Saudade
13 14 de Outubro
Notas iniciais
— Idiota! Idiota! Idiota!
Saio do escritório daquela mulher que me dominou por tanto tempo, irritada. Não só irritada, eu estou frustrada, chateada, magoada por cobrar algo que nunca tive direito. Em que momento eu me deixei levar assim? Eu realmente acreditei conseguir algo?
Expectativas.
Essa palavra está vagando em minha mente e aumentando minha ira.
Ando encarando o chão apressada. Passo pela loira abusada e vejo a porta que me libertará. Quero sair desse lugar, dessas paredes que me mostram tudo que nunca vou ter. Quero fugir e me esconder de um mundo que me agride com suas opções inalcançáveis. Com escolhas que não poderão ser escolhidas.
Regina Mills se tornou um vestido lindo em uma vitrine de uma loja chique. Caminhei em sua direção, cega pela conquista, pela vontade, pelo desejo e topei com seu vidro espesso demais para quebrar.
Toquei no vestido que nunca será meu. Transpassei o vidro.
Esse pensamento me entristece pela decepção.
Invado o elevador e brigo com o botão “T”. Aperto várias vezes na ilusão que minha insistência surtirá algum efeito.
“Por favor, fecha!”
As portas de metal começam a se fechar e eu posso ver a porta escrita Regina Mills se abrir. O corredor de mesas ocupadas, cadeiras deslizantes, computadores planilhados, telefones estridentes e pessoas ocupadas, dividiam nosso olhar. Eu a olhava furiosa e ela me encarava com a despedida que nunca quis ver.
As portas finalmente batem e eu desabo. Encosto no espelho que tentou mostrar meu semblante arrasado e deixo meu corpo deslizar até o piso. Minhas lágrimas de tristeza e raiva me embaçam.
Sinto meu corpo tremer, não sei se pelos espasmos das lágrimas ou pelo balanço do elevador. Estou furiosa por ter criado planos, criados amanhãs, criados felizes para sempre. Estou furiosa por ter deixado minha fantasia aparecer, por ter cedido, por acreditar que conseguiria alcança-la. Toda minha raiva está saindo do meu corpo por gotas vermelhas.
“Idiota!”
Saio do prédio ao lado do meu trabalho e ando ainda apressada. Quero minha cama, meus lençóis, meus livros. Quero o conforto do conhecido. Quero meus dias antes de bocas, cabelos, casacos, cafés e beijos.
Quero minha vida antes de Regina Mills.
Não percebo em qual rua caminho ou quais esquinas dobro. A realidade se foi quando ouvi a frase “Eu preciso que você vá e que não volte mais”.
Rejeição.
Entro em meu prédio sem ver nada. Subo as escadas sem perceber os detalhes. Detalhes são para dias bons. Hoje eu só reparo o escuro. Não vejo as portas numeradas, nem a distância percorrida. Abro o número 204 com brutalidade sem me importar com quem está hoje.
—Emma, o que aconteceu?
Ignoro a voz que acredito ser da Ruby. Não quero reviver as frases. Tranco a porta do quarto e procuro o que não sei. Caminho pelo quarto pequeno. Acho que estou procurando encontrar uma explicação entre a estante e escrivaninha.
Olho para tudo que foi jogando em meu momento feliz e agora o mesmo tudo está desorganizado pra mim. Começo a pegar roupas, folhas, livros, revistas, jornais. Tento coloca-los em uma ordem complexa, apenas para ocupar uma mente cheia de “nãos”.
Escuto batidas na porta, nesse momento eu já havia escondido minha racionalidade no fundo de um subconsciente triste. Olho o pedaço de madeira sendo agredido, tentando decidir.
“Ainda não”
O relógio gira e para no número nove. Está escuro e ainda estou trancada. Estou encolhida na cama pensando sobre meu dia, olhando o teto rachado e elaborando um plano de como voltar a respirar.
Ruby desistiu de tentar, sei que está esperando preocupada do outro lado, minhas explicações.
Respiro fundo e apenas aceito. Minha raiva e indignação não mudarão os fatos. Tento me lembrar dos dias em que meu peito não se apertava. Sinto falta daqueles dias, quando tudo era mais simples, as horas passavam mais rápido e eu conseguia sorrir com as folhas caindo no outono.
Finalmente saio do quarto e encontro minha melhor amiga sentada no sofá me esperando. Ainda não sei se quero conversar.
— O que aconteceu, Emma? Por que chegou tão irritada?
— Regina.
Eu não preciso continuar nem dar explicações mentirosas por eu não querer falar. Ela me conhece o suficiente.
— Quer beber um vinho ruim, assistir um filme mudo e inventar os diálogos?
Não consigo evitar o sorriso, Ruby me conhece como ninguém, sabe que preciso de uma distração forte. Distração que não ajudará, mas diminuirá minha tensão pelo dia.
Tomo um banho para me preparar. Ouço murmúrios e imagino que seja Ruby desmarcando algo com Zelena. Hoje eu preciso dela. Preciso rir de cenas inventadas com alguém que eu amo, que sempre esteve comigo.
