como em um tempo parado. Seria capaz de admirar sua beleza em silêncio? Não, eu não seria. Eu não sou. Não depois de tudo. Torna-se impossível lidar com a indiferença e chega a ser utópico imaginar tal possibilidade. Minhas ações fingidas no café que amei por tanto tempo se tornam apenas sonhos, minhas buscas por sorrisos perderam o valor. Regina significa minha desintegração e eu não posso permitir. Então, eu fujo.

Eu corro dos meus fantasmas e dos meus sonhos. Ambos vivem nela, como um paradoxo contido em seu interior. Ainda assim, eu corro, eu fujo, eu me desespero. Saio pela porta dos fundos e paro por alguns segundos, lutando para estabilizar minha respiração. Eu fujo, porque permanecer significa sentir e eu não posso permitir que aconteça, não de novo. Não depois de tanto tempo, não depois de tanta dor. Se fugir denuncia minha falta de coragem, declaro-me uma enorme covarde.

Corro fugindo do que não está atrás de mim, corro fugindo do nada com calor e cheiro, corro para a distância que preciso. Corro de tudo que ela significa, ela ainda significa. Corro para meu castelo na infância, meu lugar seguro após uma bronca sem sentido. Corro para o lugar que me segurou, que me abraçou. Me escondo em meu lugar de madeira olhando para meu amigo antigo. Olho o mar salgado a procura de uma explicação, de um motivo, a procura por qualquer coisa que me faça acreditar.

Eu só preciso entender.

Me escondo em meu castelo sem teto, sem paredes. Me sinto protegida pelas toras gastas do passado. Sofridas pelo tempo. Me guardo tentando voltar a ver o dia em seus tons comuns. Faço a pergunta que não quero.

— O que ela está fazendo aqui?

Me decido por pensar, por esperar, por ficar. Decido me dar o tempo ali, protegida pela madeira, conversando com o mar. Minha mente me perturba com lembranças de beijos, de sorrisos, de paradas. Olho para o mar, e lembro do vinho, das descobertas por palavras dela. Me lembro do “Não consigo ficar longe de você”.

— Inferno!

Lembro dos beijos em seu marido, da noite em um Pub, da expulsão. Me foco em cada pontada em meu peito. Eu preciso das lembranças ruins. Eu preciso da dor de volta, do sofrimento da rejeição. Eu não posso ceder por um pedido, por um sorriso, por uma visita.

Eu vou ficar aqui até acreditar na certeza que preciso e não na certeza que quero. Como eu pude ter me desestruturado tão facilmente? Como ela consegue me desmontar apenas por existir? Por que eu ainda a quero? Por que ela ainda me tem? Por que eu ainda sou apaixonada por ela?

— Não!

Eu não quero isso, eu não quero a confusão. Eu não consigo mais ver suas costas indo para sua vida feliz, eu não consigo mais ser pequena e insuficiente. Eu não consigo mais me sentir assim. Eu não quero mais me sentir minúscula em sua imagem gigantesca.

Eu quero ser alguém, quero ser suficiente, quero ser o infinito. Eu quero ser um tudo.

Meu telefone grita comigo a espera de uma atenção que não vou dar. Eu não preciso de pessoas agora, só preciso de mim, só preciso da minha lucidez, do meu entendimento. Vejo o sol caminhar em uma conversa amigável com o mar. O vejo se despedir da tarde por um encontro acordado. Não me preocupo com o tempo, com as horas, com o vão do dia. Minhas horas aqui são minutos. Pude ver o mar mudar de ritmo. Pude sentir a intensidade dos raios em seu começo, meio e fim. Pude ver sua luz partir e a lua me cumprimentar triste pelas minhas dúvidas e minha raiva. Sinto raiva dela, sinto raiva do seu egoísmo em me procurar. Seu desejo por se aventurar não passa e isso me cansa. Não quero ser uma aventura, quero ser uma estabilidade.

