Saturno - Um Novo Mundo
3 Hasmuh tem que casar!
Notas iniciais
Trausnkym passou muitas eras sem avistar o Deus Solum. A Terra do Gelo estava mais escura e fria do que nunca. Cada família tinha que se contentar com uma tocha acesa em suas casas.
Enquanto isso, o rei Lukkenzi e seus melhores guerreiros se reuniam constantemente para treinar golpes de batalha. O soberano dizia sempre que todos tinham que estar prontos pra qualquer imprevisto. "Os deserdados são mais traiçoeiros que a mais venenosa das cobras... Nunca sabemos de onde vêm".
Numa reunião a portas fechadas no castelo real, o rei contava seu ódio para seu braço-direito e melhor amigo, Padim:
- Eu sei que eles ainda vivem por aqui, Padim... Saturno ainda não se viu livre dessas pragas!
- Se acalme, meu rei. Eles estão desprotegidos! O rei deles está em coma há muitos anos. Eles têm apenas a rainha e uma pequena princesa... Ou seja, ninguém para treinar e comandar um exército.
- Aqueles vagabundos nunca teriam um exército, mesmo se o rei estivesse acordado. Eles só sabem festejar. Não levam nada a sério! Não é a toa que o Grande Solum os expulsou de quase todo o planeta, deixando-os isolados sob seus anéis.
A conversa foi interrompida por um momento. A porta fez um barulho, mas, da mesa, Lukkenzi não conseguiu ver quem tinha entrado. Foi Padim que lhe mostrou:
- Senhor, olhe embaixo da sua mesa.
Foi o que fez.
- Oi, pai.
- Hasmuh, filho amado. — Lukkezi deu uma gostosa risada ao ver seu herdeiro. — Que bom que veio. Papai tinha mesmo uma coisa pra lhe contar.
- O quê?
- Hoje teremos visitas para o jantar... Lembra-te do tio Fishgaide, aquele amigo do papai que também é rei?
- O tio peixe?
- (gargalhada) Isso, isso, o tio peixe. Ele vem com a filha dele... E acho que vocês vão se entender muito bem. O que acha? Aceita fazer amizade com a filha do tio peixe?
O pequeno Hasmuh não respondeu nada. O que poderia dizer? Que não, que ia ficar com a cara emburrada durante o jantar e fazer má criação pras visitas? Acontece que o pequeno espertinho já tinha se dado conta que tinha alguma segunda intenção de seu pai na sua aproximação com a "peixinha".
Quando chegava a noite, a rainha Meeka enchia seu filho de prata da cabeça aos pés. Hasmuh apenas resmungava.
- Tá pesado, mãe!
- Eu sei, querido. Mas todos temos que estar muito bem vestidos para receber nossas visitas.
- E se ela quiser brincar? Como é que eu vou conseguir com esse monte de coisa?
- Daí você vai ter que aprender a se equilibrar. — Respondeu Meeka, dando um beijo na testa de seu filhotinho e rindo com seus resmungos.
Do lado de fora, Fishgaide e a filha já esperavam ser recebidos pelos anfitriões. Mas a pequena princesa estava aflita.
- Pai?
- Que é?
- Quero ir pra casa. Por favor...
O rei aquático deu um longo suspiro de desaprovação.
- Acabamos de chegar, Chaina...
- Por favor, pai... Se esse menino é meu futuro noivo... Ele não pode me ver assim... Eu não tenho escamas... Eu estou horrível!
Fishgaide já começava a perder a paciência:
- Escuta aqui, Chaina: o seu casamento com o filho de Lukkenzi é nossa única chance de tomarmos Saturno por completo. Quando nossos exércitos acabarem com os povinhos que vivem nas florestas e no deserto, teremos também as Terras do Gelo! Portanto, engula essas lágrimas e aja como uma futura esposa dedicada e obediente... Tudo o que a sua mãe não foi!
A rainha Meeka, que chegava naquele momento para recebe-los, conseguiu ouvir a parte final da bronca. E olhou para Fishgaide com certo desprezo. Mas ainda cumpriu direitinho com seu papel de anfitriã.
Aquela noite seguiu conforme o combinado dos dois reis. Lukkenzi e Fishgaide falaram de guerras, conquistas, metais preciosos e joias cobiçadas. Meeka ficou encarando o rei aquático pela maneira rude com que este lidava com a própria filha. Hasmuh e Chaina, as crianças, não falaram nada e apenas brincaram com a comida (motivo pelo qual o menino levou bronca da mãe várias vezes).
Quando as visitas se foram, a rainha foi ter uma pequena conversa com seu filho:
- E então? O que achou de Chaina? É uma mocinha muito formosa, não acha?
- Ah... Não sei... Ela não tem escamas!
- E daí?
- Ah, não sei. É que eu sempre soube que todos os peixes têm escamas. E ela não tem. Isso é estranho.
- Bom, talvez isso não seja um defeito. Muito pelo contrário. Já parou para pensar que, pelo fato de ela não ter escamas, isso a torna a paluma mais especial de todas?
Hasmuh concordou, mas não muito convencido. Meeka então resolveu abordar de outra forma, para convencer o filho a não se apegar em aparências:
- Querido, você tem que perceber nela coisas além da falta de escamas. Ela é uma menina doce, educada, tímida, vem de boa família. Se formos pensar só nas aparências, eu sou igual a todas as outras trausnkymianas. No entanto, o seu pai escolheu a mim para ser a sua mãe. E ainda estamos juntos, quando ele poderia muito bem ter me mandado embora. Sabe o motivo?
- Por quê?
Lukkenzi, que escutava a conversa atrás da porta, resolveu entrar no quarto e responder a questão:
- Porque no tempo em que fiquei junto de sua mãe, monitorando sua gravidez, acabei descobrindo uma criatura maravilhosa. Meiga, dedicada a tudo que ama, que gosta de mim de verdade. Nossa relação se fortaleceu de tal maneira que se ela estiver no meio de todas as traunskymianas, eu a reconheceria de primeira. Seu belo sorriso e seus lindos olhos, pra mim, são únicos.
A rainha, emocionada, deu um sincero beijo de amor no marido. Hasmuh fez cara de nojo.
- A questão, Hasmuh, é que embora pareça que eu e sua mãe estamos "forçando" o seu casamento com Chaina, nós temos a certeza que vocês dois vão descobrir juntos o mesmo sentimento que eu e Meeka descobrimos. Agora vamos dormir. Vem aí uma tempestade de neve e precisamos estar aquecidos debaixo dos cobertores quando ela chegar. Boa noite, filho.
- Boa noite, pai.
Antes de sair, Meeka deu um beijo na testa de seu filho.
- Durma bem, meu amor. E pense bem no que lhe falamos.
- Está bem. Boa noite, mãe.
Naquela noite, Hasmuh foi dormir indignado. "Poxa, eu só tenho sessenta e três anos. Eu não tenho que me casar só com cento e oitenta?"
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