Saudade
15 Olhar, Sorrir e Saber
Notas iniciais
Camden
Minhas férias de quinze dias se tornaram permanentes. Quando eu estava caminhando por trilhas tranquilas, ao som do vento fresco, coberta por arvores antigas, eu me senti em paz. Senti uma necessidade por continuar a contemplar a quietude do meu peito.
Eu me sinto apaixonada há tanto tempo, eu a tive e toda a realização da chegada, da conquista se esvaiu. Eu me conheço e sei que por um mero sorriso me derreterei em saudade. Sei que por um convite de vinhos cederei alegre como uma garotinha ao ser comprada por doces ou por um pote de sorvete.
Regina Mills é o meu sorvete de chocolate.
Aproveitei a viagem de seis horas de trem para pensar nos motivos para vê-la na plataforma. Me irritei com sua imagem. Ela me pede para deixa-la, mas não me deixa ir. É tão exaustivo suas dúvidas e suas escolhas.
Não sei se me sinto arrependida ou aliviada por não lutar pela pessoa que eu quero. Sou uma desistente.
Minhas dúvidas veem do medo de ouvir suas escolhas, por medo de ouvir que ela prefere seu marido de dez anos. É claro que ela prefere. Ouvir isso dos seus lábios que tanto desejo é torturador demais. Não preciso ir em direção a essa tortura. Então criei meus próprios motivos e tomei decisões com base nesse delírio.
Fugir.
Sou uma fraca por não tentar. Ela estava entregue no dia do beijo no apartamento. A senti tremer em minhas mãos. Pensar nisso me fez fechar os olhos e tocar meus lábios por várias noites deitada em uma cama estreita no meu antigo quarto com um pôster da Madona atrás da porta.
Me lembro do décimo terceiro dia de férias, eu estava agitada por voltar a me preocupar com meus sentimentos quebrados, por me preocupar em lidar com a rejeição. Eu fugi para Camden, eu sei disso. Ainda não me sinto pronta para olhar um espelho e ver meu reflexo sem ela, ver os olhos dos meus amigos piedosos. Vê-la caminhar e não me olhar. Ver Regina sentada do outo lado da avenida esfregando minha impotência em fazê-la ficar.
Naquele dia eu estava chateada, triste por precisar enfrentar meus pesadelos. Meu pai percebeu e questionou meu humor. Fiz um resumo recorde com meia frase e ele disse:
“Então fique”
Ficar.
Pensei tantas vezes nessa possibilidade. O medo de ficar sempre me assombrou, hoje, voltar me assombra mais. Meus pais ficaram eufóricos com a opção, eu me senti dividida. Minha vida ainda estava em Boston, meus amigos, meu emprego, o chefe que amo, o parque, o lago. Em Boston estava meu coração, em Boston estava Regina Mills.
Em Boston estava a mulher que me ganhou em segundos, que criou minhas rotinas, que comandou meus desejos, minhas ações. A mulher que partiu meu coração com simples palavras. Que me fez flutuar e afogar em questionamentos.
Me corrijo do engano, meu coração não está em Boston, ele está partindo dentro do meu peito e posso ouvir e sentir cada ranger das rachaduras.
Eu não vou voltar para isso.
Foi assim que decidi ficar. No final de tudo, Regina Mills ainda é o motivo das minhas escolhas.
Escolho a mim por ter escolhido ela.
Liguei para Ruby e sua falta de surpresa me surpreendeu. Ela sabia desde sempre minha decisão, ela soube antes de mim. Agora posso entender as súplicas. Como esperado, ela sugeriu voltar. É tão injusto ela pensar em reestruturar sua vida por mim. De novo. Não permiti. Killian, acredito que o Kill tenha extravasado toda sua frustração em uma ligação de trinta minutos. Ele também sabia. Sou previsível.
Alguns dias depois eles me visitaram e trouxeram minhas coisas, meus livros, minhas roupas, minhas lembranças de uma vida que pretendo guardar com carinho. Killian se encantou pela cidade, a quem eu quero enganar, ele se encantou por suas novas conquistas e foi muito divertido.