Demoro sentindo a água levar minhas ilusões. Deixo meu peito acalmar e minhas certezas assentarem minha mente. Estou me forçando a aceitar uma realidade que sempre vi, mas se perdeu em meio a beijos apaixonados.
Nos jogamos no sofá. A pipoca está pronta e o vinho que reclamaremos está na taça. A morena de mechas vermelhas pega um DVD na caixa empoeirada. Estamos prontas.
A porta do apartamento é aberta com urgência.
— Queridas, cheguei!
Eu estava com tanta saudade dos nossos momentos juntos, nós três. Eu andei ocupada entrelaçada por expectativas vagas, negligenciando a importância dos meus antigos dias. Meu foco precisa mudar, eu preciso mudar. Preciso parar de pensar na mulher que não terei. Minha raiva diminuiu com meus planos de futuro.
As horas com os dois me trazem momentos de tranquilidade, sorrisos fáceis e gargalhadas ouvidas. Sinto seus abraços, sua cocegas e tudo isso vem para tentar uma distração que demorará a surtir o efeito desejado. A companhia é o suficiente.
A noite termina mais relaxada que o imaginado.
Eu os amo muito.
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Os dias passam, minhas certezas começam a diminuir e minha saudade volta a incomodar. Me sinto cansada desse jogo da morena que me habita, mas não consigo fingir que toda a receptividade dela não me toca. Tudo que eu quero é esquecer.
Quero caminhar por uma praça no fim da noite e sorrir da minha inocência na época em que fui apaixonada por uma mulher casada e intocável. Quero o momento em que mal vou acreditar que sofri tanto por quem não deveria sofrer. Quero a incredulidade por me ver sentindo tanto por alguém que nunca teria.
Quero poder falar “Na época...”.
Quero me sentir patética por um dia ter desejado Regina Mills. Hoje me sinto patética por ainda desejar.
Quero as estações passando rápido. Quero olhar o relógio no final do dia e reclamar em como tudo tem passado depressa.
Quero acordar e pensar no meu dia, em um livro, em um filme, na minha família....
“Minha família...”
Eu preciso dos meus pais. Preciso da minha cidade pequena, a cidade que fugi para conhecer a imensidão. Não acredito que haja momento melhor para uma visita. Ficarei longe de tudo que me faz lembrar dela e quando voltar, estarei melhor, recuperada, pronta para iniciar minha fase de esquecimento.
— Agora eu tenho um plano!
Estou feliz por nortear meu coração. Por ter um horizonte para olhar, caminhar e chegar. Sei o que eu quero, sei o que preciso.
“Vou passar uns dias em Camden”
Minha decisão me ajudou em níveis astronômicos. Meu foco mudou, só penso e falo em minha viagem. A saudade dos meus pais se sobrepôs a saudade de Regina. Eu me forcei a isso. Passo os dias envolvida por planejamentos desnecessários, mas necessários para mim.
George viu os dias que passei fechada em meu mundo sombrio, meu pedido de férias não o surpreendeu. Me sinto mal por deixa-lo alguns dias, mas minha sanidade precisa disso, meu desempenho também.
O fato de uma mulher desestruturar minha rotina não me alegra. Minhas decisões foram tomadas com base em uma rejeição.
Não lido bem com rejeições.
Sei que estou fugindo de uma história mal vivida, recém iniciada ou não iniciada, o fato, é que esses dias de “férias” me ajudarão. Caminhar por ruas conhecidas sem o medo de encontrar um fantasma que me assombra é reconfortante.
Medo.
Não sei bem se é medo ou ânsia que sinto ao pensar em encontra-la pelo acaso. Não nego que desejo vê-la atravessar a avenida com seus sapatos pretos com detalhes vermelho. Desejo vê-la sentada gesticulando com um garçom atrasado na concorrência. Desejo sentar em um restaurante à beira do mar bebendo um vinho que não conheço ou tenho condições de conhecer.
Todos esses desejos estão trancafiados e nunca serão libertados. Eles ficarão presos até dissolverem pelo tempo e se esfumaçarem apenas na lembrança.
Contar para Ruby não foi uma tarefa fácil. Ela prontamente se ofereceu para ir como sempre fez. Dessa vez é diferente, ela tem um emprego sólido e uma namorada que ama.
Sim, Ruby ama Zelena, ela só não aceita ainda, ou não admite.
Eu tentei explicar vária vezes que não havia necessidade, e não há. Eu vou passar 15 dias com meus pais e vou voltar.
“Eu vou voltar, não vou?”
Contar para Killian foi ainda pior. Ele chorou, gritou, esbravejou, tudo de uma forma muito máscula, como ele mesmo disse.
— Kill, são só 15 dias.
— Nós nunca ficamos 15 dias sem você. – Ele tentava argumentar inutilmente. – Eu vou com você.
— Killian Jones, pare com isso! Eu vou voltar.
Horas difíceis acalmando o homem da minha vida.
Foram dias agradáveis de calmaria. Eu trabalhei sem esperar saltos, apenas esperava o dia do trem, da viagem programada. O dia do meu recomeço. Marquei em um calendário esquecido atrás da porta do meu quarto a data circulada de vermelho.
