Sangue quente.
29 Roubando um barco.
Notas iniciais
Sephiron...
—“Criaturinha... cuidado, sai de perto da água.” A chamei pela milionésima vez, ela me lançou um olhar irritado, eu já havia impedido ela de fazer um monte de coisas potencialmente perigosas e a cada minuto eu ficava mais paranoico e ela mais furiosa.
—“Seph... deixa-a brincar.” Ian revirou os olhos pra mim.
—“Mas e se...” Comecei a falar, mas Ian me interrompeu.
—“Olha pra ela Seph... ela está adorando explorar a praia... se você a repreender e a colocar em uma bolha de proteção, ela nunca vai experimentar as coisas boas da vida.” Ian sorriu ao ver a criaturinha afundar as mãos na areia e achar conchinhas.
—“Mas... e se algo acontecer com ela?” Perguntei inquieto, vai que ela coloca a concha na boca e se engasga.
—“É pra isso que você serve Seph... deixe-a brincar, mas fique por perto pra acudir em momentos realmente perigosos.” Ian sorriu pra mim antes de ir entrar no mar.
Suspirei fundo, Ian tinha razão, se eu não deixasse a criaturinha brincar e descobrir o mundo... que tipo de pai eu séria?
—“Tudo bem criaturinha... vai, pode ir perto da água... mas não entra na água, tá me entendendo?” Olhei sério pra ela, a criaturinha sorriu e bateu palmas antes de ficar de pé sozinha e dar seus primeiros passos até o mar.
Eu quase pirei com isso, mas deixei para Ian o papel de ter um ataque de felicidade ao vê-la andando pela primeira vez... droga! Eu nem tive a oportunidade de ensina-la.
Meia horas depois, a criaturinha estava amando a brincadeira de correr atrás da onda quando ela recuava na areia, e depois voltar correndo para os meus braços quando a onda voltava a subir. Ela havia aprendido a andar do nada e quando menos esperávamos, ela já estava correndo, e isso era estranho de se ver, ela ainda tinha o tamanho de um bebê de um mês, então seus movimentos controlados pareciam ser algo incompatíveis e errados para um bebê... Não sabia explicar, mas não combinava, ela devia continuar engatinhando... era menos bizarro.
Ian estava sentado na areia, deixando seus dedos dos pés se afundarem na areia, ele estava relaxado e calmo agora, mas meia hora atrás, ele correu para dentro do mar e teve um monte de reações hilárias.
Primeiro ele gritou quando a onda bateu nele e o derrubou, ele tomou um caldo e saiu gritando da água, dizendo que estava muito gelada. Depois ele tentou beber a água, eu sabia que ele não deveria, mas o deixei fazer isso por que... bem, porque sou um sádico e gosto de vê-lo sofrendo, e ver ele fazendo caretas e cuspindo desesperadamente era a melhor coisa do mundo.
—“Papai olha!” A criaturinha me mostrou um caranguejo que ela havia pegado. Que coragem a dela! Eu teria medo se fosse do tamanho dela e tivesse um bicho com pinças gigantes perto de mim.
—“Que legal... você acabou de pagar o jantar do Ian.” Falei com um sorriso cruel, o sorriso contente e vitorioso dela virou uma expressão apavorada, ela rapidamente jogou o bicho de volta na água, na certa ela não queria que o caranguejo morresse.
—“Valeu Sophia... não queria encarar esse bicho feio como comida.” Ian suspirou e eu revirei os olhos.
—“Tata... você come bichinhos?” A criaturinha perguntou para Ian, ela me chamava de papai e Ian de Tata, acho que ela fazia isso para não nos confundir.
—“Sim, eu como.” Ian respondeu calmamente e a criaturinha fez uma cara chocada, antes de fazer beicinho, ela ameaçou começar a chorar.
—“Oh... não chore! A vida é assim Sophia, eu preciso comer.” Ian tentou abraça-la, mas ela se afastou dele.
—“Não! Isso é feio... seu feio! Não come mais bichinho, faz que nem o papai... ele só bebe sangue e não mata ninguém. Né papai?” Ela me olhou esperançosa.
