Sanidade

3 Capítulo 3 - Apresentações


Aqueles poucos metros que nos separavam, pareciam quilômetros aos meus olhos, e para o meu corpo sedentário. Tudo foi muito rápido, corria para salvar a garota enquanto tentava não derrubar as demais pessoas ao redor. Não lembro se tentei chamar-lhe a atenção gritando, mesmo porque normalmente eu não falava alto e gritar não seria lúcido da minha parte. Ela estava a menos de dois passos da borda da plataforma, agindo da mesma maneira. Eu estava a uns três metros ou mais dela, e a luz do vagão principal já ofuscava diretamente meus olhos, senti me pé tocar o chão automaticamente meu corpo respondeu. Era a base que ele necessitava para me lançar no ar em direção a jovem, não importava mais se havia alguém a frente, não poderia me atrasar mais, não havia mais tempo.

Me surpreendi ao ver que tinha me tornado o centro das atenções naquele momento na estação, o metrô estava parado devido ao acontecido. Todos olhavam atônitos para mim, debruçado sobre aquele pequeno corpo feminino. Ainda estava caído quando o primeiro segurança chegou, e me ajudou a levantar com toda a delicadeza de um carcereiro de prisão.

– Você é louco? — Dizia ele enquanto tentava ficar em pé, minhas pernas tremiam tanto, que pensei que ñ consegueria. — Você poderia ter matado os dois, causado um acidente aqui, no que estava pensando? — Perguntava ele sem parar. Estava mais preocupado com a garota do que ficar respondendo aquelas perguntas naquele momento.

– Você está bem? — Perguntei à ela mas não obtive resposta. Ela ainda estava caída no chão.

– Vamos, você vem comigo! — Disse o segurança com um ar de autoridade. — Vamos esclarecer isso.

Tentei explicar ali mesmo, mas ele não me deu ouvidos, outros dois seguranças levantaram a garota que parecia estar desacordada, sob os olhares das pessoas presentes fui conduzido até o que parecia ser uma sala da administração. Enquanto aguardava que alguém retornasse tudo voltou ao normal, já havia desistido de ligar para o escritório. As pessoas iam e vinham, entravam e saiam dos trens e eu continuava sentado. Nunca havia reparado na estação, nas pessoas que ali passavam, homens, mulheres, jovens todos apressados, alguns ainda com metade do café da manhã na mão enquanto na outra seguram suas bolsas ou mochilas, e correndo pra entrar em algum vagão antes que a porta se feche. Um ou outro procurando informação de certa rua, local, como chegar em tal lugar. Realmente parece um caos quando você não tem nada a fazer, além de observar.

Me questionei por um segundo. Se tivesse saido no horário normal o que teria acontecido aquela garota, ela teria caído nos trilhos, a essa hora ela estaria... Bom melhor não pensar nessas coisas, a única certeza é que eu não estaria atrasado. Pensei em ver as horas mas foi em vão, meu relógio quebrou com a queda. De repente a maçaneta da porta destrava, o mesmo segurança que me trouxe entrou seguido por mais uma pessoa. Era um homem, aparentando ter uns dez anos a mais que a minha idade, então conclui que ele deva ter entre trinta e oito à uns quarenta anos. Ele põem a mão na frente da boca, e faz aquele som característico quando se limpa a garganta, ele respira fundo.

– Desculpe ter feito o senhor esperar. — Diz o senhor. — Meu nome é Joseph Duncan, eu sou o Administrador dessa estação. Eu estava acompanhando a garota que também se envolveu neste incidente.

– Sim, eu entendo senhor Duncan.

– Prefiro que me chame de Joseph. — Disse ele esboçando um sorriso. — Vim aqui para ouvir a sua versão do fato, acho que poderemos resolver tudo numa simples conversa. Não é mesmo... senhor?

– Thom... Thompson, quis dizer Phillip Thompson. — Claramente ainda estava muito nervoso, mesmo depois de ter esperado tanto tempo. — Mas não precisa me chamar de senhor também.

– Está certo Phillip. — Disse o administrador virando-se de costas para mim, ele prosseguiu. — Eu quero saber examente por que você agrediu aquela jovem? No mesmo instante me coloquei em pé.

– Agredir? Não é verdade, eu a impedi de cometer suícidio! Pergunte a ela!

– Sente-se aí agora mesmo. — Disse o segurança, que até então estava parado em pé, me empurrando a mão em meu peito.

– Acalme-se Hurley e você também senhor Thompson. — Joseph se fez ouvir na pequena sala e mais um pouco fora dela também. Ele pegou uma cadeira próxima à uma das mesas, com ela na mão aproximou de onde eu estava, colocou a minha frente, desabotou o paletó que trajava, talvez para ter mais conforto. Sentou-se calmamente, olhou em meus olhos, e voltou a falar.

– É o seguinte senhor Thompson. — Senti um nó na garganta ao ouvir essas palavras. — Esta estação não está funcionando plenamente, falta muita manutenção por aqui. Isso inclui o sistema de vigilância.

– Tudo bem, mas não entendo como isso tem haver comigo e com o que aconteceu.

– Senhor Thompson a princípio julgamos que tudo fora apenas um incidente, pois naquela área exata as câmeras não estão operando, e os meus homens não viram o ocorrido. — Concordei com um aceno de cabeça enquanto ele continuava a falar. — Porém a uns minutos atrás, uma testemunha ligou para a administração e disse que viu o senhor tentando empurrar a garota.

– Testemunha? Como assim?

– Teremos que chamar a polícia, já que o senhor não deseja cooperar.

– Espere pergunte pra garota, ela vai dizer que não foi isso o que aconteceu. E onde está essa testemunha, quem é ela?

– Foi uma ligação anônima senhor Thompson.

– Por favor pergunte a ela, ela vai esclarecer tudo... eu tenho certeza.

– Isso é impossível no momento. — Disse uma outra voz feminina, mais uma pessoa tinha entrado na sala sem que eu notasse.

– Mas por que Rachel? — Perguntou Joseph a mulher.

– Estava acompanhando a paciente até que ela recobrasse a consciência, ela é deficiente auditiva, só se comunica por sinais.

– Merda pergunte a ela em sinais. — Foram as palavras que sairam da minha boca. A mulher me olhou com desprezo. Se virou para o administrador e como se que me ignorasse concluiu.

– A pancada na cabeça durante a queda foi forte, ela perdeu a memória.