Saudade

21 Passos


Notas iniciais
Olá! Eu decidi escrever esse capítulo mais lentamente. Eu precisava da Emma em mim, me dei esse tempo e espero que gostem. Eu preciso agradecer muito. Recebi duas recomendações e isso me causou uma alegria indescritível. Eu já recebi mensagens com o desejo de recomendar, mas as pessoas não encontravam palavras para se expressar. Essas recomendações são de um importância imensa. Por isso quero dedicar esse capítulo as seguintes pessoas: SwanQueen11, ela foi a primeira a recomendar e usou a palavra Magnifica. Não consigo explicar o carinho que senti. BlueNymphet07, ela é a autora de Freak, gente a autora de Freak recomendou Saudade. Fiquei olhando para o computador como uma boba emocionada. Seu entendimento por cada parte da história tem muito significado pra mim. Também quero dedicar esse capítulo a Diana, ela é uma amiga recente que teve a delicadeza de criar a logo do George’s Café. Vou repetir, ela criou a logo do George’s Café. Eu tive um surto quando vi. Fiquei louca demais. Você é muito importante pra mim, Di. Eu sei que não respondi todos os comentários e quero me desculpar por isso. Eu estava focada nesse. Prometo que vou responder todos. Desculpe os erros. Estava ansiosa para postar e acho que não revisei de um jeito decente. Boa leitura.

Estou sentada na escada do prédio de trezentos andares. Estou no décimo sexto andar com as mãos trêmulas e suadas. Eu sei que vou esperar horas e quero que seja assim. Tento me lembrar da coragem que eu não criei.

O tempo que escorre em câmera lenta me faz lembrar momentos.

Me lembro da minha família de Boston chegando cheios de preocupações. Ruby e Killian simplesmente apareceram em Camden com seus braços à minha espera. Foi um dia difícil, eu os abracei como se minha vida dependesse daquele carinho. Senti meu corpo desmoronar nas quatro mãos que me seguravam com força.

Eles não falaram nada naquele instante, eu não precisava de conselhos, não precisava de vozes, eu precisava de uma caixa aconchegante, eu precisava do meu apartamento apertado cheio de pessoas que amo, eles me trouxeram isso. Eu contei sobre a visita da forma mais detalhada que consegui, o que não foi muito, as lembranças dos dias de Regina na minha cidade se borraram pelas lágrimas do esclarecimento. Eu estava enxergando suas escolhas e essa claridade ardia. Passei um ano inteiro com os olhos vendados, apavorada com que poderia estar olhando para mim.

Passei dias pensando em Malorie e seus olhos vendados assim como os meus.

Eles passaram um final de semana que me pareceu poucas horas, o abandono me devolveu um vazio que não percebi que tinha. A partida deles só aumentou o buraco que a partida da Mulher de Casaco havia deixado. Sinto falta deles, sinto falta dela. Foi difícil admitir isso.

Se eu estou pronta para esquecer?

Ainda não.

Depois de apenas um dia, percebi a egoísta que estava sendo com a Lily. Eu a estava usando para preencher um vazio que ela não conseguiria. Percebi que o lago raso em que vivo não é suficiente para o oceano que Regina me trouxe, eu só não sei se estou pronta para me afogar. Lily não me traria as palpitações, a ansiedade, a realização de um meio sorriso, a preocupação de um café puro ou a felicidade de um Cappuccino.

Lily nunca seria um macchiato.

Também foi difícil admitir isso.

A porta do elevador se abre e meu coração se aperta, respiro forte ainda sem saber o que fazer. Vejo uma sombra preste a dar um passo, meu corpo ganha uma leveza desconfortável, esfrego minhas mãos na calça surrada – foi a primeira que encontrei. – Um homem com seu terno alinhado sai e o alivio e a frustração se misturam.

“O que estou fazendo aqui?”

Escolhi um péssimo dia para conversar com minha, agora, ex-namorada. Estávamos no sofá do meu apartamento, eu estava com aquela sensação de invasão. Eu não deveria pensar esse tipo de coisa, sentir que minha namorada estava invadindo meu espaço, mas foi exatamente isso que senti. Me senti ser invadida por uma conhecida.

