Sanguinária
5 O grande dia
Quando o celular vibra sobre a mesa minha mente retorna das divagações.
"Pronta querida?"
Leio as palavras de Declan e não sei responder a simples pergunta. Acho que ninguém está totalmente pronta para um momento tão decisivo como esse. Eu nunca pensei que esse dia chegaria. Até imaginava que talvez algum dia pudesse acontecer, mas não tão rápido. Coloco alguns fios teimosos e esvoaçantes de meu cabelo atrás da orelha.
— Ficou maravilhosa Amy! – Exclama alegremente o maquiador.
Fixo meus olhos no espelho e observo meu rosto com calma. A sombra, o blush, delineador, enfim tudo estava perfeito. Realmente estava maravilhoso.
— Está maravilhoso mesmo Esdras! Muito obrigada por isso.
— Tente relaxar ok? Alessandra já está chegando para terminar seu penteado. – Antes que meu maquiador Esdras terminasse de falar a jovem ruiva entra na sala.
— Cheguei queridos! – exclamou Alessandra a cabelereira – Esdras você se superou! Olha só para você, Amy está deslumbrante! Agora é minha vez de fazer mágica por aqui.
Enquanto sentia as firmes e habilidosas mãos de Alessandra em meus cabelos fecho os olhos por alguns segundos. Que loucura! 4 anos já haviam passado desde 25 de maio de 2005. O dia da tempestade. O dia em que meu caminho e o de Declan se cruzaram. Evoluímos muito desses anos para cá. Sorrio ao acordar-me de quando ele escreveu seu número de telefone em meu braço e como mais tarde naquele mesmo dia saímos para tomar um café. Depois de muitas mensagens de texto, conversas e encontros ele havia me fisgado com seu charme, sua preocupação comigo, seu otimismo, suas piadas sem graça e principalmente sua extrema doçura.
Nos beijamos pela primeira vez em nosso sexto encontro. Foi inesperado mas uma daquelas sensações que dá vontade de guardar em um vidrinho ou congelar para sempre. Quando começamos a namorar depois de quatro meses e meio foi algo natural. Nossa relação já era de longe a melhor que eu já tinha experimentado em toda minha vida. Ali estava eu, apaixonada por um homem que fazia de tudo para me fazer feliz.
Quando Declan se graduou estávamos juntos. Ele me surpreendeu ao final da cerimônia com o pedido de noivado. O recém formado engenheiro me fez chorar em meio a todas aquelas pessoas em público. Minha resposta não foi um ato irracional, ou por impulso, eu sabia que devia dizer sim, e foi exatamente isso que eu fiz. Eu o amava de uma maneira inexplicável e sentia coisas que nunca havia sentido antes. Se alguma vez tomei uma decisão tão certa em minha vida foi quando aceitei o pedido de casamento. Eu tinha a certeza que seríamos muito felizes juntos e tudo o que eu queria era ter Dec comigo todos os dias de minha vida.
Declan mudou muito nesse período de tempo. Umas das maiores mudanças foi abandonar o guarda roupas do pai e usar roupas "normais". Foi uma decisão que ele tomou sozinho, e me deixou super orgulhosa porque aquilo não se tratava somente de roupas fora de moda, se tratava de estar preso a um passado triste e ele conseguiu seguir em frente. Acho que Declan percebeu que independentemente da roupa que ele usasse as lembranças que tinha de seu pai estariam para sempre em sua memória e isso era importante.
Depois de que terminei a faculdade também e de mais alguns meses de noivado decidimos a data do "grande dia". 25 de maio, o mesmo dia em que a tempestade nos pegou de surpresa e que o universo conspirou para que nos encontrássemos.
Meus pais estão felizes e isso é muito importante para mim. Minha sogra Elizabeth é uma pessoa maravilhosa e até hoje trabalha com meu pai no Jornal diário. Ambas as famílias se dão muito bem e apoiaram muito a nossa decisão matrimonial. Então aqui estou eu a poucas horas de entrar pela igreja repleta de familiares e amigos e dizer sim novamente.