14 de outubro
Meus preparativos haviam acabado, começo a rever cada item da minha lista que já conheço de cor. Eu já preparei tudo, fiz tudo, arrumei as malas com roupas que não precisarei, com livros que lerei embaixo de uma arvore alta a beira mar sentindo a grama e a maresia.
Minha ansiedade pelo tempo até me fez criar um roteiro de visitas por lugares que não preciso visitar. Me lembro de cada detalhe. Desbravei cada brecha de esquinas a procura de distração em meus dias tediosos.
É engraçado pensar que voltarei para o tédio que o lugar me proporcionou, e mais engraçado é precisar desse tédio. Precisar dos olhares questionando os motivos do meu retorno passageiro. Imaginar as especulações que só uma cidade pequena é capaz de fazer me alegra.
Irônico.
Fugi da cidade por seus defeitos e agora estou fugindo para ela pelos mesmo motivos.
Os dias estão com preguiça de passar e minha ansiedade está apressada. É tão difícil não pensar nela depois de tudo pronto. Em um dia, posso jurar ter sentido seu perfume invadindo a cafeteria, senti um misto de felicidade e desespero. Não era ela. Minha mente enlouqueceu com a saudade.
Às vésperas da minha viagem esperada, revejo pela milésima vez tudo que preciso. Por algum motivo vejo um livro que não vi antes. O livro grosso de capa verde com a palavra Constitucional. Respiro fundo triste com a lembrança, pego o item com carinho e passo os dedos na palavra que ganhou minha atenção desde a primeira visita dela no lago. Meu peito se aperta e a saudade me bate como nunca. Guardo na mala contrariando todos os motivos da minha fuga.
Eu não posso levar uma lembrança da pessoa que me causou isso, mas é exatamente o que vou fazer. O coloco com carinho com um medo crescente de quebra-lo – Como se isso fosse possível. – Deslizo o zíper prestando atenção no fechar, acredito que esteja tentando mudar de ideia.
Não vou.
Cometo um erro enorme ao fazer isso, tenho ciência dos meus atos. Por mais que minhas certezas me levem a esquecê-la, que minha razão me mostre cada motivo mínimo para fazer isso, meu coração briga violentamente para correr até o apartamento de trezentos andares, pega-la e gritar.
“Não importa seus motivos, eu quero você!”
Claro que não farei isso. Ela me fez um pedido e pretendo cumpri-lo. A viagem servirá para domar meu coração rebelde.
Durmo pensando em tudo que quero esquecer.
Durmo pensando nos beijos de Regina Mills.
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14 de outubro.
— Vamos, Ruby! Eu vou me atrasar.
— Você está três horas adiantada, Loira. – Killian me lembra da lerdeza do tempo.
Bufo estressada. Só quero sair e ter a certeza do ir, rumar para minha superação.
Espero quase pacientemente. Saímos os quatro rumo à estação de trem.
Eu, animada pela viagem e ansiosa pela chegada.
Ruby e Killian, cabisbaixos pela separação de quinze dias.
Zelena....Não sei exatamente como Zelena está. Não nos falamos muito, eu a evito de todas as formas. Ela me lembra uma passado muito recente que quero esquecer. Sei que não é culpa dela ser irmã da mulher que esmagou minhas tardes, sei da pessoa maravilhosa que é, antes, eu preciso voltar a andar com a tranquilidade de lacunas preenchidas com soluções encontradas.
Chegamos entristecidos – eu estou radiante – e nos dirigimos a plataforma correta. A despedida é triste. Tento explicar que serão apenas quinze dias. Eles me abraçam com o aperto do adeus, pra mim, o aperto do até breve. Fazem recomendações juvenis, acho graça em cada palavra.
Zelena ainda está quieta. Seu abraço tem o aperto da desculpa que não é dela. Esse abraço foi transmitido com pesar. Sinto uma vontade de chorar enquanto estou envolvida nos fios ruivos. A seguro, segurando outra pessoa. Demoro mais tempo naquele abraço que sei de quem é.
A solto com mais vontade em ir. Preciso me livrar desse sentimento. Preciso me sentir livre.
Pego minha mala com urgência.
“Preciso sair daqui.”
Foi mergulhada em certezas que a vi. Distante, parada com seu casaco preto, com pessoas sem importância passando por ela, por mim. Me olha como se não houvesse mais ninguém, como se a plataforma não estivesse lotada de pessoas indo e vindo, esperando e reencontrando. Estamos paradas olhando a parede se formar, um muro que agora é meu.
“Preciso sair daqui.”
Repito minha necessidade, dou as costas e entro decidida no vagão. Estou irritada. Ela me irrita com sua confusão, com suas idas e vindas. Ela me machuca com cada volta, me magoa com suas dúvidas, com suas decisões arrependidas.
Estou farta! Eu vou esquecê-la!
Acomodo minhas malas, me acomodo e ela ainda está lá, parada na mesma posição. O trem se movimenta, assim como seus olhos.
Me lembro da frase “Não consigo ficar longe de você.”
Ela sussurra e leio seus lábios.
Saudade.
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