Sanguinária

7 Infectado


DECLAN

O calor lentamente retorna a circular por minhas veias. Ao abrir meus olhos posso ver um quarto escuro, sem iluminação e sem janelas. Tudo que eu consigo me lembrar era de estar caído, do sangue deixando meu corpo e por último, do suave toque de Amy e suas palavras dizendo que me amava. Parecia que eu havia mergulhado num profundo oceano e agora lentamente estava saindo dele. Coloco a mão sobre meu abdome e vejo que o corte está quase cicatrizado. Onde eu estou? Será que eu morri? Mas o que mais me deixa preocupado é não saber onde Amy está.

Com muito esforço levanto-me e fico sentado na maca por alguns instantes. Se eu estou morto esse provavelmente deve ser o inferno. Ao lado da maca estavam alguns equipamentos cirúrgicos precisamente organizados em uma bandeja de metal. Agarro um bisturi e o guardo em meu bolso com o intuito de obter algum meio de proteção. Tento caminhar mas meu corpo parece ainda não estar completamente curado.

Ando pesadamente em direção a porta do pequeno cômodo e por sorte ela está aberta. Não há nada demais além da porta, somente um corredor escuro. Respiro profundamente esperando surgir um pouco de coragem e começo a andar silenciosamente pelo corredor. Utilizo as altas paredes brancas ladrilhadas para apoiar-me. O lugar parece estar abandonado a algum tempo, e provavelmente deveria ser um hospital ou algo do tipo no passado. Tento abrir todas as portas pelas quais passo mas todas estão trancadas.

A cada momento o medo se apodera mais de mim. Ao longe posso avistar uma luz acesa. Vou em direção a sala iluminada e percebo que a iluminação provém de um notebook ligado. O ambiente está bem organizado diferentemente do restante do local abandonado. Abro as gavetas da escrivaninha negra em busca de algo que possa me ajudar entender onde estou. As gavetas estão vazias. Sobre a mesma escrivaninha posso ver uma pasta transparente intitulada "resultados exame de sangue" abro a pasta e literalmente não consigo entender nada.

A misteriosa folha traz uma contagem de leucócitos, hemácias e todas essas coisas de exames sanguíneos mas uma coisa me chamou a atenção. O último tópico dizia sobre multiplicação e porcentagem de contaminação de um vírus e enumerava 100%. Quem quer que seja essa pessoa algum vírus a infectou completamente. Isso não deve ser um bom sinal, em minha cabeça a primeira ideia que surge é que esse lugar é utilizado para experimentos em humanos e isso é sinistro.

Ao observar a parte de trás da folha fico chocado com o que vejo. A folha de exames pertence a mim, e a amostra foi colhida no dia 27 de maio, dois dias após a data que eu deveria ter me casado. Dobro a folha de exames e escuto passos se aproximando do cômodo. Saio rapidamente da sala na esperança de não ser visto.

— Declan! – grita a voz masculina – Eu sei que você está aqui!

Junto todas as minhas forças e começo a correr o mais rápido possível. Escuto passos atrás de mim se apressarem e ficarem cada vez mais próximos.

Abro a porta de saída de emergência e desço a escadas a todo vapor. Ao final da saída de emergência me vejo em um grande saguão. O ambiente é bastante grande e possui uma grande porta de vidro na entrada. Tento abrir a porta mas não tenho sucesso. Corro alguns metros e vejo um almoxarifado. Rapidamente entro na pequena sala cheia de vassouras e travo a porta com uma delas.

Sento-me no empoeirado piso e procuro me acalmar. Retiro o bisturi do bolso e o empunhá-lo em posição de ataque.

— Declan, escute bem eu não quero te machucar, muito pelo contrário eu salvei sua vida! – grita o homem, que provavelmente deve estar no saguão, somente a alguns metros de distância do cômodo onde me escondi.

— Eu sei, você deve estar confuso e com medo, mas tudo tem uma explicação. Eu quero poder te ajudar a entender o que está acontecendo. – explica o homem com voz fervorosa.

