Saudade

9 Uma Lágrima Acolhida


Notas iniciais
Sim! Eu cheguei de viagem e escrevi um capítulo. Foi um capítulo intenso pra mim, ele precede a acontecimentos importantes e eu precisei me segurar muito. Estou com uma enorme expectativa para o próximo capítulo, mas antes eu precisava desse. Precisei preparar um terreno sutil. Espero que gostem. Desculpe qualquer erro. Boa leitura

Ainda não consigo acreditar no domingo que tive. Subo as escadas analisando cada rachadura na parede, observo as portas com os números dos meus vizinhos. Consigo enxergar coisas que nunca vi. Tudo chama minha atenção, como se eu estivesse ligada e atenta a tudo. Tento me concentrar nos minutos que passei ao lado dela. Foram horas, horas que nunca tive, não tão intensamente.

Procuro por minhas chaves na bolsa e sinto o livro que eu atrevidamente tomei para mim. Minha coragem ao lado dela aflorou e o resto começou a se mexe de outra forma. Abro a porta e me jogo no sofá do meu apartamento vazio. Fecho os olhos e tento me lembrar dela. Dos seus olhos atentos em minhas histórias estúpidas. De sua mão na minha, do seu gesto carinhoso por uma palavra triste. Respiro fundo tentando absorver esta veracidade tão distante.

Ouço passos e imagino que seja a Ruby. Preciso contar pra ela e precisa ser hoje. Me ajeito do sofá com uma expressão séria. Ela vai surtar quando souber. Ela abre a porta com força e vejo sua ruiva sorrindo atrás dela.

— Você está saindo com a Mulher de Casaco e não me contou?

Ela está séria demais. Como ela descobriu? Acho que ela fica à espreita me esperando chegar? Não é possível que ela sempre veja.

— Mulher de Casaco? – Zelena pergunta e solta uma gargalhada. Nunca conversamos sobre a Sra. Mills perto dela.

— Eu não estou saindo com ela. Nos encontramos algumas vezes. – Tento me explicar mesmo sabendo que é inútil.

— Alguma vezes? – Ruby cruza os braços. Zelena senta na poltrona florida que eu odeio, cruza as pernas preparada para o espetáculo. Ela sorri com o show. – Emma?

— Ela apareceu no parque em um domingo e ficou lá. Nós mal conversamos. Aí ela apareceu de novo e de novo. Hoje eu a chamei para beber algo. Foi só isso. Eu juro que estava te esperando chegar para contar tudo.

Tentei explicar de uma única vez, quase sem respirar. Nunca escondi nada da minha amiga, eu consigo entender sua chateação.

— Você a chamou para beber? – Zelena perguntou surpresa inclinando o corpo para frente em claro interesse.

— Por que não me contou que estava se encontrando com ela? Ficou preocupada que eu te repreendesse por causa do dia do Pub? Eu nunca faria isso.

— Há quanto tempo você está apaixonada pela minha irmãzinha?

— Zelena!

— Zelena!

Gritamos juntas e ouvindo ela sussurrar um “Desculpe”. Voltou a sua posição atenta e calada.

— Não foi isso, Rubs. – Eu me levanto e me aproximo dela. – Eu não queria criar expectativas, nem em mim, nem em você ou no....

— Cheguei!!!

“Era só isso que faltava.”

Kill chega e percebe a tensão no ar. Nós três raramente brigamos.

— O que está acontecendo? – Ele pergunta confuso.

— A Emma está se encontrando com a Regina – Ruby responde sem tirar os olhos de mim.

— Você finalmente pegou a Mulher de Casaco e não me contou? Você sabe que eu tenho sonhos eróticos com isso.

— Alguém pode me explicar esse apelido? – Desta vez só encaramos a ruiva com olhos raivosos. – Tudo bem, tudo bem. Vou ficar quieta.

— Não é isso! Sentem os dois. Vamos conversar – Nos sentamos à mesa e eu começo o resumo. – Eu comecei a ir ao parque ler e me distrair, vocês sabem bem disso. Há 3 domingos ela simplesmente apareceu, sentou ao meu lado e começou a ler. Não falou nada, só se sentou lá. No domingo seguinte ela apareceu de novo e trocamos algumas frases. Umas três no máximo. Hoje ela apareceu e conversamos melhor, eu a chamei para beber algo, depois ela me trouxe aqui e eu estava esperando vocês chegarem para contar. Foi só isso. Não contei antes porque vocês sabem como ela é estranha. Aparece, me ignora, volta a aparece. Eu não sabia o que ela queria e não sabia se ela ia continuar a falar comigo.

