Saturno - Um Novo Mundo

1 Trausnkym - A Terra do Gelo


Notas iniciais
Nesse capítulo se forma o primeiro cenário da trama e começa a história pessoal do primeiro protagonista: Hasmuh.

No extremo norte de Saturno, na terra gelada de Trausnkym, a neve fazia parte da rotina dos habitantes. Era comida e água ao mesmo tempo. Era banho e diversão para os filhotes.

O tempo de vida desses habitantes ia muito além do tempo dos humanos. O ancião de Trausnkym, por exemplo, tinha já seus oitocentos e vinte anos – e ainda um dos mais jovens do Conselho de Anciões -.

Os trausnkymianos, os habitantes, eram facilmente percebidos na neve por conta da cor da pele, de um vermelho vivo. As pintas brancas até poderiam ser usadas como camuflagem, se não fossem tão pequenas. Não possuíam nariz, mas eram fortemente compensados pelas orelhas longas e potentes. Os olhos, de tão brancos, davam a impressão de serem cegos. Quem visse um deles, imaginaria que ele estaria olhando pro nada.

O casamento era coisa rara nessa civilização. Quase ninguém queria ser marido ou esposa de outro alguém. Tal qual o reino animal, o homem tinha a preferência na escolha da companheira. Se quisesse ficar com uma mulher para sempre, ela deveria aceitar. Se quisesse ficar apenas um tempo e depois seguir a vida com outra, ele tinha esse direito. E se dois homens quisessem uma mulher ao mesmo tempo, eles deveriam brigar entre si.

Uma coisa era certa e regra: os filhos deveriam ser criados pelos pais e as filhas deveriam ser criadas pelas mães. Só tinha direito a participar da criação do filhote do sexo oposto o pai ou a mãe que tivesse um relacionamento estável com o responsável.

Para a felicidade de Hasmuh, o príncipe recém-nascido de Trausnkym, seu pai e sua mãe estavam muito bem juntos e somando esforços pela sua bo criação.

O nascimento de Hasmuh foi o mais festejado dos últimos trezentos e setenta e cinco anos na aldeia do gelo. Uma enorme fogueira foi acesa para as danças, as mesas e tigelas de madeira de cada casa foram substituídas pelas de prata raramente usadas, somente em ocasiões muito especiais. E o nascimento do novo herdeiro das terras de Trausnkym merecia muita comemoração.

Ao meio dia, quando o Sol começava a jogar sua luz para o povo da neve, o “batizado” do pequeno príncipe se iniciava. O rei, Lukkenzi, e a rainha, Meeka, pegaram juntos o filho nos braços e o levantaram para o alto. O soberano dizia:

- Pelo Deus Solum és agora abençoado e dele terás proteção e ganharás sabedoria para governar nosso povo. Oh Solum, pai de Saturno, guerreiro justiceiro, peço-te que meu filho, Hasmuh, conduza todos os teus filhos na estrada do amor, da justiça, da luta contra os traidores deserdados por ti.

Todos os trausnkymianos ficaram de joelhos, levantaram os braços e gritaram: “Salve o nosso príncipe! Salve Hasmuh!”

Terminada a cerimônia, deu-se início à festa. A rainha Meeka permaneceu junto do berço de prata onde estava Hasmuh. Já o rei foi ter um dedo de prosa com um visitante de uma aldeia aliada aos trausnkymianos. Aliás, esse visitante era seu colega, o rei dos Palumas, povo da água.

- Parabéns, nobre amigo! Ganhaste um belo herdeiro.

- Agradeço sua visita, meu nobre. Este está sendo o momento mais importante da minha vida.

- Diz isso agora, mas... Devo lembra-lo de que, no futuro, nós dois compartilharemos o verdadeiro momento mais feliz de nossas vidas?

Como o líder dos vermelhos parecia não ter entendido a indireta, o “peixoso” foi mais enfático:

- O casamento de seu filho com a minha filha.

Lukkenzi sorriu, em sinal de aprovação. Mas no fundo... Resistia à ideia.