Saudade

6 Meus Trinta Dias


Notas iniciais
Eu cheguei. Esse capítulo está um pouco maior que o normal. Eu queria explicar tudo. Foi bem difícil e espero que gostem e que compreendam. Eu estava muito ansiosa em escreve-lo, então, me desculpe pelos erros. Boa leitura

— Como você está, Srta. Swan?

Pergunto para um copo que continua no meu escritório. O encaro imaginando conversar com uma loira magoada. Me sinto no filme náufrago. Dialogando com um objeto inanimado a beira da loucura. Esperando uma resposta que só ocupa minha mente.

— Você não vai mais falar comigo, não é mesmo? – Pergunto ao copo.

Solto um sorriso triste e volto aos meus processos. Alguns dias se passaram e parei de contar no sexto. Naquele sábado, naquele Pub, eu decidi partir o coração de alguém distantemente importante e isso está assombrando meus pensamentos.

Não me sinto arrependida, me sinto culpada. Eu intencionalmente machuquei alguém e isso está acabando comigo, mas não vou voltar atrás. Foi a melhor decisão.

Rose bate na porta e anuncia minha irmã. Estava imaginando quando Zelena viria me questionar.

— Zel..

— Mills.. – Mills? Essa conversa não será boa. Zelena só me chama de Mills como vai bancar a irmã mais velha. E eu nunca gostei disso.

Ela se senta à minha frente, cruza as pernas como uma boa mulher da família Mills e espera. Nos encaramos por um tempo e eu cedo.

— O que você quer saber?

— O aconteceu sábado? – Sábado...

— Nós saímos, bebemos, você encontrou uma mulher, como sempre. Você resolveu ir atrás dela e eu fui para casa. Esqueci alguma coisa? – Ela vai ficar furiosa.

Zelena fecha os olhos, claramente reunindo uma calma que já havia a abandonado antes mesmo de entrar na minha sala. Respira fundo e continua.

— Eu vou perguntar de novo, Regina. O que aconteceu sábado?

— Eu sei que não é essa a pergunta que quer me fazer. Pergunte logo, Zelena.

— Quem é a Emma pra você? – Emma...claro! Direta como sempre.

— Ela servia meu café todos os dias. – Minha evasão sempre a irritou. Não sei o motivo de não me abrir. Acho que é só medo de não ser compreendida.

— Regina, eu vi. Eu vi como você olhava pra ela.

— Você não viu nada, Zelena!

— Não minta pra mim! – Ela bate a mão em minha mesa e eu sei que os gritos começarão.

— O que você quer de mim?

— A verdade.

— Ela chamou minha atenção, foi só isso. Ela é apenas alguém que conseguiu o meu olhar.

Minhas desculpas irritam mais minha irmã. Eu sei que percebeu meu desconforto. Eu sei que ela viu o que eu sempre tentei esconder. Eu baixei a guarda por tempo demais. Deixei que me vissem vulnerável e sei que pagarei por isso.

Ela respira novamente, contendo a revolta que sei estar ali. Espera por alguns instantes, pensando como continuar. Eu só quero que ela pare de me questionar e vá embora.

Ela não vai.

— Quando exatamente você planejou partir o coração dela? Você passou a noite pensando nisso? Você sorriu pra si ao ver os olhos dela manchados? Você imaginou como seria prazeroso arrancar a felicidade dela? Pensou em como seria bom ver sua crueldade nos olhos dela?

— CHEGA!!! – Eu não podia admitir ser acusada dessa forma. Ser acusada de gostar do que fiz. – Você não sabe o que está dizendo. Você não sabe o que eu senti ao fazer aquilo. Você não sabe o que eu sinto, Zelena.

— Então me diga, Regina! Porque eu sei que ela é mais do que isso. Me convença que você não está devastada por aquela loira. Me explica o porquê de você não estar fazendo nada. De você estar imóvel, estática.

— Eu sou casada! Eu tenho um Marido!

