Sanguinária
9 Adeus
AMY
— Você não pode fazer isso!
— Pai, não sou mais criança, quem decide o que eu posso ou não fazer sou eu! – respondo rispidamente.
— Você não está pensando direito, está fazendo isso por impulso por causa do que aconteceu... Filha por favor me escute, fugir daqui não vai te ajudar a superar o que aconteceu. – menciona meu pai pacificamente.
— Eu nunca vou superar o que aconteceu! Já tomei minha decisão e a passagem aérea já está comprada.
Naquele mesmo dia pela manhã as negociações com Andrés Lebardin haviam chegado ao fim. O contrato já havia sido finalizado e aceito por mim, e o trabalho começa na próxima segunda feira, primeiro de Junho de 2005. Sem hesitar comprei a passagem para Londres utilizando quase todas minhas economias. Eu imaginava certa resistência dos meus pais em relação ao novo rumo que havia escolhido para minha vida.
Talvez tenha sido uma decisão precipitada, mas senti que era o certo a se fazer. Viver aqui é uma lembrança diária de tristeza e tragédia. Quero respirar novos ares, entreter minha mente com outras coisas estando longe daqui.
Antes de entrar no escritório de meu pai para contar a notícia o detetive de polícia havia me ligado. Não haviam sido encontradas digitais ou algo que pudesse ajudar na investigação do caso. As únicas digitais suspeitas encontradas, que eram a principal aposta para encontrar o suspeito, identificaram que pertenciam ao pai de Declan, que já está morto a mais de cinco anos. O detive me contou que estavam entrando em um beco sem saída e que provavelmente iriam cessar as investigações.
O fato de nunca saber quem foi o responsável pela morte de Dec, e a incompetência da polícia e da justiça somente confirmaram minha decisão de afastar-me de tudo isso. Meu pai olha profundamente em meus olhos e segura minha mão em uma última tentativa de me fazer mudar de ideia.
— Amy, eu não vou permitir que você faça algo assim! Você precisa do apoio da família! Imagina só ir para o outro lado do mundo...
— Pai! – interrompo rispidamente enquanto me levanto da confortável cadeira- Eu não vim aqui perguntar sua opinião, já tenho idade suficiente para tomar minhas próprias decisões. Vim aqui para dizer que me demito! Agora se me der licença vou retirar minhas coisas do meu antigo escritório e nos vemos em casa!
Saio o mais rápido possível sem olhar para trás. A vontade de chorar retorna mas não posso dar margem para que ela se apodere de mim. Respiro profundamente e fecho os olhos por poucos segundo enquanto caminho em direção a minha sala. Diana está em pé esperando-me ao lado da porta de entrada.
— Senhorita Amy trouxe o esboço da seção de amanhã! – pronuncia sorridente.
— Ótimo Diana, mas não trabalho mais aqui. Pode me ajudar a encaixotar essas coisas?
Minha assistente foi pega desprevenida. Obedientemente me ajuda a encaixotar os objetos, livros, porta retratos e decorações sem dizer uma única palavra. Ela é uma ótima garota, espero que a vida seja boa com ela.
— Senhorita Amy vou sentir saudades. – Diana me aperta em um forte abraço e correspondo com o mesmo fervor. Nos despedimos e desço pelo elevador com minha bolsa e a caixa de papelão repleta de bugigangas.
Ao sair do prédio azul, contemplo o céu azul e a brisa fresca vem ao meu encontro. O carro está estacionado a poucos metros. Coloco a caixa no porta malas e assumo meu lugar no banco do motorista. O caminho que segui tantas vezes nos últimos anos de casa para o trabalho e do trabalho para casa continuará ali, contudo provavelmente eu nunca mais passarei por ele outra vez.
Realmente, já fiz muitas loucuras, mas essa se superou. O voo sai amanhã de manhã e ainda não tenho nada organizado para levar. Minha mãe ainda nem sabe. Continuo dirigindo pelo centro da cidade e algo em minha cabeça me faz mudar a rota.
