Sarah
2 De guerras forjadas
Notas iniciais
O castelo da cidade Celestia não via tanto stress há anos. A pequena princesa se sentava comportadamente na grande cama de casal de seus pais, o rei Jael e a rainha Lisandre, esperando que o sermão terminasse. Aos seus pés havia meia dúzia de vasos de planta completamente carbonizados e havia fumaça por toda parte. Não era a primeira vez que ela se empolgava em seus treinamentos de magia, mas também não era a primeira vez que queimava algo que não devia no meio de seus treinamentos e era avisada pelos pais de que devia parar.
Celestia era uma cidade enclausurada em muros altíssimos de onde saíam os melhores soldados, os melhores magos e os mais bem treinados arqueiros de Nova Guardia, mas a tradição que regia a família real dizia que todos os membros do alto conselho deveriam se manter longe dessas coisas. Mas claro, a princesa não ligava para essas coisas.
A rainha mantinha-se calada e quieta a um canto olhando o marido que caminhava de um lado para o outro sem tirar os olhos da menina e rezava para que seu olhar não viesse em sua direção como sempre acontecia quando aquela garota estúpida fazia algo de errado. E a pequena princesa continuava a olhar seu pai com olhos tranquilos embora dessa vez fosse óbvio que ela estava mais do que encrencada. Não apenas usara magia, ela o fizera diante dos olhos de todo o castelo! Era um ultraje que não podia ser perdoado, afinal uma maga não servia para princesa – e é claro que jamais para rainha, onde já se viu!
— Então? – Começou o rei.
Ele não esperava uma desculpa e sim uma confissão, afinal nunca estava interessado em saber o por que das coisas. A princesa deu de ombros. O que poderia dizer? Seu pai já tinha sua opinião formada e ela sabia bem que não adiantaria de nada. Apenas quando viu o olhar desesperado de sua mãe é que resolveu entrar no jogo. De novo…
— Eu estava treinando e acertei as plantas da senhorita Margoth. Eu me desculpei.
— “Eu me desculpei” – repetiu Jael com a característica veia pulsando na testa. Ele costumava guardar a ira para os capitães da guarda ou para os ministros e emissários que recebia, mas tanto a princesa quanto a rainha sabiam bem que a aparente calma dele era mais perigosa do que as explosões – Acontece que não basta “se desculpar”. Você é uma princesa, pelo amor de Deus! Quantas vezes preciso esmurrá-la até que aprenda a se comportar como uma?
E aí estava. O jeito violento do rei se anunciava e não demorou para que sua mão fizesse uma marca no rosto branco da princesa. Ela sentiu os olhos encherem de lágrimas como sempre acontecia e percebeu a inquietação de sua mãe, mas usava toda a sua energia mental implorando que ela não tentasse ajudá-la.
Jael avançou sobre a menina novamente e a ergueu da cama com uma das mãos enquanto socava-lhe com a outra, o que a fez cair no chão com um baque surdo. Por volta do segundo chute a rainha já não conseguia mais se conter.
— Por favor meu rei! Ela é só uma menina! – O rosto da mulher estava completamente molhado pelas lágrimas que até aquele momento ela derramava em silêncio. Seus olhos azuis estavam completamente vermelhos àquela altura, mas assim que o rei se virou ela compreendeu que não deveria ter dito nada.
— Uma menina você diz? ELA É UMA MALDITA BRUXA!
A princesa tinha completado seu 12º aniversário a alguns meses, não era fisicamente ou mentalmente desenvolvida o bastante para suportar ver sua mãe ser espancada da forma como estava sendo naquele momento. A sensação de impotência ao ver sua mãe gritando de dor parecia querer rasgá-la ao meio e ela pediu, implorou, para que seu pai a deixasse em paz. Como sempre ele não lhe escutava e continuava a bater e gritar que a culpa era toda dela. Não era. Magia era algo natural para a menina, por que seu pai não conseguia ver? Por que membros da família real não podiam ser magos?
Ela se levantou com os finos cabelos loiros completamente desalinhados e o rosto vermelho pelos tapas, então caminhou devagar até o meio do quarto. Sentiu a familiar sensação de calor crescer nas mãos até que não mais conseguiu contê-la, seu ódio era grande demais.
Atirou como nunca tinha feito antes e o calor das esferas de fogo incendiaram o quarto. Quando finalmente parou de atirar tudo estava em chamas e o rei jazia carbonizado aos pés da rainha que a olhava com uma mistura de pavor e medo.