Eles ouviram quietos. Estreitaram os olhos e depois sorriram juntos. Não sei se entenderam ou apenas aceitaram meus argumentos. Só me sinto agradecida por toda a discussão ter acabado.

Killian coloca a mão no queixo e acho que ele está tentando pensar.

— Como a Regina sabia que você estava naquele parque em especifico, e aos domingos?

Não tinha pensado nisso. Inclino um pouco a cabeça pensativa. Recebo um estalo e nós três nos viramos devagar para a ruiva com cara de assustada na poltrona horrível.

— Zelena? – Pergunto.

— Acho que está na minha hora. Já está tarde.

— Zelena, você andou falando de mim para a Regina? – Levanto e troco passos lentos até ela.

— Eu e a Ruby temos um trato. Eu não falo sobre a Regina e ela não fala sobre você. Decidimos não nos meter, então...eu preciso ir embora agora.

Em dois ou três movimentos, ela pega sua bolsa, dá um beijo em Ruby e sai. Como ela foge rápido.

Passamos horas especulando o que a ruiva sabia, o que ela contou, o que a Regina queria e meu domingo foi perfeito em todos os momentos, ou quase. Contei os detalhes do meu encontro ou o nome daquilo que temos, não sei mais. Contei sobre o mar, o vinho, os olhos, os sorrisos, a atenção e o toque. Killian fazia aquele cara engraçada de safado, Ruby arregalava os olhos e ria muito. Meus amigos estava tão felizes quanto eu.

Não quero ver uma chance, mas minha mente está inebriada por Regina Mills. Preciso me conter. Não posso acreditar.

Mas quero. Meu corpo todo quer.

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A segunda passou lenta. Estava olhando ansiosa para a mesa da concorrência. Ela não apareceu. Não me senti triste por isso, ainda estou eufórica demais. Ainda tenho a sensação de lentidão do girar do mundo. Consigo reparar o sorriso de uma mulher ao falar com alguém por seu telefone, que hoje é mais importante que a quarta-feira com as amigas em um bar sujo.

Vejo um homem engravatado sentado em uma das meses do George’s Café brigando com um teclado abatido do notebook desgastado. Seus e-mails são mais importantes que seus sábados em família.

Olho para minha mão e me lembro do toque. Penso no que é importante para mim: A presença, o sorriso, o cheiro de uma perfume que conheço, a gargalhada que me arrepia, os olhos brilhantes que me refletem pela proximidade, o calor de um carro, um passeio de dois minutos, as conversas silenciosas, as expressões engraçadas, o mistério, a espera, a decepção, o mar, um vinho, a coragem, o medo, a saudade.

Prioridades do sentir.

Pessoas são diferentes.

Minha atenção continua no comportamento alheio na terça-feira. Me esqueço de olhar para a mesa do outro lado da avenida.

Vendo as pessoas tão distantes de quem está por perto, sinto uma saudade dos meus pais, eles estão longe de mim, longe de verdade. Pego o telefone e disco.

Ouço o tocar pensando no porquê não ligar mais vezes. Estive distraída demais em bocas vermelhas.

— Mãe?

Meu olhos se enchem. Como é bom ouvi-los. Tinha me esquecido do tamanho da falta que sinto deles. Passo quase uma hora olhado o homem em seu computador, ele voltou e seu notebook ainda é importante, enquanto ouço meus pais sofrendo pela saudade e contanto as velhas notícias de Camden. Sinto falta de um abraço. Sinto falta do carinho que só os pais podem dar e isso eu sempre tive.

Me esqueço do lugar que estou, deixo as gostas rolarem, minha voz falha enquanto conto sobre meus dias quase iguais. Conto do meu tempo escasso pelo trabalho, dos meus livros e passo rapidamente no assunto “Conheci alguém”.

Minha mãe solta um gritinho animado pedindo detalhes do “escolhido” – que ilusão ingênua. — Mudo de assunto e escuto vários “Quando virá nos visitar”, “Sentimos sua falta”. A cada “Te amamos”, meu peito se apertava mais.

Me sinto sendo observada e quando me viro, ela está lá. Me olhando a não sei quanto tempo. Vendo meu rosto borrado pela trilha das lágrimas de saudade. Perco a fala por segundos.

Filha? – Ela está lá, me vendo chorar. — Emma?