—“Já matei uns trezentos bebendo sangue.” Respondi sem vergonha ou peso na consciência alguma, eu já tinha feito isso mesmo.
A expressão dela era de indignação, francamente, ela começou a falar há pouco tempo e já era cheia de atitude e também já possuía uma filosofia de vida... Caramba, ela é mesmo assustadora.
—“Não fica bravo comigo Sophia, eu preciso comer, se não eu morro. Os bichos também comem outros bichos... é assim que as coisas são.” Ian tentou explicar pra ela, mas ela parecia mesmo horrorizada com essa realidade.
—“Não! Os bichinhos não!” Ela cruzou os braços e bateu o pé... tá admito que ficou fofo, ela é muito pequena pra fazer essa pose de brava.
Mudei de assunto rapidamente, se as coisas continuassem assim, ela ia ficar brava e sabe-se lá o que ela faria com a gente... espera! Eu estou com medo de minha própria filha? Como assim? Ela é apenas uma pirralha que nem se governa ainda... eu devo mandar nela.
—“Ian... acho que devemos ir até a vila agora, vamos aproveitar que todo mundo está dormindo e tentar roubar algo.” Falei isso e peguei a criaturinha no colo, Ian se levantou sacudindo a areia da roupa, mas a expressão dele provava que ele não estava feliz com essa ideia de roubo.
Começamos a andar pela areia na direção da vila, a criaturinha estava em alerta. Quando chegamos perto, eu analisei a pequena vila. As casas eram precárias, não havia ruas asfaltadas e nem lapidadas... tudo era de terra batida, não havia ninguém andando pelas ruas como previ. Durante o dia dificilmente você veria um vampiro de bobeira por ai, mesmo sendo pescador.
Nos aproximamos dos deques bem devagar e em silêncio, mas para o meu desespero, não havia nenhum barco com motor a vista. Seguimos olhando os deques, havia muitos barquinhos pequenos a remo, mas esses não me interessavam, pois se não, eu ia ter que remar por três dias desse jeito. Havia também barcos a vela, mas eu não saberia mexer em um desses... talvez eu consiga em um pequeno... não custa tentar.
No último deque, havia um barco bem pequeno a vela, ele estava em um estado digamos... nada convidativo, sinceramente me admirava ainda estar flutuando, mas era o único ao qual eu me animaria tentar navegar sozinho com o Ian... porque com certeza a criaturinha não seria útil no manuseio dos equipamentos, ela era pequena demais.
Olhei rapidamente em volta e então pulei para dentro do barco com a criaturinha, balançou muito, mas consegui ajudar o Ian a entrar também, passei a criaturinha para Ian e comecei a tentar fazer aquele negócio andar.
Mexi no que eu acreditava ser o volante do barco, mas o barco não mexeu nem meio centímetro... bem na verdade o barco estava mexendo e muito, mas estava mexendo pra cima e pra baixo, pra cima e baixo... era um pouco irritante.
—“HEI... Vocês ai, o que pensam que estão fazendo no meu navio?” Uma voz fininha e infantil, mas cheia de autoridade soou em cima de nossas cabeças.
Olhei para cima e me deparei com um garoto dependurado no mastro, ele devia ter uns sete anos, era loiro e tinha pele bronzeada, por um minuto pensei que era um humano, mas suas íris vermelhas provavam que ele era um vampiro. Eu nunca tinha visto um vampiro que não fosse pálido... ele era diferente. Seu cabelo era comprido e liso, ele os mantinha presos em rapo de cavalo. Ele estava vestindo apenas um calção, estava sem calçados e usava uma argola na orelha esquerda.
O garoto pulou de lá de cima e nos encarou furioso. Achei graça dele, ele dava na minha cintura, mas estava todo cheio de si, em uma pose confiante e atrevida... achei ele uma graça, se eu não estivesse tentando roubar esse barco sem chamar atenção, eu até brincaria com ele.
—“Eu fiz uma pergunta pra vocês feiosos... eu quero saber o que estão fazendo no meu navio.” Ele perguntou todo altivo, empinando o nariz e me escarando como se tivesse alguma chance de me vencer.
