Sanidade
2 Capítulo 2 - Percepção
Insistentemente olhava para o relógio, querendo que de alguma forma os ponteiros começassem a girar na direção oposta a fim de diminuir o meu atraso. Já estava realizando a terceira chamada seguida, as outras ficaram no modo de espera. Talvez a secretária esteja tratando de um assunto importante com um funcionário ou diretor, ou possa apenas estar jogando conversar fora. Essa é a primeira semana neste novo emprego, o meu quarto dia como auxiliar administrativo, e estou atrasado.
Entre um toque de chamada e outro, noto a presença de uma jovem a alguns metros ao lado na plataforma. Disfaço pra observá-la, mantenho o celular junto a orelha e finjo que estou conversando, gesticulando e percebo que ela nem sequer notou a minha presença. Observo mais atenciosamente, é uma jovem bonita talvez entre os vinte anos ou mais, seu cabelo é de um castanho claro preso num rabo de cavalo, uma maquiagem leve no rosto, usando um vestidinho preto e por cima uma jaqueta jeans num tom claro, o que me chama mais a atenção é o fato de ela estar descalça levando seus sapatos na mãos, pequenos sapatos de salto. Chego a conclusão que ela passará a noite na estação, normalmente a essa hora estão todos apressados para irem ao trabalho, e dificilmente alguma mulher deixaria de calçar os sapatos para andar com os pés descalços. E pela terceira vez minha ligação foi perdida.
Ouço o som metálico vindo do túnel, anunciando que o metrô se aproxima da estação. Guardei o celular no bolso e conferi mais uma vez o meu relógio, hábito comum de quem está atrasado. A jovem caminhava em frente, pensei comigo vai pegar o mesmo metrô que eu, mas num vagão mais atrás já que ela estava um pouco distante. Decidi me aproximar um pouco mais para tentar pegar o mesmo vagão e observá-la possivelmente por mais algumas estações, fui me aproximando aos poucos entre as outras pessoas. Já podia observar a luz do vagão principal iluminando os trilhos.
Assim que percebi que estaria no mesmo vagão que aquela linda garota, parei e esperei a chegada do metrô. Eu parei, a garota não. Caminhava em passos demorados em frente, passando entre as pessoas como um fantasma sem ser notada, cabisbaixa, sem sentidos. Aquele instante se congelou em minha cabeça, e logo o meu racíocinio me fez agir. Nunca havia sentido minhas pernas tão pesadas como naquele momento, uma primeira passada larga que há anos não dava, simultaneamente com o esticar do meu braço. Era igual a uma corrida de revezamento com bastão que nem nas olímpiadas, mas o objetivo principal não era pegar o bastão... Era agarrar a garota.
Ela ia se matar.
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