Saudade
14 Satisfação do Simples
Notas iniciais
Ver a Srta. Swan se afastar dentro daquele vagão me quebrou. Eu sei que não tenho o direito de estar aqui. Me lembro de cada letra saída dos meus lábios apaixonados. Me lembro de sentir a revolta ao dize-las.
É desesperador observar o trem levar a pessoa que eu quero. Ela voltará em quinze dias, mas e se não voltar? Conversamos sobre essa possibilidade enquanto estávamos sentadas no sofá do meu apartamento e lembro dela questionar essa opção. Me lembro de ser o motivo para sua volta. Agora ela não tem mais esse motivo forte, pra falar a verdade, me tornei seu motivo para ficar. Eu a expulsei da minha vida e como isso me dói.
O trem some do meu campo de visão, não desvio o olhar. Só quero que ela volte. Observo os trilhos reluzentes pelo sol. Desejo ouvir o barulho do maquinário se aproximando. Desejo ouvir o som mais pesado por conter todos os meus sonhos.
Sinto uma mão tocar meu ombro, não saio do transe em traze-la de volta com meus pensamentos. Me recuso a viver longe dela, me recuso a aceitar meu destino sem olhos, cafés e sorrisos. Me recuso a viver sonhando com o que eu quero ter.
Minha felicidade não pode estar apenas em minhas fantasias coloridas. Eu preciso tocar minha alegria, minha realização. Minhas recusas não servem de nada no momento, minhas responsabilidades são maiores que minhas vontades, ou assim acredito.
— Regina, vamos?
Não me movo, não desvio do objetivo do meu olhar, não paro de encarar um horizonte vazio à espera de um retorno improvável.
— Regina, por favor. Você precisa ir. — Zelena insiste em me tirar dali.
Não quero sair do quadrado estático que me encontro. Quero ficar aqui, em pé, esperando a máquina traze-la de volta pra mim.
Ruby se coloca em minha frente, tentando cortar minha ligação com o vagão sumido.
— Regina, vamos! – Ela me diz com toda compreensão e intimidade que nunca tivemos.
— Ela não vai voltar – afirmo com uma convicção que não sei se ainda tenho.
— Eu sei!
Eu respiro fundo e trêmula. Sinto os músculos do meu rosto brigando, tentando desabar e mostrar para todas aquelas pessoas o que a frase significa. Me seguro, me contenho.
Olho a pessoa do entendimento em minha frente, e sem mudar qualquer expressão, sem me mover, sinto uma lágrima solitária escorrer pelo meu rosto inexpressivo.
Assinto e volto para minha vida imperfeita demais, solitária demais. Dou as costas para as pessoas que sentem meu desespero, as únicas pessoas que conhecem meus momentos em um lago chamado Ted. Caminho me afastando da minha vida, a vida que escolhi ter e me foi arrancada. Minha escolha foi tirada de mim, me senti obrigada a redefinir meu final e ele não é feliz.
Caminho em direção ao portal aberto das minha obrigações. Vejo Robin do outro lado me esperando em uma cadeira de rodas e não quero transpassar essa porta. Não quero começar essa vida.
Mas é exatamente isso que faço. Atravesso a porta de madeira manchada por minhas lágrimas desistentes. Estou pronta para pagar por minhas escolhas obrigatórias.
Sem Emma Swan.
Vamos lá!
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Um ano depois....
A vida sem a Srta. Swan se tornou bege. Me acomodei ou me acostumei ao meu estado de completa saudade. Não me lembro se passei algum dia sem pensar nela, sem me lembrar do seu sorriso tímido escondido no semblante inocente.
Voltei a tomar café no George’s. Ele é muito simpático, sente a falta dela assim como eu. Acredito que tenha voltado apenas por recusar a me libertar. Não quero me libertar. Me torturo entrando lá todos os dias e vendo outra pessoa em pé no lugar que sempre foi dela me servindo.
No começo, eu criei uma vaga expectativa. Esperava entrar e encontra-la sorrindo animada para algum cliente, ou tentando adivinhar as preferências de alguma morena, tentando ler a mente de alguém que ganhou sua atenção e que a machucará em algum momento.
Isso não aconteceu.
Posso dizer que Emma mudou minha rotina. Comecei a passar muito tempo com minha irmã, e consequentemente com Ruby e Killian. Eles começaram a frequentar meu novo lugar. Compramos uma casa para ajustar às necessidades da minha nova vida. Robin precisava de um lugar com uma mobilidade mais fácil
Me apaixonei pelos dois.
Quando Emma ligou dizendo que não voltaria, Zelena me ligou triste, fui até o apartamento 204 do prédio de tijolos vermelhos. Tudo cheirava a ela. Killian estava arrasado. Ruby, assim como eu, não estava surpresa.
Soubemos no instante que o trem se afastou.
Fiquei impressionada com a intimidade que o cafajeste adquiriu. Naquele dia, ele me abraçou pedindo um colo materno.
