Sangue Winchester

12 Não julgue um livro pela capa


Várias horas depois todos se reuniram em uma clareira, mas ninguém tinha tido sucesso na busca:

- Será que a coisa que matou a Mary e o Igor também é o que está virando os barcos? – Perguntou Greg mais como um comentário.

A esposa deu um tapa no braço dele dizendo que Igor não estava morto e Loren e Cristal começaram a choramingar:

- Acalmem-se todos – Disse Sam – Vamos pensar. Quem foi a última pessoa que viu os dois vivos?

Todos viraram os olhares para Natale que se encolheu atrás de Dean:

- Natale – Sam se virou para ela – O que você viu exatamente?

- Eu estava voltando pro casarão quando ela me parou desesperada – Natale tentava se lembrar da noite passada – A Mary estava procurando o Igor, e parecia bem nervosa...

- Tá dizendo que o Igor não estava com ela? – Perguntou Dean e a garota concordou com a cabeça.

- Não o vi. – A menina completou.

Todos ficaram em silêncio por um tempo, até que Tomás não conseguiu mais segurar o pensamento:

- Isso é loucura. Por que vamos dar ouvidos a essa garota? Alguém sabe a onde ela estava ontem?

- Tá dizendo que a minha filha matou a Mary? – Dean encarava o homem com os punhos cerrados.

- É a suspeita número 1. – Respondeu o guia.

- É uma criança. – Devolveu o Winchester.

- Já chega! – Sam separou os dois.

- Acho melhor nós montarmos acampamentos separados – Disse Lisa – Nos viramos sozinhos.

Ao deixar os outros para trás, Dean se virou para Sam e Natale:

- Vamos em bora. Não temos nada a ver com os problemas deles.

- Não – Natale tomou um susto quando ouviu isso – Tem alguma coisa aqui.

- É tem, um bando de malucos e um peixão de mau humor.

A garota bufou com o comentário de Dean:

- E a senhorita não contou a onde estava ontem à noite. – Dean a olhou nos olhos.

- Vamos pro carro? – Sam desviou o assunto.

Dean retomou a caminhada e a dianteira, dando espaço para Natale cochichar um “obrigado” para o tio. O Impala não pegava, Dean tentou várias vezes, mas nada acontecia:

- Da pra concertar? – Perguntou Sam olhando para o motor como se fosse uma pintura abstrata.

- Claro que da – Respondeu o mais velho – Mas vai levar bastante tempo.

- E voltar pro casarão nem pensar. – O caçula pensou em voz alta.

Sam deixou o irmão trabalhar sozinho e foi andando na direção de Natale que estava sentada na base de uma árvore grande, ao ver que a menina estava quieta, mas sem fone, ele também se sentou:

- Tá tudo bem?

- Não – Ela respondeu – É essa historia toda, eu acabei de ser acusada de assassinato.

- É – Suspirou Sam – A gente passa por isso.

- Não sei se consigo aguentar. – Ela virou o rosto.

* * *

Diário da Natale

Dean passou o dia inteiro trabalhando no carro (eu ainda não entendi qual era o problema), o sol já estava se pondo quando ele disse que já estava terminando, e foi aí que o Sam lembrou que tinha deixado o computador no casarão, ele levou um pescotapa, mas disse que voltava logo.

O tempo foi passando e a noite veio com tudo, mas o Sam não voltava de jeito nenhum, e o Dean já estava ficando louco, ele me mandou não sair de perto do carro e também SUMIU mata a dentro, isso mesmo, SUMIU porque ele fez que nem o irmão e me deixou horas plantada naquele carro. A minha poupança estava ficando do formato do assento quando resolvi ver por que os dois estavam demorando tanto.