Penso em meu apartamento, no carinho da minha cama. No calor do meu silêncio. Penso no livro de capa verde ao lado do criado mudo. Ele não deveria estar lá, eu não deveria tê-lo. Como não vi esse sinal gritante? Aquele livro me mostrou todas as noites o tamanho de tudo o que eu ainda sinto, apenas me ignorei. Minha certeza de nunca mais encontra-la foi maior que a percepção de mim.

Aquele maldito livro estava lá me dizendo tudo o que eu não quis ouvir. Me dizendo.

“Você a ama.”

— Não! — Eu me recuso a admitir isso, me recuso a acreditar. – Não!

Meu choque, meu espanto me confunde. Eu não sinto isso. Eu sinto uma paixão platônica imensuravelmente dolorosa. Apenas isso.

— Apenas isso!

Minha respiração se acalma depois de um dia trancada em meu lugar sem paredes. Levanto finalmente sentindo as consequências da minha fuga. Meus músculos berram pela forma que os tratei, os deixei na dureza do castelo infantil de madeira escondido. Caminho em ruas vazias pela hora, agradecendo por ninguém me encontrar desfeita. Ouço o silêncio de uma cidade adormecida.

Só caminho, ainda prestando atenção em mim. Meu trecho é feito sem ser visto, cheguei por um automatismo do conhecimento. Procurei minhas chaves no sempre bolso direito da calça jeans. Subi as escadas esperando sentir as gotas quentes do meu banheiro e os lençóis macios que tanto preciso.

Quero esquecer o dia e acreditar que ela terá ido embora ao amanhecer. Terá entendido minha fuga como palavras de revoltas não ditas. O amanhã me trará de volta a tranquilidade da pacata Camden.

Amanhã, eu terei de volta meu atendimento agradável, meu relacionamento bege e meus dias comuns envolvidos por minha covardia de um ano atrás. Amanhã tudo estará de volta. Entro no corredor de duas portas. Sinto meus pés mais relaxados vendo a porta do meu lar vazio.

— Emma!

“Não! Não! Não!

Por que meu corpo treme sempre que a ouço? Me viro com pressa dessa vez.

“Ela não está aqui. Ela não pode estar aqui.”

Ela dá um passo para frente. Eu dou um passo para trás

— Emma, Por favor! – Ela dá mais um passo em minha direção.

— NÃO! — Eu a impeço com uma palavra. – O que você está fazendo aqui?

— Eu estava te esperando na...

— Em Camden, Regina! O que você está fazendo em Camden? – Eu perco o controle.

— Eu posso entrar?

— O que? Não! – Ela só pode estar brincando. Depois de tudo, depois da rejeição, da expulsão. Depois da entrega, depois do apartamento, do beijo, do copo, do Não. Ela disse não olhando para mim, para os meus olhos. Ela escolheu.

— Eu vim te ver. Eu precisava te ver.

— Você veio me ver? Você sumiu, Regina. Você simplesmente ignorou minha existência por dias. Você não lembrou que eu estava te esperando. Você só me deixou lá, só me deixou esperar, só me deixou olhar por uma porta e não te ver. Você esperou eu te procurar para me rejeitar. Você me expulsou. Você escolheu seu marido de dez anos e eu entendo. Por que você não entende? Por que você não entende que eu preciso viver? Por que não entende que eu fugi de você?

Imagino os vizinhos atrás das portas dos andares ouvindo a explosão que nunca tive. Dos vizinhos de todo um quarteirão assustados com meus gritos aflitos, desesperados, suplicantes. Só quero que ela se vá, que ela desapareça, que eu acorde do pesadelo que esperei ter.

— Eu não consigo ficar longe de você.

Não evito sorrir com todo o sarcasmo que não me pertence.

— Eu já ouvi isso antes, e no mesmo dia você quase me jogou pra fora do seu apartamento. Quase me levou pelo braço como uma criança.

— Eu estava confusa, Emma!

— Então guarde sua confusão e volte para Boston.

