Sanguinária

4 Perdida no tempo


Saio correndo da ducha com a toalha lilás enrolada em meu corpo. Me seco rapidamente e entro no primeiro vestido do closed. Coloco meus sapatos e quase não tenho tempo para maquiagem. O relógio marca 8:45 e minha primeira aula começa às 9:00 da manhã. Se não sair correndo não conseguirei chegar a tempo. Agarro minha bolsa amarelo mostarda e saio o mais rápido que posso. Dessa vez eu me superei, nem mesmo consegui secar os cabelos. Enquanto desço as escadas faço um coque e espero que tenha ficado aceitável.

Vejo que meus pais estão tomando café da manhã. Não sei como minha mãe arranja tempo de ter esses "luxos" e sentar-se à mesa para comer. Se eu que sou estudante universitária em meio período quase não consigo respirar pela carga horária, imagina ela sendo chefe de cirurgia do hospital central. Obviamente ela organiza o próprio tempo muito melhor que eu.

Pai! Mãe! Amo vocês – falo enquanto saio rapidamente pela porta da frente sem dar tempo para que eles respondam. Provavelmente me dariam o mesmo sermão de sempre. Que tenho que ser responsável, organizar melhor meu tempo, que logo estarei no mercado de trabalho.... Enfim coisas de pais.

O dia está terrivelmente quente. Não vejo a hora do inverno chegar. Entro em meu carro e me dou conta de como sou estúpida as vezes. Havia esquecido o rádio ligado. Ao bater a chave o carro não deu a partida. Droga! Mil vezes droga! As vezes a vida resolve conspirar contra mim não é possível! Saio do carro e bato a porta com demasiada força.

— Ei mocinha mais cuidado com seu carro. Quem pagou por ele fui eu! — Argumentou meu pai enquanto entrava na garagem para ir ao seu trabalho.

— Papai desculpa! Meu carro não está funcionando. Eu esqueci a rádio ligado e agora ele não liga! Vou chegar super atrasada e hoje tenho prova no último período!

— Onde você anda com a cabeça Amy? Vem comigo, eu te levo hoje. Mais tarde chamo um mecânico para dar jeito no seu carro. – Respondeu meu pai já entrando e tomando lugar no banco do motorista.

— Pai não sei o que seria de mim sem você! – digo cinicamente.

— Engraçadinha, é para isso que servem os pais certo!

Realmente, se existe alguém em que eu posso contar todas as horas, essas pessoas são definitivamente meus pais. As vezes reconheço que deveria ser muito mais agradecida por tê-los.

O trânsito não está tão caótico a essas horas da manhã. Começo a olhar para as pessoas caminhando pelas calçadas e parece que hoje todos os casais do mundo resolveram sair para seu passeio matinal. Acho que já está na hora de arrumar um namorado de novo. Já fazem 5 meses desde que eu terminei com o ex babaca. Ele me traiu em uma festa e todos ficaram sabendo. Uma coisa que eu nunca aceitaria assumir era um par de chifres. No mesmo dia terminei com ele. Eu sei que essa coisa de "nenhum homem presta" é mentira. Mas verdadeiramente todos os que eu namorei até agora foram completamente idiotas comigo.Talvez eu devesse ter escolhido uma vida de castidade e ir viver em um convento. Não, isso é irônico demais, nunca conseguiria ficar a vida toda sem...A parada do carro me surpreende, chegamos rápido! Mas espera essa não é a universidade!

— Pai! Onde nós estamos? – questiono inquieta.

— Filha tenho que resolver um negócio aqui. Nada sério. Volto rápido ok?

Meu pai nem me deixou tempo para responder e se retirou do carro. Ahh, essas coisas inesperadas sempre acontecem quando estou com ele. Encosto a cabeça no banco e fecho meus olhos. Talvez seria melhor ter pegado um taxi. O calor dentro do carro torna-se insuportável e meu querido pai levou as chaves me impedindo assim de abrir as janelas ou ligar o ar condicionado. Saio do carro e caminho em direção a mesma loja que ele havia entrado a alguns minutos atrás. Olho pela porta transparente e vejo que meu pai realmente está ali. Ingresso dentro da sala comercial e sinto o frescor do ar condicionado ligado.

— Pai pode me passar as chaves do carro? Está muito calor...- Caramba! Como isso pode ser possível? O que meu pai estava fazendo com Declan em uma loja de bicicletas?

Chega ser cômico ver os dois analisando a bike azul como se fosse algo super importante e complexo.

— Amy já estamos indo ok! –retrucou meu pai rispidamente.

— Ei eu te conheço! Amy Watson certo? Eu sou o Dec...