Não demorei pra perceber que aquela floresta a noite parecia um labirinto, era muito fácil se perder e não achar o caminho nunca mais. O silêncio da outra noite continuava, exceto pelo rio, e por isso eu estranhei quando ouvi alguma coisa mergulhar (não havia animais ali, mas quem iria dar um mergulho as 5h da manhã?), me aproximei com cuidado e sem fazer barulho, eu não vi ninguém na água, mas uma pessoa veio correndo da margem oposta a que eu estava, era Lisa que chamava por Igor, tão Desesperada quanto Mary na noite passada. Alguma coisa se moveu dentro da água e ela pulou.

Eu realmente não esperava ver aquilo, ela estava indo para o fundo, mas não se importava com respirar, entrei em pânico e pulei na água atrás dela. Tentei leva-la para a superfície, mas a Lisa ficava indo pro outro lado e me empurrando, acho que só consegui botar a cabeça dela pra fora da água graças a um surto de adrenalina, porque eu tava começando a ficar com medo. Olhado de cima pude ver alguma coisa se mexer no fundo do rio, mas não era uma pessoa, parecia um peixe muito, muito grande. Minha primeira reação foi gritar (e muito) depois tentei alcançar a margem, Lisa estava quieta de um modo estranho, mas eu nem liguei porque o meu pensamento ainda estava naquela silhueta em baixo d’agua:

- O que está acontecendo? – Perguntou uma voz que vinha sei lá de onde.

Todo o mundo que devia estar no casarão correu até a gente, e Sam e Dean me olharam como se tivessem acabado de lembrar que não fizeram o dever de casa, Greg correu para socorrer a esposa e Tomás veio na minha direção como se quisesse me afogar ele mesmo, e acho que teria feito se não fosse a coisa mais estranha do mundo o que aconteceu depois, o sol nasceu e alguma coisa pulou do fundo do rio (parecia um golfinho), a criatura chamou a atenção de todos e depois desapareceu outra vez na água:

- O que está acontecendo? – Tomás perguntou pra si mesmo.

* * *

De volta ao casarão ninguém conseguia entender o que tinha acontecido. Tomás, Greg, Cristal e Loren tentavam falar com Lisa, que parecia em transe, enquanto isso os três Winchester foram para a varanda conversar:

- Vocês me abandonaram – Natale falava jogando os braços no ar – Uma adolescente, marcada com o 4, sozinha no meio de uma floresta a onde barcos estão virando e pessoas estão morrendo... O que VOCÊS têm na cabeça?

— Foi estranho – Respondeu Sam – Depois que o Igor chegou, tudo ficou tão estranho que eu nem lembrei o que tinha vindo fazer aqui.

- Eu confirmo a história dele. – Disse Dean em tom de brincadeira.

- Tá dizendo que depois que o Igor chega – Natale estava pensativa – Ninguém liga pro que acontece fora da casa?

- É mais ou menos isso. – Respondeu Dean.

- Isso é muito sério – Natale aumentou o tom de voz – Significa que na outra noite, se eu não tivesse sumido de dentro da casa, vocês nem iriam notar.

Sam e Dean permaneceram quietos e confusos, e a garota puxou o diário de John de dentro da mochila:

- Você deu o diário pra ela? – Dean deu um pescotapa no irmão.

- Eu sei o que estamos caçando – Disse Natale passando por cima dos gemidos de Sam e abrindo o diário – A pesquisa aqui está mais ou menos, mas essa coisa eu conheço.

Ela mostrou uma porção de símbolos e o esboço de um animal semelhante ao que tinham visto na noite passada:

- Pode parecer engraçado, mas ele é o Boto cor-de-rosa, ou Boto encantado, faz parte da mitologia brasileira, mas também aparece em algumas histórias da Europa, ele não é realmente hostil, mas é namorador, nas lendas aparece em festas a onde é o centro das atenções, isso porque ele pode mudar de forma e toma a aparência de um homem bem bonito, mas como a transformação não é completa ele usa um chapéu. As pessoas ficam completamente envolvidas com o memento, e algumas mulheres se apaixonam por ele pra valer e são levadas para o fundo do rio, quando o sol nasce e ele tem que voltar a sua forma original, algumas apaixonadas acabam não suportando e indo atrás dele. Acho que foi assim que a Mary se afogou.