— Eu preciso te explicar...

— Vá embora, Regina! Eu não te quero aqui!

Foi rude, eu sei. Ela se calou com a lágrima solitária correndo em seu rosto. Ela assentiu e se foi. Entro rápido em bato a porta. Busco o ar que me faltou em todo o desabafo. Busco a respiração misturada com meu choro abafado. Encosto na porta e deslizo até o chão frio. Com minhas mãos eu seguro meu grito, meu soluço, meu choro desesperado. Por que ela voltou me trazendo toda a angustia? Toda dor? Eu a odeio por isso. Me levanto com a visão embaçada. Pego o livro e o jogo contra a porta com violência. Estou com raiva, estou triste, estou destruída, estou com saudade.

Eu sinto tanta falta dela.

Me jogo na cama tentando me esconder dos meus próprios pensamentos. Fico ali após um dia de fuga. Só quero fugir novamente. Adormeço com a dor de um vendaval, me afogando em lágrimas.

Meu dia começa dolorido, me sinto apavorada, com medo de encontrá-la na primeira esquina que viro. Esse medo havia desaparecido, esse receio de ceder, de tremer, de me entregar. Agora tudo voltou com palavras fortes demais para eu suportar. Penso em várias desculpas para meu sumiço repentino. Sumi do trabalho, dos meus pais, da Lily...

Lily.

— Merda!

Regina me traz problemas esquecidos. Como explicar para minha namorada que o motivo da minha fuga, voltou para me assombrar?

“Droga, Regina!”

Entro no Granny’s sem nenhuma frase explicativa formada. Sou uma péssima mentirosa. Granny me recebe com os braços abertos e me sinto um pouco assustada com a receptividade. Eu a deixei sozinha no começo do dia para surtar olhando o mar e o céu.

— Querida, você está bem? — Se eu estou bem? Sério?

— Estou sim, Granny. Desculpe ter sumido.

— Não se preocupe. Sua amiga me disse que não se sentiu bem e me passou suas desculpas por ter ido. – Minha amiga?

— Minha amiga?

— Sim, a morena bonita, com um jeito chique. Eu me esqueci do nome dela agora. – Regina, você não fez isso.

— É Regina, Granny. Que bom que está melhor, Swan. Ficamos preocupadas.

— Oi, Querida! Que bom que voltou.

— A cidade é adorável. Espero ter a oportunidade em conhecê-la melhor. – Ela não está falando sério.

Eu estou pasma demais para me intrometer nesse diálogo absurdo.

— Um macchiato, Regina? – Quando elas se tornaram amigas? – O de ontem estava bom?

— Estava divino, mas hoje eu prefiro um café puro.

Café puro.

As pessoas que nos rodeiam não entendem a importância dessas duas palavras cheias de significados e explicações. Acreditam em seus sorrisos gentis e sua educação britânica. Não enxergam o redemoinho a consumindo. Não enxergam a tristeza por trás do olhar tranquilo. Eu vejo tudo.

— Conhecer melhor a cidade, Regina? – Sussurro em uma conversa nossa. Ela se aproxima arrancando minha concentração. Meu conhecimento sobre mim se perde em seus olhos.

— Eu não vou voltar cometer o erro de desistir de você.

Eu vejo toda a verdade que ela tenta passar, toda certeza, toda convicção. Ela não deixou brechas para dúvidas. Nos encaramos, me vejo perdida dentro dela. A vejo tentando me encontrar no deserto em que me perdi. A vejo estendendo sua mão no abismo em que despenquei. Ela tenta me segurar e me trazer do vácuo em que estou vagando.

A encaro com saudade do seu beijo, com saudade da sua pele, do seu toque...

— O que aconteceu ontem? Eu te procurei em todos os lugares, você simplesmente sumiu, não atendeu minhas ligações.

Lily...

Por que o universo me odeia tanto?

Notas finais
Então.....Você gostaram de como as coisas estão se desenrolando? Me contem. Até o próximo.