— Mamãe… – as lágrimas vieram em enxurrada. Nada se comparava ao que tinha acabado de fazer e sabia que no mínimo agora teria o ódio de todo um reino. O peso daquilo a atingiu de tal forma que ela não conseguia mais conter o choro.
— Você… Estou orgulhosa de você, minha querida! Vamos sair daqui.
Lissandre pegou Sarah nos braços e saiu do quarto em chamas. Pouco depois o castelo inteiro se encaminhava para os aposentos reais a fim de apagar o incêndio antes que se alastrasse; as duas foram levadas para o térreo onde várias servas as amparavam e questionavam sobre o que aconteceu.
Lissandra não respondia a nada do que lhe era questionado e o susto de tanta atenção fazia Sarah chorar ainda mais, de modo que aos poucos as servas deixaram-nas para que se acalmassem. Não demorou para que o incêndio fosse apagado e os grandes ministros todos aparecessem por ali diante da notícia do assassinato do rei.
Um deles, talvez o mais importante deles, era Marcus. Ele era amigo da família a anos e era quem mais se preocupava com as duas e não apenas com a situação política que a morte do rei significava. Ele se sentou ao lado de Lissandre e esperou, porém como esta não disse nada ele resolveu tomar a frente.
— Um grupo de soldados de Galia montou acampamento a noroeste do castelo. Não mandaram emissários nem responderam às cartas, apenas ficaram por lá durante três dias. Os cidadãos da vila disseram que viram algo suspeito algum tempo atrás… Foram eles não foram? Atacaram quando Jael apareceu na janela, não foi Lissandre?
Não era uma pergunta, era um álibi. Markus mais do que ninguém sabia o inferno que era a vida de Lissandre e Sarah nas mãos de Jael, e também sabia do dom de Sarah para magia. Fora fácil ligar uma coisa na outra quando soube dos treinos da menina. Também fora fácil pagar um grupo de cidadãos da cidade para mentir para os guardas aproveitando a permanência já suspeita dos soldados Galences tão perto do castelo de Celestia.
— É… Estávamos conversando e… As bolas de fogo surgiram do nada… Meu marido se virou para proteger Sarah e foi alvejado.
Lissandre sentia-se extremamente grata pelo álibi tão rápido de Marcus, não poderia ter inventado nada melhor com todo o nervo que sentia naquele momento. Sarah finalmente parou de chorar e levou a mão ao ombro, onde uma marca roxa pelos socos do pai começava a sair.
— E a explosão jogou algo em Sarah, não é pequena?
A menina tentou sorrir mas não foi muito feliz na tentativa. O que importava era que acabara… Ou era o que ela esperava. Pelos dias que se seguiram não havia outro assunto senão o ataque dos Galences ao castelo e a cada dia surgiam mais pessoas que juravam terem visto o momento dos ataques. O fato dos soldados terem partido nem meia hora depois da notícia da morte do rei apenas serviu para inflamar ainda mais o ódio popular. Mas esse ódio não tinha para onde escoar já que não poderia haver uma guerra sem um comunicado real, então os cidadãos encontraram outro alvo para ele: Sarah.
Começaram a falar que os soldados de Galia tencionavam matar Sarah por causa de sua afinidade com magia, porém o rei se sacrificou para salvar a filha. Jael se tornou um mártir, um símbolo de como um bom pai devia ser, e Sarah se tornou o mal encarnado que condenara uma nação a ficar sem seu líder.
Massas populares pediam a execução da menina apenas por não terem mais a quem sacrificar. Ela já não podia mais sair nas ruas da cidade sem ser hostilizada, então Lissandre a mantinha no castelo. A situação chegou ao ápice quando populares tentaram invadir o castelo para reivindicar o sangue da princesa com as próprias mãos, então o conselho se viu sem outra saída senão encontrar um rei para liderar a nação. E Marcus caiu como uma luva.
Lissandre se casou com ele duas semanas depois da morte de Jael por motivos meramente políticos. Mas mesmo depois da coroação os cidadãos ainda queriam alguma vingança pela morte do antigo rei, então Marcus se viu forçado a declarar guerra contra o país de Galia.
Na manhã seguinte todos os países aliados foram convocados e Sarah já não conseguia mais aguentar toda a pressão que recaía sobre seus ombros. A atenção do povo finalmente se voltou para o exército e a chegada dos destacamentos de outros países, então a princesa resolveu que era a hora de partir. Ela saiu da cidade durante a noite sem que ninguém a visse e partiu na direção de Galia, na intenção de conversar com o rei e avisá-lo da guerra que se anunciava.
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