Sanguinária
3 Paz em meio a tempestade
AMY
Eu realmente queria poder ajudar aquele garoto de alguma forma. Isso não é algo natural em mim. Não que eu seja uma completa vaca desgraçada que não dá a mínima para os outros. O grande X da questão é que eu sempre estive tão centrada em meus objetivos e planos que as vezes acabava esquecendo das pessoas ao meu redor. Eu sei, isso é uma coisa ruim, mas ao mesmo tempo pode ser algo bom. Agindo dessa maneira não se consegue fazer com que hajam relações interpessoais profundas e duradouras, entretanto é criado um tipo de blindagem. Quando não se dá muito a alguém, também se espera receber pouco dela, e isso é muito melhor que dar muito e não receber nada. Posso parecer incrivelmente superficial ao não ter relações verdadeiras e duradouras com as outras pessoas, mas isso me faz ter a sensação de ser resistente a decepções.
A vontade de ajudá-lo vai contra a minha própria filosofia. Roubar o celular e vender para o mercado negro nunca foi uma opção, o mais correto seria procurar Declan e devolver seu telefone. Saio da sala de aula pensando em que lugar provavelmente eu poderia encontrar o garoto. Desço as escadas em passos lentos. Aquele salto estava me matando, mas são sacrifícios que se fazem pela beleza.
Ao sair do edifício de aulas reparo que o tempo está nublado. É bem provável que vá chover, e eu odeio dirigir abaixo de chuva. Apresso os passos em direção ao meu carro. Acho que a ajuda humanitária vai ficar para outra hora. Declan não deve ser tão fútil a ponto de não conseguir ficar uma noite sem seu smarphone certo?
Entro em meu carro e posso sentir o calor abrasador. Dou partida rapidamente esperando que o ar condicionado seja ligado logo. O rádio automaticamente toca a música Titanium de David Guetta. Quase como uma resposta instantânea começo a cantar a música com Sia enquanto manobro para sair do estacionamento. As primeiras gotas de chuva começam a molhar o para brisas. Os limpadores são acionados e as finas gotas escorrem pelas laterais do vidro frontal. Quando estou a ponto de sair do estacionamento vejo a certa distância a horrenda camisa de praia. Obviamente me dei conta de que aquele era Declan, o garoto atrapalhado cujo celular estava em minha bolsa.
Desligo o motor do carro. Rapidamente abro o zíper da bolsa e encontro o celular. Abro a porta do carro e posso sentir as geladas e delgadas gotas de chuva molhando meus cabelos e escorrendo para minha testa. Droga, minha chapinha foi para o brejo! Me lembro com desgosto. Ao sair do veículo começo a caminhar em direção ao garoto. A chuva aumenta, as gotas caem mais pesadamente e o vento vibra mais violentamente. Vejo que já estou no meio de uma tempestade. Instantaneamente Declan corre para escapar da chuva.
— Hey, Declan! –grito na esperança de que ele me escute e diminua a velocidade. Provavelmente o forte vento e o barulho da chuva não o permitiram escutar a minha voz. Minha roupa já está começando a ficar encharcada e nesse momento começo a arrepender-me de tentar ser prestativa. Corro para tentar alcançar a Declan mas chega a ser covarde perseguir um rapaz de All stars confortáveis enquanto se está calçando um requintado salto 10. Grito novamente e dessa vez tenho sucesso. Declan volteia a cabeça para trás e rapidamente muda seu curso vindo em minha direção.
—Oi, você me chamou? – Pergunta Declan ofegante e em alta voz a mais ou menos dois metros de distância.
— Sim, estou com seu celular. Você deixou ele cair hoje. — Respondo com um sorriso forçado.
— Graças a Deus! Pensei que alguém tivesse roubado. Muito obrigado.
Estendo minha mão e me dou conta que algumas gotas de chuva molharam a tela do aparelho telefônico.
