Saudade
5 Entre Malories e Vivians
Notas iniciais
Saí daquela Pub me sentindo pequena demais. Me sentindo solitária, sozinha na porta de um bar cheio. Resolvi caminhar e ter mais tempo com meus pensamentos conflituosos. Aconcheguei minhas mãos no bolso da calça, olhei para o asfalto da mesma forma que ele olhava para mim e pude ouvir.
— Emma! – Ruby com seus saltos imensos, tentando se abrigar em um casaco preto, veio desfilando. Ela sempre desfilava.
— Pra onde vamos? – Pronunciou como uma pergunta trivial.
— Não precisa fazer.... – Não consegui terminar a frase.
— Ei, gostosas! – Killian, um amor como sempre. Se ajeitou no meio de nós duas com um leve cheiro de conhaque. – Morram de inveja.
Ele falou para as pessoas na fila que esperavam entrar em um Pub desagradável, enquanto nos abraçava.
— O que vocês estão fazendo? – Pergunto parada. Não quero atrapalhar o “lance” dos dois. Só quero caminhar.
— Você não pensou que te deixaríamos não é mesmo?
As vezes penso em que momento criei tanta intimidade e amizade com aquele moreno safado. Eu nunca o imaginei largando mulheres abertas por alguém. Por mim. Nunca pensei que meu vizinho de nariz quebrado, poderia invadir minha vida e deixar tudo mais azul. Eu apenas sorri e continuei a caminhar. Agora com meus amigos. Eu espero que eles nunca se afastem de mim. Preciso tanto deles.
Caminhamos por alguns minutos em silêncio. Um silêncio só nosso.
Ruby levanta uma nota de 20 dólares e quase a esfrega em mim. Killian faz o mesmo reclamando da injustiça do mundo e eu acho que ele vai começar a falar da fome mundial.
— Por que vocês estão me dando dinheiro? – Pergunto sem entender.
— Eu e a Rubs, sempre apostamos 20 pratas em quem vai chamar atenção da mais gata do lugar e com certeza você ganhou.
Eu não sei se comecei a rir de uma aposta ridícula, infantil e sem sentido, ou por eles acharem que eu chamei atenção de alguém.
— Vocês enlouqueceram. – Respondi sem pegar o dinheiro e ainda rindo daquela baboseira toda.
— Por favor, Emma! Temos que concordar que a Zelena é um escândalo e se não fosse por você eu teria ganho – Killian bufou da prepotência da morena – Mas a Regina...nossa! Ela não é uma mulher, ela é uma escola de samba inteira.
Eu gargalhei, gargalhei a ponto das pessoas na rua me olharem com aquele olhar amedrontado. Aquele medo de ser atacado por um bêbado no meio da noite. Eu sabia o que meus amigos estavam tentando fazer e eu os amo muito por isso. Eu não vi a atenção que eles pensam que ganhei. Só vi uma mulher casada mostrando todo seu amor revoltante pra mim. Em certos momentos, eu cheguei a cogitar que cada carinho era meu, para me mostrar sou felicidade.
“Que besteira a minha”
Resolvi entrar na brincadeira dos meus amigos, vizinhos e irmãos.
— Eu tenho bom gosto – Peguei as notas e caminhei distraída.
Amo aqueles dois.
Por aquele caminho, com aqueles dois, eu me senti bem.
Dormir foi quase impossível. Carinhos passavam pelos meus olhos, beijos me estremeciam e a gargalhada dela não me fazia delirar. Me senti magoada e derrotada por alguém que não me vê, não como eu queria. É a segunda vez que me sinto traída e parece que as coisas não mudam. Não reencontrar Robin, me fez apaga-lo da minha mente e fui tomada por uma surpresa ridícula quando ele a beijou. Cada carícia está marcada em mim e não consigo esquecer.
Não sei por quantas horas fiquei fitando as paredes tentando encontrar uma saída. No fundo, bem do fundo, escondido por incertezas, eu sabia que essa saída, só eu poderia dar. Só eu poderia escalar aquele lugar que eu me coloquei. Adormeci com o cansaço da noite.
