Sangue quente.

30 Navegando e descobrindo.


Notas iniciais
Boa leitura pessoal. Em comemoração a chegada do capítulo 30, eu fiz um desenho pra vocês. Espero que gostem. Até o próximo capítulo.

Sephiron...

Quando acordei na manhã seguinte, me vi abraçado ao Ian que ressonava de leve. Estávamos deitados em um cobertor a céu aberto no meio do deque principal do barco. O sol estava me tostando vivo. Mas o que me fez entrar em pânico foi perceber que a criaturinha não estava em meus braços.

Sentei-me imediatamente e acabei empurrando Ian longe. Ele resmungou e me lançou um olhar zangando quando bateu com tudo no chão duro de madeira.

—“Criaturinha...” Chamei por ela olhando em volta. Quando Ian percebeu o porquê da minha urgência, ele parou de me lançar um olhar zangado por tê-lo acordado de mau jeito, e começou a olhar em volta apavorado também.

—“CRIATURINHA” Chamei novamente e como um idiota, eu olhei em baixo do cobertor.

—“SOPHIA.” Ian se levantou e começou a procurar, ele olhou dentro de alguns barris que estavam vazios.

O pânico tomou conta de ambos, reviremos tudo que encontramos, mas nem sinal dela.

—“Que gritaria toda é essa?” O moleque irritante surgiu de seu quarto esfregando os olhos, seus cabelos loiros estavam bagunçados e enredados.

—“A Sophia sumiu.” Ian falou em desespero.

—“A monstrinha? Será que ela foi muito na beirada e caiu no mar?” O garoto perguntou ainda se espreguiçando, ele não estava nem ai pra ela pelo visto.

Pronto, isso foi o suficiente para criar o caos naquele barco. Ian correu para beirada do barco e começou a olhar a água agitada, e eu quase pulei no mar sem pensar duas vezes.

—“Calma vocês dois... ela tá bem.” Disse o moleque despreocupado. Ele penteou os cabelos com os dedos e fez um rabo de cavalo.

—“Cadê ela?” Perguntei furioso, quase esganei o moleque.

—“Na minha cama.” Respondeu o garoto sem preocupação alguma.

—“Como é que é?” Eu quase o peguei pela orelha agora, minha raiva estava aumentando.

—“Quando o sol nasceu e começou a incomoda-la, ela foi procurar um refugio do sol e me expulsou da cama... bem na verdade quando eu acordei, eu já estava no chão, então não sei como ela conseguiu me tirar de lá. Mas ela está lá, toda folgada e dormindo que nem uma madame.” O garoto torceu o nariz para a porta que levava ao quarto dele.

Suspirei aliviado, mas tenho que admitir que ela foi muito esperta de ter empurrado o garoto pra fora da cama e se bancado lá. Eu teria feito isso, se Ian não fosse tão certinho.

—“Eu juro que vou dar uma surra nessa menina... como ela ousa nos dar um susto desses?” Ian estava puto da vida, ele foi entrando no quarto jogando fogo pelas ventas, o segui de perto para ter certeza de que ele ia dar uma dura nela, ela merecia.

—“Sophia... o que é que você pensa que está fazendo?” Ian cruzou os braços quando chegou ao pé da cama.

A criaturinha já estava acordada e se sentou nervosa quando nos viu chegando furiosos.

—“Que foi Tata?” Ela perguntou sem jeito, parecia muito nervosa mesmo.

—“E você ainda tem a cara de me perguntar isso?” Ian estava mesmo furioso, acho que a mão dele estava coçando pra dar uma palmada nela, admito que eu também queria fazer isso, ela quase me matou do coração.

—“O moleque fedorento contou pra vocês?” Ela arregalou os olhos e ficou agitada.

—“É claro que ele nos contou, se ele não tivesse contando nós teríamos pulado no mar.” Respondi tendo de controlar a minha voz para não gritar com ela.

—“O que eu fiz foi tão ruim assim?” Ela se encolheu e pareceu envergonhada.

