Saudade

8 Revelações Conhecidas


Notas iniciais
Não fiquem tristes comigo. Eu estou em viagem a trabalho e não ando muito inspirada. Quero dedicar esse capítulo à Written in the shadows, por sua ansiedade adorável. Espero que goste Written. Desculpe qualquer erro. Boa leitura

Preciso confessar que a coragem da Srta. Swan me surpreendeu. Seu jeito tremulo, desengonçado, sua timidez escondida. Ela esqueceu todas essas características dela, só dela e se jogou em um precipício de olhos fechados. Se jogou para mim.

Não sei se ela imagina que minha presença é exclusiva para ela. Negar seu pedido seria negar tudo que eu desejo no momento. Estar por perto. Saber que ela está bem. Eu sei que minha presença intimidadora a acalma. Ela é a primeira pessoa que se acalma com meus tufões de temperamento. Ela é a primeira pessoa que sorri das minhas ofensas.

No primeiro dia que a vi, ela estava sorrindo encantada com minha explosão de impaciência. Acredito que isso atraiu minha atenção. As pessoas se afastavam de mim após ataques de fúria. Ela se aproximava mais com seu sorriso satisfeito, como se eu estivesse declamando um poema sentido e não a ofendendo com termos impróprios.

— Posso? – Perguntei se poderia ficar com o livro. Ela ainda com o sorriso mais aberto que já vi, assentiu.

É engraçado ver a Swan feliz com apenas um “Sim”. Vi sua cortina de resistência ser jogada em um chão de alegria. Minhas próprias cortinas quase foram ao chão, mas eu sou mais teimosa que ela. Tenho preocupações que ela não imagina.

Não é o momento.

Guardo o livro e caminhamos juntas até o lado de fora do parque. Vi seu banco e seu lago, que agora, também eram meus, se afastarem tristes pelo abandono.

Entramos no carro e me lembro do dia do meu erro. O dia em que parei e pude senti-la entrando em mim. Me sinto um pouco nostálgica com nosso primeiro momento.

“Nosso”

Estou delirando.

Ela está agitada e radiante. Dirijo sem saber aonde ir. Minhas voltas concentradas em nosso primeiro contato próximo me distraiu e me levou a um restaurante íntimo. Um lugar que frequentava quando buscava paz. Quando buscava uma mente vazia. Quando eu estava cheia demais, cansada do mundo e da existência.

Sempre me sentava em uma mesa no deck, fechava os olhos, sentia o cheiro e a brisa. Esse sensação me acalmava. Fazia esse processo sozinha. Nunca trouxe o Robin, Zelena ou qualquer amigo para meu momento de descarga.

Por algum motivo, estou levando a Srta. Swan exatamente para o meu lugar, assim como invadi o dela, invadi aquele parque.

Estaciono em silêncio. Ainda estou assustada por traze-la aqui. Sua felicidade some e agora vejo vislumbre. Aceno para um garçom que me conhece bem, mas sempre sozinha. Dirijo para minha mesa preferida. No deck há várias mesas com duas poltronas pretas, com suas costuras douradas, viradas para o imenso mar que eu conheço como um amigo de infância. Nos sentamos e ela ainda está encarando o mar surpresa. Vendo o sol acarinha-lo.

Posso ver seus olhos verdes com um leve brilho laranja pela visão paralisante. O fim de tarde é belíssimo. A deixo naquele estado de contemplação. Quero que ela aproveite como eu aproveitei na primeira vez. A vejo respirar fundo, absorvendo o clima tranquilo do lugar. Ela sorri pela alegria que a imagem a trás e eu me alegro por ela.

O garçom se aproxima e eu peço meu vinho preferido — Evening Land.

Ela olha para mim.

— Obrigada por isso. – Ela agradece baixo.

— Pelo o quê? – Pergunto indecisa pela resposta.

— Pela sensação que o lugar me traz.

