Sanguinária

10 Monstruoso


Notas iniciais
gente, desculpe a demora pra postar o cap...tá chegando vestibular e o tempo tá cada vez mas escasso...enfim...podem comentar, não mordo ok? haha... Beijos de luz pra vcs...

DECLAN

Mesmo com todo o esforço físico não me sentia cansado, nem havia suor escapando por meu poros. Com o auxílio da pá extraindo terra, a cova ia tomando forma. A que ponto desprezível eu havia chegado. Enterrar uma mulher inocente que havia sido sacrificada para que eu continuasse vivo. É macabro, sombrio e terrível. Meu pai disse que com o tempo isso passará a ser algo comum. Tenho pensado sobre isso, sobre matar, e há muita gente que merece. Talvez não seja necessário ceifar vidas inocentes. Estupradores, assassinos, criminosos são somente alguns exemplos de classe de pessoas que não fariam falta alguma para a humanidade.

Em pouco tempo o buraco já estava cavado. Observo novamente o corpo enrolado ao lençol branco. Descubro a cabeça da jovem mulher, teria ela filhos? Esposo? Estariam eles lamentando por ela agora? Toco seu rosto gelado e meus olhos são atraídos para o corte em seu pescoço. Pobre mulher. Acaricio sua testa e prometo a mim mesmo que isso nunca mais vai acontecer, pessoas inocentes não morrerão para saciar minha fome. Empurro o corpo para dentro da cavidade na terra e reinicio o trabalho com a pá para fechá-la. A cada movimento a frustração me alcança ainda mais. Já é quase noite quando o trabalho está completo. Me ajoelho ao lado da sepultura secreta, sem lápide ou identificação, somente um monte de terra que provavelmente nunca será encontrado.As lágrimas rolam por meu rosto. Faz tempo desde a última vez em que chorei. Também foi em um velório: o do meu pai. Por mais que eu tente não consigo odiá-lo. Quando Felipe faleceu foi como se uma parte minha tivesse morrido também, a agora de certa forma me sinto completo outra vez.

A luz se dissipa e a escuridão toma conta do bosque. Levanto-me e caminho por entre as árvores retornando lentamente ao hospital abandonado. Enquanto me locomovo pela escuridão não sai de minha cabeça a ideia de ter me tonando um monstro. É impossível não lembrar de tudo que já escutei sobre vampiros. Sempre imaginei que esses icônicos seres tivessem poderes sobrenaturais, hipnotizassem pessoas, possuíssem dentes caninos afiados e fossem "alérgicos" a alho e ao sol. Lendas e mais lendas."Nada além de ciência" deixou meu pai claro várias vezes. Não nos intitulamos vampiros, principalmente porque Felipe não gosta do termo oriundo do folclore. Na realidade somos infectados por um vírus, somos doentes. Mas essa doença é o que nos permite continuar vivendo.

Não posso negar que essa condição me trouxe algumas vantagens. Nenhum esforço físico é capaz de deixar-me cansado ou me fazer suar, não sinto calor ou frio, qualquer ferimento se cura mais rapidamente que o normal e meus sentidos foram aprimorados. A natureza me transformou em um verdadeiro predador. Deixei de usar óculos, agora posso enxergar bem até quando está escuro. Meu olfato e audição também estão muito mais aguçados.

Mas como nem tudo são flores, quando a sede vem à tona é quase impossível controlá-la, felizmente, ela não vem todos os dias, geralmente aparece de duas a três vezes por semana . Bolsas de sangue tem gosto de matéria putrefata, além disso não são capazes de satisfazer a sede, sei disso porque tentei consumir todos os tipos sanguíneos de bolsas de doação e nenhuma era tragável. Sangue de animais tampouco é capaz de controlar a vontade de beber, coelhos, galinhas e vacas, pobres animais, acabaram morrendo sem serventia em nossos testes. O hospital começa aproximar-se a medida que saio do bosque. Vejo meu pai à porta com sua singular expressão de preocupação.

—Filho onde você estava? – Questiona Felipe.

—Estava enterrando o corpo, não diga nada pai, eu sei o que você pensa sobre isso. –Meu pai não concordava com minha atitude de enterrar as "pessoas que serviram de alimento". Para ele isso nos torna muito vulneráveis e próximos ao morto, o que nos torna propensos a sentir maior culpa e remorso. Felipe me disse que no início se sentia abalado todas as vezes que necessitava assassinar alguém, mas que com o tempo se torna algo menos doloroso, como o predador que caça sua presa. Agora ele se limita a incinerar os corpos nos fins de semana, sem apelo emocional.

— Declan, faça o que você achar melhor, já é um adulto, pode tomar as próprias decisões. Só acho que isso que você vem fazendo é um pouco autodestrutivo.

A resposta estava na ponta de minha língua, iria responder meu pai grosseiramente e provavelmente, entraríamos em conflito. De maneira inesperada e interrompendo minha intenção de começar uma briga, surge em minha mente uma ideia que parece incrivelmente brilhante.