—“Claro que foi, você sumiu e quase nos matou do coração... nunca mais faça isso. Se quer ir em algum lugar, nos avise antes.” Ian cruzou os braços e a fuzilou com o olhar. Acho que ele assim como eu, não tinha coragem de levantar a mão contra ela, e um olhar zangado era tudo que conseguíamos dar a ela.

—“Ah, isso... tá bem, desculpa, eu não sabia que iam ficar tão preocupados.” Ela pareceu ficar aliviada com algo, e isso me deixava com uma pulga atrás da orelha... O que ela fez de errado e está com medo de que a gente descubra?

Ela fez beicinho e estendeu os braços pedindo colo. Bufei pra ela, eu ainda estava muito zangando, mas me contive, acho que ela ainda não entende o quanto a gente se preocupa com ela... E na verdade nem eu sabia que me preocupava tanto assim com ela.

Ian a pegou nos braços e voltamos para o deque principal, o Leo estava puxando a ancora do fundo do mar, era incrível de ver a habilidade dele com esses equipamentos pesados, mesmo ele sendo muito pequeno ainda, ele tinha a manha.

O garoto então correu para a direção do barco... acho que não é esse o nome... deixe me lembrar dos vários livros que já li sobre navios... acho que deve se chamar timão... É, acho que é isso mesmo.

O moleque irritante passou a navegar com um sorriso safado no rosto, e com seus cabelos ao vento. Ele parecia um passarinho livre voando pela primeira vez.

Sophia o observou com curiosidade, e é claro que o garoto não perdeu a chance de se exibir.

—“Hei... baixinha quer que eu te ensine a navegar?” Perguntou ele com sorriso diabólico para a criaturinha.

Ela me olhou como se esperasse uma autorização. Dei de ombros, eu havia decidido deixa-la experimentar coisas novas, mas eu iria ficar de olho nela por segurança.

Ela então olhou para Ian, que suspirando a largou no chão. A criaturinha andou até o garoto com um olhar interessado.

—“Vem cá... deixa eu te pegar no colo pra você ver melhor.” O garoto a abraçou por trás e a ergueu para ficar na altura certa e conseguir segurar o timão. A criaturinha se agarrou naquilo e olhou interessada em volta, ela parecia entretida no momento, mas eu não gostava de vê-la tendo contato com esse moleque, principalmente porque ele parecia pequeno demais para segura-la. Se ele derrubá-la, vou matá-lo na hora!

Olhei para as minhas mãos, estavam muito vermelhas, merda! Eu peguei muito sol, não nasci pra isso. Rapidamente procurei uma sombra e me escondi lá dos raios danosos do sol.

Ian riu de mim, mas logo ficou enjoado de novo e correu para a borda do barco pra vomitar. Bem feito! Quem mandou rir de mim?

A criaturinha parecia de boa, parecia que nada a afetava, apesar da pele dela ser muito mais branca que a minha, ela não parecia sofrer sobre os raios do sol. Mas mesmo assim eu acho que ela não gostar muito de ficar no sol.

Já o moleque... bem, ele parecia muito bem adaptado a isso, a cor de sua pele era a prova irrefutável disso.

Sentei-me no chão e fiquei admirando a vista e ao mesmo tempo de olho na criaturinha. Ian veio se sentar ao meu lado e apoiou a cabeça no meu ombro. Ele ainda estava enjoado, dei palmadinhas nas costas dele para ajuda-lo a se sentir melhor.

Apurei meus ouvidos para ouvir a conversa da criaturinha com o moleque.

—“Porque seus olhos são violetas?” Perguntou o garoto. E francamente eu também queria saber sobre isso.

—“Para você a cor dos meus olhos é violeta? Interessante...” Ela pareceu verdadeiramente surpresa com essa informação. Porque isso? Será que ela enxerga outra cor quando vê seu reflexo em alguma coisa?

—“Meus olhos não são assim de verdade.” A criaturinha respondeu enquanto mexia de um lado para o outro no timão.

—“Ah é? E como eles são?” O garoto riu em deboche, acho que para ele, ela estava apenas inventando uma historinha como as crianças fazem.