— Desculpa- digo envergonhada- Eu te vi correndo e não deu tempo de pensar direito. Sai correndo também e nem me dei conta que estava com um celular na chuva, sou uma completa idiota.
— Ei, você não é o Chapolin colorado mas salvou meu dia. Está tudo bem. É sério! — Declan me diz sorridentemente.
— Ok Declan, meu trabalho aqui está cumprido. Vou voltar para meu carro antes que...
O forte barulho ecoa e o som lancinante é tão forte que tenho a sensação de que meus tímpanos seriam rompidos. Instintivamente me lanço nos braços a minha frente e aperto os meus ao redor do corpo molhado de Declan com todas as minhas forças.
Eu não me lembro bem quando meu medo de raios e trovões começou. Esse é o principal motivo de não gostar de dirigir em meio a tormentas. Não pela chuva em si, senão por medo das descargas elétricas. Acho que meu medo não se classifica como astrofobia que é o pânico a raios e trovões mas quase chega lá.
Encosto minha cabeça ao tórax adiante de mim e é incrível como 22 anos de idade se esvaem e me deixam tão vulnerável como se tivesse 5. Os firmes braços que passam a envolver minha cintura irradiam estabilidade a todo meu corpo. Me sinto segura. Mesmo estando ensopada pela agua fria da chuva, sinto um calor reconfortante subir por cada centímetro de minhas costas até chegar em minha nuca. Meu corpo que outrora tremia em uma mescla de medo e frio volta a acalmar-se e estranhamente posso sentir paz em meio a tempestade.
O minuto parece demorar uma eternidade e sinto meu pulso voltar ao normal, mas ele rapidamente volta a acelerar. Como sou estúpida! Estou realmente abraçando um desconhecido no meio de uma tempestade?
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DECLAN
Quando o trovão iluminou o céu com sua luz amarelenta, e o som tão forte e profundo eclodiu levei um dos maiores sustos da minha vida. Não por causa da descarga elétrica, mas pelo abraço desesperado daquela garota que eu nem sequer conhecia. Fazia muito tempo que eu não abraçava alguém que não fosse minha mãe. Eu estava apavorado, correspondi envolvendo a cintura da garota com meus próprios braços, afinal abraço é isso certo? Duas pessoas que se entrelaçam com os braços e aproximam os corpos.
Eu não sabia ao certo o que fazer. Devia falar algo? Provavelmente sim, mas eu não sabia nada sobre ela, nem seu nome. Ficar quieto pareceu a melhor das ideias. Eu realmente não sei dizer como me senti, só sei que entrei em um tipo de transe. Me esqueci por alguns segundos onde eu estava, esqueci da chuva ao meu redor, ou do celular que havia recuperado. Tudo que eu queria era que aquela sensação durasse para sempre. É tão bom sair da realidade as vezes.
Quando ela se afastou de mim percebi que provavelmente a situação se tornaria constrangedora. Digamos que não é algo normal abraçar uma pessoa aleatória abaixo de chuva.
—Obrigado por isso- ela me disse timidamente. – Eu tenho que ir – A garota me deu as costas e começou a caminhar em direção ao seu carro.
— De nada. Ei posso saber seu nome? – a chuva continuava a todo vapor e senti que minhas meias já estavam completamente encharcadas.
— Amy Watson. Até mais Declan.
A garota entrou em seu automóvel e pisou fundo no acelerador. O carro era bonito, provavelmente ela devia ter muita grana. Além disso ela era bonita. Muito bonita a propósito. Fiquei parado pensando nos últimos minutos e vi como esse dia tinha sido completamente insano. Com certeza 25 de maio de 2005 foi um dos dias mais confusos que já tive.
Respirei fundo e continuei minha corrida em direção ao ponto de ônibus. Abrigado debaixo do telhado de metal retirei o celular do bolso e liguei para minha mãe. Ela me disse que em alguns minutos chegaria para me levar até nossa casa. Sentei-me e observei a chuva. As gotas refletidas pela luz do poste davam um efeito peculiar a tormenta.