Não faz muito sentido.

Ela começou a me olhar com seu jeito apaixonado, uma paixão que eu sequer sentia para retribuir com um simples olhar. Ficamos nos olhando por um minuto inteiro, ela tentando desvendar minhas linhas e eu pensando nos motivos para estarmos ali.

Ela começou com “Eu..”, eu não podia permitir, eu não queria magoá-la. Eu decidi parar de me enganar e parar de usar a pessoa que me mostrou um caminho. Que provou que passos podem ser dados sem casacos pretos.

O problema é que não quero esses passos vazios.

Eu disse – Precisamos conversar.

Eu vi seu entendimento com a frase por seus gestos lentos, ela começou a se afastar antes de qualquer palavra dolorosa. Ela viu em meus olhos que meus verdes não eram dela. Ela estava apaixonada, eu estava apenas acomodada, Não podia continuar a me enganar. Ela não merece a ilusão e eu não mereço o contentamento.

Me sinto horrível por isso. O relacionamento com a Lily sempre foi de uma tranquilidade única e confortável, o problema são meus desejos por furações, por vulcões, por personalidades tempestivas, por delírios caóticos. O problema é minha fascinação pelas cores.

Eu sinto falta do vermelho.

Eu não sei ou não me lembro de como vim parar em Boston com apenas a roupa do corpo. Me senti envolvida por uma necessidade esmagadora. Me lembro de dizer aos meus pais:

— Eu preciso.

Me lembro de ouvir.

— Você precisa.

Eu estou esperando a mulher que me destruiu com esconderijos essenciais.

“O que estou fazendo aqui?”

O elevador se abre e não preciso ver – Ela chegou cedo demais. — Fecho os olhos e meu corpo se arrepia. Regina ainda me afeta sem suas palavras roucas. Eu sinto sua ansiedade, minha perseguição pela mulher que nunca me veria e sempre me viu, me ensinou a ver sem ela se mostrar. Conheço cada detalhe.

Eu não evito sorrir, como sempre fiz nas descobertas. Ela está tremendo, sua dificuldade no simples abrir de porta é encantador. Meu corpo é atirado em sua direção, ela ainda não me viu e eu perdi o controle sobre mim. Meus passos são lentos e eu só consigo sentir saudade de sua mania em jogar o cabelo. Ela suspira ao vencer sua luta particular e ver seu lugar quente. Sinto-me vagar pelos mínimos metros que nos separam. Não consigo enxergar o corredor amadeirado ou as plantas decorativas. Estou sendo levada. Apenas sendo levada. Estou tão cansada das justificativas, do passado e das fugas.

Simplesmente levada.

“Qual o tamanho do ódio que sente por mim?”

— Eu não odeio você.

Ela para ao me ouvir, se vira com uma calma assombrosa, acho que é o medo de eu não existir. Se eu fechar os olhos e entregar-me ao silêncio, que paira entre nós, eu posso ouvir o som dos seus pensamentos em combustão. Sua hesitação. Sim, ela hesita. Ela tem medo. Regina se tornara tão transparente para mim, que, se olhar com atenção, eu posso ver os sentimentos correndo por seu corpo, o arrepio dos pelos de sua pele. Sua hesitação. A hesitação que me revela muito mais do que as palavras são capazes de dizer. Ela me olha. E perco-me ao me ver em seu olhar marejado. O respirar fundo que infla seu peito. Ela me olha, pisca algumas vezes e, só então, ela me enxerga.

Nos olhamos por segundos inteiros e extensos no silêncio que sempre foi nosso. Aquela sensação de reviver a lembrança escondida e empoeirada. Aquela vontade de mexer, andar, tremer, mas o medo de perder essa realidade te impede. Estamos paradas revivendo cada momento. Ela respira fundo mais uma vez e dá um passo, meu corpo se mexe e me vejo recuar. Sinto aquele medo obscuro que te move por impulso.

Não quero sentir medo.

