Saudade

18 Abafando meus Gritos


Notas iniciais
Olá! Eu demorei, o último capítulo me desgastou tanto. Depois eu não conseguia me colocar no lugar da Regina, mas cá estou com capítulo novo e espero não demorar para colocar o próximo. Quero agradecer a Ana Paula e a Swanqueen11 pelo carinho. Obrigada mesmo. Dedico esse capítulo a Pseudo Ruiva. Obrigada por me colocar em sua parede. Desculpe pelos erros. Boa leitura.

— Vá embora, Regina! Eu não te quero aqui!

Ouvi-la dizer isso me magoou de formas diferentes. Eu poderia ter ficado, gritado, insistido, e dito tudo que eu preciso dizer, mas ...

“Eu não te quero aqui.”

Me perdi na frase. Acreditei por segundo suficientes naquelas palavras. Palavras usadas para me atingir, para me magoar. E eu me magoei, eu fui atingida, eu senti tudo que ela queria que sentisse. Caminhei para o hotel derrotada. Minhas vontades em tê-la de volta foram massacradas por sua revolta. Eu tento entender sua revolta e no fundo concordo. Meu medo covarde afastou a pessoa que busquei, a pessoa que me fez ceder, a pessoa por quem eu me apaixonei tão cegamente que me fez viajar para uma cidade que não conheço em busca de um “Sim”.

Me perdi em uma fantasia, vi seus braços abertos. Vi seu esperar ansioso. A vi sorrir ao me ver entrar. Me sinto cair em uma queda sem fim. O vento me cortando pela rejeição em sua voz. A companhia das luzes da praça me fazem pensar todas as loucuras. O barulho dos meus saltos na noite vazia me dão a impressão que todos da cidade podem ouvi-los. Eu só consigo prestar atenção no som dos meus passos apressados e no Não que acreditei não ouvir.

Volto a me sentir pretensiosa.

Esperei tempo demais. Ela tem outra vida, outra pessoa, outra morena, outro sorriso irritado. Emma tem Lily e eu tenho um buraco que apenas espera por ela.

Meus pensamentos chegam a ser ridículos.

Hoje eu preciso daqueles passeios em Boston, das ruas desconhecidas, do vento esfumaçado da cidade grande entrando pela janela do carro. Dirigir sem destino apenas para me sentir desapegar do agora. Aqui, eu só caminho pela mesma rua, em uma cidade que não conheço, sentindo o frescor da noite escura me congelar.

Entro desanimada no hotel, abro a porta pesada pelos “Nãos” e penso em desistir. Jogo minhas roupas com violência com a certeza de voltar para uma vida nova, uma vida sem Emma, a vida que eu não quero ter. Minhas mudas são machadas pelas gotas que insistem em rolar.

Extravaso minha impotência e me deixo descontrolar. Minha mala me olha triste pela agressividade que não pertence a ela. Nem a Emma, eu apenas preciso me sentir cansada e meus músculos gritaram pelo físico e não por tremer ao vê-la. Só quero me exaurir.

Me sento na cama e choro pelos gritos. Gritos que nunca ouvi. Gritos me expulsando. Gritos que não me querem. Ela não me quer por perto e isso me destrói.

Vejo suas folhas em um criado de madeira com detalhes antigos. As lágrimas embaçam minha leitura, e tudo aquilo se tornou mentiras no meio da minha raiva. Sinto raiva por não ter vindo antes, sinto raiva por não ter conseguido ser ouvida. Sinto raiva por tê-la perdido. Meu orgulho me invade, minha pressa em sair daquela cidadezinha aumenta.

Minha mala está pronta, ou estufada pelo mau jeito, não consigo diferenciar no momento. Passo a noite olhando o tempo se arrastar. As horas ajudam, minha raiva diminuiu e meu orgulho genético desaparece. Meu orgulho sempre desaparece após meu peito parar de se agitar. Consigo pensar com mais clareza, e tento ver minhas possibilidades.

“Preciso tentar.”

Não posso desistir ainda. Eu sabia que seria difícil, eu sabia que seria hostil. Eu me preparei para isso, agora percebo que cada concentração e preparação não me serviram de nada ao vê-la. Minha consciência se perdeu no momento em que seu cabelo desgrenhado e seus óculos pesados me lembraram toda saudade que senti.

Dormi com o medo de ceder às tentativas fracassadas.

Minha noite foi agitada e sem sonhos carinhosos. Minha desilusão ainda me incomoda, mas minha obstinação está ardendo. Caminho para lanchonete recomposta.

Segunda Tentativa.

Entro no Granny’s com mais urgência. Minha ansiedade em ser ouvida sobrepôs ao meu controle exacerbado por tudo. É engraçado como sua presença me faz esquecer scripts e roteiros pré-moldados em suas vírgulas e pontos. Seu cheiro faz minhas vontades voltarem e penso que precisarei de mais que explosões de momentos para me afastar.