Eu apenas deixo meu sorriso sair e ela volta para o mar. Não sei quanto tempo ela passou o olhando, não sei quanto tempo passei olhando aquela cena. Não me sinto arrependida por traze-la aqui.

O vinho chega e fico apreensiva por agrada-la. É uma pouco idiota tentar agradar alguém que evito me interessar, mesmo esse interesse já estando encravado em minha pele. A observo levar a taça a boca com uma enorme expectativa. Ela bebe e arregala os olhos.

“Ela não gostou”

“Droga!”

Sinto uma certa decepção em minha escolha.

— É maravilhoso!

Eu pareço uma adolescente por me decepcionar e depois me alegrar pela satisfação. Srta. Swan tem uma característica única. Me fazer sentir.

Ela me faz sentir tantas coisas em poucas horas. Tristeza, alegria, decepção. Me sinto preenchida por sensações quando estou com ela, não sei se isso ajuda muito. Estou menos confusa e mais preocupada com o caminho que sinto meu peito seguir.

— Me fale sobre você, Swan. – Tento começar uma conversa que nunca tivemos.

— Eu sou só a Emma.

Inclino um pouco a cabeça analisando a resposta.

— Me conte sobre como é “só a Emma”.

Ela tem aquele olhar infantil que vi há um ano. Sempre teve. Sempre gostei. Ela faz uma expressão diferente a cada vez que bebe o vinho. É engraçado.

— Sou de Camden. Estou aqui há quatro anos. Trabalho com o George a quase todo tempo que estou em Boston...- Essas informações eu já sabia. Preciso instiga-la a mais.

— Por que veio para Boston?

— Gosto daqui. Visitei quanto tinha uns 12 anos eu acho. Só gostei daqui e prometi voltar. – Suas respostas são de uma sinceridade simples. Ela não tenta formular respostas mirabolantes esperando que o ouvinte se impressione com cada palavra forjada. Ela apenas responde a verdade. – Gosto da movimentação das pessoas apressadas. Gosto de olhar as pessoas com pressa da própria vida. Acho esse comportamento interessante. Gosto de passar despercebida pela multidão.

— Mas você estava triste por não ser vista. E mesmo assim gosta de passar despercebida?

Eu exagerei. De novo eu exagerei. Não deveria tocar em um assunto que nem ao menos quero falar. Ela me olha preocupada.

— Para tudo existe uma exceção, Sra. Mills. Gosto do despercebido de uma multidão, não de alguém que esteve em mim.

— Esteve?

“Por que eu ainda estou fazendo isso?”

Ela engole seco. Eu voltei a fazer esse jogo covarde. Mostrar o que sei com palavras jogadas no ar. Eu quero tanto que ela saiba que sei o que sente. Quero tanto que ela saiba o que eu sinto, mas sou fraca demais.

“Você sempre foi vista.”

— Desculpe. Não precisa responder. Estou sendo invasiva. Não tenho esse direito.

Tento consertar o estrago que fiz em nosso primeiro momento real. Nossa primeira conversa com frases inteiras. Minha curiosidade e minha ansiedade atrapalharam meu “interrogatório” delicado.

— Tudo bem! Sim, esteve em mim. Não vou voltar a cometer o erro de me enganar com frases, situações ou momentos positivos, ou apenas positivos para mim.

Ela está séria. Nunca a vi tão séria, quase nervosa. Eu estou com minha falsa tranquilidade, aquela tranquilidade que transpareço, aprendida como em uma cartilha didática. Minha defesa para momentos tensos. Momentos como esse, que eu causei.

— Eu entendo.

Eu paro. Não volto ao assunto delicado. Eu a deixei mal e não sei se posso me arrepender disso. Eu tentei afasta-la. Tentei dar opções melhores para a garota que conseguiu minha atenção. Aproveito o tempo para conhecer outros detalhes dela.

