Sanguinária

8 Drink Carmesim


AMY

— Senhorita Amy é tão bom te ver por aqui! – exclama minha assistente Diana com um sorriso estampado em seu rosto.

— Obrigada Diana. Agora a moleza acabou! A publicação de sexta já está pronta?

— Sim, te envio em seu e-mail. — Diana se retirou de minha sala, ela realmente era uma assistente muito competente, me faz lembrar exatamente como eu era quando exercia sua função.

É incrível como em pouco tempo consegui me tornar chefe das publicações de moda do jornal diário. Obviamente meu pai ajudou bastante, mas passar de assistente à um cargo tão superior e importante em um dois anos é algo muito difícil de acontecer.

Nossa rotina aqui é cansativa, todas as sextas publicamos as tendências para o mês, e as roupas de famosos em festas badaladas. Nos outros dias da semana nos limitamos a escrever dicas de beleza e moda. Temos dois redatores e minha assistente Diana trabalhando duro em escrever os artigos. Minha principal função é revisar tudo e juntamente com o setor de design organizar a arte de nossa publicação.

Gosto muito do meu trabalho, mas ainda sonho em atuar em design de roupas. Meu pai se decepcionou um pouco quando eu aceitei uma oferta de estágio em Paris com Andrés Lebadin, um dos principais ícones da moda atual. Passar de Chefe a assistente não aparenta ser algo lucrativo mas é o que eu quero. Estávamos negociando minha ida a Paris porém eu ia me casar e o incidente ocorreu... Enfim agora é a hora de retornar para isso.

Ligo o computador do escritório e a foto do wallpaper me traz novamente um turbilhão de lembranças. Eu e Declan estamos ali, sorridentes no dia de nosso noivado, esperançosos com um futuro que nunca vai acontecer. As lágrimas ameaçam retornar mas eu as seguro, prometi a mim mesma que não ia chorar no trabalho. Meu cachorro Bily se torna meu novo wallpaper na tentativa frustrada de tentar não sentir tanta dor toda vez que ligasse o computador para trabalhar.

Minha caixa de entrada está repleta. A maioria de mensagens são de consolo e eu não aguento mais tantas pessoas me dizendo que sentem muito. Excluo todas as mensagens deixando minha caixa de entrada vazia. "Clico em escrever nova mensagem" e começo a digitar:

"Caro Andrés Lebardin eu havia dito que passaria um tempo fora mas meus planos mudaram repentinamente. Estou muito animada e aceito o trabalho. Por favor aguardo sua resposta o mais rápido possível para a compra da passagem aérea."

Att. Amy Carolina Watson.

DECLAN

— Finalmente você acordou Declan — pronuncia o homem de costas analisando o monitor cardíaco.

— Quem é você? – vocifero bruscamente. – O que você está fazendo comigo? Que lugar é esse?

Quase desmaio quando o homem se volteia e posso ver seu rosto.

— Meu filho você deve estar muito confuso vamos ter bastante tempo para que eu possa te explicar...

— Pai? – interrompo. — Você deveria estar morto! Eu fui ao seu velório! Eu te vi no caixão! Você é um fantasma? Meu Deus devo estar ficando louco!

— Declan, eu realmente morri. – responde o homem calmamente. – Assim como você!

— Se você morreu como está aqui? Como eu morri? Eu pareço estar bem vivo! Que merda está acontecendo aqui? – brado ferozmente.

— Declan quando o câncer de pâncreas me atingiu eu e sua mãe procuramos todos os tipos de tratamentos possíveis. Eu passei horas em meu laboratório tentando encontrar uma solução ou algo que pudesse prolongar minha estimativa de vida. Acontece que nada foi suficiente. Os exames mostravam que eu teria somente quatro meses de vida. Não cabia em minha cabeça deixar você e sua mãe. Me sentia frustrado porque mesmo sendo médico não consegui me tratar ou diagnosticar... ou fazer algo que pudesse me ajudar. – Meu pai segurou minha mão e pude sentir que as mãos dele estavam temblando – Depois de tentar tudo que era cientificamente possível... – prosseguiu meu pai em tom mais sério – Eu resolvi buscar outros meios de tratamento.

— Então você foi a um bruxo que te transformou em um zombie! – respondo sarcasticamente.

— Não Declan, na realidade era uma curandeira polonesa que encontrei depois de muito esforço e...

— Um minuto — o interrompo outra vez- então a viagem que você fez para "verificar um possível doador de pâncreas" mesmo sabendo que a taxa de pessoas que sobrevivem a um transplante desses é baixíssima e a poucas semanas antes de morrer, mesmo comigo e com a mãe insistindo para você não ir, para passarmos tempos juntos foi para isso certo? – contesto decepcionado.