A vejo e escuto suas explicações já criadas para a avó de Ruby. – Tivemos umas rápida conversa ontem e acredito ter ganho sua simpatia. Sou mestre em esconder minhas tempestades atrás de sorrisos de brisa. – Nenhum morador da lanchonete lotada me fez desviar a sobrancelha em atenção. Só consigo escutar as duas.

— Sim, a morena bonita, com um jeito chique. Eu me esqueci do nome dela agora.

Não consigo evitar de soltar um sorriso gentil com a frase interessante. Me lembro das vária vezes em que sorri nessa mesma posição. Escondida em suas costas. Coloco minha máscara amarelada de simpatia e sorrisos falsos e entro no diálogo.

— É Regina, Granny. – é difícil manter o tom normal no caos. Olho para seus olhos assustados — Que bom que está melhor, Swan. Ficamos preocupadas.

Minha falsidade e tranquilidade são aterrorizantes.

— Oi, Querida! Que bom que voltou.

— A cidade é adorável. Espero ter a oportunidade de conhecê-la melhor. – Deixo claro com uma resposta simples para a mulher de cabelos grisalhos, minha intenção de continuar a insistir. Minha resposta foi para Emma, mas não sei se ela percebeu.

— Um macchiato, Regina? – Swan está assustada, ainda não sei se é por me ver depois da expulsão de ontem a noite ou pela conversa descontraída com sua nova chefe. Indiferente dessa resposta, é divertido. Me sinto de volta ao café no centro de Boston, sua surpresa sempre me divertiu e sempre achei adorável. – O de ontem estava bom?

— Estava divino, mas hoje eu prefiro um café puro.

Ela viu. Ela entendeu. Ela percebeu o significado do pedido. Meu pedido cheio de incertezas. As dúvidas do tamanhos dos seus sentimentos me enlouquecem. Eu escolho a dor da certeza, que o delírio da dúvida.

Me sinto do meio de uma muro de opções. De um lado está um deserto seco, com seus monstros de areia ansiosos para me sufocar. Do outro está Emma, é só essa nome me é suficiente.

Ela olha para Granny preparar meu café. Tenho a impressão que esconde quem sou. Esconde de mim, da sua chefe e dela. Não posso viver de impressões.

— Conhecer melhor a cidade, Regina?

Ela sussurra, eu me aproximo para acompanhar aquele disfarce infantil. Minha decisão deveria ser mais bem pensada, o cheio, a pele me confundem. Preciso me concentrar para não gritar.

— Eu não vou voltar cometer o erro de desistir de você.

Ela me encara, consigo ver a proteção que ela subiu tremer, ganhar rachaduras vermelhas. A sustentação que criou para me evitar se abalou. Nesse momento, eu vi a fresta que precisava para me reascender em possibilidades. Me vi refletida em seus olhos e redescobri meu lugar. Eu precisava daquilo. Precisava apenas de uma fina fagulha para continuar. Precisava ver em algum lugar meu significado. Eu me vi encolhida e acuada dentro do peito que quero estar. Agora só preciso me mover.

Eu ainda estou dentro da Srta. Swan.

Fui quebrada pela voz que odeio sem nunca tê-la ouvido. Pela voz da que hoje, é dona dos olhos que sempre foram meus.

— O que aconteceu ontem? Eu te procurei em todos os lugares, você simplesmente sumiu, não atendeu minhas ligações.

Lily

Me sinto prender a respiração em um ciúme que não posso demonstrar. Não quero me sentir contida, não quero me conter nesse instante. Várias opções invadem minha mente. Penso em dar as costas e simplesmente ignorar a existência de alguém sem nenhum significado. Penso em expulsa-la da lanchonete pela orelha como uma fedelha que ela é.

Esforço demais.

Impressionante o tamanho do ciúme que sinto.

Ciúme

Nunca entendi o significado de palavra, não da forma que entendo hoje.

Escuto as cobranças exageradas daquela mulher sem tirar os olhos da Srta. Swan, e é ela quem desvia o olhar para encarar sua namorada ao meu lado.

Namorada.

Que palavra tenebrosa para mim.

Swan abre a boca algumas vezes. Imagino que esteja escolhendo as palavras para justificar sua fuga. Ela não só fugiu de mim, ela fugiu do mundo. Essa constatação acende uma pequena alegria escondida.

— Lily, deixa a Emma em paz. Ela não estava se sentindo bem. – Granny tenta salvar uma Emma sem resposta. Ela ainda é uma péssima mentirosa. Sinto vontade de rir.

— Você não estava se sentindo bem? E onde você se meteu? Te procurei na cidade inteira.