Eu esperava uma ira direcionada a mim, me senti diretamente culpada por sua decisão de ficar, mas eles me abraçaram como uma amiga antiga, uma amiga do jardim de infância que você olha e sabe exatamente como está se sentindo. Eles viram meu corpo rachar, e nos tornamos amigos de rachaduras.
Passei a acompanha-los nas noites dos filmes ruins e dos vinhos baratos apenas para fugir das minhas noites. Ficávamos nós quatro em um apartamento pequeno, assistindo filmes antigos e péssimos, ser péssimo era obrigatório. Riamos dos furos, das bobagens e das quedas, bebendo um vinho que posso jurar ter sido comprado em uma loja de conveniência em um posto de gasolina aberto 24 horas.
São as melhores noites.
Contratei uma enfermeira para o mimado, e agora munido de duas rodas, Robin. No início, eu o levava para fisioterapia, grupos de ajuda para tratar de seu inconformismo, ao médico uma vez por semana, a casa dos meus insuportáveis sogros. Eu vivia para ajudá-lo a viver, eu me dei como uma boa amiga, apenas isso. Após 3 meses do assalto, eu me senti tão exausta de tudo dele. De suas reclamações, de suas juras de amor, de seu agradecimento. Um mundo enxerga o que ele não vê, eu fiquei por responsabilidade, por comprometimento, por 10 anos, não por amor.
É uma coisa horrível e insensível de se pensar, mas é a verdade. Esses foram meus motivos.
Agora, já são quase 12 anos de casamento. Decidi abandonar um destino por um dever.
Eu pensei em abandona-lo várias vezes, pensei em correr para Camden e me declarar, mas a cada notícia recebida, minhas certezas que ela estava bem aumentavam. Me lembro do dia em que disse a minha irmã que Emma deixaria tudo que sentiu por mim evaporar e se tornar apenas um passado nublado. Eu desejei, por várias noites escuras pela falta, que ela acordasse sorrindo, que seu aperto se afrouxasse, que seus livros a fizessem viajar e que meu nome não a machucasse, como eu desejei isso, o problema foi que isso não aconteceu comigo.
Emma Swan me deu lembranças doces, amigos improváveis e me mostrou que eu nunca havia sentido nada por ninguém, por tudo isso, eu não vou esquecê-la. Eu posso encontrar novos amores, novas paixões, posso me derreter por um sorriso, como aconteceu várias vezes com ela, mas me sentirei agradecida por tudo que passei a sentir. Por aprender a sorrir de um dia chuvoso, por ler suspenses, por rir de filmes ruins, por ouvir Chopin, por comer um hambúrguer em uma lanchonete suspeita.
Passei a frequentar o parque aos domingos. Ted também sente falta dela. Depois de alguns meses eu percebi que fazia tudo isso para sentir sua presença, se estava ou não funcionando, eu não sei, mas é muito agradável sentar em seu banco e conversar com seu lago.
Meu terapeuta acha que devo criar meus próprios hobbys, e parar de projetar meus desejos nos desejos dela. Concordo com ele.
Se eu vou fazer isso?
É claro que não.
Me senti muito sozinha quando seus antigos amigos e meus novos amigos ficaram uma semana com ela. Foram longos dias. Como eu quis perguntar sobre tudo, sobre como ela estava, como eu quis ligar para Ruby com a esperança de ouvir sua voz ao fundo. Achei melhor guardar isso para mim. Prefiro acreditar em sua felicidade por ter superado.
A felicidade de um esquecimento.
Hoje é meu aniversário e não consigo parar de pensar nela. O sorriso da Srta. Swan seria meu melhor presente, mesmo que distante, mesmo que do outro lado de uma avenida movimentada, mesmo que para um cliente qualquer. Daria tudo para ver seus olhos se estreitarem tentando abraçar seu sorriso sincero.
Respiro fundo com a imagem se formando em minha mente.
Robin preparou uma festa mesmo com todos os meus “nãos” decididos. Chamou seus melhores amigos, para mim, apenas pessoas que vejo segurando taças e rindo de assuntos medíocres no fundo de uma sala de negócios.
Respiro fundo mais uma vez tentando entrar no personagem que criei, personagem inabalável, inquebrável, feliz e satisfeita com o rumo de tudo em sua vida.
Um monte de bobagens!
Uma mentira grosseira de tudo que não posso ser. Fantasiei essa felicidade para que pudesse passar um dia sem perguntas íntimas por desconhecidos educados. Pessoas que acreditam que seu falso interesse passará despercebido.
Despercebido em uma multidão.
Agora entendo o desejo de Emma.
Me sinto pronta para meu dia “Feliz”. Saio do meu quarto frio. Piso na grama do meu jardim bem cuidado por alguém e sorrio para todos. São longos minutos de felicitações e sorrisos agradecidos pelo desejo e pela visita.
“Não quero nenhum de você aqui.”
Penso em cada abraço grudento que recebo.
Em um desses abraços, vejo minha mãe.
“Droga!”
Caminho relutante até ela, com os braços abertos, pronta para receber suas críticas.
— Mamãe! Que bom que veio. – Eu sou uma mentirosa descarada.