— Sim filho, eu não me orgulho de ter mentido para vocês, mas foi exatamente o que eu fiz. Eu sabia que estava quase morrendo mesmo faltando dois meses de vida de acordo com as estatísticas. Na Polônia conheci essa mulher chamada Tatia. Enfim, depois de horas de insistência ela me contou que vinha de uma linhagem de curandeiros que foram os responsáveis por extinguir os "wampirys", uma espécie de seres humanos que se alimentavam de sangue e pareciam possuir o dom da imortalidade. Esses "wampyris" são os que inspiraram tudo que conhecemos sobre os vampiros.

— Então agora tudo faz sentido pai! Você é um vampiro! Pode tomar sol? Comer Alho? – questiono com a intenção de provocá-lo.

— Declan não deboche! – respondeu meu pai assumindo uma postura severa – Depois de muito insistir e pagar bastante dinheiro a mulher me levou a um antigo cemitério onde eu pude coletar material biológico dos cadáveres wampyris, e muitos deles estavam incrivelmente conservados. A Senhora me disse que não existia mais nenhum deles vivos e que eu nunca deveria falar sobre isso com ninguém. Eu menti, havia dito a ela que era um arqueólogo e que nunca ninguém saberia de nada do que havíamos falado.

— Bela história pai, mas não entendo como você está vivo? Eu te vi morto! Eu toquei em você! Eu te vi ser enterrado!

— Eu sei disso meu filho, e fiquei tão surpreso como você quando acordei dentro de um caixão e tive que lutar para sair de lá. Alguns dias antes do câncer me matar eu havia conseguido fazer um mapeamento genético completo das amostras que recolhi na Europa. Descobri que todas haviam sofrido mutações. Encontrei traços de cápsulas proteicas de um vírus que eu nunca havia visto antes. Era interessante porque mesmo com o tempo de morte os componentes proteicos e lipídicos da cápsula do vírus não haviam sido decompostos ou alterados. Declan, como sabemos vírus são intracelulares obrigatórios, necessitam estar dentro de uma célula viva para entrarem em atividade. Eu criei um cultivo com minhas células e inesperadamente esse vírus desconhecido se replicou e fez com que essas células sofressem mutações as deixando mais resistentes e com as atividades metabólicas mais aceleradas. Isso me deixou feliz porque talvez fosse a cura que eu tanto busquei, mas o que eu não havia percebido era que houve um problema com o sistema de refrigeração para preservar as células vivas, e que minhas células logo após haver sido contaminadas com o patógeno haviam passado por um processo de apoptose e morreram. A morte das células foi o gatilho de ativação desse vírus.

— Sempre fui péssimo em biologia, mas sei que um vírus precisa estar num ser vivo para ser ativado. Você está querendo me dizer que esse vírus é ativado em células mortas? – pergunto curioso.

— Exato, e eu me deparei com essa situação e a confirmei somente depois de voltar a vida e passar horas e horas tentando assimilar tudo isso.

— Mas se o vírus é ativado em células mortas porque os cadáveres ainda eram cadáveres? Porque eles não voltaram a vida assim como você? – questiono inquieto.

— Ótimo ponto meu filho, os cadáveres estavam sem o coração, parece que de alguma maneira o corpo e o vírus só podem sobreviver quando há atividade cardíaca normal depois que o ser retorna a vida. Se o coração é extraído, não há meio de continuar os processos biológicos para manter a vida do vírus. Por isso não existe imortalidade, perder o coração não seria bom para a gente. Para mim tudo era muito confuso e difícil de entender.

— Porque você nunca veio nos ver? Porque nos abandonou? — Minha pergunta parece ter pegado meu pai desprevenido. Seu semblante mudou assumindo uma profunda tristeza.

— Filho, você, sua mãe e todos me viram morto. Eu não podia simplesmente voltar como se nada tivesse acontecido. Haveriam perguntas, e iriam me investigar e provavelmente descobririam tudo que eu havia feito para sobreviver. Eu ia me tornar objeto de estudo, e só Deus sabe o que poderia acontecer se isso caísse em mãos erradas, ia ser um impacto muito grande para a indústria farmacêutica, eles iam querer acabar com a gente filho. E além disso imagine se todos se tornassem iguais a nós, o mundo não iria sobreviver a bilhões de pessoas quase imortais, esse seria o fim do planeta Terra, estaríamos superpopulosos. – pontua meu pai seriamente.

— Pai você sabe como eu me senti depois que você morreu? Sabe quanto tempo eu levei para superar? Sabe como a mãe sofreu com isso? Você ao menos algum dia tentou me procurar? – pergunto com lágrimas nos olhos.

— Declan eu imagino como deve ter sido difícil para vocês! Mas foi o mesmo para mim! Eu me sentia inútil por não poder fazer nada a respeito. E sim meu filho eu tentei falar com você! – respondeu meu pai com a voz embargada.

— Quando? Me diz quando você tentou me procurar? – berro impetuosamente.