Garota chata.

— Aparentemente não procurou em todos os lugares. — Eu precisei falar.

O controle que estava se debatendo foi arremessado para fora de mim. Eu não costumo perder o controle dessa forma. Não deveria me afetar pelas perguntas preocupadas ou carentes de uma morena de cabelos ralos e olhos claros. Infelizmente a pessoa que está recebendo esse bombardeio de perguntas é uma loira que retém toda minha atenção, meu interior e minhas práticas mudam com essa assunto. Vejo meu controle dançar no balcão, o enlaço tentando o colocar no devido lugar. Dentro de mim, quieto.

Emma, Granny e Lily me olham pela intromissão. Foi apenas um erro.

A loira me encara, seu esforço em tentar reprimir meus impulsos homicidas é encantador. Ela conhece minhas explosões contidas e sabe que isso está prestes a acontecer. Eu consigo me tornar um vulcão em meio a sorrisos sarcásticos.

— E quem é você?

A namorada chata, testa minha paciência. Minha mandíbula treme pelas palavras que não devem ser ditas. Tento engoli-las, tento segura-las. Sinto um formigamento pela indiferença que preciso fingir ter.

— Apenas uma amiga que a encontrou, ou a esperou no lugar certo. Temos paciências diferentes.

Eu a encaro com lavas escorrendo dos meus olhos. A palavra “Direitos” me lembra dos limites que não posso ultrapassar. Não ultrapassarei, assim espero. Volto a tomar meu café olhando o nada a minha frente. Sinto seus olhos me cortando em ira.

— Eu dei uma volta e depois fui para o meu apartamento. – Justificativas vagas. Emma tenta voltar a atenção da garota insuportável. Acho que ela se preocupa com as proporções do nosso encontro.

— Eu fui ao seu apartamento. Você não estava lá.

— Paciências diferentes. – Falei baixo ainda olhando minha frente vazia, mas o suficiente para ser ouvida. Provocar a mulher que odeio está se tornando um hobby que estou adorando.

— Regina! Você não está ajudando – Não pretendo ajudar. Será que ela realmente pensou que eu seria conivente com essa mentira descarada? – Lily, eu vou falar só mais uma vez. Eu fui dar uma volta e depois fui para o meu apartamento. Sinto muito que não tenha me encontrado.

— Mas...

— Lily! – Swan sendo autoritária? Diferente.

Não consigo deixar de sorrir ainda olhando para frente. Não tenho a intensão de estragar o relacionamento da Srta. Swan, de forma alguma, mas não posso negar meu divertimento com a situação.

Meu sorriso entrega toda a satisfação que sinto. Seguro a xícara com mais força e finjo não prestar atenção no pequeno conflito ao meu lado.

— Desculpe, eu não ouvi seu nome. – Ela vai mesmo continuar a me irritar com sua existência?

— Eu não disse.

Falo sem olha-la. Consigo ver Emma abaixar a cabeça pelo canto do olho e mostrar sua reprovação pela minha indelicadeza. – Não preciso ser delicada com essa mulher. — Abraço a xícara de café demonstrando todo meu desinteresse, dou curtos goles na minha bebida de péssimos dias. Posso ouvir Lily aprofundar a respiração pela raiva. Ela se concentra para não me atacar.

— Eu sou a Lily Page, namorada da Emma.

Ela está com a mão estendida esperando um cumprimento formal e eu simplesmente me canso do teatro mal ensaiado, preciso de uma oportunidade real, preciso de segundos nossos, preciso de horas de um domingo ou um pedido frio de uma bebida quente. Hoje a plateia sem aplausos não me atrai. Respiro fundo pela chance de explicação perdida. Minha decepção não transparece, não para o mundo, apenas Emma enxerga.

Minhas tentativas em esconder sensações encapuzadas, são despidas por olhares esverdeados.

Tiro algumas notas da bolsa, coloco no balcão, levanto com a postura que adoro ter. Olho suas mãos estendidas no ar a espera de uma boa educação. A encaro com meu pior sorriso e aceito a formalidade.

— Regina Mills. É um prazer te conhecer.

Largo sua mão guardando todo o desprezo que sinto. Srta. Swan observa esperando um chilique, uma explosão ou qualquer coisa que eu não faço.

— Agora eu preciso ir, Srta. Page. Até breve Srta. Swan.

— Até, Sra. Mills.

"Até?" Já é alguma coisa. Minha mente continua ridícula.

Caminho esperando ser vista por todos. Meus saltos fazem o barulho que espero que façam, eu me esforço pra que façam. Coloco a mão na maçaneta pronta para ir. Respiro fundo e novamente meu controle foge.

Quando eu perdi tanto o controle em um único dia?