— Você tem um idiota! Se você tem um marido, por que esse copo ainda está aqui? – Ela viu o copo. Ela o reconheceu e minha proteção caiu. Estou cansada demais para continuar com esse teatro.

Respiro fundo, tento apagar o vulcão que se acendeu com aquelas afirmações.

— Zelena, eu preciso que você preste atenção no que eu vou falar e só tente me entender. Eu sou casada há 10 anos, Robin pode ser um idiota, eu posso estar em dúvida sobre o amar ou não, posso estar em dúvida sobre tentar ou não, mas você espera que eu acabe com a estabilidade do meu casamento por uma aventura loira? Você espera que eu traia um compromisso por alguém que eu não conheço? Por alguém que eu posso odiar em um mês de convivência? Se imagine no meu lugar. Você foi casada com a Glinda por 7 anos e seu casamento foi uma merda, eu vi a sua dor, eu vi a sua vontade de tentar. Se veja naquela casamento fracassado, assim como o meu. Agora imagine você conhecendo a Ruby. Você sentindo uma atração arrebatadora por ela. Você quer que eu acredite que você simplesmente jogaria tudo para alto sem pensar? Sem ficar confusa se deveria ou não se separar? Você quer que eu acredite que não pensaria se deveria fazer seu casamento dar certo? Que só largaria tudo em um belo dia e correria em uma estrada de tijolos amarelos para encontrar seu amor? Amor não, só por alguém que você conheceu por acaso e se sentiu atraída. Alguém que você nem sabe se conseguirá suportar um domingo inteiro. Alguém que você não conhece. Você espera que eu acredite que não ficaria confusa em o que fazer? Sério, Zelena? Esse alguém é a Emma pra mim. Alguém que eu me sinto terrivelmente atraída, mas que eu não conheço, eu não posso largar tudo o que eu construí sem me sentir confusa e no momento eu estou confusa. Eu só quero que você entenda a minha dúvida, meus conflitos. Você viu a magoa nos olhos da Emma, mas viu nos meus? Você me olhou a ponto de ver que eu sentia algo por ela, mas viu como eu estava me destruindo ao fazer aquilo? Você não me viu, Zelena.

— Eu entendo sua dúvida, eu só não entendo sua decisão. Eu concordo que ela pode não ser ninguém. Que no final das contas, vocês possam não se dar bem, que você se arrependa, que seja uma paixão e nada mais, uma aventura como você mesma disse, mas ela pode ser o amor da sua vida. O que eu não entendo, Regina, é você ter descartado essa possibilidade tão rapidamente.

— Não foi rápido, Irmã. Esse copo... – Aponto para o copo do aparador da minha sala – esse copo está aí há um ano. Tem um ano que eu entro todos os dias nesta sala e o vejo. Tem um ano que estou me afogando.

A surpresa domina a face da ruiva. Ela finalmente vê as consequências da minha decisão.

— Por que você não me contou que ela fazia isso com você? Que ela estava tão fundo?

— O que eu te diria? Eu decidi ignorar tudo pelo meu casamento. Eu decidi aceitar que isso era uma bobagem da minha mente. Que isso não passa de uma crise de carência. Eu tomei essa decisão e preciso arcar com as consequências. Eu fiz o que eu fiz no sábado, porque eu decidi a obrigar a me esquecer. Eu tomei uma decisão que ela não tomaria. Emma é nova, vai encontrar alguém e eu serei só uma cliente que ela se encantou um dia. Eu vou aprender a conviver com a dúvida se daria certo ou não.

Respiro fundo após meu discurso. Não queria me abrir dessa forma, mas ouvir Zelena me acusar foi difícil demais. Ficamos nos olhando por minutos. Eu via a pena que nunca quis ver nos olhos dela. Eu não preciso que sintam pena da minha decisão.

Ela levanta, assente algo que só nos duas entendemos e vai até a porta. Olha meu aparador.

— O copo não vai ajudar. – A voz da minha irmã agora estava cheia de dor e compreensão.