—“Se eu te mostrasse... você teria medo de mim.” O tom dela fez até meus pelos se arrepiarem, havia uma clara ameaça na voz dela, e eu acreditava nisso fielmente. Algo me dizia que a criaturinha não era assim de verdade... que ela estava disfarçada ou coisa do tipo.

—“Ata, sei... a monstrinha tá querendo bancar a espertalhona né?” O garoto riu da criaturinha, levando a suas palavras na brincadeira.

—“Continue sendo esse inocente.” Ela respondeu esnobemente para ele.

O garoto voltou a rir, mas a abraçou mais forte e chegou seu rosto mais perto do ombro dela.

—“Se ousar me morder agora, meu pai vai arrancar a sua cabeça moleque... você sabe disso né?” Ela o alertou e sinceramente eu já estava quase indo pegá-la para afastá-la o máximo desse pirralho sujo.

—“Que ótimo! Eu sempre quis saber como é ser decapitado.” Leo riu, mas depois de me dar uma rápida olhada, ele a soltou no chão e voltou a navegar. A criaturinha ficou ao lado dele o observando. Relaxei um pouco, mas segui bisbilhotando a conversa deles.

—“Cadê a sua mãe?” Perguntou Leo depois de um minuto de silêncio.

—“Mãe? O que é isso?” Ela perguntou curiosa. Bem é verdade, acho que ela nunca viu uma mulher, e talvez não conheça o significado da palavra mãe.

—“Ora mãe é... hã...” O garoto parou para pensar em uma resposta.

—“Você não sabe.” A criaturinha cruzou os braços e debochou dele.

—“É claro que eu sei... eu só não sei como explicar.” Leo coçou a cabeça pensativo.

—“Sei.” A criaturinha torceu o nariz pra ele.

—“Tá... mãe é a mulher que te carregou na barriga e te deu a luz... É a mulher que ficou com seu pai e te fez.” O garoto respondeu isso como se lesse um roteiro, acho que ele só estava reproduzindo uma fala que já ouviu, mas que talvez nem ele saiba o que significa.

—“Mulher?” A criaturinha ficou mais curiosa agora.

—“É... você não sabe o que é mulher? E ainda quer pagar de inteligente.” Agora foi a vez dele de debochar dela.

—“Me fala o que é... por favor.” Ela pediu fazendo uma carinha de anjo pra ele.

—“Mulher é... o oposto de homem... Você é uma... ou vai ser um dia.” Ele a olhou de cima a baixo quando disse isso, e isso me irritou muito. Pensar que um dia ela será uma mulher e que vai haver caras em volta dela... me faz queres torcer alguns pescoços.

—“Eu não vou não.” A criaturinha ficou indignada com isso.

—“Vai sim.” Rebateu ele mostrando a língua pra ela.

—“Não vou não.” Ela bateu o pé teimando.

—“Você não tem piupiu que nem os meninos, então você é menina... e um dia será mulher.” O garoto jogou isso na cara dela.

—“Piu piu?” Agora ela ficou perdida de vez.

—“É isso aqui ôh.” O garoto fez menção de baixar as calças pra ela.

—“HEI... QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO SEU...” Imediatamente corri pra perto deles e peguei o moleque pela orelha.

—“Ai... ai... para seu idiota.” O garoto se debateu e tento me fazer largar a orelha dele.

—“O que está acontecendo?” Perguntou Ian que veio se juntar a nos.

—“Ele ia... mostras as partes pra ela.” Mostrei o projeto de tarado pela orelha para Ian.

Ian caiu na gargalhada.

—“Isso não tem graça Ian.” Quase rosnei pra ele.

—“Seph solta o garoto, ele é só uma criança.” Ian agarrou minha mão e me fez soltar a orelha do tarado mirim.

-“Eu não pedi a sua ajuda, comida.” Leo bateu na mão de Ian e se afastou dele esfregando a orelha.

—“Ora seu...” Eu já ia atacar ele de novo, quando algo estranho na criaturinha me chamou atenção. Ela estava olhando para nós três com concentração, seus olhos tinham um estranho brilho prateado.