— No dia do seu casamento meu filho! Depois de muito relutar eu decidi que devia ao menos poder te ver. Subi no telhado de nossa casa e quando olhei pela janela do seu quarto você já estava sangrando no chão. Vi a gravidade do ferimento e soube que talvez você não conseguisse resistir, então não pensei duas vezes. Entrei em seu quarto pela janela, e utilizei uma tesoura que estava em cima de sua escrivaninha para me cortar. Cravei a ponta da tesoura na palma de minha mão e derramei meu sangue em sua ferida aberta. Eu sabia que o contato do meu sangue com o seu ferimento te contaminaria também. Fui eu que derrubei a cadeira e a escrivaninha e gritei para que alguém subisse e te encontrasse, e depois disso fugi para que ninguém me visse.

— Meu Deus! Eu morri! E assim como você nunca mais poderei voltar! Porque fez isso comigo? – A raiva fez meu sangue ferver, agora eu nunca mais poderia vez Amy, ou minha mãe outra vez, talvez fosse melhor se eu tivesse morrido.

— Declan — disse meu pai suavemente — Eu não podia te deixar morrer, fui egoísta, mas sabia que podia fazer algo e fiz. Filho agora você tem uma vida toda pela frente, como te disse de acordo com meus estudos quase nada pode nos matar, nós somos quase imortais, imagine quanto podemos conquistar juntos. – meu pai sorri para mim como se tudo estivesse bem, mas não estava.

— Então o que você planeja fazer com nossas vidas quase imortais? Por sua culpa eu perdi as duas pessoas que mais amei em toda minha vida! E agora você espera que eu simplesmente vá embora e deixe tudo para traz? – interrogo asperamente.

— Declan, se você realmente ama a essa garota e a sua mãe, você não pode nunca mais se contatar com elas. E tem mais uma coisa que eu preciso te contar. Eu descobri que assim como nas lendas nós precisamos consumir sangue humano para manter o vírus ativo. Se não o consumimos nosso metabolismo diminui o ritmo nos deixa em estado de letargia, quase como um coma, bem, isso foi o que o estudo com as células no laboratório me mostraram. Mas existe um porém, eu tentei "alimentar" o vírus com sangue em bolsas de doação, ou seja sangue não "fresco", e foi como e não houve resultado positivo. Com isso concluí que para continuar ativos necessitamos de sangue humano fresco não contaminado...

— Como assim sangue humano fresco? – interrompo preparando-me para uma resposta assustadora.

— Declan diferente das lendas nós não temos dentes caninos retrateis para consumir sangue de outras pessoas, ou o poder de hipnotizá-las a dar o próprio sangue e se esquecer disso. A única maneira de consumir um sangue adequado é com um corte em alguma artéria e bebendo direto da "fonte".

Meu coração acelera, isso é insano, ter que assassinar pessoas para me manter vivo? Não, eu não vou fazer isso!

— Desculpa mas eu não vou me tornar um assassino! Eu nunca faria uma coisa dess...

Antes de poder concluir a frase meu pai se retira do cômodo sem dizer uma única palavra. Fico sem saber o que fazer, estou tremendamente confuso, é muita coisa para entender em pouco tempo. Antes que eu possa tentar fazer algo, tomar alguma atitude, meu pai retorna a sala com uma mulher vendada.

— Me solta! — grita a mulher- Me deixa em paz! Eu não fiz nada! SOCORRO ALGUÉM ME AJUDA!

A mulher loira chora, grita e se debate enquanto meu pai se esforça para deitá-la na maca disponível do outro lado da sala e a amarra de maneira que não possa escapar.

— Pai para com isso! O que você está fazendo? Larga ela!

Me levanto de minha maca, apressadamente me desloco até meu pai e seguro sua mão. – Pai o que você vai fazer?

A mulher continua a ulular de maneira tão apavorada que tenho pena dela.

— Filho, você vai entender, depois disso você não vai mais me chamar de assassino, quero te mostrar algo ok? – pronuncia meu pai tranquilamente.

— Pai você promete que não vai machucar ela?

Quase como uma resposta instantânea e em um movimento rápido e certeiro meu pai ataca o pescoço da mulher com um bisturi na altura da artéria carótida. Os gritos desaparecem enquanto o sangue flui em um jato forte e pinta o branco lençol da maca de vermelho. Meu primeiro instinto é atacar meu pai, o acerto com um soco em sua cara e o empurro lançando-o ao chão. Me aproximo da mulher que aparenta estar agonizando e engasgada colocando minhas mãos sobre o corte com o intuito de diminuir o sangramento.

Quando o sangue toca meus dedos sinto um calafrio e meu corpo inteiro parece estar alerta. Minha boca começa a salivar como se estivesse a ponto de saborear algo extremamente apetitoso. Meus instintos gritam para que eu faça algo inimaginável. Drasticamente meu foco parece estar alterado e tudo que eu desejo é sentir o sabor do sangue. Abaixo minha cabeça e toco meus lábios no ferimento aberto que continua a verter sangue. O sabor de ferro invade minhas papilas gustativas e entro em profundo êxtase. Engulo cada gota da seiva carmim e sinto o excesso escorrer por meus lábios sedentos. Perco completamente a noção do tempo e do espaço e o deslumbre só acaba quando o sangue deixa de emanar do corpo sem vida.