— Eu sei.

Ela sai e eu agradeço por agora existir alguém que saiba toda a minha verdade. Fingir o tempo inteiro é exaustivo. Fingir que não sinto o que ocupa todo meu corpo é desesperador. Deixo meu corpo se acomodar a minha cadeira e o sinto relaxar. Olho para o copo, levanto rápido, o pego e começo a tremer. Vou até a lixeira.

Joga-lo fora significaria desistir de cada pensamento, significaria acabar com meus monólogos diários, significaria me livrar de uma amiga que ouviu cada pensamento conflitante e não me sinto pronta para isso. Me senti pronta para forçar a Srta. Swan a ir, mas não me sinto pronto em tira-la da minha sala.

“Arcar com as consequências.”

Isso será tão difícil.

Passava na porta daquele café todos os dias e todos os dias eu a olhava. Todos os dias ela evitava olhar pela vitrine com uma figura de xícara esfumaçada estampada. Imaginei que estivesse evitando me ver.

No fundo ela sabia que eu passava e só resolveu ignorar. Eu sorria pela evolução dela e pelo meu fracasso. Meus pensamentos não diminuíam e as lembranças daquele sábado me assombravam.

Minhas consequências estavam grandes demais.

A saudade subiu de nível e eu passei a me sentar todos os dias em uma mesa na minha cafeteria favorita. A mesma cafeteria que me fazia atravessar a avenida evitando um encontro. Nesta mesa, do outro lado da rua, eu a via.

A via sorrir para seus novos clientes. A via sendo visitada pelo amigo cafajeste e pela nova aventura da minha irmã. A via gargalhar por uma piada que eu imaginava. – como eu desejava ouvir aquele gargalhada. — A via envolvida por seus livros, com seus óculos grossos de armação preta. – Ela ficava encantadora de óculos. — Via seus olhos brilharem a cada momento esquecido. A cada dor apagada. Me sentia orgulhosa dela.

Em uma quarta-feira, ela tropeçou no chão molhado. Ficou estirada no chão, sorrindo de si mesma com seu chefe de cabelos grisalhos. Eu sorri com sua felicidade inocente.

Apenas uma avenida nos separava. Aprendi a me alimentar daqueles momentos.

Hoje eu estou em minha mesa, sendo servida por alguém que não é ela. Vendo minha decisão preparar cafés e sorrir animada. Sinto uma pontada de inveja de qualquer um que entra e pede algo. Minhas semanas se resumiam a esses momentos e tudo se tornou igual. Todos os dias naquela mesa.

Hoje algo diferente acontece.

— Ela adora ler. Gosta de filmes românticos e melosos, chora em todos. Gosta do silêncio. Gosta do vazio. Gosta de uma touca cinza horrorosa. Gosta da chuva, gosta dos dias nublados, adora o trabalho dela. Ela é de Camden, tem 26 anos. Gosta de pizza, hambúrguer e tudo do mais calórico que você possa imaginar. Gosta de uma combinação estranha de batata frita com sorvete de creme. Está em Boston há 4 anos. Quando era adolescente, veio em um passeio com os pais e se apaixonou. Prometeu voltar. Seus melhores amigos são Ruby e Killian, eu desconfio que são seus únicos amigos. Eles cuidam dela e ela cuida deles. É introvertida e contida quando conhece alguém, depois se abre em uma intimidade fraternal. Adora piano. A primeira vez que a vi ouvindo Nocturne Opus 9 n° 2 de Chopin, ela estava sentada na janela chorando como uma criança, olhando os carros embaçados. Killian e Ruby estavam andando tranquilamente pelo apartamento e eu não entendia a tranquilidade que eles sentiam. Depois me acostumei com suas lágrimas de emoção. Spring Waltz também a destrói. Ela sente um prazer única em ser destruída por suas músicas. Acho que é isso até agora.