— Sim, Declan- interrompi — Sou a menina da chuva.

— Chuva? Que chuva?- perguntou meu pai intrigado.

— Longa história senhor James- respondeu Declan com um sorrisinho tímido.

— 55 reais! – disse o vendedor esperando chamar nossa atenção.

Meu pai tirou a carteira do bolso e se dirigiu ao caixa. – Não tem como fazer desconto a vista? – disse ele enquanto entrava em uma pacata barganha com o vendedor deixando-me a sós com Declan.

— Realmente o destino é algo engraçado. — expressou Declan suavemente.

— E põem engraçado nisso. — respondi. – Então você estuda engenharia certo Declan?

— Nossa, parece que você sabe muito sobre mim! – exclamou o rapaz cocando a cabeça.

— Na verdade não sei muito. É que...digamos, não é todos os dias que alguém invade sua sala de aula e fica meio...hummm...confuso.

— Sem chance! Agora tudo faz sentido! Eu devo ter deixado o celular cair na sua sala! Amy você estuda moda ou algo do tipo!

— Design de moda. 6 ciclo – respondi assumindo uma expressão atenciosa.

— Legal! Nunca conheci alguém que estudasse design de moda antes. – assumiu Declan.

— Bom mas você deveria. – como fui estúpida. Não se deve jogar na cara das pessoas que elas se vestem mal na primeira conversa. Deve ser por isso que tenho poucos amigos.

— Amy, você é peculiar. Gosto de pessoas diretas. Um dia te conto o porque das minhas roupas é uma longa história. – complementou Declan deixando-me tão constrangida como eu merecia.

— É não foi isso que eu quis dizer ...é...

— E aí garotos vamos embora. — Graças a Deus meu pai chegou e salvou minha pele antes que eu pudesse piorar mais as coisas. – Ei Declan se você quiser podemos colocar sua bicicleta na carroceria do carro e levar te dar uma carona até a universidade. Tenho que levar a Amy até lá mesmo e acho que vocês estão um pouco atrasados.

— Seria muita gentileza sua senhor James. – respondeu Declan enquanto abria um largo sorriso.

Sem mais demoras saímos da loja e meu pai e Declan abriram a carroceria da Hilux para transportar a bicicleta. Sentei-me no banco da frente ao lado de meu pai, fechei os olhos e respirei fundo. Tenho que ser mais simpática com as pessoas. Declan parece ser um bom garoto e talvez possamos ser amigos. Não posso estragar tudo com todos sempre. Declan e meu pai entraram no carro e seguimos pela longa estrada de mão dupla.

Meu pai tem o talento de nunca deixar um ambiente ficar sem conversa. Conversou sobre várias coisas como se ele gostava de estudar engenharia, o que pretendia fazer no futuro, se trabalhava... Mas foi quando ele chegou no assunto família foi que as coisas ficaram ainda mais interessantes. Parece que a mãe de Declan trabalhava junto com meu pai. Realmente o mundo é muito pequeno. Eu me mantive calada na maior parte do tempo. Retoquei minha maquiagem. E sorria quando Declan fazia algumas de suas piadas.

Ao chegarmos a universidade todos descemos do carro. Declan e meu pai retiram a bike e a colocam sobre o verde gramado do campus. Meu pai se despede de mim e de Declan e segue seu caminho rumo ao trabalho, deixando-do me novamente sozinha com o rapaz.

— Ei Amy seria muito legal conversar contigo qualquer dia desses. Acho que você deve estar atrasada também certo?

— Sim — movimento a cabeça positivamente.

Declan abre sua mochila e pega uma caneta vermelha. Ele apanha meu braço e sem me dar tempo para reagir escreve seu número.

— Bom, agora você sabe como me encontrar! Não tome banho antes de anotar o número em outro lugar- disse ele sorridente.

— Ok Declan!

— Ah, e você pode me chamar de Dec. Tenha um bom dia Amy!

Declan montou em sua bicicleta e pedalou vigorosamente em direção ao "estacionamento das bicicletas" do outro lado do campus.

Segui meu caminho em direção ao bloco de aulas. Ao olhar para meu braço riscado pela caneta vermelha sorri. Fazia muito tempo que não tinha essa sensação de alegria tão pura. É engraçado como as pessoas podem nos surpreender, só é necessário dar uma chance a elas.

A aula foi entediante. A história da moda não é tão interessante como aparenta. A voz da professora me faz querer tirar uma longa soneca. No meio da aula sinto meu celular vibrar no bolso. Era só meu pai perguntando a que horas ele deveria passar para me buscar. Aproveito que o celular está acendido e copio os números vermelhos escritos em meu antebraço adicionando um novo contato:

Dec Melliorn.