Reparo sua mania em ajeitar seus óculos quando fica embaraçada. Seu leve rubor, seus sorriso de lado. Seu jeito de jogar os cabelos dourados para o lado direito quando fica animada com algum assunto. Como gesticula contando como são seus amigos. Como ela sorri falando da Ruby e do Killian. Como seus olhos brilham mais verdes quando fala de Chopin. Como seu humor muda em partes diferentes de uma frase. Vejo cada detalhe dos seus desejos, dos seus sonhos, das suas vontades.

Ouça ela contar suas dificuldades ao chegar aqui, ouço sobre sua superação a cada dia. Vejo a mulher por trás da menina que eu sempre acreditei existir. Ela conta sobre seus pais – David e Mary. – Conta sobre seus livros, suas músicas. Suas ambições me impressionam. Me conta sobre seu desejo em abrir o próprio café – Claro! Não poderia ser outra coisa. – Escuto sobre seu gosto por olhar e enxergar os detalhes no céu, na noite, em árvores, pessoas, em um lago. Em tudo.

Vejo Emma desabrochar diante de mim. Vejo a mulher aparecer e minha surpresa surgir.

A vejo ficar triste pela saudade da família. Neste momento, não consigo evitar tocar sua mão em solidariedade e para mostrar que estou aqui.

O calor.

Vejo sua expressão receber meu contato e não sei o que pensar. Não tiro minha mão. A deixo continuar a contar sobre suas tristezas e por um breve segundo eu mexo um dedo em um carinho automático.

Ela para de respirar.

Eu paro de respirar.

Cada mexer de músculos nos é percebido. Eu assinto com a cabeça e ela continua. Eu continuo meu gesto quase imperceptível. Para mim, aquele simples carinho acolhedor demostra um furacão de sentimentos sendo emitidos. Para ela...eu não sei.

Sinto meu corpo se encher e o tempo passa rápido demais naquele domingo. Não sinto vontade de ir embora. Não sinto vontade de deixa-la.

Seu momento triste passa e eu recolho minha mão, como se nenhuma palavra magoada tivesse sido dita, sua alegria volta ao falar de um filme que nunca vi.

Solto um sorriso feliz por cada gargalhada. Não me sinto feliz por ela contar algo engraçado, me sinto feliz por ela soltar essa gargalhada e acredito que me sentiria feliz apenas por olha-la.

“Eu tenho um problema enorme.”

Eu peço a conta e ela não percebe que bebeu praticamente a garrafa de vinho sozinha. Sua felicidade some como um passe de mágica. Ela quer ficar tanto quanto eu quero. Quero parar de me esconder. Ainda não consigo.

A vejo olhar para o mar uma última vez se despedindo. Quase pude ouvir um “Sinto muito por ir” vagando em sua mente enquanto encarava a imensidão de águas calmas. Ela se entrega a tudo e não tem medo de demonstrar isso.

“Será que existe algo que eu não goste nela?”

Entramos no carro e o silêncio conhecido voltou. Dirigi pela cidade pensando no dia, na proximidade quase que invisível que adquirimos. Não sei se ela percebeu meu interesse exacerbado em seus detalhes. Cada contraste em sua expressão ganhava meus olhos. Não evito em pensar.

“Como pôde pensar que não te via?”

É tão absurdo esse pensamento. Meu corpo todo entrega meu olhar. É possível que seu medo a cegue desta forma? É possível que minhas muralharas sejam tão espessas que não a fazem ver o óbvio? Ela transpôs minhas barreiras há muito tempo e todos os dias tento reergue-las sem nenhum sucesso. Não desisto de me proteger do desconhecido, mesmo sabendo que não conseguirei. Sabendo que por mais que eu a afaste, eu mesma voltarei. Ela não precisa me olhar para que eu ceda, eu busco aquele mar verde para ceder. Me afundo cada vez mais em minhas preocupações apenas para ver seu reflexo no fundo daquilo tudo.

“Não lembro mais o motivo das minhas resistências.”