Estou aqui. – Tento me recompor mesmo já sendo tarde demais. Minha vulnerabilidade já estava escancarada.

Me despeço dos meus pais saudosos prometendo ligar mais vezes. Seco meu rosto com a manga do suéter e vou atender minha cliente favorita.

— O que vai querer hoje, Regina? – Não a encaro com vergonha dos meus olhos ainda vermelhos. Ela já viu demais.

— Um macchiato e sua companhia.

Absorvo a frase sentindo aquela ardência no peito. Aquele pontada de surpresa, fascinação e espera. Aquela leve corrente que percorre em milésimos de segundos todo seu corpo. Aquele sensação de tristeza misturada com extrema alegria que te confunde. Me sinto paralisada esperando todas essas reações passarem, esperando bolar uma frase qualquer. Só preciso responder.

Abro a boca algumas vezes e nenhuma palavra sai. A ligação não ajudou muito. Perdi a concentração que nunca tive com ela. Não consigo responder. Meu coração voltou a se apertar pelos meus pais. Apenas dou as costas para preparar seu pedido.

Hoje não é um bom dia.

Não era isso que eu queria. Minha mente está embaçada pela falta, não esperava encontra-la aqui, não hoje, não nessa situação.

Ouço seus saltos e aperto os olhos. Não consigo me esconder. Me viro com useu copo na mão e encontro seu olhar tentando me entender.

— Você quer conversar sobre a ligação? – Ela ouviu. Sua atenção é encantadora, mas hoje não.

— Não – Ela assente.

— Você quer conversar sobre outra coisa? – Eu não quero conversar. Quero apenas que meu desejo de voltar para casa passe.

— Não – Novamente balança a cabeça em concordância.

— Você quer que eu vá embora? – Essa pergunta me fez pensar, por poucos segundo. A resposta era óbvia.

— Não.

Ela sorri e volta para a mesa com seus saltos barulhentos sem dizer mais nada, senta e espera. Olho para o relógio – 18:07 – Não percebi a hora. O café começa a encher e ela começa a ler.

19:13

Sra. Mills continua sentada, ela mal se mexe. Apenas vira as páginas mergulhada em uma preocupação que não é dela. Consigo sorrir com o gesto. Ela veio até aqui e ainda está esperando.

— Me fale sobre você – Pergunto enquanto sento. Ela fecha o livro e eu ganho sua atenção.

— Eu sou só a Regina. – Ela abre um enorme sorriso e é impossível não sorrir com a repetição da frase que foi minha. – Sou nascida e criada em Boston, sou advogada e adoro o que eu faço.

— O que você gosta de fazer?

— Gosto de ler, de ir ao teatro, gosto de chegar em casa e beber uma taça de vinho enquanto olho o fogo na lareira. Gosto de macchiato. Não tem nada de interessante para te contar.

— Há quanto tempo é casada?

Eu quero saber sobre ela, mesmo as perguntas me incomodando e essa me incomoda amargamente. Meu corpo se enrijece esperando a resposta. Ela não responde imediatamente, tenta decifrar meus motivos. Eu apenas espero.

— Há 10 anos. – Responde sem a expressão alegre de antes. Ela não gostou da pergunta, eu não gostei da resposta.

Tê-la ali me contando sobre a faculdade de direito, as brigas com a irmã, contando sobre a rigidez da mãe – que no ponto de vista dela, a tornou forte – contando sobre uma noite de bebedeira. — Não consigo imaginar Regina Mills bêbada. — Ouvindo tudo isso, tento perceber quando a limitação de um balcão acabou. Quando a grosseria deu lugar a simpatia. Quando eu passei a encontrá-la com frequência, quando ela se tornou parte da minha vida.

Que frase estúpida, ela se tornou parte da minha vida no segundo que adentrou por essa porta irritada e coberta de neve. No segundo em que jogou seus cabelos escuros e me dominou com seu olhar. A dúvida deveria ser, quando eu passei a ter um segundo do seu tempo? Quando ela percebeu que eu existia? Quando eu me tornei suficiente para ter seus domingos? Quando eu me tornei importante para faze-la esperar uma hora em uma terça-feira à noite, na mesa de uma cafeteria qualquer?

Não sei se conseguirei responder essas dúvidas. Ela olha para o relógio prata em seu pulso esquerdo e sei que nossa conversa acabou.

Eu reajo imediatamente, pego sua mão com força e a suplico com o olhar. Não posso deixa-la, não agora. Não consigo me sentir sozinha de novo. A solidão sempre me trouxe reflexões, sempre me confortou, mas hoje não, não sem ela.