—“Seu navio? Você não é jovem de mais pra ter um barco?” Gargalhei e debochei dele com gosto, não tinha como levar ele a sério, ele era um miúdo.
—“E o que a minha idade tem a ver com o meu trabalho? Eu sou muito bem capaz de navegar e pescar por ai como qualquer adulto idiota.” Ele rebateu todo cheio de si, ai meu deus, se James estivesse aqui... provavelmente ele adotaria esse garoto.
—“Oh... que fofo você é... estou com vontade de te morder, mas no momento não estou com tempo de dar trela pra um tampinha que se acha o tal, eu estou com presa, então se você puder fazer o favor de dar o fora do meu barco.” Apontei com o dedão o deque às minhas costas.
—“Seu barco?” Ele me perguntou fazendo uma careta de indignação.
—“Isso... meu barco, eu acabo de me apropriar dessa banheira, vai dando o fora dessa merda.” Cruzei os braços e estufei o peito, eu podia dar cabo desse moleque com um dedo, ele não tinha chances mesmo contra mim.
—“Só por cima do meu cadáver, seu pirata nojento.” O garoto puxou uma faca que mais parecia um canivete, gargalhei dele.
—“Seph... para! Deixa o menino em paz... esse deve ser o único meio de sustento dele, vamos tentar outro barco.” Ian me puxou pela manga. Então o garoto finalmente parou para prestar atenção em Ian.
—“Hei... o que é você? Você não parece vampiro... você é humano?” O garoto guardou o canivete e passou por mim me ignorando, ele foi direto até o Ian.
—“Sou um mestiço.” Respondeu Ian tranquilamente enquanto observava o pirralho lhe circular.
—“Ian... não dá papo pra esse garoto.” Torci o nariz, eu não gostava de ver o jeito que esse moleque estava interessado em Ian.
O garoto farejou Ian com vontade.
—“Você cheira bem...” Disse ele por fim, olhando Ian de cima a baixo agora.
—“Hã... Obrigado?” Respondeu Ian meio sem jeito.
De repente o garoto olhou para a criaturinha e ela o olhou de volta. Ambos se farejaram como se fossem dois cães sendo apresentados. Houve um minuto de silêncio enquanto os dois se mediram no olhar.
—“Gostei da miúda... ela parece que vai ser corajosa quando largar as fraldas.” Ele apontou pra ela despreocupadamente.
—“Você também!” A criaturinha respondeu pra ele e eu caí na gargalhada.
—“Hei! Eu não uso fralda... espera, ela fala? Mas é só um bebê remelento e babão.” Ele se admirou e a olhou novamente com mais atenção.
—“O único remelento e babão aqui é você!” Rebateu a criaturinha.
—“OOOOHHH...” Cara, como eu estou orgulhoso da minha menina.
—“Vai encarar garota?” O loirinho rosnou pra ela e projetou seu corpo pra frente, como se fosse atacar.
—“Cai dentro moleque.” Sério... onde ela aprendeu isso?
—“Calma ai vocês dois.” Ian olhou feio para ambos.
—“Escuta menino... nós não queremos roubar seu barco...” Ian começou a falar, mas foi interrompido pelo garoto.
—“É um navio.” Disse o menino parecendo muito ofendido por Ian chamar sua canoa furada de barco.
—“Ok... seu navio, será que você pode nos levar em um passeio para o norte?” Ian perguntou com um sorriso simpático.
—“Pera... como é que é Ian? Quem disse que isso é um passeio?” Olhei para Ian furioso, ele não estava autorizado a pedir ajuda, muito menos de moleques como esses.
—“Seph... você não sabe navegar, precisamos dele. Desse jeito a gente não vai estar roubando ninguém... e chegaremos no nosso destino tranquilos.” Ian defendeu seu ponto de vista.
—“Isso aqui não é um cruzeiro... eu não vou levar vocês pra passear.” O garoto rebateu cruzando os braços.
—“Por favor, nos escute. Nós precisamos ir para o norte... se você puder nos levar até lá... tudo se resolveria e o Seph ali não terá que te roubar.” Ian apontou pra mim e o garoto voltou a me medi com olhar... como se considerasse que ganharia em um combate corpo a corpo comigo.
