Sanguinária

11 Longe, em Londres


Amy

As mechas loiras caem a medida que a tesoura passa ceifando meu cabelo. Pode parecer estranho mas já ouvi falar que um novo corte pode fazer você sentir uma nova pessoa, em meu desespero por mudança, resolvo tentar. O salão de beleza fica somente a algumas quadras do hotel em que estou hospedada. Impulsivamente entrei porta adentro, e logo já estava sentada na cadeira onde a transformação ocorreria. Chega a ser engraçado a alegria do cabeleireiro ao saber que decidi cortar o cabelo curto.

A cada tesourada sinto minha nuca e costas cada vez mais expostas. Ao olhar meu reflexo no grande espelho a frente não vejo uma nova mulher. Vejo a mesma Amy, tentando fugir da realidade, com uma coragem as vezes imprudente, com o coração em pedaços e agora sozinha em um país longínquo. Sinto como se houvesse sido enganada, obviamente corte de cabelo não me faz sentir diferente.

O último dia de maio está ensolarado, saio do salão e sinto meu corpo aquecer-se. Londres é uma cidade deslumbrante, nunca havia tido a oportunidade de conhecê-la, e agora, venho. não só como visitante, mas para morar por um tempo. Ainda é manhã, e as ruas estão lotadas. Resolvo passear aproveitando meu último dia de folga antes de assumir meu cargo no emprego novo.

Conheci a Andrés Lebardin depois de já estar graduada. Como trabalhava no jornal diário fui a semana fashion e tive a oportunidade de entrevistar ao conceituado estilista.

"Você tem visão garota, e eu gosto disso!"

Me disse o homem beirando os 50 anos no topo da carreira logo após de eu ter dito minha opinião sobre as peças que estavam apresentando. Depois de certa conversa, ele me deixou seu contato, e bem agora estou aqui para trabalhar como sua assistente pessoal. Quero ser uma esponja, e absorver o máximo que conseguir.

Sento-me em um banco e observo o famoso relógio Big Bang, os ponteiros se movem com incrível precisão e detenho-me por certo tempo a admirá-los. Ah o tempo! Só nos damos conta de como ele é importante quando acaba. Na realidade acredito que ele é a coisa mais importante que existe, afinal é só nascer que já iniciamos o caminho para a morte, que é uma das únicas certezas absolutas que já estão determinadas para cada ser humano. As vezes imagino se houvesse um modo de voltar ao passado, mudar as coisas, talvez fantasiar sobre isso seja colocar sal em uma ferida ainda longe de estar cicatrizada, mas não consigo evitar. Faria qualquer coisa para ter Declan comigo agora, mas ele se foi.

Uma suave brisa acaricia meu rosto e sinto uma imensa paz encher meu corpo, nas últimas semanas não havia me sentido bem como agora, mesmo que por poucos segundos. Obviamente mesmo estando a poucos dias aqui sinto saudade de minha família, mas eu tinha que seguir em frente, eu prometi a Elizabeth, e tenho certeza que seria isso que Dec gostaria que eu fizesse, que continuasse vivendo intensamente, mesmo sem ele.

Sigo meu passeio caminhando lentamente e observando cada detalhe da cidade, é realmente tão bonita quanto eu imaginava. Retorno para o hotel onde estou hospedada e dirijo-me ao quarto. Não me dei ao trabalho de desfazer as malas porque hoje mesmo me mudo para o apartamento onde morarei. Andrés me ajudou muito, conseguiu um local para mim, algo muito legal da parte dele. Parece que dividirei moradia com outra garota que trabalha na empresa, mas enfim, algo provisório, estou muito grata de qualquer maneira.

O táxi agendado chega pontualmente, e logo já estamos em direção a minha nova casa. Pelo vidro do carro observo outra vez a cidade, e é impossível não estar admirada. Em poucos minutos chegamos ao destino. Um bonito prédio antigo se estende a minha frente. A arquitetura clássica do edifício é deslumbrante. Aperto a campainha de número 15.

— Quem é? – pergunta a voz feminina.

— Oi, bom dia! Sou a Amy Watson, a nova assistente de Andrés Lebardin.

A porta se abre e ingresso com o auxílio do taxista que carrega algumas maletas. O elevador nos leva ao sétimo andar, de acordo com Andrés era ali que o apartamento 15 estava. É realmente uma sensação estranha estar indo para um lugar que não conheço para viver com uma pessoa que tampouco conheço, mas é tarde demais para desistir. Ao sair do elevador a primeira coisa que vejo é garota asiática de pele morena clara sorrindo calorosamente.

— Olá! – diz em voz animada enquanto se aproxima de mim e do taxista. – Amy, muito prazer, meu nome é Jisu!

Jisu se aproxima ainda mais e me aborda com um forte abraço.

Me siga – menciona enquanto recolhe as malas que estavam com o motorista e se dirige habilmente até a porta apartamento.

Ao entrar me surpreendo com o lugar. A sala de estar em tons pastéis é moderna e aconchegante. O sofá retro vermelho dá um imenso toque de requinte e realmente parece ser muito confortável. Jisu aparenta ser uma garota adorável e é bastante simpática e receptiva. Ela me leva até meu quarto e me deixa sozinha dizendo que vai terminar o almoço que está quase pronto.

Sento-me na cama e observo o meu novo quarto por alguns minutos. O ambiente é completamente branco, o que me agrada. Há um closed que se localiza ao lado oposto do da cama, dois abajures um em cada lado da mesma, uma grande janela e uma escrivaninha abaixo dela. Eu gosto, é tudo bem discreto e arejado. Tiro os sapatos e me deito na cama. Fecho os olhos e antes que possa perceber adormeço tranquilamente.