— Parabéns, querida! – Ela me dá um abraço caloroso e começo a contagem. 3..2..1..- Linda casa, pena que seus empregados não sejam tão bons quanto seu bom gosto.
“E aí está!”
O mesmo de sempre. Sra. Cora nunca mudará. Me acostumei em nunca conseguir seu “Estou orgulhosa”. Nos damos bem, eu com minha vida e ela com a vida dela, na casa dela, sem encontros, ligações ou contatos desnecessários.
Demoro 45 minutos para me desprender dos braços indignados da minha mãe, continuo minha ronda obrigatória.
Passo pelos convidados esperando que tudo isso acabe e que eu possa voltar ao simples que tanto me atraiu. Enquanto estava me entediando com conversas sobre a economia do país sentada em uma mesa cheia de engravatados, pude ouvir uma frase peculiar demais para qualquer convidado do meu marido.
— Qual o problema em me dar seu telefone?
Como aquela frase cafajeste me encantou. Levantei sem tentar inventar qualquer desculpa, sem falar nada, se me acharam grosseira ou não? Não faz diferença. Killian estava dando em cima da Rose, que aparentemente não mostrava qualquer interesse por aquele par de olhos cristalinos.
— Minha secretária, Jones? E no meu aniversário?
Ele vira com seus dentes amostra, desistindo da conquista fracassada e me abraça. Me lembro do ciúme idiota que senti dele, de como o odiei por vários dias sem qualquer motivo real. Hoje percebo a distância que existe de um interesse genuíno pela loira que ele tanto ama. Killian é tão aberto que comecei a pensar que essa transparência vem do ar adocicado do apartamento que comecei a frequentar regularmente.
Desde o início ele demonstrou todo o carinho por mim e sofremos juntos a permanência da loira em Camden. Nos embriagamos em um bar sujo no fim do mundo, rimos do entrelaçar de pernas que nunca dei. Nos comportamos como bons bêbedos da madrugada de Boston. Bebi minha magoa aquele dia.
Foi divertido.
Nos soltamos, ele apontou para si e disse:
— Seu presente.
— Meu presente?
— Meu corpo atlético. Todo seu.
Como eu ri daquele gesto. Eu sabia que essa era a intenção, me fazer rir em um dia que não queria.
— Você agora virou garoto de programa?
— Só faço isso para os amigos.
Eu adoro esse idiota.
— Você não é loira, Kill.
Zelena com seu humor ácido apareceu tirando o “Atlético” Killian do caminho.
A futilidade dos presentes que recebi não se comparam com o prazer em ter meus amigos aqui. As horas começaram a correm da forma que esperei desde o levantar. Me senti mergulhada por conversas engraçadas e esqueci qualquer outro convidado.
Passei o resto da tarde com Zelena, Ruby e Killian. Ignorei as palavras grosseiras da minha mãe reclamando da minha falta de interesse no resto do mundo. Ignorei Robin enciumado com o gato de olhos azuis ao meu lado, fingindo dar em cima de mim. Ignorei cada sócio que veio em minha festa desagradável a convite do meu marido.
Em meio a gargalhadas intensas me dei conta da vida que sempre quis ter. Observei as linhas contentes dos três em minha frentes, da felicidade verdadeira, do bem que o simples acordar fazia a eles.
A satisfação do simples.
Hoje eu estou sentada em meu jardim conversando casualidades e rindo de qualquer piada sexual que ouvia. Hoje eu me senti outra pessoa. Hoje eu me senti bem, assim como sempre me senti estando naquele apartamento apertado no centro da cidade. Assim como me senti os vinte dias ao lado de Emma Swan.
Eu quero esses momentos libertadores, eu quero sextas de sessões, eu quero risadas verdadeiras, quero a tranquilidade de ser Regina. Eu quero me apaixonar todos os dias, quero o nervosismos juvenil, quero a descoberta, a surpresa, o impensado. Eu quero sorrisos, olhos verdes, armações pretas e livros estranhos.
Chega de obrigações, de responsabilidade, de tristeza, de lágrimas do escuridão da noite. Chega de mentir para um homem que se ilude achando que ainda tem uma esposa. Chega de viver conformada com o mínimo. Chega de sentir uma constante saudade. Chega de olhar para outra pessoa.
Eu quero olhar para mim.
Eu quero a singularidade do um momento igualmente diferente.
Me levanto olhando o ar mudando de cor, vejo o dia mais amarelo, o céu mais azul, a brisa mais suave, o dia mais belo. Vejo meus olhos castanhos se esverdeando.
Digo sem pensar, sem lembrar das pessoas que não conheço por perto, sem ver minha mãe tentando ganhar minha atenção para mais uma rodada de vozes exigentes.
Digo tudo que quis desde o primeiro macchiato.
Digo o que deveria ter dito há um ano atrás.
— Eu preciso dela.
Zelena me encara assustada, surpresa com as palavras.
— Regina? – Ruby pergunta cheia de expectativa. – O que quer dizer com isso?
— Eu quero ela de volta!
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