Sanguinária

6 O beijo da morte


DECLAN

Frio, muito frio. Nunca me senti tão gelado. Tudo aconteceu tão rápido. O corte é profundo demais. Tento me arrastar até a porta de meu quarto mas não consigo. A dor é tão forte que me faz perder os sentidos.

Ao abrir os olhos novamente vejo a melhor imagem do mundo. Estou sonhando? Amy está maravilhosa. Me esforço para tentar dizer algo mas as palavras não saem pela minha boca.

Minhas forças já estão se acabando. Luto contra a dor, tenho que conseguir dizer em voz alta.

— Seja forte meu amor! Vai ficar tudo bem! – Amy sussurra em meu ouvido. Eu desejo do mais profundo de meu ser que isso seja verdade. Acho que estou atingindo meu limite. Em um último esforço reúno toda energia restante, ela precisa escutar isso de mim nem que seja pela última vez.

— Amy – exprimo com a voz embargada – Eu te am... – não consigo completar a frase. Minha voz parece não querer obedecer mais. O frio envolve meu corpo de maneira mais brusca. Sinto meu organismo se contorcer por dentro. A medida que meus olhos se fecham pos...so sen...tir qu...

AMY

Ninguém sabe dizer ao certo o que aconteceu com Declan. Ninguém sabe porque ele foi atacado. Ninguém sabe quem o odiava tanto a ponto de querer vê-lo morto. Ninguém sabe como estou destruída.

Quando chegamos ao hospital já era tarde demais. Mesmo com todos os esforços de minha mãe e da equipe de socorro Declan não conseguiu resistir.

Minha testa estampava o hematoma da colisão com o asfalto quando desmaiei ao lado de Declan. "Algo normal" disseram os médicos. Desmaios são comuns em casos de medo, trauma emocional e estresse.

Quanto mais alto se voa, maior o tombo. Eu estava nas alturas, passar o resto de minha vida com Declan era tudo que eu mais almejava, e estávamos a um passo disso. Não sei se conseguirei levantar dessa queda.

Porque a vida é tão injusta? Ele era muito melhor que eu em vários sentidos. Era bondoso, honesto, sincero, otimista, compreensivo, buscava sempre ajudar a todos e eu absolutamente poderia passar o dia todo falando sobre suas qualidades. Seria mais justo se eu estivesse naquele caixão.

A história ficou famosa em toda a cidade. Ninguém respeita o luto e o momento de tristeza. Até notícias de jornal e capas de revista foram estampadas com a tragédia. O mundo é um lugar cruel. Talvez Declan esteja em um lugar melhor. Existem tantas teorias sobre isso. Prefiro acreditar que ele estará sempre vivo em minhas memórias e em meu coração e nada nem ninguém poderá tirar isso de mim.

Tudo que eu espero agora é que a justiça seja feita, que a polícia encontre esse miserável e cretino assassino que tirou Declan de mim. E que ele sofra assim como estou sofrendo.

— E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor. – recita o pastor na tentativa de confortar e consolar a todos os presentes no funeral.

Muitas pessoas estão presentes, a maioria delas nem sei quem são. Antes de seguir para o cemitério e enterrá-lo temos a última chance de nos despedir. Me aproximo do caixão e mais lágrimas são derramadas. Acaricio seu rosto sem vida e gelado. Passo minhas mãos por seus lindos cabelos e aperto sua mão porque essa vai ser a última vez que poderei fazer isso.

— Declan... – sussurro em seu ouvido mesmo sabendo que ele não pode me escutar. – Eu te amo!

Dou espaço para que outras pessoas possam despedir-se também. Enxugo minhas lágrimas e sinto o doce abraço de minha mãe.

Seguimos em direção ao cemitério. A suave chuva inicia pegando a todos desprevenidos. O céu cinza também aparenta estar triste, até as nuvens lamentam com suas lágrimas. Assim como uma tempestade nos uniu, outra marca nossa despedida.

O caixão desce lentamente até estar completamente encostado ao solo do buraco. Observo a escura terra cobrir completamente o caixão e tapar a cova. Nunca mais o verei, ou escutarei sua sorriso, ou sentirei seu toque. A lápide por fim é colocada:

"Declan Augusto Melliorn, amado filho e noivo.

Aqueles a quem amamos nunca morrem, apenas partem antes de nós

Eternas saudades da Família e amigos."