Ao invés de ir para casa conduzo o carro para a rua da Igreja. Automaticamente flashes do dia do meu casamento retornam a mente. Vejo Declan caído e sangrando, e eu impotente sem poder fazer nada. A buzina do carro que vinha logo atrás me fez retornar de meus devaneios, piso no acelerador outra vez e me vejo em frente à casa de Dec. Depois do funeral eu não havia tido a oportunidade de falar com Elizabeth, minha sogra. Se alguém sabe como eu sofri, ou incluso sofreu mais, esse alguém foi ela.
Desço do carro e aperto a campainha da bonita casa de dois andares branca. A triste figura atende a porta e posso ver seus olhos inchados de tanto chorar.
— Amy querida, que bom que você veio! – Elizabeth vem em minha direção e me abraça fortemente. Posso sentir suas lágrimas molharem a manga da minha camisa.
— Entre querida. — diz Elizabeth em voz suave.
Ao ingressar como havia feito tantas outras vezes sinto-me devastada como nunca antes. Sento-me ao sofá ao lado de Elizabeth e faço o possível para não chorar ao observar tantas fotos e recordar te tantos momentos.
— Eliz, o detetive me ligou hoje. – abordo em tom mórbido.
— Eu sei Amy, ele me ligou também. Parece que vão parar com as investigações. – comenta Elizabeth retraída.
Elizabeth está completamente diferente. A alegria desapareceu completamente, tudo que posso ver é uma sofredora lutando para permanecer bem depois de perder o único filho.
— Eu vim aqui para dizer que vou sair do país por algum tempo. Aceitei uma oferta de trabalho em Londres e parto amanhã. — digo timidamente.
— Amy, fico muito feliz por isso. — Elizabeth se senta de maneira mais ereta e assume uma postura mais séria. – Querida eu conhecia Declan como ninguém, e sei que ele gostaria muito que você fosse feliz, mesmo sem ele. Essa viagem vai te ajudar, ficar longe da cidade pode ser bom, eu estava pensando em fazer o mesmo.
Elizabeth se levanta e me abraça outra vez.
— Seja feliz Amy, você merece. – sussurra em meu ouvido.
Não consigo mais segurar as lágrimas e elas vem à tona. Logo eu e minha sogra estamos ali, vulneráveis na sala de estar chorando.
— Eliz você é muito especial. Não merecia passar por isso! – declaro com a voz embargada sem soltá-la do afetivo abraço.
— Amy, sabe que eu te considero como uma filha, não esqueça de mandar notícias tudo bem? Aproveite por nós duas! — Conclui Elizabeth ao mesmo tempo enxuga as próprias lágrimas.
Saio da casa de Elizabeth com o espirito renovado. Saber que, de alguma maneira ela me apoia e acredita que estou fazendo a coisa certa me dão ânimo e força para abraçar esse futuro desconhecido longe da minha família.
Volto a dirigir, mas dessa vez sigo o caminho em direção a minha casa. Ainda é necessário arrumar toda a bagagem e me preparar psicologicamente para esse grande desafio.
O vermelho, alaranjado e azul se mesclam lindamente formando um dos por-do-sóis mais deslumbrantes que já vi. Enquanto o avião desliza pelo entardecer rumo à um lugar desconhecido, um redemoinho de sentimentos preenche meus pensamentos. O sol logo vai diminuindo sua intensidade dando origem a escuridão. Em poucos minutos a bela paisagem se havia convertido em trevas. Fecho os olhos e encosto a cabeça confortavelmente ao banco de couro. O cansaço começa a mostras os primeiros sinais. Realmente os últimos dias haviam sido intensos. Despedir-me de meus pais, de Bily meu cachorrinho, e dos amigos mais próximos foi doloroso. Tudo que eu anelo agora é a esperança de um futuro diferente, onde talvez o destino seja gentil comigo, ao menos uma única vez
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