O frio invadiu meu corpo, afinal minha roupa estava completamente molhada. Tirei a touca da cabeça e a torci um pouco para retirar o excesso de agua. Ao pensar com calma nos últimos fatos percebi que não sabia o que havia ocorrido. Provavelmente Amy devia ter medo de tempestades, de raios e trovões. Uma garota como ela não abraçaria um cara como eu se não houvesse uma boa razão. Sempre vejo que essas garotas tem os namorados bad boys, cheios de músculos, os legítimos gostosões.
Como diz o ditado um raio nunca cai duas vezes no mesmo lugar. Provavelmente eu nunca mais a veria. Então a melhor coisa a fazer era esquecer. Não alimentar falsas esperanças ou imaginar coisas que não existem.
A buzina me fez sair dos meus pensamentos e voltar a realidade. Minha mãe havia chegado.
— Declan você está todo molhado meu filho. Porque não me ligou antes eu podia ter ido te busc...
— Mãe — interrompi- Está tudo bem ok? O dia foi uma droga hoje. Primeiro eu quase fui atropelado!
— O que Declan? Meu Deus! Filho como assim? — Minha mãe realmente ficou assustada, ela me superprotege porque se sente culpada pela morte do meu pai. A culpa não foi dela. O câncer não é culpa de ninguém. Aprecio a vontade dela de cuidar de mim mas as vezes parece que ela se esquece que tenho 23 anos, já não sou mas seu bebezinho.
— Mãe não foi nada de mais ok? – respondi enquanto entrava no carro e afivelava o cinto de segurança -Um cara furou o sinal vermelho e acertou minha bicicleta em cheio. Eu consegui pular fora e está tudo certo.
Minha mãe fez a típica cara de preocupação – Filho você anotou a placa do carro? Vamos denunciar! Isso é um absurdo. — Bravejou.
—Não mãe, o cara foi legal comigo. Deixou a bicicleta no conserto e me levou até a universidade. Segunda vamos ver como ficou o concerto. — contestei tranquilamente.
— Declan, isso é inadmissível! Uma pessoa assim deve ser punida. Não me interessa se ele te ajudou depois! Ele não fez mais que a obrigação dele. Como se dar uma carona e pagar por um conserto excluísse o fato dele quase ter matado você! Esse cara é um completo idiota! – Nesse ponto percebi que minha mãe já estava perdendo a paciência, ela tinha a personalidade forte e dominadora, exatamente o contrário da minha. Nessas horas fico feliz porque a genética me abençoou com a calma e tranquilidade do meu pai.
— Mãezinha já passou tá? Eu estou bem e é isso que importa não é mesmo?
— É claro querido. Mas por via das dúvidas você perguntou o nome dele? – a feição de minha mãe se tranquilizou, é incrível como ela consegue passar de lobo a cordeiro em milésimos de segundo.
— Sim mãe, ele se chama James.
— Só James? –questionou minha mãe inquieta. — Você não tem mais nenhuma informação dele Declan? Sei lá meu filho ele não comentou nada? Qual a cor do carro dele?
— Mãe ele tinha uma Hilux prata. Hummm... também comentou alguma coisa sobre trabalhar no jornal diário eu acho, eu nem estava prestando muita atenção estava preocupado porque a aula já tinha começado.
— Declan – enunciou minha mãe calmamente — Esse homem era loiro, mais ou menos da sua altura, com os olhos claros e estava vestindo uma camisa azul marinho?
—Sim, eita como é que você sabe? Credo que estranho!
— Declan você sabe onde eu trabalho meu filho? – perguntou minha mãe em tom sarcástico.
— Obvio mãe! Você trabalha no jornal diário... – Caramba como eu não tinha percebido que James o atropelador trabalhava no mesmo lugar em que minha mãe?
— Declan meu filho – replicou minha mãe com a voz suave mas em tom sério- Você quase foi atropelado por James Watson. Diretor de redação do jornal diário, e mais especificamente, meu chefe!
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