—“Porque... eu não tenho isso ai também?” Os olhos dela voltaram ao normal e ela nos lançou um olhar indagativo e tristonho... espera! Ela estava usando alguma visão de raio-x ou sei lá o que para nos ver pelados? Isso tá muito errado!

—“Bem... é que...” Ian ficou perdido... Ahá, agora ele tá perdido, mas quando eu estava querendo proteger a criaturinha dessa descoberta, ele estava rindo.

—“É porque eu sou diferente né? Eu não como vocês! Eu sou ruim porque eu sou outra coisa?” A criaturinha encheu os olhos de lágrimas e olhou as próprias mãos com uma expressão pensativa e assustada. Acho que ela já percebeu que é mesmo diferente de mim e do Ian... e não era só na questão do sexo.

—“Hei... não é que...” Ian ficou mais perdido ainda.

—“Eu já disse, é porque você é menina. Meninos tem piu piu e meninas tem conchinha. Essa é a única diferença.” Leo revirou os olhos para o drama que estávamos fazendo.

—“É isso mesmo Sophia... você é menina, só isso... você não é diferente.” Ian se aproximou dela e se ajoelhou na frente dela, ele tentou pega-la, mas ela deu passo atrás.

—“Mas eu queria ser igual a vocês... porque eu tenho que ser diferente?” Ela fez beicinho.

—“Me escuta criaturinha...” Me ajoelhei ao lado de Ian e olhei direto nos olhos dela.

—“...” Ela me olhou de volta, havia muitas perguntas não ditas em seu olhar triste.

—“Eu queria que você fosse menino no inicio... porque achava que os meninos eram melhores. Mas ai você nasceu e calou a minha boca. Agora, eu gosto de você do jeitinho que é... eu não mudaria o seu gênero, principalmente porque você só fica mais incrível a cada dia. Não fique aborrecida, acredite... o seu é melhor.” Fiz um carinho sem jeito na bochecha dela.

—“É Sophia, a gente te ama independente disso.” Ian a beijou na testa.

Não pude deixar de notar que o garoto nos olhava com uma certa inveja, eu não sei dizer, ele estava meio cabisbaixo e parecia triste.

—“Vocês gostam de mim, mesmo eu sendo... do mau?” Ela perguntou séria.

—“Quem disse que você é do mau?” Ian lhe deu um abraço. Ela se agarrou nele e deu um leve sorriso, mas eu podia ver que havia algo passando na cabeça dela, algo que ela não queria nos contar.

—“Então cadê a minha mãe?” Ela me olhou séria.

—“Ian aqui é a sua mãe.” Dei um tapinha nas costas de Ian.

—“Mais ou menos isso.” Ian fez uma careta pra mim.

—“Que mentira! Homens não podem ter bebês.” Leo bateu o pé ao nosso lado.

—“A criaturinha aqui nasceu de Ian.” Respondi ao garoto.

—“Nasceu nada. Homens não podem fazer bebês na barriga, você é burro.” Ele apontou o dedo na minha cara... mais um pouco eu arrancava o dedo dele na mordida.

—“Meu Tata pode sim... eu nasci da barriga dele, eu lembro disso.” A criaturinha rebateu cheia de si.

—“Você é mesmo muito burrinha. Só mulheres podem fazer bebês na barriga.” Ele seguiu batendo nessa tecla.

—“Meu Tata também pode... eu nasci dele.” A criaturinha insistiu.

—“Nasceu nada.” Leo mostrou a língua pra ela.

—“Nasci sim.” Ela fez careta pra ele.

—“Nasceu nada.” Ele cruzou os braços furioso.

—“Cala a boca.” Ela rosnou pra ele.

—“...” Ele ficou calado do nada, parecia que ele queria falar, mas não podia... ele ficou tentando sem sucesso... o que foi que ela fez com ele? Ela mesma parecia surpresa com o que fez.

—“Desculpa.” Ela pediu antes de esconder o rosto no peito de Ian.

—“O que foi isso?” O garoto engoliu em seco e olhou de cara amarrada pra ela.

—“Cadê a sua mãe então pirralho?” Tentei mudar rápido de assunto, não queria que ele percebesse o quanto a criaturinha era diferente.