Ouvi minha irmã contar os hábitos da Srta. Swan ainda a olhando. Tentava imaginar suas lágrimas ao ouvir música clássica. Sorri com a delicadeza dessa cena.

— Por que está me contando isso?

— Você disse que não a conhece. Disse que tem medo de se aventurar em um beco sem saída. Eu respeito isso, respeito seu comprometimento. Só estou te ajudando a conhecer essa loira que você não consegue soltar. — Zelena estava certa. Não consigo me soltar, não consigo deixa-la ir. – Eu fui ao seu escritório e o aquele copo ainda está lá. Você não consegue desistir dela e eu não vou desistir de você. Se você não quiser se aproximar, vou entender. Só te peço que se dê uma chance. Não quero que traia aquele babaca, só quero que a conheça.

Respirei fundo uma vez absorvendo aquelas verdade. Vi minha irmã se levantar e começar a se afastar, me deixando ali sozinha com Emma.

— Ela vai ao Boston Public Garden todos os domingos.

Soltou aquela frase e se foi. Deixou no ar uma decisão que eu precisava tomar. Começar ou desistir de vez desta confusão.

Fui para casa, para meu apartamento pensar.

Pensar nos dias que passei naquela mesa do outro lado da avenida apenas olhando o que desisti há um mês. Minha desistência não aliviou meu coração. Eu a feri e isso me feria mais que qualquer rejeição. Eu me importava e precisava aceitar isso.

Meu casamento ainda era importante e não posso ignorar esse fato. Preciso decidir por qual caminho seguir. Passei a noite acordada ouvindo o respirar pesado do meu marido. Vi as frestas se iluminaram pelo brilho do sol.

Minha decisão não veio naquela noite, nem na noite seguinte. Meus dias se tornaram uma roleta de opções e eu precisava escolher.

O copo ainda estava lá. A mesa do outro lado da avenida ainda me abrigava e observa-la trabalhar ainda era meu passatempo favorito. No segundo mês daquela rotina dolorosa, eu tentei escalar os muros que construí. Eu queria vê-la. Saí do trabalho, andei até aquele café. Meu caminhar despreocupado escondia minha ansiedade.

“Eu só preciso de um café.”

Coloquei a mão na maçaneta fria e congelei. Me sentia uma egoísta por tentar aliviar minha saudade, atrapalhando o caminho de espinhos que ela percorria para superação. Ela ia me esquecer e eu não podia dificultar isso. Foi minha escolha ser assim.

As consequências....não imaginei que seria tão complicado. Não imaginei que demoraria tanto.

Desta vez eu não a observei. A decisão precisava ser tomada, eu não conseguia mais viver sobre esta muralha de dúvidas.

O domingo chegou e eu criei uma meia-decisão. “Ela vai ao Boston Public Garden todos os domingos”. Me deixaria conhece-la. Se eu me apaixonar, outra decisão deverá ser tomada. Não agora. Eu protelo tão descaradamente, mas prefiro fingir que estou dando uma chance para mim.

Pego meu carro e vou para Boston Public Garden.

A procuro ansiosa. Passo 40 minutos procurando uma loira naquele lugar de uma imensidão colorida, até que eu a encontro. Paro ao lado dela, ainda de pé. Ela não me vê, está debruçada em um livro.

“Caixa de Pássaros...Título Curioso”

É muito bom estar tão perto, sem avenidas, mesas, vitrines, clientes, maridos, amigos. Me sento fingindo desinteresse. É engraçado seu susto quando percebe minha presença. Ela tenta encontrar uma explicação.

— Eu estou alucinando.

Quase estrago meus planos de indiferença. Minha gargalhada fica contida em uma frase.

— Quieta, Swan! Eu quero ler.

Ela tem um jeito juvenil em ver as coisas. Percebo pelo canto do olho que vai me tocar.

“Ela acredita mesmo que sou uma alucinação?”

— Não! – Ríspida. Eu fui ríspida, assim ela saberia o teor da minha realidade.