Dean ficou de queixo caído com a quantidade de informação que a menina tinha, e Sam olhou para ele com cara de quem diz “viu como eu tinha razão de entregar o diário pra ela”:

- Ele que está virando os barcos? – Dean perguntou.

Natale concordou com a cabeça e voltou a falar:

- Ele vira os barcos que tem mulheres dentro. Por isso muitos donos de barcos que utilizam o Rio Amazonas, passam alho nos cascos das embarcações na tentativa de disfarçar o cheiro das mulheres.

- E por que ele faz isso tudo? – Sam ainda não tinha entendido.

- Reprodução. – Natale riu.

Dean fez cara de nojo e disse:

- Que peixe abusado.

- Na verdade ele é mamífero. – A garota corrigiu.

- Não importa – Dean começou a andar – Eu só quero saber como é que a gente mata essa coisa.

- Ele só pode ser morto na forma de animal – Respondeu Natale continuando com – Mas aí o Greenpeace protege ele.

Dean riu da piada, mas Sam olhou sério para o rio:

- Vamos começar a pescaria. – Disse Dean de repente.

- O que, agora? – A garota tomou um susto.

- A Lisa ainda esta sob efeito dessa coisa – Disse Sam.

- Além do mais, agora você não é uma super caçadora? – Brincou Dean.

Natale riu sem graça e seguiu os dois rio a baixo. O silêncio reinou durante boa parte da caminhada:

- Nós vamos simplesmente chegar lá, dar um tiro nele e cair fora? – Natale não gostava da ideia de ter que matar alguma coisa.

- Não – Respondeu Dean – Nós vamos chegar lá, dar um tiro nele, ter certeza que acabou e aí caímos fora.

A garota bufou com a resposta. Pouco depois eles chegaram a um enorme lago:

- Fim da linha – Disse Sam – Ele só pode estar aqui.

- E agora – Dean se virou para o irmão – Gritamos “coelhinho sai da toca”?

Natale riu, mas Sam não achou graça e respondeu:

- A gente pode...

- Parem! – Uma voz veio do caminho que eles fizeram e logo era possível ver Lisa, Loren e Cristal.

As gêmeas atacaram Sam e Dean para tentar pegar as armas, Natale empurrou Cristal para longe de Dean e acabou sendo jogada por Lisa dentro da água. Tentando se soltar de Loren, Sam gritou para que a sobrinha saísse da água, a garota tentou nadar até a margem, mas foi agarrada pelo calcanhar e puxada para o fundo do lago, Dean de soltou de Cristal e tentou recuperar a arma, mas Lisa pulou em cima dele e Cristal chutou a arma que acabou afundando na água.

De repente a criatura jogou Natale pro ar e a garota foi parar do outro lado do lago, Sam ia gritar alguma coisa pra ela, mas viu que a garota estava desacordada, o boto começou a se aproximar de onde a menina tinha aterrissado e se movia quase fora d’agua, Sam estava prestes a se soltar de Loren quando todos ouviram um estrondo e ficaram quietos. As mulheres caíram no chão desacordadas e os dois viram o corpo da criatura boiando. Quando viram Natale de pé, próximo à margem, ela gritou:

- Surpresa número 1: a arma ter disparado. Surpresa número 2: eu ter acertado o alvo.

Quando eles deixaram as três de volta no casarão, viram que elas tinham deixado os homens desacordados e assim conseguiram sair. Os Winchesters seguiram para o Impala e finalmente voltariam para a estrada, Natale estava sentada no bando de trás reclamando de estar dolorida com aquela experiência:

- Como você acertou aquele tiro? – Perguntou Dean.

- É só não ter medo da sua arma. – Ela respondeu se lembrando das palavras que Samuel lhe tinha dito alguns dias a trás.

Notas finais
Espero que tenham gostado do segundo caso.