—“Eu não tenho.” Ele rosnou pra mim.

—“Então dá onde você nasceu? De uma chocadeira?” Debochei dele e comecei a rir, Ian me lançou um olhar zangado.

—“Não é da sua conta.” Ele cruzou os braços e deu as costas para mim.

—“Seph para, deixa ele em paz.” Ian me deu um cutucam.

—“Eu... eu... eu não vou mais levar vocês em lugar nenhum... saiam do meu navio.” Ele falou furioso, mas eu podia ver que ele estava tentando engolir o choro.

—“Vai chorar é?” Continuei a perturba-lo mesmo com Ian me dando beliscões para parar, isso era divertido.

—“Seph para.” Ian me deu uma cotovelada na costela.

—“O que é aquilo.” A criaturinha apontou ao longe, forcei a minha vista e pude ver uma frota de navios vindo na nossa direção. Acho que havia mais de seis navios.

—“Ah não... ele me achou.” O garoto arregalou os olhos e tremeu na base ao ver a frota.

—“O que? Quem te achou? O que está acontecendo pirralho?” Olhei para ele furioso, esse moleque fez alguma merda e vai nos meter em suas encrencas.

—“Não tenho tempo de explicar, tenho que tentar ir mais rápido... se ele me pegar.” O garoto estremeceu com o pensamento.

Ele rapidamente correu para o timão e o torceu, a vela inflou com o vento e o barco ganhou velocidade. Ian abraçou mais forte a criaturinha em seus braços e se aconchegou para mais perto de mim.

Ganhamos bastante velocidade, mas a frota à nossas costas também, eles eram rápidos e estavam se aproximando cada vez mais.

—“Droga!” O garoto tentou fazer o barco ganhar mais velocidade, mas eu acho que se ele continuasse assim, essa banheira velha se desmancharia.

Não demorou muito e alguns barco duas vezes maiores que esse começaram a passar a gente, o garoto tentou fazer manobras arriscadas para voltar a dianteira, mas os barcos a nossa volta conseguiram fechar a nossa frente e impedir a maioria dos movimentos evasivos do nosso barco, me firmei no chão e segurei Ian com força.

Os barcos por fim nos cercaram e fecharam o cerco, não havia como esse barquinho fugir.

Do navio maior e bem mais conservado que estava a nossa esquerda, empurram umas pranchas para dentro de nosso barco, e em questão de minutos vários vampiros invadiram o nosso deque principal, todos muito bem armados com facões e pistolas.

O garoto que algumas horas atrás, era confiante e arrogante, agora estava meio encolhido e cabisbaixo.

—“Capitão no convés.” Gritou um dos vampiros e todos os outros que nos cercavam com sorrisos cruéis fizeram uma postura de sentido.

Um vampiro alto, robusto e muito bem vestido, passou pela prancha e embarcou em nosso barco. Ele tinha muitos objetos de ouro, assim como suas presas. Em suas mãos havia um grande e grosso chicote de couro trançando.

Um dos vampiros servos pegou Leo pelos cabelos e o arrastou até o centro do barco, o atirando de qualquer jeito na frente desse vampiro, que pelo visto era o chefe. O garoto ficou de joelhos na frente dele, tremendo como nunca.

—“Ora, ora... não é que o pirralho remelento tentou fugir.” Ele olhou com nojo para Leo, o garoto só fazia tremer na frente do vampiro.

—“O que está acontecendo aqui?” Perguntei ao vampiro chefe. Os vampiros servos se mantinham afastados e fechavam um circulo a nossa volta, fora os outros vários vampiros nos barcos a nossa volta que mantinham armas de fogo apontado para nós.

O vampiro chefe me olhou dos pés a cabeça e franziu o nariz como se estivesse de frente a algo sujo e fedido. Esqueci-me que por estar com essa cicatriz em meu rosto, eu agora estava abaixo de um mendigo. O vampiro me ignorou como se eu não fosse nada além de um pedaço de merda e voltou a prestar atenção no garoto tremulo.

—“Seu merdinha nojento... tentou fugir com um de meus barcos e achou que ia conseguir ir muito longe?” O vampiro cuspiu no garoto e o chutou, tive que segurar Ian, ele estava fazendo menção de ir até o Leo.