—“Quem disse que eu vou deixar ele me roubar.” O garoto cantou vitória se achando... francamente, estou dividido entre achar isso hilário ou irritante.
—“E você vai me impedir com esse seu canivetinho?” Ri apontado para mini espada dele.
—“Acredite... ele faz milagre.” O garoto sorriu safadamente.
—“É o que veremos.” Estalei meus dedos pronto para dar a surra que esse garoto merecia ter levados dos pais, mas não levou.
—“Por favor, pense um pouco... nós podemos resolver isso sem partir pra violência.” Ian insistiu com o garoto.
—“Hmmm...” Ele parou pra pensar.
—“Tudo bem, eu topo se...” O garoto sorriu pra mim me desafiando.
—“Eu puder comer ele.” O garoto apontou para o Ian.
—“O QUÊ?” Ian e eu gritamos indignados.
—“QUAL A SUA IDADE MOLEQUE?” Parti pra cima dele preste a dar aquela surra nele mesmo.
—“O que? O que foi? Porque esse choque todo?... Até parece que vocês nunca beberam sangue de alguém antes.” O garoto olhou de mim para Ian com uma sobrancelha erguida.
—“Ahh... você quer beber o sangue... entendi.” Ian suspirou.
—“Nem pensar!” Agora eu estava mesmo puto com esse garoto, acho que quero pegar as tripas deles pra fazer cordas pro barco.
—“Eu não vou fazer isso de graça... eu trabalho pra comer... e pelo o que sei, ele é comida.” O garoto voltou a apontar para Ian, havia cobiça nos olhos do garoto, se ele fosse mais velho, eu poderia mesmo ficar possesso com esse olhar.
—“Não! Tata é meu!” A criaturinha se abraçou em Ian e fez careta pro moleque.
—“Vocês quem sabe... eu não vou colaborar sem ganhar algo em troca... e se vocês partirem para a violência... eu posso gritar por ajuda e se tem algo de bom em se viver em uma vila pequena de trabalhadores humildes... é que todos se ajudam e são parceiros.” O garoto abriu seu sorriso convencido e vitorioso ao dizer isso.
—“Tudo bem!” Disse Ian.
—“O que?” Olhei para Ian louco de raiva.
—“Eu disse que tudo bem... eu o deixo beber meu sangue.” Ian repetiu calmamente e o menino olhou pra mim com uma expressa que dizia claramente: Aham... eu ganhei seu boboca... vou comer seu parceiro na sua frente.
—“Mas nem pensar... isso séria uma traição comigo.” Eu já ia pegar Ian pelo braço e afasta-lo daquele moleque depravado.
—“Ele é só uma criança Seph... e ele só me vê como comida... não há nada de sexual na minha doação de sangue... será só nossa moeda de troca.” Ian debateu seu ponto com sagacidade.
—“Ainda não gosto disso.” Torci o nariz pro garoto novamente, eu quero muito torcer o pescoço dele.
—“Temos escolha?” Ian me perguntou sério.
—“...” Usando o meu lado racional e deixando o meu lado ciumento de lado, eu pude ver que Ian tinha razão, o garoto poderia nos levar e eu não correria o risco de afundar essa banheira nos próximo cindo minutos.
—“Beba!” Ian esticou o pulso livre pro garoto, os olhos dele brilharam e um sorriso sacana se formou em seus lábios quando ele deu o bote no braço do Ian, ele não foi nem um pouco gentil, ele machucou o Ian pra valer a ainda esbanjou um pouco de sangue deixando-o pingar no chão sujo de madeira. Mas o pior foi o olhar desafiador que ele me lançou enquanto bebia do Ian... isso era quase como ver o Ian sendo violentado na minha frente sem poder fazer nada.
A criaturinha aproveitou que estava no colo do Ian e que o garoto estava bem perto dela, então ela o pegou pelos cabelos e o puxou com força. O garoto soltou Ian e gritou, a criaturinha estava tentando tirar um escalpo dele pelo visto, essa é minha filha!