Acordo e agradeço por ser domingo, assim posso fingir que ela não existe e posso parar de esperar por seus saltos ecoando em um cafeteria vazia. É a primeira vez que o domingo me traz paz e não a saudade chata. É a primeira vez que desejo que o domingo se prolongue para evitar um encontro que tanto desejei, que desejei por dias, semanas, meses e hoje eu só penso em evitar.
“As coisas mudam.”
Me arrasto para um banho relaxante, finalmente pronta e decidida. Sou surpreendida por uma voz que consegui reconhecer.
— Belo corpo, Swan.
— Zelena! – A ruiva morde uma torrada despreocupada, me olhando. Sorrindo.
— Por que você está aqui? – Acho que fui indelicada.
— Ela me ligou antes do que eu imaginava. – Ruby com seus sorrisos ordinários.
“Belo corpo. O que ela quis dizer com isso?”
Olho para baixo e estou de calcinha e com um top branco, transparente demais. Me sinto corar e ficar da cor das mechas de Ruby.
Minha amiga sorri da minha desgraça. Kill abre a porta sem bater e se senta normalmente à mesa, por algum motivo, eu ainda estou parada no meio da sala.
— Não sabia que hoje era dia de ver a Emma seminua. Se soubesse chegaria mais cedo. Me manda uma mensagem da próxima vez, Rubs.
Por que eu ainda tenho amigos? Não faz sentindo. Eu estava tão quente nos braços daqueles dois ontem e hoje eu só quero expulsa-los.
— Isso é normal por aqui? Preciso visitar esse apartamento mais vezes. – Zelena diz com uma intimidade que eu nunca dei. Ruby não poderia ter escolhido alguém melhor. A ruiva é tão debochada quanto ela.
Volto ao meu quarto e me visto de um roupão. Não tenho mais privacidade em meu próprio apartamento. Ouço a gargalhada da ruiva inconveniente e me lembro dela. Lembro das risadas para alguém que me aterroriza. A imagem daquele homem ocupa mais minha mente que ela. O carinho que ela dá a ele, os beijos.
“Isso vai passar.”
No fundo eu nunca quis superar a Mulher de Casaco. Gostava de me imaginar em seus braços. Agora, todas as vezes que penso nisso, vejo ele. Aquele inconveniente. Sou gentil até para ofender.
Aquele homem estragou meus sonhos felizes, poluiu o conto de fadas que construí por meses. Demoliu meu castelo branco com tons de vermelho. Destruiu minhas fantasias de um final feliz.
De qualquer forma, hoje eu desisti de ter alguém que eu nunca teria.
“Está tudo bem.”
Entrei no chuveiro e desconstruí todo meu mundo criado. Vi a água levar seus sorrisos, seus humores instáveis, seus casacos escuros, sua boca vermelha, seus macchiatos, seus cafés puros e seus cappuccinos.
Após tomar um café rápido com aqueles 3 idiotas. Volto para o quarto e penso em como será meu novo domingo.
Decido sair. Pego o primeiro livro que encontro e caminho. Caminho sem rumo, sem buscas. Despreocupada em chegar a um destino. Só caminho a procura do nada.
O domingo está ensolarado e sento no banco de um parque à beira de um lago. Ele está tão calmo, tão tranquilo e desejo absorver aquela tranquilidade. Olho para o alto e me sinto abraçada por arvores com suas folhas amarelo alaranjadas. Ajeito minha toca em mania, costume do gesto e começo a ler.
Após algumas horas, estou mergulhada em um romance cheio de entregas, declarações e felizes para sempre. Não é disso que preciso.
“Nota mental: Não ler romances.”
Volto para meu apartamento satisfeita pelas horas de distração. Meu antigo hobby se tornou minha válvula de escape para o turbilhão que vivia dentro de mim. Passei minhas horas livres abraçada por contos sombrios. Percebi como aquilo me fazia bem.