Ela se recolhe e volta para seu mundo. Eu finjo ler um livro qualquer que achei no carro. Eu só queria sua companhia e a tive por algumas horas. Os quase 3 meses foram dissolvidos por um calor desejado. Mais desejado que aceitava. Eu passei aquelas horas observando discretamente seu movimentar, suas expressões tensas com um livro que não conheço.

Emma Swan é transparente para mim.

Ela fecha o livro, se levanta e vai embora. Sem ao menos lançar um olhar zangado. Passo mais alguns minutos ali, vendo aquele lago calmo, pensando se foi uma boa ideia me reaproximar. Suspiro derrotada. Me sinto várias vezes derrotada com o assunto Emma. Vejo a impotência que nunca senti e a culpa era toda minha.

Culpa.

Sentimento que nunca me assolou. Magoar alguém nunca me incomodou, mas magoa-la é aterrorizante. Estou sendo apresentada a várias sensações por uma garota de 26 anos, de Camden no Maine, que gosta de Chopin. Eu, Regina Mills estou encantada com por garota que não tem nada demais. Apenas um sorriso franco e olhos que me desmontam.

É a primeira vez que sou desmontada. Fecho os olhos e sinto o vento me acarinhar.

Vou embora desesperançosa. Preocupada que sua rejeição me tome e eu insista em acreditar na minha mentira. Que eu volte apenas a encarar um copo de café e a sentar em uma mesa sozinha.

A semana começa e eu ainda estou preocupada. Ainda estou encarando. Resolvo fazer um teste e sou terrivelmente reprovada. Tento não olhar para o café, tento não sentar à mesa, tento não olha-la todos os dias. Falho em todos eles.

Meu marido se torna minha última prioridade e agradeço aos céus por sua viagem a Tóquio. Terei 30 dias inteiros para mim, para minhas decisões e minhas escuridões. 30 dias sem olha-lo com dúvidas do que fazer. 30 dias para tomar a decisão da minha vida. 30 dias para conhecer Emma Swan.

Me despeço do meu “amado” marido o levando ao aeroporto. O agradeço mentalmente pela oportunidade de aproveitar sua ausência. Pela oportunidade em saber se ele me fará alguma falta.

Eu quase sinto remorso por engana-lo. Não menti ao dizer da minha confusão em tentar fazer meu casamento dar certo ou mergulhar em um mar amarelo com o centro verde, mas o estava enganando mostrando um inconformismo por sua viagem. Eu preciso desses 30 dias como preciso do ar.

Minha decisão será tomada e isso é uma promessa.

Que os 30 dias comecem.

A semana não foi tão difícil quanto imaginei. Estava empolgada por descobrir meus caminhos. Em descobrir qual será meu novo ou antigo caminho.

Não entro no café, mesmo sentindo uma vontade dolorosa. Quero momentos silenciosos. Momentos novos. Não um encontro repetido com frases prontas.

Eu quero os domingos.

Acordo com minha ansiedade crescente. Caminho pelo meu apartamento, o arrumo, faço tarefas que odeio. Analiso processos que não vejo, tomo um banho demorado, apenas para esperar. Olho os ponteiros do relógio lento. Eles brigam comigo, me desafiam e eu venço. Pego as chaves do meu carro e saio com meu livro qualquer. Ele não será lido.

A encontro no mesmo banco. Sozinha como eu esperava. Sento como da última vez, em silêncio, e como da última vez, finjo ler.

Esperei a semana toda por aquele momento e preciso de mais. Preciso de mais que um corpo por perto. Preciso de palavras, preciso da sua voz, da sua atenção.

— Swan...

Depois de 3 meses ela me olha e eu me arrepio por sentir tanta falta daquele olhar. Percebo que meus sentimentos são maiores e piores que eu imaginava. Minha respiração reagiu àquele olhar, aqueles olhos que um dia foram meus, mas agora estão cheios de magoas. Não esperava ver outro sentimento naquelas orbes. Eu sabia, eu os provoquei. Consegui sua atenção sem um motivo pertinente e improvisei uma conversa.