—“AI... AIIII... PARA SUA IDIOTA!” O garoto tentou se livrar da mão dela entrelaçada em suas madeixas compridas, ela até conseguiu desfazer o rabo de cavalo dele.
—“Papai, posso comer ele?” Ela perguntou isso com um sorriso que me lembrava ao meu quando eu estava preste a fazer algo maldoso.
—“Infelizmente não... o Ian acabou de contrata-lo para nos levar em um passeio. E Ian ainda pagou adiantado, então espero que ele faça essa banheira partir imediatamente.” Falei impondo o meu lado mais esnobe nas palavras.
—“Tá bem, tá bem... mas faça essa mostrinha me soltar agora.” O garoto pediu tentando se soltar desesperadamente.
—“Solte o nosso empregadinho querida.” A criaturinha a contra gosto soltou o cabelo dele.
O garoto fez uma careta pra ela, mas lambeu os lábios ensanguentados e fez uma cara de prazer, com um últimos olhar desejoso a Ian, ele correu pelo barco, soltando cordas, amarrando outras, ajeitando algo aqui e ali. Logo o vento fez a vela recém erguida inflar e o barco partiu. O garoto correu para o volante do barco e o guiou entre os corrais perto dos deques para o mar aberto.
Ian se abraçou em mim quando o barco começou a ganhar velocidade, o barco subia e descia cada vez mais rápido.
—“Não gosto disso!” Disse Ian ficando verde.
—“Não me diga que você vai ficar mareado?” Ri da expressão enjoada e desesperada dele.
Ian me passou a criaturinha e correu para a beirada do barco para vomitar no mar.
—“Tata está bem?” A criaturinha olhou assustada para Ian, ela nunca tinha o visto vomitar.
—“Uooou... que legal, como ele faz isso?” O moleque perguntou depois de ver Ian golfar uma grande quantidade de líquido pra fora, pelo visto nem ele sabia o que era vomitar... também pudera, ele vivia em uma vila pobre, acho que nunca viu um humano ou mestiço antes.
—“Qual seu nome moleque?” Perguntei com arrogância.
—“É Leonard.” Respondeu ele simplesmente.
—“Leonard?... ugh, vou te chamar de Leo.” Fiz isso para irrita-lo de propósito.
—“Eu não te dei essa liberdade.” Ele me olhou como se quisesse arrancar meus olhos para jogar pingue e pongue.
—“Agradeça por não te chamar de outra coisa.” Respondi com mais arrogância ainda, a criaturinha no meu colo estava todo orgulhosa.
—“E os nomes de vocês?” O moleque me perguntou sério.
—“Não é da sua conta.” Falei esnobemente e a criaturinha gargalhou. Leo fez uma careta para nós dois.
—“Eu sou uuuhg... Ian, e ele são uuuhg... Seph e Sophia.” Disse Ian entre uma golfada e outra.
—“Não perguntei pra você, comida!” O garoto rosnou para Ian.
—“Criaturinha acho que mudei de ideia... quem sabe você pode comer ele um pouquinho.” Falei para a criaturinha que já o olhava com uma expressão predatória.
—“Seph... uuuhg” Ian me lançou um olhar reprovador antes de voltar a vomitar.
A criaturinha e eu fizemos caretas de desapontados pra ele.
Viajamos por um tempo em alta velocidade em mar aberto, mas quando anoiteceu, tivemos que ancorar e parar um pouco para dormir... pelo visto esse menino era diurno e isso explicava o porque dele ser bronzeado.
O moleque nos deu apenas um cobertor para forrar o chão sujo de madeira e foi para o piso inferior onde havia um quarto com uma cama de casal e um banheiro. Fiquei tentado em jogar ele no cobertor aqui fora e me apropriar da cama, mas Ian me impediu de fazer isso.
—“Acho que não gosto mais de mar.” Disse Ian um tanto trêmulo.
—“Ele é melhor nos livros... pois não se mexe, né Ian?” Sorri pra ele e ele concordou comigo com um aceno de cabeça.