— Acho que deveríamos transformar mais pessoas. — enuncio com certa tensão.

—Central de polícia, em que podemos ajudar?

— Tem alguém tentando me matar! Por favor me ajudem! – balbucia o rapaz em voz baixa.

—Mantenha a calma, você pode me dizer seu endereço por favor? Já estamos enviando socorro! – responde a atendente.

—Estou na rua José Flickman, 1354, por favor venham rápido não sei se consigo me esconder por muito tempo!

— O senhor está bem? A pessoa que está tentando de atacar possui uma arma de fogo? – questiona a voz feminina da central de atendimento.

—Não, uma faca. – A voz angustiada silencia-se por alguns instantes. – Meus Deus, acho que ele me encontrou. – sussurra o rapaz.

A ligação cai, todavia a atendente já havia direcionado a viatura para o endereço do possível homicídio. O oficial Roger acelera o máximo que pode em direção ao endereço localizado no subúrbio, zona pela qual é responsável. Roger já está acostumado a receber chamadas como essas. Homicídios são comuns em seu dia-a-dia. Sem sombra de dúvidas é um trabalho arriscado, mas o faz sentir-se vivo.

O policial Bernardo sentado no banco carona está calado. Mesmo sendo parceiros eles não se entrosaram muito bem. Roger ainda não havia conseguido superar a perda de sua última parceira. Lisbeth e ele eram como um só em campo, já trabalhavam juntos a mais de quatro anos. Quando ela se foi, logo o lugar foi preenchido, mas ninguém nunca conseguiria substituir a incrível Lis.

A viatura rapidamente se desloca e a sirene ligada acelera ainda mais o processo, fazendo com que os veículos abram passagem. Em poucos minutos o carro chega ao destino. Roger e Bernardo descem do automóvel, sacam suas armas e direcionam-se para mais perto da casa. A placa "vende-se" chama a atenção de Roger. O imóvel parece estar abandonado há algum tempo. O primeiro pensamento que vem à cabeça é de que tudo não se passa de um trote.

Quando o grito aterrorizado ecoa vindo do interior da casa Roger se dá conta de que a situação é real. Assumindo a frente dá um chute arrombando a porta.

—Me cubra.– sussurra para o parceiro enquanto caminha pela escuridão.

Outro ruído se escuta vindo do andar superior. Roger sem hesitar corre subindo pelas escadas. Bernardo o acompanha como uma sombra quando ambos entram no cômodo de onde provieram os ruídos. Infelizmente haviam chegado tarde demais, o assassino como se previsse uma ação dos policiais pula a janela do segundo andar deixando-os com a vítima inconsciente e jorrando sangue.

Roger ordena a Bernardo que desça e persiga o criminoso, afinal, um homem que pulou da janela do segundo andar deve estar ferido e não se locomoverá tão rápido. Sem questionar Bernardo corre em disparada na intenção de capturar o criminoso.

Colocando seus dedos na altura da artéria carótida no pescoço da vítima, incrivelmente ainda parece haver pulso. Rapidamente o oficial alcança seu rádio de comunicação para chamar por auxílio médico mas é interrompido pelo alto som dos tiros vindos da parte exterior da casa. Uma decisão necessita ser tomada, ir ao auxílio de Bernardo, ou de alguma maneira fazer com que a hemorragia do garoto caído a sua frente diminua.

Antes do militar ter a oportunidade de fazer a fatídica escolha, o rapaz ferido, que outrora aparentava estar inconsciente, se levanta e em um sobressalto se atira em direção ele aplicando-lhe um mata leão.Os papeis se inverteram, a vítima agora passou a ser quem estava tentando ajudar.O forte policial não consegue se mover, nem entende como uma pessoa que havia perdido grande quantidade de sangue ainda possuía tanta força. A pressão exercida sobre seu pescoço não o permite respirar. Imagens de toda a sua vida passam pela cabeça: esposa, filhos, sua antiga parceira de trabalho Lisbeth. A morte parece estar cada vez mais próxima, contudo, inesperadamente o rapaz ensanguentado o solta e se levanta colocando-se ao seu lado.

— Olá oficial Roger, que bom que você veio! Estava esperando por você.

O P.M. coloca as mãos ao redor do pescoço e inspira profundamente até conseguir recuperar o fôlego.

— Quem diabos é você? O que quer comigo? – vocifera Roger com uma voz rouca quase inaudível.

O jovem coberto de sangue se agacha e olha nos olhos do homem fardado.

" Não se preocupe, não tenho intenção de te machucar. Temos muito a discutir. Meu nome é Declan, muito prazer!"

Estas são as últimas palavras escutadas pelo policial militar Roger antes que o punho de Declan se choque fortemente contra sua face o fazendo, finalmente, perder a consciência.