Quando abro os olhos noto que não há mais luz solar, provavelmente dormi a tarde toda. Me levanto e saio do quarto, Jisu está sentada confortavelmente no sofá.

— Finalmente a bela adormecida acordou! Quando fui te chamar para o almoço vi que estava em um sono bem profundo, não quis te acordar você deve estar bem cansada por conta da viagem.

— Sim, eu estava! O fuso horário me afetou um pouco. – respondo enquanto me sento no sofá.

— Andrés falou muito bem de ti! Foi muito bom você ter vindo, estamos mesmo precisando de ajuda com a mudança próxima de estação.

— Qual seu cargo na empresa Jisu?

— Sou designer de sapatos e modelo, trabalho na Red Seduction a quase dois anos.

— Que legal! E como é trabalhar com o Andrés? – pergunto.

— É...digamos, desafiador, ele pode ser meio rude as vezes mas é ótimo trabalhar com ele. E ai o que achou de Londres? – questiona Jisu enquanto amarra os longos e ondulados cabelos em um coque.

— É maravilhosa, estou feliz por ter vindo para cá. Jisu você sempre morou aqui?

— Não, sou das Filipinas. Mas já me adaptei aos costumes daqui, onde eu moro somos um pouco mais receptivos e calorosos, mas eu gosto daqui! – responde com um sorriso. – Uau que anel lindo! Você está noiva? – pergunta a jovem asiática entusiasmada.

Eu realmente ainda não havia tirado a aliança de noivado. A pergunta súbita me deixa sem palavras. Olho para o anel brilhante e a lembrança do dia em que o recebi invade minha mente. Eu ainda estou noiva? Não! É impossível estar noiva de alguém que se foi. Mas tampouco sou viúva, nunca havia pensado em minha atual condição. Sou solteira outra vez depois de quatro anos e esse fato que até agora não havia dito em voz alta fica preso em minha garganta. Jisu percebe que a pergunta não me fez bem e automaticamente vejo sua expressão envergonhada.

— Eu...- respiro profundamente antes de continuar. – Estava noiva, mas meu noivo faleceu. – e ai está, pela primeira vez depois de menos de duas semanas, profiro essas palavras dolorosas em voz audível.

— Eu sinto muito. — responde Jisu envergonhada.

— Não se preocupe, está tudo bem, eu já deveria ter tirado a aliança mas ainda não consigo.

Sem que Jisu pergunte conto a ela toda a história, desde quando conheci a Dec, quando ele derrubou o celular em minha sala, como nos encontramos debaixo da tempestade, o dia em que começamos a namorar, a surpresa que ele me fez em sua graduação ao me pedir em casamento e por último o trágico dia em que tudo acabou. Ao terminar de contar cada detalhe, estava tão concentrada em conseguir contar tudo sem chorar que não havia percebido que a própria Jisu estava imersa em lágrimas. A jovem morena se aproxima de mim e me abraça, e ali naquele sofá vermelho, em um lugar novo estou eu, consolando alguém por causa da minha triste história de amor.

Depois de certo tempo o clima de tristeza passou, senti muita sinceridade e genuinidade em Jisu, provavelmente nos daremos muito bem.

Depois de pedir uma pizza e jantarmos, minha companheira de casa foi dormir. Estou sem sono, afinal, passei a tarde toda apagada. Continuo sentada no sofá olhando pela larga janela enquanto carros passam lá embaixo na rua. Conto os automóveis e pessoas até que o movimento diminui e quase se torna nulo. Passo então a admirar a lua e as constelações tentando recordar os nomes das estrelas. Depois de horas de observação resolvo tirar as coisas da mala e arrumar o quarto. Organizo as roupas separadas por cores em meu novo closed e acomodo os cosméticos, esmaltes e acessórios em seus respectivos lugares.

O movimento na avenida reinicia acabando com o silencio. As trevas lentamente se vão e os primeiros raios de sol ingressam pelo vidro da janela de meu quarto. Havia passado a noite em claro, sem mesmo me dar conta, o tempo simplesmente voou. Caminho até o banheiro que fica bem próximo ao quarto e dispo-me. O banho quente relaxa meu corpo e me faz sentir ainda mais desperta.

Decidir que roupa irei vestir em meu primeiro dia de trabalho não acaba sendo uma tarefa rápida. Termino a maquiagem e me observo calmamente em frente ao espelho. Quanto tive certeza de que tudo estava em ordem saio de meu quarto e encontro a Jisu também pronta para sair.

— Bom dia Amy! Dormiu bem?

— Então, na verdade não! Dormi tanto de tarde que acabei sem sono.

Jisu me encara com uma expressão perplexa. — Ok senhora coruja, estamos atrasadas, compramos um café no caminho. -

Sem mais delongas saímos do apartamento e o elevador nos leva ao estacionamento do edifício. Jisu se ofereceu para me levar ao trabalho e obviamente aceitei. Entramos no bonito automóvel vermelho e saímos em direção ao centro da cidade. Ainda é cedo, o sol brilha lindamente mas o clima não está quente. Muitas pessoas estão na rua, grande parte destas, turistas tirando fotos e passeando contentes aproveitando o bonito início de dia.

Quando dobramos em uma esquina no coração de Londres é quase impossível não notar a magnitude do edifício. A placa dourada com as gigantes letras em vermelho RED SEDUCTION chegam a resplandecer. O prédio de 15 andares reflete a luz do sol em seus vidros espelhados de maneira magnífica. Enfim chegou a hora. Jisu me deixa na calçada da parte frontal da empresa e se direciona manobrando o carro para o estacionamento no subsolo. Sozinha olho para cima, em minha cabeça um redemoinho de pensamentos me faz sentir tremenda ansiedade. Conto em silencio até dez, e de uma só vez entro pela porta giratória.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.