Ian deitou nos meus braços e tentou dormir, mas as coisas estavam difíceis pra ele, não havia mais nada em seu estômago, mas o enjoou não passava, fiz uma caricia nas costas dele até acalma-lo e ele dormir.
A criaturinha estava entre nós, ela dormiu tranquilamente e logo eu peguei no sono também.
...
Sophia...
Eu senti quando Papai e Tata dormiram, mas por garantia eu usei uma das muitas visões que descobrir ter, e olhei dentro das cabeças deles. Os pequenos raiozinhos que se ligavam dentro de suas cabeças estavam mais lentos, eu já sabia que isso significava que o cérebro deles estava diminuído as funções, então eles estavam dormindo.
Troquei de visão e olhei através da madeira, o garoto chato que era dono desse barco estava lá, deitado na cama... Eu o odiava, eu queria machucá-lo por ele ter mordido o meu Tata e ter o chamado de comida.
O garoto estava deitado em sua cama, troquei minha visão para outra diferente, nessa eu podia ver o calor do corpo dele. Então eu pude ver que ele ainda não estava dormindo, o calor de seu corpo estava vermelho forte... se ele estivesse dormido, ele estaria com uma cor mais amarela e laranja.
Levantei-me sem acordar os meus pais, era bem mais fácil usar meus pés agora, a areia não estava me atrapalhando, mas eu ainda não me sentia confiante e segura de meus movimentos.
Invadi o quarto do garoto, eu ia dar um bote nele... eu ia devorá-lo e quem sabe eu poderia tomar o controle da mente dele e fazê-lo me obedecer como fiz com os soldados, só que ia ser mais difícil, já que ele não está morto, mas ia valer a pena.
Preparei o bote e pulei sobre ele, mas ele estava me esperando, ele me pegou e uma luta se seguiu entre nós, ele era mais forte, mas eu era mais ágil, ele era maior, mas eu era mais inteligente.
Ele segurou minhas mãos e eu me deixei ser apanhada por ele... bem na verdade eu fingi perder, não tinha como ele me vencer, mas eu estava curiosa. O que ele ia fazer comigo se achasse que estava no comando?
Estávamos sentados no colchão duro frente a frente agora, ele me olhava vitorioso, tive que me controlar para não rir de sua falsa vitória.
—“Ah... a mostrinha acha que pode me pegar... eu ouvi você vindo até aqui... deveria fazer mais silêncio quando está caçando.” Ele sorriu convencido, achando que sabia mais do que eu. Resolvi entrar no jogo.
—“É... eu sei, é que essa parada de andar ainda é nova pra mim, não sei fazer isso sem ser estabanada.” Respondi inocentemente... bem, na verdade essa minha frase tinha um pingo de verdade.
—“Que criatura você é?” Ele me examinou, esticando meu braço e me olhando com curiosidade.
—“Não sei... só sei que meu Pai me chama assim desde que eu estava dentro de meu Tata... eu podia ouvi-lo, eu aprendi tudo o que sei prestando atenção nas conversas deles... eu não tinha muito o que fazer naquele lugar mesmo.” Dei de ombros, mas isso trazia lembranças ruins e boas daquela época, naquela época eu ainda era mais sanguinária, eu tinha o desejo de sair de lá e matar tudo, até mesmo os meus pais... mas isso mudou depois daquele terrível dia... aquele dia que ganhei uma nova consciência do mundo, aquele dia que perdi meu outro lado... não! Não posso pensar nisso agora.
—“Não faço ideia do que você tá falando.” O garoto me olhou como se eu fosse louca, e talvez eu fosse mesmo, minha mente era muito avançada para que eu conseguisse controla-la direito.
—“Era de se esperar que um idiota como você não entendesse.” Sorri usando uma expressão esnobe que aprendi com meu papai.
—“Escuta aqui garota... não é porque você é só um bebê remelento, que eu não tenho coragem de usar a força com você... experimente me chamar de idiota de novo.” O garoto apertou meus pulsos, doeu, mas me mantive forte. Isso era interessante, nunca ninguém tentou me machucar, eu queria ver no que isso ia dar.
—“Idiota!” O chamei com um sorriso igual ao dele.