Viro a esquerda para entrar na rua que tento evitar. Na rua do prédio de tijolos vermelhos. Na rua do adeus, da despedida. Ela respira fundo quando avista seu apartamento a sua espera. Ansioso por abraça-la, assim como eu.

Estou me desfazendo.

Paro e ela fecha os olhos como da primeira vez. Passo alguns segundos esperando a vitória da sua luta, o ficar ou o sair, alguém ganhará. Por mais que eu queira que o “ficar” prevaleça, sabemos que o “sair” é necessário.

Necessidade.

Não quero pensar nessa palavra.

Ela estende a mão prestes a abrir a porta e vejo todo esse movimento em câmera lenta. Ela para e me olha.

Nos encaramos. Ela viu. Eu sei que ela viu. Viu meu olhar a pedindo para ficar, pedindo para não abrir aquela maldita porta. Pedindo mais segundos. Pedindo abraços demorados. Pedindo um beijo delicado. Tudo se resume a ceder.

— Falei sobre mim hoje. Quando saberei sobre você?

Esperta. Muito espeta. Abro um sorriso demostrando meu entendimento.

— Em breve.

— Estarei esperando.

Ela abre a porta com pressa, agora satisfeita por saber que nos veremos novamente. Minha tristeza por deixa-la diminuí pela certeza da próxima vez.

— Srta. Swan?

— Sim!

— Meu livro. – Estendo a mão em espera.

— Quando acabar de ler o livro que te emprestei, te devolvo – Ela bate na bolsa, sorri e se vira para a porta do prédio.

— Swan!!!

— Boa noite, Regina! – Ela ficou abusada de um dia para outro.

A vejo entrar. Como estou feliz pelo domingo. Respiro aliviada e me preparo para voltar ao meu apartamento – sozinha. – Alguém invade meu carro fazendo meu peito disparar.

— Quer dizer que agora você passa os domingos inteiros com a Emma?

— Você quer me matar, Zelena?

Ela apenas sorri e uma morena de mechas vermelhas debruça pela janela.

— Boa noite, Regina! Que bom que ver de novo!

Aquele sorriso debochado. Ela é perfeita para minha irmã.

— Zel, saia do meu carro.

— Nós vamos almoçar amanhã? – A curiosidade da minha irmã me irrita.

— Não!

— Prefere que eu fique aqui e te faça perguntas? – Ruby implorava por detalhes com seus olhos arregalados e seus dentes amostra. Torcia por Zelena, torcia em me ver respondendo perguntas constrangedoras.

Tenho certeza que meus olhos estão inflamados.

— Meio-dia!

— Tenha uma boa noite, irmãzinha!

Zelena sai do carro satisfeita. Finalmente consigo ir. Dirigir me faz pensar. Demoro mais que o necessário para chegar. Passos por ruas distantes apenas para apreciar o momento. Não sei há quanto tempo não tenho horas curtas demais. Passei horas com desejo de dias. Passei um domingo com desejo de meses. Tudo foi rápido demais, pouco demais, curto demais. Insuficiente demais.

Penso em como as coisas eram antes disso tudo. Quando eram apenas pedidos apressados, respostas grosseiras, descaso proposital. Hoje não penso em nenhuma dessas possibilidades. Hoje eu me sentaria em uma mesa naquele café apenas para olha-la sorrir ao atender alguém.

Que idiotice a minha, eu já faço isso. Sentei por semanas em outras mesas apenas para ter a certeza da sua presença. Apenas para vê-la dançar com um esfregão ouvindo uma música que só ela sabia, cantando alto em uma cafeteria vazia. Ela não imagina que conheço esses detalhes.

Paro bruscamente com minha própria revelação. Falo em voz alta para acreditar.

— Eu estou apaixonada!

Notas finais
Espero que tenham gostado. Não estava muito inspirada, então me perdoem por qualquer coisa. Me contem o que acharam. Até a próxima! Bjos