A primeira semana foi a mais difícil. Me forçava para não encarar a porta esperando quem eu não queria ver. Me recusei a esperar, me recusei a lembrar de sua voz rouca, de seu perfume doce. Me neguei a tudo relacionado a Regina Mills.
Meu sentimento de traição estava servindo para alguma coisa.
Caminhava para casa todas as noites sem esperar um carro preto me seguir. Não queria carros pretos. Esperava ansiosa as horas se arrastarem e finalmente chegasse o dia em que meu peito não apertaria por um cheiro conhecido. Meu corpo não se acenderia por uma voz rouca e minhas lembranças só se tornariam lembranças. Esperava que cada entrar de pessoas não me fizesse procurar por ela. Que passos semelhantes não me fizessem tremer. Esse dia chegaria. Eu tenho certeza.
Zelena começou a frequentar meu apartamento e eu comecei a me vestir antes de sair do quarto. Tenho a impressão que ela passava mais tempo lá do que eu mesma. Nós 4 tomávamos café da manhã quase todos os domingos, e eu aprendi a conhece-la. Ruby também.
Minha amiga sorria para aquele ruiva e eu via uma caminho ali. Via os olhos azuis da Cabelo de fogo se iluminar. Nunca a vi tão empenhada. Por mais que Zelena me fizesse lembrar a Sra. Mills, não posso negar que sua presença acendia a Cabelo de fogo. Depois de alguns dias eu me vi sorrindo e brincando com a mulher que invadiu meu apartamento.
Nunca tocávamos no nome Regina, não sei se Ruby a avisou dos meus delírios, ou ela entendeu o que aconteceu naquele sábado. Apenas não tocávamos no assunto. Eu não via os olhos raivosos e intenso da minha fantasia em Zelena. Não via o humor instável, nem o jeito grosseiro. Ela me abraçava ao sorrir e eu a adorava por isso.
Nem tudo são flores, agora havia mais alguém no meio da minha sala minúscula implicando com minhas roupas velhas e meu andar desajeitado. Implicava com minha falta de dom para cozinhar, com meus filmes, meus vinhos e meu cabelo.
Assistíamos filmes no sábado à noite, nós três. Quando Killian não estava no meio de algum par de pernas, ele participava e era tudo fantástico. Riamos, bebíamos e eu fugia para meu quarto no fim da noite para meu ritual diário.
Ignorar meus pensamentos. Estava aprendendo a conviver com a sensação e me sentia evoluindo com isso.
Eu encontrei uma forma de esquecer minhas obsessões antigas. Passei a frequentar aquele parque todos os domingos e por algumas horas eu a esquecia. Me envolvia em livros sombrios. Me arrepiava com sustos imprevistos e naquelas poucas horas, eu encontrava a solidão necessária para esquece-la.
Nada de romance meloso, apenas terror macabro e suspenses previsíveis.
Sento no meu banco que eu aprendi a chamar de meu, sentei nele nos últimos 2 meses e ele se tornou meu amigo íntimo. Não a vi mais, eu me fechava a essa possibilidade. Ela não voltou ao café. A sensação de abstinência me envolveu, trazendo aquela saudade. Abro meu livro pós-apocalíptico e me preparo para me afogar na história. Me preparo para esquecer por algumas horas.
O sol se move e eu não sei por quanto tempo estou às margens daquele lago. Estou presa demais nas páginas que me protegem. Até que algo me liberta.
Aquele cheiro...
Fecho os olhos e me desespero.
“Eu estava indo tão bem.”
Em que momento Malorie fugindo de criaturas que ela não pode ver me fez sentir o cheiro dela? Não faz sentido. Meu terror psicológico favorito não faria isso. Malorie não faria isso comigo.
Faria?
Aquele cheiro forte demais para ser ignorado entra em mim como navalha. Meu corpo arde pela saudade que trabalhei tanto para controlar. A saudade me rasga. Levanto os olhos e encaro o lago.
“Por que?”
Olho para o lado e a vejo. Ela está sentada do meu lado esquerdo, com seus fones de ouvido lendo um livro grosso que não consigo saber qual é. Arregalo meus olhos sem entender como estou vendo aquela imagem.