Depois da cerimônia seguiremos para nossa lua de mel na Europa. Estou muito feliz porque vou poder dar uma olhadinha nas últimas tendências primavera verão quentinhas de Paris, e ao mesmo tempo hummm.... Vai ser ótimo, disso tenho certeza.
Sei que esse será um dos dias mais felizes da minha vida e sinto um pouco de medo. Eu sei que isso é algo natural, nunca conheci uma noiva que não ficou um pouquinho nervosa com toda a pressão que um casamento traz.
A partir de amanhã tudo será diferente. Nosso apartamento já está comprado e mobiliado e passaremos a morar juntos quando retornarmos de viajem. Vai ser diferente porque nunca vivi com alguém que não fossem meus pais ou minha avó. A partir de agora somos só nós dois e isso é tudo que eu quero e preciso.
— Amy acho que está perfeito agora! O que você acha? – pergunta Alessandra apreensiva.
— Está incrível! Alessandra Muito Obrigada você é a melhor das melhores! – fico boquiaberta com o resultado. Meu cabelo estava lindíssimo. Realmente não sei como Alessandra conseguiu deixar minhas ondulações tão bem definidas. O coque e os pequenos cristas swarovski me faziam sentir com um membro da realeza. Contenho as lágrimas para não borrar a maquiagem, é tanta felicidade que preciso expressar de alguma maneira. Tudo que consigo fazer é gritar. O som agudo sai pela minha boca em meio a um largo sorriso que também faz Alessandra cair em gargalhadas.
— Está tudo bem por aqui? Ouvi os gritos e fiquei preocupada! – expressou minha mãe enquanto entrava no cômodo e se juntava a nós. – Amy meu amor você está perfeita! Minha filha dá até vontade de chorar.
— Mãe vem aqui! Está tudo bem, não chore senão vai borrar a maquiagem!
Abraço minha mãe fortemente e noto que ela não conseguiu conter as lágrimas.
— Mãe chega de choro. Venha preciso de sua ajuda para colocar o vestido!
— Meninas creio que meu trabalho está completo por aqui! Amy te desejo muitas felicidades. – disse Alessandra sorridente.
— Muito obrigada Alessandra! – nos despedimos e a talentosa cabeleireira me deixa a sós com minha mãe.
Não demoramos muito tempo para que eu terminasse de me vestir. Olho novamente minha imagem refletida no espelho e não tenho outra reação senão sorrir. Enfim estava pronta bem a tempo de escutar a buzina do carro que me levará até a igreja.
"Estou pronta futuro esposo, não se atrase, esse é o papel da noiva!"
Digito sorridente e envio a mensagem para Dec enquanto descemos as escadas rumo ao carro.
Demoramos menos de 20 minutos para chegar a igreja. Minha mãe me olha carinhosamente e não diz nenhuma palavra senão provavelmente vai começar a chorar de novo. Ela nem mesmo precisa dizer nada, eu sei que ela está muito feliz. Dou um beijo em sua bochecha e desço do carro.
O dia está lindo e comicamente vejo nuvens negras no céu azul. Provavelmente vai chover mais tarde. Muito conveniente, é a força da data. Subo as escadas e encontro meu pai na porta frontal. Minha mãe rapidamente entra na igreja deixando-me a sós com meu pai.
— Minha princesinha chegou o grande dia! – fala meu pai com um lindo sorriso.
— Sim pai! O Declan já chegou certo? Vamos lá!
Antes que meu pai pudesse responder minha mãe retorna a entrada da igreja com uma expressão completamente diferente da de alguns segundos atrás.
— James onde está o Dec? Ele já devia estar esperando lá na frente! – diz minha mãe em tom preocupado.
— Ok, vamos todos manter a calma. Ele nem está tão atrasado assim! Além disso a casa dele e de Elizabeth fica a 4 quadras daqui ele provavelmente já deve estar vindo! – contesta meu pai calmamente.