— Por que um livro chamado Vivian Contra o Apocalipse?

Não nego minha curiosidade pelo título. Ele só não precisava ser jogado naquele momento.

— Coração partido – esse é sua resposta. Direta e seca.

Me controlo para não esboçar o conhecimento ao ouvir aquelas duas palavras.

— Poderia ser mais clara?

Ela respira forte, se preparando para enfrentar seus demônios. Eu sou seu pior demônio.

— É uma distração.

Tira seus olhos de mim voltando ao livro. Minha vontade de rir por sua tentativa de me ignorar volta. Eu estou preparada para isso.

— Swan... – Eu insisto e ela volta pra mim. – Poderia me explicar?

Sua incredulidade é quase cômica. Ela procura respostas em mim. Sempre fui boa em me esconder dela.

— Eu tive o coração partido recentemente. – Doeu – Eu precisei de uma distração. Por mais que eu ame um romance, um “Felizes para Sempre”, não é disso que eu preciso agora. Eu preciso de Vivian tentando encontrar seus pais. Atravessando o país, sendo perseguida por lunáticos religiosos enquanto o mundo se desfaz pela ignorância. Não preciso de amor, preciso do caos. Por isso Vivian Contra o Apocalipse.

Não pude demonstrar o que aquelas palavras me fizeram, não pude demonstrar como elas me invadiram em culpa.

Novamente culpa.

Me refaço sem tirar os olhos dela, sem mudar meus movimentos, sem respirar. A enganando com um tranquilidade que nunca existiu em mim, não depois que eu a conheci. Não com a distância.

— E está funcionando?

— Acho que estou no caminho certo.

— Posso perguntar o que aconteceu? O que te fez procurar a Vivian?

Posso ver sua dúvida em me contar. Sua boca treme ao tentar encontrar as palavras certas. Ela está tentando explicar o motivo da dor para quem a causou.

“Estou sendo covarde.”

— Me vi iludida por alguém que não me via. Quando acreditei que esse alguém realmente não me via, senti meu coração partir.

Agora, sou eu quem precisa escolher bem as palavras. Uma tarefa difícil para quem não consegue pensar.

— O que esse alguém fez para você acreditar que não era vista?

Eu sei que estou deslizando em campo minado.

Curiosidade. Necessidade.

— Nunca me olhou de volta.

— Você tem certeza?

Ela se surpreendeu, eu pude ver. Ela se surpreendeu bem na minha frente. Estamos brigando violentamente com palavras escolhidas. Ela está me contando como se sentiu devastada e eu estou a apresentado seus enganos. Nossa conversa estava cheia de verdades em um rio de entrelinhas.

— Eu preciso crer em alguma verdade – Ela tremia e eu me continha.

— Suas verdades podem não ser reais.

Eu exagerei, eu atravessei uma linha imaginária, um limite que deveria ser respeitado. Voltei ao meu livro grosso não lido e a deixei se afogar em pensamentos.

Emma ainda me olhava tentando enxergar o que eu tentei mostrar.

— Por que está aqui, Regina?

Foi corajoso da parte dela. A Srta. Swan nunca me fez uma pergunta direta, uma pergunta que não envolvesse meus pedidos, e eu tenho a certeza de ter consigo tira-la da sua própria Caixa de Pássaros.

Eu olho para o lago, peço coragem e me viro lentamente para os olhos dela.

— Estou fazendo companhia para uma amiga que está triste e acreditando nas minhas próprias verdades.

Ela sorri confusa e nossa conversa acaba. Nosso silêncio conhecido e confortante volta e me sinto bem. Me sinto bem por estar ali. Sempre me senti bem com ela, mesmo no calor do nada.

Alguns minutos se passam e ela consegue processar minha presença.

— Seja bem-vinda ao meu banco. Este é o Ted.

Notas finais
Eu consegui explicar tudo? Quero saber o que acharam. Até a próxima.