Meu pai não ficou muito feliz com ele, parece que todos acreditam que ele poderia ser um interesse amoroso. Que absurdo! Eu o amo muito, mas não é o sorriso dele que busco. Começo a criar uma expectativa em encontrar alguém que me encante como ela me encantou. Que me arrebata e que me corresponda de verdade. Que eu acredite e veja a correspondência.
Me sinto enganada pelos olhos brilhantes de Regina. Me sinto enganada por ter acreditado em tudo que ouvi e que vivi. Isso é normal quando se tem o peito estilhaçado pela fantasia. Eu acreditei tanto no que vivi que a queda foi dolorosa demais.
Com minha decisão de ficar, precisei arrumar um trabalho. Quero minha independência. Quero um lugar para mim, quero me sentir confortável com o silêncio da solidão. Arrumar um emprego não foi difícil. A avó da Ruby tem uma lanchonete na cidade – Granny’s – Granny me recebeu quase de braços abertos. Ela me culpa um pouco por ter arrastado a neta dela para uma cidade grande e não tê-la trago de volta.
Compreensível.
Comecei a trabalhar com pessoas. Eu realmente adoro isso. Ser uma atendente de lanchonete em uma cidade pequena é diferente. Pessoas entram e saem com histórias conhecidas. Sabem meu nome e me cumprimentam de forma acolhedora. Eu sou a filha dos Swan’s que fugiu para a cidade grande e fracassou. Esses são os boatos da cidade.
Eles sentiam pena da pobre Emma, essa é a verdade.
Em uma cidade pequena, todos conhecem a todos, e não conhecem ninguém.
Depois de dois meses, não haviam mais boatos, ou assim eu pensava. Eu andava pela cidade acenando para pessoas que trocaram minhas fraldas – isso era estranho. – Conhecia quase todos da proximidade. Aqui, eu não conseguia passar despercebida pela multidão, nem observar comportamentos interessantes. Aqui, todos conheciam Emma Swan.
Eu tive crises intensas de saudade. Em um sábado à noite tudo piorou. Sábados eram dias de filmes ruins, senti falta disso. Liguei para meus amigos, precisava ouvi-los um pouco. Em meio a conversas sobre rotinas banais eu a ouvi. Arregalei os olhos e imaginei minha alucinação que nunca foi alucinação. Tive a esperança que a saudade tivesse me trago momentos de delírio.
Não era um delírio.
Me calei naquele dia bruscamente. Ruby me contou que eles começaram a sair juntos. Não sei se senti raiva, inveja ou alegria por senti-la por perto, por eles a terem. Ouvi-la a trouxe para o meu lado. Eu não queria tê-la do meu lado. Eu estava em Camden para não saber, não ver, não ouvir. Me despedi rapidamente e desliguei.
Minha respiração se acelerou e pude perceber que ela ainda me tinha, que ainda afetava cada parte. Precisava trabalhar melhor minha superação.
Meus amigos ficaram mais cuidadosos, não a ouvi novamente. Não sei se isso é bom ou ruim. Não importa mais, também não perguntei.
Preciso acreditar melhor em minhas certezas.
Killian me ligou dizendo que viriam a Camden, eu saltei de felicidade. Como eu sentia saudade dos nossos programas. Esperei ansiosa o dia 26 chegar, olhava o calendário como se o encarar me fizesse dar um salto temporal – Seria bem legal. – Quando o dia chegou, acordei animada e fui esperar. Me forçava a ouvir o barulho do tremer dos trilhos avisando que minha segunda família estava chegando.
Foi uma chuva de abraços e lágrimas.
Eles ficaram uma semana, essa semana me fez sentir falta da Boston movimentada, do meu apartamento apertado no centro, dos tijolos vermelhos e das janelas iguais. Eu pensei em voltar, pensei em ficar, pensei em pedir. Pensei em muitas coisas. Desisti de cada frase por agora estar construindo uma nova vida.
