Sanguinária
2 O começo do fim
AMY
Sol, como eu odeio o sol. Não que eu seja uma pessoa que odeie tanto a grande estrela a ponto de me chatear com ela, até porque isso seria ridículo da minha parte. O que me incomoda é o calor, a sensação ardida depois de receber os raios por muito tempo. Principalmente por minha pele ser extremamente branca. É por isso que a noite é tão boa, o clima é fresco, tudo é tranquilo e silencioso. Mas as aulas da universidade infelizmente começam de dia. As nove da manhã, quando estou indo de minha casa até o campus, o sol está ali sorrindo pra mim com seus braços de fogo.
A propósito, como sempre, estou atrasada. Perco muito tempo com meu blush e delineador. Tudo pra dar um pouquinho mais de cor a minha cara pálida. Como se não bastasse minha demora para levantar todos os dias de manhã, minha indecisão para escolher a roupa, o sapato, e fazer tudo isso combinar com a bolsa e a maquiagem me atrasam ainda mais. Afinal como uma aluna de Design de Moda pode ser desleixada com a aparência?
Desço as escadas correndo o máximo que meus saltos número 10 me permitem. O vestido florido ficou bonitinho com a meia pata negra.
Quase nem reparo em minha mãe que grita de longe:
” Bom dia filha! Ok, atrasada de novo? Beijo, e se cuide, não chegue tarde...”
Minha mãe já está bem acostumada, afinal todos os dias são praticamente iguais. Acordar, banho, arrumar-se, descer correndo, ir embora. Me sinto meio culpada em assumir mas eu gosto dessa rotina. Sem tempo para distrações, 100% de foco. Ok, 95% de foco, sempre tem aquelas saidinhas rápidas pro shopping com as colegas, umas olhadinhas nas redes sociais e alguns flertes aleatórios porque ninguém é de ferro! Contudo o objetivo principal é conseguir o diploma e estagiar com algum super ícone da moda na Europa. Esse dia ainda vai chegar, eu sei que vai.
O dia estava bem comum, tudo andando conforme o planejado. A aula de moulage estava no final, e já íamos em direção a sala de informática para começar com design de sapatos. Sentei-me em meu lugar de costume: O computador central da primeira fila. Me sentava sempre ali para ficar o mais perto possível do professor. Já havíamos começado a desenhar quando a desengonçada criatura apareceu.
O rapaz vestia uma combinação que eu nem sequer imaginava ser possível utilizar. Até uma árvore sabe e tem consciência de que aquilo não estava nada bom. Em síntese o conjunto era uma camisa de praia com coqueiros e barquinhos estampados, abaixo da camisa uma camiseta preta com caveirinhas. A calça boca de sino provavelmente ressurgiu da década de 80 e para fechar com chave de ouro não poderia faltar a touca cinza estilo Bob Marley.
O rapaz entrou porta adentro e justificou-se:
— Professor desculpa, sério mesmo. Um maluco quase me atropelou e destruiu minha bicicleta então...
— Ei — berrou meu professor de design. — Você está matriculado na turma de design de sapatos amigo?
O garoto instantaneamente erubesceu e se deu conta do erro fatal. Contive minhas risadas porque ele estava bem na minha frente e seria constrangedor para ele, eu supus.
—Nn...não — ele gaguejou. Sou de engenharia civil senhor- disse ele.
Todos começaram a gargalhar, meu instinto natural seria fazer o mesmo, mas por alguma razão a vontade de sorrir não veio.
O garoto saiu tão desesperado que nem se deu conta quando seu celular caiu. Levantei-me e recolhi o telefone, mas a rara espécime já havia fechado a porta e sumido de vista.
— Senhorita Amy, vai acompanhar o esquisitão ou retornar para a aula? — perguntou o professor em tom de provocação.
Rapidamente voltei ao meu lugar, e por curiosidade pressionei o botão para ascender o aparelho. O wallpaper com a foto de uma guitarra estava ali, junto com o nome de usuário
“Declan Melliorn.”
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DECLAN
Sem sombra de dúvidas esse foi o segundo pior dia da minha vida. O primeiro foi quando eu fiquei bêbado e... Enfim isso não vem ao caso agora. O fato é que hoje foi tremendamente embaraçoso.
Eu não sou o tipo de cara que gosta de chamar atenção, longe disso. A galera sempre fala das minhas roupas. Ok, eu assumo, as vezes são um pouquinho estranhas, mas tudo tem uma razão. Depois que meu pai morreu, uma das maneiras de ter ele sempre presente comigo foi usando suas roupas. Isso parece macabro, mas juro que não é. Hoje por exemplo usei a camisa de praia preferida dele, e uma calça que estava escondida lá no fundo do guarda roupas. A touca e a camiseta de rock, são meus. É incrivelmente reconfortante misturar meu estilo e o do meu pai. Realmente eu não sou bom em lidar com perdas ou com a morte.