Ela caminha para trás desistindo da tentativa, observo seus passos lentos atravessando o limite do seu apartamento. Segura a porta e me espera. Ela me convida para entrar e ter uma conversa que não sei se existirá sem um letra sequer, sem o som que amei ouvir por tempos.

Ela espera.

Ela esperará até que minha decisão seja tomada. Ela sabe, eu sei, eu vou entrar.

Ela espera.

Ela espera meu tempo passar e minha coragem voltar. Ela espera meu medo do passado ser vencido, ela espera minhas cicatrizes pararem de latejar.

Ela espera.

Ela espera o inevitável.

Ela me espera com a paciência só minha.

Eu sinto o meu mover e o tempo para. Sinto meus músculos resistentes por cada passo dado. O primeiro passo significa uma decisão, uma desistência, uma volta para casa. Os poucos metros que nos dividem se tornam quilômetros nesse momento. Estou atravessando a distância que ela impôs, estou quebrando a parede que nos dividia, estou transpassando nossos temores.

Nossos.

Não existe palavra melhor...Nossos.

Ela sorri ao ver os cacos do meu esconderijo jogados atrás de mim.

Eu olho para o chão e sinto o instante. Sinto o atravessar. Sinto o passo em sua direção. Sinto a linha do antes e do depois. Sinto a porta trancada ser escancarada por ela. Sinto meu minuto mudar e o relógio volta a correr.

Entro

Passo ao seu lado e o cheiro me consome. A sinto tremer e fechar a porta. Ela gira a chave e sei que toda aquela insanidade vai voltar. Toda a necessidade da presença. Tudo que lutei para esquecer ou superar.

Nunca esqueci ou superei.

Não quero esquecer ou superar.

Paro no meio da sala que abrigou um beijo. Vejo a parede de vidro que recebeu meu toque. Vejo o sofá que mostrou tudo que ela via.

Ela me via.

Foi aqui, foi nesse espaço que fui tirada do meu melhor sonho e arrastada para minha realidade. Foi aqui que fui sugada e arrancada do calor de uma pele que nunca foi minha e sempre foi, que eu ouvi o barulho insistente do início do fim.

Estou estática recordando meu melhor e pior momento. Estou em uma dimensão de segredos revelados e beijos cedidos em um lugar distante demais. Fecho os olhos e me deixo ir. Me deixo ser levada para aquele minuto. Para aquele exato minuto. O minuto em que senti sua pele, em que a vi tremer pelo meu toque, aquele instante milesimal em que...

— Foi você!

Sou rasgada pela voz rouca que percorre meus traços. Eu consigo tocar as notas me envolvendo. Eu consigo sentir o cheiro de cada palavra deslizando pelas linhas da minha face. Eu consigo sentir o som entrelaçar meus cabelos. Consigo sentir meu peito gritar pelo desespero de uma rouquidão antiga. Não me importo com o significado de um enredo escrito em folhas envelhecidas. O tremor que sinto repetidas vezes se tornam primeiras.

Estou na sala que me abrigou com a voz que me cede das mais diversas formas.

“Foi você!”

Acho que estou perdida demais para entender essa afirmação. Me viro fingindo ter a coragem que ainda não criei. A encaro escondendo todo um significado dentro de mim. Tudo no apartamento me confunde. Os espaços preenchidos por ela. Imagino seu toque em tudo do lugar, imagino seus passos, seus diálogos.

— O copo...

Como é possível ela saber e entender? Nunca acreditei em seu conhecimento sobre minhas atitudes. Ela joga em mim tudo que escondeu. Preciso me concentrar para formar frases coerentes. Eu só penso em palavras desconexas.

Regina sempre me desestrutura.

— Eu não sabia o significado dele. — Nossos diálogos curtos são tão suficientes.

Começo a andar procurando o que não existe. Procurando uma distração, procurando algo que me centralize, preciso retomar o foco.

Foco.

Retomar meu foco? Qual seriam os motivos que me fizeram simplesmente acordar e caminhar? Que me fizeram pegar um trem? Que me fizeram visitar um café que sempre amei e pegar um copo? Que me fizeram sentar e esperar?