Por mais que a tristeza tenha me visitado no dia da partida. Meus amigos me fizeram gargalhar como sempre. Me senti bem. Me senti feliz.
Eles não falaram dela. Se passaram meses e a única coisa que tenho são lembranças de cheiros, vozes, bocas e beijos.
Quem sabe eu volte um dia? Quem sabe Camden não me traga todo o tédio que me fez fugir daqui? Hoje, a cidade só me traz a palavra “Lar” e “Conforto”.
Voltei a ler romances, eu já me sentia pronta para chorar com finais melosos e dramas carregados. Finalmente aposentei meus suspenses amigos. Não precisava mais do caos. Me alegrei tanto por conseguir ver a felicidade de uma frase declarada. Por ler casais atravessarem infinitos por amor.
Que clichê!
Eu adoro!
Quero que alguém atravesse um infinito por mim.
Depois de cinco meses voltei a acreditar no “Felizes para Sempre”. Voltei a acreditar que eu poderia fazer parte de uma história de amor linda com letras douradas em um pergaminho antigo selado por um brasão vermelho sangue.
E foi em meu momento transitório que reencontrei Lilith Page. Ela foi uma amiga da escola, ou uma conhecida, uma colega, não importa, eu a conheci em meus antigos dias em aqui.
Nos aproximamos, nos aproximamos muito. Novamente eu, Emma Swan, era o principal tema da cidade. A filha fugitiva e fracassada estava namorando.
As pessoas dessa cidade precisam de hobbys melhores.
Lily não me fez esquecer Regina, mas acalmou meu coração e foi alguém para mim. Sorria do meu jeito, sentava ao meu lado quieta quando eu só precisava do nada. Ríamos, saímos a noite, bebíamos e a companhia dela me preencheu, ou quase.
Eu não me sinto apaixonada pela Lily, ela não me faz arrepiar, tremer ou esperar. Não penso nela antes de dormir, não imagino ouvir seus saltos, sua voz rouca. Ela não faz meu sangue correr gelado e fervente em um mesmo instante. Eu não anseio por seus olhos, por seu silêncio adocicado, mas ela é um caminho. Ela me fez perceber que posso sair da caixa escura e ver uma opção remota.
Ela me faz bem.
No começo eu sentia uma culpa desnecessária. Me culpava por não esperar. No fundo, eu sonhava ver a morena chegar no trem das 13hs em uma cidade que ela nunca ouviu, só me olhar, sorrir e saber. Preciso confessar que passei alguns meses encarando as pessoas tentando ver o rosto dela. Minha ingenuidade me irritava a cada vez que não a encontrava.
Os rostos grossos me irritavam.
Eu coloquei em minha mente estampada de vermelho que precisava seguir em frente. Ela escolheu a vida dela, eu preciso começar a escolher a minha. Passos assim me levaram até Lily. Ainda não sei que se concordo com minhas estratégias desesperadas. Precisava dar um passo à frente e dei.
Meus pais foram estranhamente compreensivos com meu novo relacionamento. Eles queriam que eu estivesse com o August, o marceneiro. Barba demais pra mim. Acredito que eles saibam que dentro de mim se esconde problemas enraizados.
Minha mãe disse
“Te amamos, só queremos ver você sorrir.”
Foi bem bonitinho.
Estamos há quase seis meses juntas. Me sinto calma, tranquila, relaxada. Meu peito não doí e a saudade chata não me incomoda. Ela ainda existe, e tenho a desconfiança que sempre vai existir, mas não me acorda no meio da noite aos berros.
Foi engraçado andar nervosa em minha nova sala – aluguei um apartamento pequeno perto da casa dos meus pais. – Eu precisava contar para Ruby que estava com seu antigo desafeto. Lily e Rubs não se davam muito bem na infância. A briga começou com uma boneca de cabelo cortado. Não sei quem cortou o que de quem. Mas houveram cortes.