Depois de engolir meu corn flakes e dar um beijinho de despedida em minha mãe, montei em minha super bicicleta azul e fiz meu percurso diário em direção a universidade. Foi quando o babaca do carro prateado atravessou o sinal fechado. Rapidamente saltei da bicicleta e ela foi para debaixo do carro. Sorte minha afinal, poderia ser eu debaixo do carro. O problema é que fiquei a pé, e perdi muito tempo até acertar a situação com o motorista, levar a bicicleta para o conserto e todas essas coisas burocráticas.
O motorista parecia simpático e mostrou integridade. Isso já foi suficiente para não odiá-lo por quase me atropelar e me fazer chegar atrasado em minha aula de desenho de arquitetura.
— Ei garoto, se quiser posso te dar uma carona até a universidade, é o mínimo que posso fazer para te ajudar. E, a propósito meu nome é James e o seu?
— Declan, senhor. — respondi com um sorrisinho forçado. – Se não te incomodar muito eu aceito a carona, não posso me atrasar mais.
James o atropelador gostava de conversar. Enquanto dirigia me contou sobre como gostava de trabalhar na redação do jornal diário. Falou sobre sua família, seu cachorro. Praticamente um monólogo. Enfim chegamos ao campus e educadamente me despedi.
— Muito obrigado James.
— Declan, imagine só filho! Sua bicicleta fica pronta na próxima semana. Segunda nos encontramos na bicicletaria para ver se o serviço ficou bom. Boa aula! – Disse sorridentemente enquanto pisava no acelerador.
“Boa aula?” Sério? Depois de quase ser atropelado? Enfim pelo menos James era honesto o suficiente para consertar meu “veículo” e me trazer a universidade.
Corri o mais rápido que podia pelo campus. Realmente era bonito. Ainda mais no verão com o clima quente. Como eu amo o sol. O calor representa vida. A luz solar é fundamental para todos os seres vivos. E o verão era a estação do ano favorita do meu pai.
Quase tropecei nas escadas rumo ao segundo piso. Avancei pelo corredor dos laboratórios de informática. Vários curso diferentes tinham aula por ali. Cheguei ao final do corredor. Respirei profundamente e de uma vez abri a porta:
— Professor desculpa, sério mesmo. Um maluco quase me atropelou e destruiu minha bicicleta então...- Balbuciei rapidamente esperando misericórdia do professor.
Foi quando olhei e percebi que 99% das pessoas na sala eram garotas super arrumadas que pareciam ter acabado de sair do São Paulo Fashion Week.
— Ei — berrou o pequeno homem. — Você está matriculado na turma de design de sapatos amigo?
Aí sim me dei conta que eu estava no lugar errado e na hora errada. Provavelmente abri a porta do lado oposto do corredor. Droga. Senti minhas orelhas esquentarem, o sinal de que eu estava ficando vermelho igual a uma pimenta. Sem pensar muito vomitei as palavras.
—Nn...não, sou de engenharia civil senhor.
Cada célula minha me mandava fugir, eu obedeci. Nem sabia que conseguia correr tão rápido. Fechei a porta e escutei as gargalhadas. As meninas eram lindas, mas cruéis. Era por isso que eu estava solteiro desde sempre. Não porque não me atraia por mulheres, mas porque elas sempre conseguiam quebrar meu coração em mil pedaços. Por isso a melhor opção era nunca assumir um compromisso sério.
Abri a porta do outro lado do corredor e felizmente aquela era minha turma. O professor não estava, havia saído para tomar água, bem, isso foi o que disseram meus colegas. Sorte a minha depois de um tsunami de azar. Me sentei no último lugar disponível na sala. Liguei o computador a minha frente e esperei enquanto ele iniciava.
Meu ritmo cardíaco foi voltando ao normal. Não havia necessidade de tanto nervosismo, afinal quem nunca passou por uma situação embaraçosa assim certo? História para contar para os filhos e netos no futuro,
O professor retornou para a sala e a aula de desenho gráfico me fez esquecer por algumas horas o desastre de dia que estava tendo. Ao final da aula me lembrei que estava sem meio de transporte e sem um tostão. Ia ter que ligar para minha mãe vir me buscar. Abri o bolso da mochila e meu celular não estava lá. Tirei tudo da mochila e nada.
Onde é que meu celular foi parar?
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