—“N-não Me-mestre eu s-só...” O garoto tremia como vara verde, ele estava bem diferente do garoto arrogante que conheci ontem.

—“CALA A BOCA.” O vampiro deu uma chicotada no garoto, ele se encolheu no chão e choramingou, o sangue brotou de sua pele ferida. Os vampiros servos riram maldosamente.

—“HEIII... COMO OUSA BATER NELE.” Ian me passou a criaturinha e se colocou entre o vampiro e o garoto, eu não consegui detê-lo.

—“Que merda é você? Sai da minha frente, estou disciplinando o meu escravo.” O vampiro olhou com curiosidade para Ian, o farejando com interesse.

—“Escravo? Vampiros não podem ser escravos.” Ian pareceu chocado e francamente eu também estava, essa era uma realidade nova para mim.

—“Eu paguei por esse merda... então isso me torna dono dele. Agora sai da minha frente que eu vou matar esse merdinha a chicotadas.” O vampiro torceu o chicote nas mãos e o garoto se encolheu como uma bola no chão, os soluços dele provavam que ele estava chorando. A criaturinha se encolheu nos meus braços como se estivesse com medo também.

—“Não saio, você não vai tocar em fio do cabelo dele.” Ian se manteve firme diante do vampiro que era quase o dobre do tamanho dele. O garoto olhou para Ian surpreso, acho que ele não esperava ser protegido pela comida.

—“Era pra esse merda estar cuidado desse barco, limpando o deque e essas coisas e olha o que ele me faz... rouba o meu barco e ainda trás mendigos para dentro de minha embarcação, o castigo correto para ele é ser chicoteado até a morte. Agora sai da frente, estou te avisando.” O vampiro encarou Ian com raiva, mas ele corajosamente o encarou de volta.

Agora tudo fazia sentido pra mim, o garoto não era dono desse barco... ele era apenas um escravo que queria fugir... mas porque ele só tomou coragem pra fazer isso quando tentamos roubar o barco?

—“Saia da minha frente.” Insistiu o vampiro.

—“Não! Não vou permitir que um ser nojento e repugnante como você toque nele...” Ian levou uma chicotada forte e o sangue dele brotou manchando sua roupa, houve um murmúrio entre os servos que sentiram o delicioso cheiro de seu sangue.

—“HEI.” Fiz menção de atacar, mas fui segurado por dois dos vampiros servos, a criaturinha foi tirada de meus braços à força por outro. Ela se debateu tentando voltar pra mim.

—“Não a machuquem.” Me debati também, tentando me soltar. Se eu ainda tinha algum poder que o pai do Ian me deu, esse era o momento de usa-lo de novo.

—“Senhor... o que fazemos com eles?” Um dos vampiros que me segurava perguntou ao seu capitão.

—“Esse feioso ai... algemem, será meu novo escravo, preciso de um novo já que vou matar esse pivete.” Ele sorriu pra mim e depois voltou a olhar pro Leo, que agora se agarrava as pernas de Ian com medo.

—“Já esse metido a corajoso...” O Chefão se aproximou de Ian e segurou seu queixo para lhe olhar melhor.

—“Levem aos meus aposentos, ele será meu novo banco de sangue ambulante, ele cheira bem.” O chefão lambeu o rosto de Ian, me debati com raiva, eu queria arrebentar com a cara desse sujeito.

—“E quanto a bebê.” O vampiro que segurava a criaturinha perguntou.

—“Atirem no mar... não vou ganhar nada com algo tão pequeno e inútil.” Ele fez uma careta para a criaturinha.

Droga!... Eu tenho que fazer algo, vamos lá... se eu ainda tenho algum poder dentro de mim, vamos lá... ATIVAR... Droga! Como eu faço isso? Eu preciso fazer algo e tem que ser agora.

Notas finais
A mentira tem perna curta e Leo acaba de ser desmascarado. Será que Seph conseguirá ativar novamente seus poderes para salvar a todos dessas enrascada? Não percam no próximo capítulo.