Algo em mim me faz sentir que já ouvi essa voz, talvez seja alguém que eu conheça. Esforço-me para tentar lembrar. Posso escutar o homem aproximar-se do almoxarifado e tentar abrir a porta.

— Achei você! Abra a porta Declan! Vamos conversar!

Continuo em silencio e cada vez mais tenho a sensação de conhecer a voz do meu perseguidor.

— Declan vou te dar 5 segundos e depois disso vou entrar à força. Cinco! – esbraveja o homem – Quatro!

— Espera! Eu conheço você? – pergunto com a voz trêmula.

— Sim, você certamente me conhece! Três!

— Como eu posso saber que você é confiável? Você me infectou com algum vírus? — questiono.

— Garoto se eu quisesse te matar já teria feito isso! Você já está aqui há 2 dias. E sim eu te infectei com um vírus, abra a porta que eu posso te explicar mais! – diz o homem já impaciente.

Minha cabeça parece estar em uma montanha russa. Nada disso faz sentido, se esse homem diz querer me proteger porque me infectou com um vírus?

— Porque você me infectou com esse vírus? Que eu saiba vírus não são bons para o ser humano! Me deixa ir embora por favor! – grito asperamente.

— Você tem razão, vírus não são bons para o ser humano, mas você não é mais um ser humano Declan, e a propósito seu tempo acabou!

Escuto o tiro que ultrapassa a porta e a abre instantaneamente. O Homem de uma vez entra no pequeno cômodo. Me jogo em sua direção e o atinjo na barriga com o bisturi repetidas vezes. O homem cai pesadamente e posso ver seu sangue começar a molhar o chão do almoxarifado. Será que eu o matei? Parece que ele não está mais respirando.

O indivíduo vestia um jaleco branco e seu rosto estava coberto com uma máscara cirúrgica descartável. Com cuidado estendo a mão em direção a máscara com o objetivo de revelar o rosto, quando estou a ponto de retirá-la o homem se levanta e crava a fina agulha em meu pescoço. Posso ver quando ele aperta o êmbolo liberando a substância em minha corrente sanguínea.

Meu corpo começa a enfraquecer, minhas pernas e braços perdem as forças, me sinto como se estivesse anestesiado. Caio e o gosto da poeira que cobre o chão invade minha boca.

— Declan vai ficar tudo bem! Sei disso porque assim como você eu também não sou mais humano.

AMY

— Filha já faz dois dias que você não sai desse quarto! Eu te trouxe comida! Abra a porta meu amor!

— Não estou com fome mãe! Me deixa em paz! – respondo sem sequer levantar a cabeça do travesseiro.

E assim tem sido os últimos dias. Não tenho ânimo para sair do quarto. Minha mãe acha que eu deveria ir ao psiquiatra e fazer terapia. Mas o que eles não percebem é que tudo que eu preciso é de um tempo. Preciso ficar sozinha, preciso de silêncio e ponto final. Não aguento mais ouvir "Sinto muito" ou "Meus pêsames" e todas essas frases automáticas para consolar alguém.

Já chorei tanto que minhas lágrimas secaram. É por isso que eu sempre tive a filosofia de me blindar as relações profundas e duradouras porque esse tipo de coisa pode acontecer, e isso te destrói. Eu não quero mais ser destruída. Eu não vou nunca mais ser destruída. Declan vai estar para sempre em meu coração, mas essa foi a última vez que eu me entreguei de corpo e alma para outra pessoa.

Me levanto da cama, e saio de meu quarto pegando meus pais desprevenidos.

— Filha que bom que você está aqui! – diz meu pai sorridente

—Vamos dar uma volta querida? – questiona minha mãe.

— Não mãe, muito obrigado. Só vim aqui dizer que amanhã eu volto a trabalhar. A sessão de moda do jornal diário deve estar sentindo minha falta! Pai você me dá carona.