— Srta. Page?! – Ganho a atenção da morena. Sorrio pronta para cometer um erro terrível. – Você é uma mulher de sorte. Os beijos da Srta. Swan são maravilhosos.

Meu sorriso debochado é esparramado por todo o ambiente. Saio esperando ser ouvida, observada. Fecho a porta ouvindo Emma me repreender.

Foi divertido, foi muito divertido. Estou tentando me arrepender pela crise indireta de ciúmes. Ou foi direta demais? Me sinto confusa pelo prazer da provocação e pela dor de deixá-la. O dia está lindo e preciso pensar em meus passos. Ela precisa me ouvir e não sei o que fazer com seu cão de guarda substituto. Dei motivos para a morena não sair do lado de Swan.

Volto a sorrir com a lembrança.

Eu nunca tomei uma atitude tão deplorável. Nunca demonstrei ou transformei em palavras o desconforto que o ciúme me traz. Nunca me senti sufocada por frases e nunca as expulsei, as jogando no alvo da minha ira. Minha habilidade em ignorar o ser humano nunca foi colocada à prova. Sinto muitas coisas novas e preciso aprender a lidar na mesma velocidade que as sou apresentada.

Meu dia será tedioso. Volto para o hotel a procura de distração para o tempo. Trabalho, penso, me irrito e me canso. Preciso encontrar uma solução para o assunto Lily, vulgo, mulher insuportável. Ando pelo quarto ajeitado, passando a mão pelos cabelos quase desesperada. O tempo está passando, eu tenho mais dois dias em Camden e, a única coisa que consegui foram gritos expulsantes e encontros duplos. Pela primeira vez olho pela janela do quarto – vista para o mar. – Me dirijo para uma varanda com suas madeiras pintadas de branco e uma poltrona simpática. Sento esperando que o mar me ajude com uma solução menos direta que chutar a porta daquele apartamento e falar.

“Eu só preciso explicar”

Não sei quantas horas passei sentada conversando com a imensidão salgada. Buscando ouvir a ajuda que não virá. O sol me aquece com seus raios do meio da tarde. Respiro fundo, me levanto para minha terceira tentativa.

Por quanto tempo continuarei tentando?

Meu medo de desistir volta. Luto com meus princípios tentando não correr de volta para minha cidade. No momento em que o medo se enrola em minhas pernas, algo acontece. Ao longe, um amarelo reluzente brilha. Ela senta em algo, ou na grama, não consigo distinguir pela distância. Estreito os olhos procurando a certeza que não encontrei.

Eu vou em direção ás arvores enormes que escondem uma possibilidade. Ela está sentada na grama encostada em uma árvore velha, parece velha, ando devagar tentando controlar minhas respiração descompensada. Olho para os lados como uma criança com medo de ser pega. Sento em um tronco retorcido e fico ali, aproveitando os segundos sem o ódio dela.

Ela não me vê, está concentrada em capas escuras em um final de tarde. Não quero interrompê-la. Quero ficar aqui, olhando os movimentos que sempre adorei reparar. Naquele instante, me lembro de nossos momentos tranquilos. Acho graça por chamar os momentos de “nossos”. Me lembro da chuva, do carro, da sua insegurança ao me encarar. Então me lembro do beijo. Do toque delicado, da leveza e certeza que senti ao recebê-la em mim. Naquele instante, eu a senti percorrer minhas linhas e toma-las para si.

Ela arqueia a sobrancelha com algo curioso ou não, no livro. Sorrio vendo seu mergulho e envolvimento em uma história que não é dela. Inclino a cabeça captando tudo que me fez sentir saudade.

Saudade.

A abstinência de um ano é tão facilmente resolvida ao observá-la ler. Simplesmente ler, como ela sempre fez com o Ted. Tantas lembranças me invadem com apenas minutos de óculos, cabelos e peles.

O beijo volta a me atiçar e a recordação da noite em meu apartamento me atrapalha. Me lembro da ligação, da decisão, do assalto, do sumiço, do copo e da expulsão dolorida. Penso na raiva que ela carrega. Volto a pensar em uma frase que me incomodou por muito tempo.

“Não me permito magoar você”

Fiz isso tantas vezes. Minhas tentativas fracassadas de afasta-la, poupando sua dor sem sentido nos trouxeram até esse momento. Não sei como lidar com seu ódio, agora, esperando sua nova revolta me dou conta da pessoa fraca que me sinto por não suportar receber seus berros justificáveis.

Ódio, qual seu tamanho?

— Qual o tamanho do ódio que sente por mim?

Ela fecha os olhos ainda sem me olhar. Vejo minha voz percorrer o ar, deslizar em sua direção, a estremecer.

Abafo meus gritos e me preparo para tentar.

"Preciso tentar"

Notas finais
Foi isso. Espero que tenham gostado. Até o próximo Bjos