Sarah
3 De notícias de guerra
Notas iniciais
Doze dias antes, reino de Neith – 18:42
Pela esquerda… Os joelhos estão muito flexionados. Meu Deus ele poderia ser mais óbvio que isso? O soldado não era muito maior que eu mas ainda tinha certa vantagem em questão de força. Não que isso importasse, ele era muito mais previsível que forte. As espadas fizeram um barulho irritante ao se chocar e ele deu um passo para trás assim que percebeu que não iria me vencer naquele jogo. Eu era mais rápida e tinha uma melhor base.
Eis o maior problema entre os homens: confiança demais. Ele estava tão confiante de que sua força o levaria a vitória que se esqueceu que resistência também é importante. Dei dois cortes – um na diagonal esquerda e outro de cima para baixo – e acertei o ombro dele. O ouvi xingar por baixo da armadura e sorri… Adoro quando eles xingam.
— Não vá se achando, um golpe não vai me derrubar!
Não, um golpe não. Foi por isso que usei o fato dele quase não armar uma base para empurrá-lo com vários golpes ao mesmo tempo até que ele perdesse o equilíbrio e caísse no chão. Xeque Mate. Oito vitórias em nove lutas. Nada mal para uma mulher.
Quando cheguei em casa Raul ainda estava limpando aquela armadura enfeitada que ganhou na última cerimônia. Só por que o símbolo da casa real estava estampado no ombro ele se achava… Mas era merecido, afinal ele estava no exército a mais de 15 anos e ganhara o respeito de todos. Ele sorriu quando entrei pela porta e eu entendi naquele momento o motivo de querer tanto me esforçar.
— Como foi?
— Oito de nove.
— Não disse? Você tem talento!
Só Raul mesmo para dizer algo assim com aquele sorriso… Metade do exército discordava dele neste ponto, e a outra metade estava sendo convencida aos poucos. Isso por que fazia quase um ano desde que fui aceita como soldado, para verem como são as coisas; a gente não é levada a sério mesmo se salvar o continente inteiro.
— A propósito, chegaram cartas do reino de Celestia novamente. A rainha se casou novamente, acho que era um ministro de confiança.
— Mas já? Nem deixou o pobre defunto esfriar… – Me sentei no sofá e fiquei olhando enquanto Raul ia pegar as cartas na mesa. O selo da cidade de Celestia tinha como brasão uma rosa amarela com espinhos formando uma coroa; ainda achava a de Neith mais bonita, mas admito que aquela rosa tinha um toque de classe. Não era bruto como a águia azul que tínhamos como brasão por aqui.
— E tinha que esperar? Uma nação sem rei está fadada ao caos. Fez certo.
Pensando assim ficava até mais fácil aceitar um luto tão curto. Soube que Celestia estava em crise desde que o rei fora assassinado, mas ainda era difícil imaginar Galenses planejando algo assim. Ao que eu saiba eram um povo bastante pacífico; não fossem as várias testemunhas oculares do ataque eu ficaria com os dois pés atrás.
— Então vão mandar diplomatas até Galia?
— Não sei, do jeito que vão as coisas parece que vai ter guerra.
Isso não era nada bom. Se de fato houvesse uma guerra Raul seria mandado para a frente de combate, e provavelmente meu pelotão só seria enviado dias depois disso. Não conseguia imaginar ficar longe dele de novo… Já não bastavam as incursões de exploração para tirar meu sono?
Sempre soube que me casar com o capitão da guarda traria momentos como esse, mas francamente uma guerra a essa altura não era algo que eu considerava como possibilidade. O que me consolava era saber que ao menos se ele morresse em combate, não deixaria órfãos para trás… Era o único lado bom proveniente da minha incapacidade de gerar filhos. Sei que ele queria um menino para herdar sua espada mas… Bem, não valia a pena pensar nisso agora.
— Vamos ver o que acontece de agora em diante Lea.
É… Não havia escolha senão esperar.
Nos três dias seguintes houve rumores de que os exércitos vizinhos estavam se armando e a sensação de guerra já tinha chegado a Neith. As disputas normais entre soldados foi suspensa e passamos a treinar mais de doze horas por dia para pegarmos o ritmo. Eu já sentia pontadas de desespero ao pensar no que isso significava quando a carta anunciando uma convocação de reinos aliados chegou. Era oficial… O novo rei de Celestia anunciara a guerra.
Não demorou mais do que dois dias para que os exércitos fossem organizados e enviados e como eu previ, Raul foi um dos primeiros a partirem liderando seu pelotão. Rezei por dias para que a grande Deusa da neve guiasse sua espada e protegesse seu cavalo nas batalhas que viriam mas não consegui acalmar o coração. E foi quando meu destacamento também foi convocado.
Arrumamos as coisas com pressa e partimos rumo a Celestia. Não queria admitir, mas todas as minhas esperanças residiam em um acordo pacífico entre as partes – algo que eu sabia ser impossível. Demorou mas enfim meu regimento estava se movimentando. Agora bastava esperar que Raul não se enfiasse em uma batalha cedo demais.
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