Não sei o que estou fazendo aqui.

Ela se mexe e minha atenção volta para ela. Não recuo dessa vez. Me enraízo para não me esconder. Mais um passo é dado, não sei o que Regina pretende, mas a saudade não me faz questionar suas intenções.

Passos.

Saltos.

O barulho dos saltos que conheço tão bem acusam a aproximação que parei de ver. Sua imagem se borra, não sei o que acontece dentro de mim. Ela finda nossa distancia, eu só quero chorar por cada parte de mim ainda a querer.

Ela toca meu rosto e o automatismo de fechar os olhos não é evitado. Inclino a cabeça aproveitando o calor de um ano atrás, posso ouvir um respirar forte, não sei se por alivio ou o quê. Ela só respira forte e trêmula. Não quero abrir os olhos e me enganar na ilusão que volto a ter.

O telefone toca.

O barulho me assusta pela lembrança, abro os olhos e as raízes que criei são cortadas me deixando recuar. Ela não se desvia de mim e o tormento gritante continua. Sua expressão de hipnotismo ainda está lá, seus olhos estão em mim.

O telefone ainda toca pedindo sua atenção que era minha.

Dou um passo amedrontado para trás. Olho o celular que me faz lembrar de pesadelos sonoros e momentos idênticos. Lembro das suas escolhas, dos seus motivos. Não me irrito dessa vez, só me entristeço por tudo que passei, por tudo que passamos. Por tudo que que desejei e por tudo que nunca tive.

Pelos desencontros ensaiados.

— Não vai atender?

Pergunto apenas para adiantar uma resposta que temo receber. É uma bobagem sentir medo. Pode ser uma irmã, um trabalho, um amigo, uma mãe. Mas se for um marido?

Eu quero passar por tudo de novo? Quero me entregar e cair? Quero me mostrar enquanto ela se esconde? Quero mergulhar e me afogar?

Eu quero me entregar e viver.

Quero me mostrar e encontrar.

Quero mergulhar e respirar.

Eu quero ser. Quero ter. Quero verdades e certezas. Quero amar. Quero sorrir.

Regina volta sua aproximação paciente. Sua mão volta para minha pele.

— Não, eu não vou atender. – Ela responde perto demais.

Ela me beija e a existência perde o sentindo. Não penso em resistir, nunca fui capaz desse feito. Minhas mãos seguram seu casaco preto com o desespero da perda, com a saudade aterradora que me engoliu por muito tempo, mas estava escondida demais para ser percebida.

Regina Mills me beija e o mundo muda de cor. Os tons beges de Camden são tingidos pelo vermelho de Boston. Me concentro no instante tentando gravar os detalhes na minha carne.

O tempo corre e me perco nele. Me perco em casacos, cicatrizes, impossibilidade e bocas. O tempo escorre sem a mínima importância, o lugar que estamos é esquecido e me sinto girar por fantasias que criei. Por várias vezes pensei ter delirado pela boca que tanto desejei e o primeiro encontro ter sido fruto de uma mente apaixonada. Hoje me agarro a cabelos com a certeza da realidade. Cravo unhas, não quero acordar, não quero voltar ao medo.

Ela solta minha boca e a vejo ainda de olhos fechados. Sua respiração descompensada entrega seus desejos, ela deseja esse momento, esse toque. Sua expressão aliviada me conta suas preocupações, os medos que pensei não existirem. Aquele simples gesto de soltar o ar, me mostra tudo que ela representa, todo o inalcançável, vejo a paixão em seu peito. Regina não se esconde, e não sei como lidar com essa verdade. Não preciso de detalhes para entender, está tudo ali. Seus olhos fechados enquanto sonha com um momento que pensamos nunca acontecer. Ela acaba de me mostrar tudo.

Regina Mills se mostra.

Quando decide enfrentar o terror do real, seus olhos castanhos me contam:

— Eu sinto sua falta.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Saudade está acabando e vou sentir falta de todos vocês. Bjos