—“Foi você que pediu.” Disse ele expondo as presas pra mim.
Ele se inclinou pra frente, puxou meu braço direito e aproveito a brecha para atacar meu ombro, as presas afiadas dele perfuraram minha pele... eu podia tê-lo detido e invertido a situação, mas eu estava curiosa e queria usar esse momento como estudo.
Eu queria saber como era ser a presa e não o predador... até agora eu nunca fui a presa, eu sempre fui o predador, sempre fui eu quem bebeu o sangue de todos... Droga! Isso dói.
Mas eu o deixei beber à vontade, na verdade eu também queria saber se meu sangue causava algum dano a um vampiro, ou ao contrário, se dava algum poder a eles.
Pelo visto não causava danos. Ele estava bebendo bastante e até agora não caiu morto. Então aproveitei pra dar o troco.
Tirei proveito de que ele estava perto de mim e também ataquei o pescoço dele, tomei o cuidado de não injetar aquele líquido estranho, ao qual descobrir que pode sair das minhas presas, eu injetei aquilo naqueles soldados e eles morreram em minutos... eu não gostei de ter feito isso, mas eles iam fazer machucados em meus pais... eu amo eles, ninguém pode tocar neles, além de mim.
Suguei o sangue do garoto e para a minha surpresa, era bom... eu pensei que ele sendo um moleque nojento, o sangue seria equivalente e teria um gosto nojento... mas era bom... bom até demais... era melhor que o sangue do Papai, do Tata, do Vovô e do Pedro.
—“UUUOU!” O garoto se afastou de mim e ambos ficamos ali um momento, absorvendo o que acabou de acontecer.
—“Caramba... esse foi o melhor sangue que eu já bebi.” Disse o garoto.
—“Eu sei...” Respondi meio zonza... acho que ele bebeu demais o meu sangue... droga! Eu já havia perdido muito sangue quando aquele negócio se ficou na minha barriga... eu tive até que entrar em modo de hibernação para me recuperar. Esse modo consistia em bloquear o meu lado humano, baixar a minha temperatura para evitar muita perda de sangue e limitar o meu batimento cardíaco ao mínimo de batimentos possíveis, isso garantiu a minha sobrevivência naquela hora, mas havia me enfraquecido muito.
O garoto a minha frente me olhou estranho de repente.
—“Você até que é gostosa.” Disse ele lambendo um pouco de sangue que ficou no canto da sua boca.
—“Que isso... você tá me estranhando?” Olhei pra ele irritada.
—“Seu sangue é... diferente de tudo que já bebi... sinto-me revigorado e sem... sede. E eu sempre tenho sede.” O garoto me olhou novamente, dessa vez havia algo de bizarro em seu olhar.
—“... O pior é que também estou satisfeita...” Parei pra pensar, até agora eu só bebi sangue de familiares e também de Pedro, que não tinha ligação consanguínea comigo, mas era humano... será que isso tinha algo haver com isso ou... algo diferente estava acontecendo?
—“Que cara é essa monstrinha?” O garoto idiota apertou a minha bochecha como se eu fosse um bebê... tá eu sou um bebê, mas isso não lhe dá o direito de me tratar assim, dei um tapa na mão dele.
—“Se você contar para algum de meus pais o que fizemos aqui... eles vão arrancar a sua cabeça... não que eu me importe, mas no momento precisamos de você.” Falei confiante... porque eu sabia que papai faria isso mesmo, mas eu só queria assusta-lo, eu na verdade não queria que meus pais descobrissem isso, por algum motivo isso parecia errado.
—“Nossa... estou morrendo de medo.” O garoto debochou de minha ameaça e foi se deitar na cama com os braços atrás da cabeça, ele parecia convencido e cheio de si mais ainda.
Deixei-o sozinho no quarto e corri de volta para os meus pais, eu não sabia o que estava acontecendo, mas eu não queria que meus pais descobrissem que andei fazendo experiências com esse garoto. Por algum motivo que eu ainda não entendia, o que eu fiz parecia algo que não se deve fazer. Mas o que foi exatamente que eu fiz? E porque estou com medo que descubram?
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