Meu pai está certo. Dec nunca me deixaria plantada no altar. Chego até achar a ideia engraçada. Respiro profundamente tentando manter o máximo de calma possível.
Depois de meia hora de espera minha calma estava a ponto de acabar. Não estou brava com Dec mas tremendamente preocupada, ele não responde as minhas mensagens ou atende as ligações. Meu pai me tranquiliza e se oferece para ir até a casa de Declan para verificar se tudo estava bem. Ele me diz que vai caminhando porque a casa de Dec era realmente muito próxima. Respiro profundamente outra vez e escuto o anúncio de alguém pelo microfone dizendo que em breve iniciaríamos a cerimonia e que todos deveriam ter paciência. Meu coração bate forte, tenho a sensação de que vou ter um infarto. Nunca tive um mas acho que deve ser parecido com isso que estou sentindo. O suor frio surge em minhas mãos. Minha mãe me abraça na tentativa de tranquilizar-me mas não obtém sucesso.
O grito desesperado ecoa por toda a rua. Instantaneamente as pessoas começam a sair de dentro da igreja para ver o que está acontecendo.
— SOCORRO PELO AMOR DE DEUS! ALGUÉM AJUDE! CHAMEM OS BOMBEIROS E UMA AMBULANCIA! – grita a mulher em pânico e aos prantos.
Todos observam a cena apreensivamente, e quando a senhora se aproxima vejo que é a minha sogra Elizabeth. Corro o mais rápido que posso em sua direção. Arranco o véu e ergo o vestido para me locomover mais rápido.
— Amy! É o Dec... – Elizabeth desmaia e quase não consigo segurá-la. Grito por ajuda e muitas pessoas vem em nossa direção. Ao longe avisto outra figura se aproximando. É meu pai que com muito esforço carrega Declan em seus braços. Corro eu sua direção e quando estou a poucos metros de distância vejo a imensa quantidade de sangue regando o asfalto.
— Amy! Chame a sua mãe! Amy! Amy!
A voz ecoa mas não tenho reação alguma. Parece que estou presa dentro de mim e não posso me mover ou fazer nada.
Meu pai coloca Declan no chão e pressiona seu abdome. O corte é imenso, o sangue jorrava tão violentamente que parecia quase impossível estancá-lo. Uma multidão de pessoas se forma ao nosso redor. Meu pai agachado ao lado de Dec faz tudo o que pode para evitar a hemorragia, posso ver que sua camisa branca já havia assumido um tom avermelhado. Ainda estou paralisada, continuo em pé e mesmo querendo fazer algo meu corpo não me permite. Ouço minha mãe gritando para a multidão que se formava ao nosso redor.
— Por favor me deixem passar! Eu sou médica! Posso ajudar! Todos saiam daqui não formem alvoroço. Chamem uma ambulância agora!
Minha mãe rasga meu vestido arrancando a barra e um bom pedaço da cauda e o utiliza com a intenção de parar o sangramento. Ao sentir o vento frio sobre minhas pernas consigo finalmente me mover.
— Querida acho melhor você se afastar! – diz minha mãe em tom enérgico.
Eu não dou ouvidos a ela. Me ajoelho e encosto minhas mãos no rosto de Declan. Sua pele está fria como gelo. Dec abre os olhos e eles vão direto de encontro aos meus.
— Seja forte meu amor! Vai ficar tudo bem! – sussurro em seu ouvido.
— Amy... Eu te am...– Declan retorna a inconsciência e tenho a sensação de que cada parte do meu corpo vai explodir. Meus olhos lentamente se fecham. Sinto uma forte dor em minha cabeça quando ela se choca com o duro asfalto. Posso sentir o quente sangue de meu noivo molhar o que sobrou do meu vestido e minha pele. Nossas mãos ainda estão entrelaçadas quando o mundo escurece completamente.
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