Uma lágrima rola solitária. A vejo suspirar tentando. Minha gota tímida à incomoda.

Observo sua mão livre se aproximar de mim e em um gesto simples seu dedo toma minha lágrima fugitiva. Inclino minha cabeça e sinto essa mesma mão segurar meu rosto.

Fecho os olhos e suspiro.

— Emma, eu preciso ir. – Ela me solta. Em lugar do calor, sinto o frio de um rosto vazio.

— Eu sei – Respondo sem soltar sua mão.

— Você precisa me deixar ir. – Seu tom é baixo e compreensivo. Me sinto uma garota mimada. Me nego a solta-la, percebo que busco respostas pontuais.

— Hoje não.

Ela inclina a cabeça e acho que sente pena de mim. Só estou triste, quero fica sozinha do mundo, me esconder no alto de uma colina, me trancar em uma caixa...com ela, em silêncio.

Ela pensa no que fazer. Como me convencer a solta-la.

— Me dê um minuto então.

Estreito os olhos desconfiada e solto sua mão devagar. Ela levanta e vai até o balcão. Conversa com meu chefe por um minuto inteiro. Esse minuto é tão longo que balanço a perna pelo nervosismo.

“O que ela está fazendo?”

Ela sorri para George, volta, pega sua bolsa e meu rosto murcha. Posso jurar que fiz um bico pedinte e entristecido. Regina deu dois passos em direção a porta, me senti ainda mais sozinha.

Para, me olha, sorri da minha tristeza e fala.

— Vamos?

“Vamos?”

— Vamos? – repito sua frase sem acreditar.

— Venha.

Olho confusa para o homem grisalho que amo e ele apenas assente com um sorriso bondoso. A sigo sem entender, apenas sigo sem saber o rumo, confiando que ela me levará para longe da saudade, que pegará minha dor e soprará para longe de mim.

Apenas confio.

Cegamente.

Entramos em seu carro preto que conheço bem e ela dirige. Não me olha, apenas dirige por caminhos que reconheço em uma memória não tão distante assim. Vejo as luzes da cidade brilharem em minha mente triste. O destino já não é importante. A intimidade que o carro me passa misturado com o cheiro vindo dela, me acalmam. O calor do carinho que sinto sem receber qualquer toque não me choca mais, não me surpreende. Ela me causa isso, sempre me causou. Mesmo com suas nervosidades, brisas, tempestades, confusões, gargalhadas e ofensas. Sempre me trouxe aquele acolhimento estranho. Aquela sensação de conforto em alguém que nunca te deu motivos para sentir.

Sentir.

Palavra ideal para meus momentos com ela.

Vejo o mar e desconfio que iremos para o restaurante de brisa perfeita, de vista sublime e vinhos poéticos pelo sabor. Ela segue e desisto de tentar. Apoio cotovelo na porta e encosto a cabeça no vidro esperando o chegar misterioso. Poderíamos passar a noite por uma cidade que conheço bem, que mesmo assim cada rua seria uma novidade.

Podemos passar por um mesmo lugar várias vezes. Quando sentimos coisas diferentes, tais lugares mudam de cor e passamos por uma experiência nova a cada passagem. Quando paramos para perceber tais mudanças vindas de cada humor, tudo se torna novo e belo, mesmo quando estamos com uma lente de tristeza em nossos olhos.

Hoje eu estou apreciando os tons cinzas da saudade com ela.

Passamos vinte minutos entrando e saindo de ruas, avenidas. Sei exatamente o tempo, pois, as vezes a olho séria pelo canto do olho e a luz do relógio mudo do som me avisa a cada minuto.

Ela diminuiu a velocidade, parou em frente a uma porta grande de garagem em um prédio enorme, espelhado em todos os seus trezentos andares – essa é a impressão que tenho. – E sem qualquer movimento, qualquer barulho a garagem se abre. Entramos e pude ver o vários carros chiques em suas linhas demarcando posições. Entramos no elevador, ela apertou o botão “16”. Começamos a subir ouvindo uma musiquinha chata de elevador. Esse era o único som no ar. Musiquinha chata.

Eu a seguia vendo brigar com sua bolsa, a procura de algo que imagino ser chaves. Paramos no número 1601.

— Onde estamos? – Finalmente quebro o silêncio.

— No meu apartamento.

Notas finais
Espero mesmo que tenham gostado. Até a próxima.