Ela não olha para mim e tenho certeza que estou alucinando. Estou vendo um fantasma moreno de batom vermelho. Encaro o nada em minha volta, procurando alguém que também esteja vendo aquela mulher com uma calça cáqui, uma camisa branca e casaco preto, de pernas cruzadas com toda sua imponência.
— Eu estou alucinando. – Falo para minha alucinação.
— Quieta, Swan! Eu quero ler.
Ela falou comigo? Minha alucinação falou comigo? É a primeira coisa que eu penso.
Me encolho e levanto um dedo devagar, estou tremendo. Em meio a tantos contos horríveis e terrores necessários, eu preciso logo ter uma alucinação com ela? Me aproximo pronta para tocar a fumaça que minha mente criou.
— Não! – Ela fala ainda sem me olhar.
Recolho minha mão como uma criança com medo do cachorro bravo que rosna para ela.
“Ai, minha nossa! Eu não estou alucinando”
Qual o meu próximo pensamento?
“O que diabos ela está fazendo aqui?”
Este é o meu lugar! Meu momento! Meu refúgio! Meu esconderijo! Ela precisava vir logo aqui? E como se aqueles meses não tivessem se passado, eu me rendo aquele calor, aquele cheiro.
Solto um sorriso e volto a acompanhar Malorie correndo das coisas que não pode ver. Percorro palavras nas páginas brancas e consigo ver Malorie com seus olhos vendados, indignada por um simples cheiro expulsar todas as minhas certezas.
Tento me concentrar com Regina ao meu lado, a centímetros de mim. Tento voltar para dentro do meu livro daquele domingo. Decido apenas aproveitar aquela situação e nós duas ficas ali, paradas, lendo nos nossos próprios mundos, sem nenhuma palavra com sempre fazíamos.
O conforto da normalidade me acolheu e eu apenas sorri.
Termino meu livro, me levanto e vou embora. Sem me despedir, sem olhar para ela. Ainda estou magoada.
Sabe aquele seu namorado ou namorada, aquele seu caso que faz uma besteira e você resolve não responder às mensagens? Você só ignora?
Estou me comportando assim. Regina me magoou e estragou nosso relacionamento ilusório. Ela não pode simplesmente voltar e esperar que tenhamos nossas conversas mudas. Eu aproveito sua presença, mas ela não precisa se satisfazer com minha rendição.
Acho que fiquei louca. Estou conversando comigo mesma enquanto caminho a deixando para traz. Posso sentir os metros aumentando e levando seu perfume para longe. Eu a estou deixando e espero que continue assim.
Não conto sobre meu encontro para Ruby, Killian, Zelena ou qualquer outra pessoa que tenha resolvido frequentar meu apartamento no último mês. Escondo esse detalhe apenas para os meus pensamentos noturnos.
Durante a semana, eu trabalho com sorrisos contidos e ainda evito olhar para fora. Meu coração parou de disparar cada vez que a porta se abria. Continuo evoluindo.
Os domingos continuam me acalmando e volto para meu banco. Desta vez vou mergulhar no arrebatamento com a Vivian. Respiro fundo, olho para o lago, que eu agora chamo de Ted – Eu gosto no nome Ted. – Respiro fundo e começo.
Desta vez o sol não se móvel tanto. Eu sinto o cheiro dela mais cedo. Sinto seu calor no meu banco mais cedo. Novamente ela estava com seus fones e seu livro grosso.
Ela sentou sem falar nada. Começamos a ler, fazendo companhia uma para outra. Era reconfortante. Por horas ficávamos ali e não me incomodava.
— Swan...
Depois de quase 3 meses, eu viro, a encaro eu volto a me ver em seus olhos. Eu volto a entrar neles. Eu me permito olhar e ficamos assim por segundos demais. Nos lembrando de um passado recente.
– Por que um livro chamado Vivian Contra o Apocalipse?
“Acho que teremos nossa primeira conversa real.”
Penso.
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