Peguei o telefone e tentei ligar três vezes. Eu considero Ruby uma irmã mais velha e ela não vai gostar. Acredito que na sétima vez eu consegui, ou oitava? A cada toque meu corpo tremia. Tenho mais medo dela que do meus pais.
— Alô
— Ruby?! – Como eu vou dizer isso?
— Emma! – Ela vai me matar.
— Preciso te contar uma coisa. – Fiquei séria, ela muda. Fiz como um curativo em um machucado semi-curado. Arranquei de uma única vez. – Estou namorando a Lily Page.
Fechei os olhos e fiz uma careta estranha a espera do sermão. Minha amiga não brigou, não xingou, não gritou, não me excomungou. Nada. Ela não disse nada.
— Ruby? – Nada. – Ruby!
— E você está bem com ela?
Se eu estou bem com ela? Que tipo de pergunta foi essa? Meu medo mudou de direção. Havia algo de errado. Eu esperava gritos histéricos, não preocupação suspeita. Dez mil coisas passaram pela minha cabeça, dez mil motivos para o comportamento tranquilo dela.
— Está tudo bem, Rubs?
Novamente o mudo frio. Eu conseguia ouvir sua respiração, podia ouvir a chuva, os carros embolando o trânsito, ouvia tudo, menos palavras comuns de revolta. Palavras esperadas e fantasiadas por dias envolvidas no medo da repreensão.
— Está tudo bem, não se preocupe. Fico feliz que esteja com alguém.
“O que?”
— Você ouviu quem é? – Eu precisava instigar minha amiga abduzida.
— A Lily não é? Como ela está?
— O que aconteceu, Ruby?
— Nada. Só fiquei surpresa.
Minha amiga estava me escondendo algo, me entristeci com isso, depois me lembrei dos dias em que não me senti pronta para contar sobre Regina. Aceitei o espaço que me pediu sem palavras e mudei de assunto.
Passei a ligar todos os dias com a esperança de chegar o dia da verdade. Esse dia não chegou. Conversei sobre Zelena, sobre o trabalho, sobre o Kill e nada veio. Passei a acreditar que ela apenas aceita minha superação e evita brigar por meu passo a diante.
Continuei a viver.
Perto da praia tem alguns bancos protegidos por aquelas arvores velhas. Eu me sento lá e leio. Antigos hábitos nunca mudam. Ocasionalmente me lembro do Ted, me lembro dos finais de semana que passei com ela. Infelizmente, tudo me lembra ela, ao menos agora meu peito não se aperta como um alarme de lembranças que não posso ter. Hoje eu consigo me lembrar de Regina e sorrir com minhas horas.
O livro grosso de capa verde com a palavra Constitucional ainda fica no criado mudo ao lado da minha cama. Gosto de dormir e saber que ele está lá, gosto de ainda ter uma parte dela. Me sinto superada, por isso o livro não me assusta. Passo a ponta dos dedos nas palavras com certa frequência, as letras não me espinham mais.
Agora está tudo bem.
O dia está lindo. Olho para o céu azul, fecho os olhos para ser beijada por raios quentes. Respiro fundo o ar salgado de Camden, deixo um sorriso de satisfação sair.
— É hora de trabalhar.
Caminho despreocupada como em todas as manhãs. Arrasto a sola do meu All Star surrado na grama aparada da praça. Sinto o celular tremer e recebo um “Bom dia” da Lily como todos os dias. E como todos os dias a lanchonete está lotada de gritos esfomeados. Eu tento atender a servir com uma rapidez eficiente.
“Ela ia gostar do meu atendimento.”
Sou abraçada pelos clientes pedindo Cafés, torradas, omelete, rosquinhas. Jogo os pedidos pela janela para cozinha e escuto um pedido no meio do mar de vozes.
Olho para o relógio no alto da geladeira por um impulso antigo demais para ser recordado. 7:55.
De costas a voz rouca invade meu corpo.
— Um macchiato, por favor.
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