Sangue Rebelde

23 O Refúgio das Árvores Caídas


Notas iniciais
esse é um dos meus capítulos preferidos, espero que gostem ♥

Donna e Evan pararam em frente a uma grande construção de pedra coberta por vegetação morta. O lugar parecia abandonado. Era o jeito de esconder, mesmo que sua localização no mapa o favorecesse. Foi construído longe dos limites da civilização de Wonder Hill, onde nem vampiros nem lobisomens ousavam chegar perto. Um dia, ela sonhava, um dia, ela largaria tudo e iria para aquela floresta, viver com os amigos. Era o plano.

Mas isso foi antes de Evan. Antes de querer ter uma vida com ele. Antes da traição de Matthew.

Ela afastou esses pensamentos e se virou para a casa.

A casa estava quieta, os portões abertos, nenhum movimento nas janelas. Ela sentiu um arrepio na espinha. O que era feito ali, todos os feitiços e encantamentos, ela sentia como se aquilo fosse proibido.

E era, no final das contas. Perguntou a si mesma se os Noturnos já tentaram pegar Foster, sabendo dos perigos.

Evan foi a frente e estava quase no portão quando Donna o puxou pelo braço. Virou-se imediatamente, mas ela se manteve quieta. Pegou uma pedra e jogou para frente, caindo logo depois dos portões. Um buraco se abriu no chão e levou a pedra.

Evan prendeu a respiração.

— Eu ficaria muito triste se fosse você no lugar daquela pedra. — ela disse.

— Como vamos falar com ele se não podemos nem chegar perto do portão?

— Ele tem que saber que estamos aqui.

— E como vamos fazer isso se, repito, não podemos nem chegar perto do portão?

Um movimento no andar de cima. Uma cortina movida com rapidez. Olhos castanhos que a observavam.

Sorriu.

— Ele já sabe.

A interrogação no rosto de Evan a fez dar uma risadinha. Passou com cautela pelos portões, em passos lentos, até chegar à varanda. Afastou as folhas penduradas ali e levou a mão fechada até a porta. Donna bateu na porta duas vezes antes de ela se abrir. Um jovem, de cabelos loiros e olhos castanhos, estava na soleira da porta. Endireitou os óculos e sorriu para Donna, se afastando para que ela e Evan entrassem.

— Donna — disse. — Foster está lá em cima.

— Obrigada, Peter. — respondeu. Olhou para Evan, que estava de cara amarrada. Segurou a risada. — Evan, este é Peter. Aprendiz de Foster. Peter, esse é Evan.

— Ah, sim. — disse. — Pensei que viria com seu amigo lobisomem.

Matthew. Sentiu uma pontada no coração e trancou os pensamentos sobre o amigo. Ex amigo, corrigiu. As mãos de Evan deslizaram para sua cintura e firmou o aperto lá. Ela sabia que em parte por ciúmes, em parte por saber como a traição do amigo a afetara.

— O amigo lobisomem infelizmente não pode mais ser chamado de amigo. — disse, o polegar lhe acariciando de leve sobre o tecido.

— Eu não perdôo traições. — respondeu, ríspida. Puxou Evan pela mão pelas escadas, até o andar de cima. Guiava-se com facilidade pela construção, sentindo os diferentes aromas de diferentes feitiços, perguntando-se o que estaria sendo feito em cada um dos quartos.

Sabia que Foster era um feiticeiro habilidoso e treinava jovens especiais que vinham de todos os cantos do globo. A magia, ele dizia, surgia em qualquer lugar, mesmo que a pessoa em questão não tivesse ninguém na família assim — ela simplesmente surgia. Por isso, construiu esse lugar, afastado de tudo. E, depois que construiu, outros feiticeiros vieram para o local e se fixaram ali. Passou a ser chamado de Refúgio das Árvores Caídas, então.

E, por um tempo, tinha sido onde ela achava conforto.

Virou a esquerda, seguindo por um corredor que levava até uma porta bruta de madeira. Bateu na porta e ela se abriu, revelando uma sala ampla, com estantes abarrotadas de livros nas paredes, tapetes caros, desenhados e empoeirados cobrindo a pedra do chão. Cortinas pesadas cobriam as poucas janelas no cômodo. Uma mesa de madeira escura estava posicionada no centro, e um sujeito encurvado atrás dela consultando um livro.

Donna endireitou a postura.

— Foster. — chamou.

O sujeito levantou os olhos do livro. De onde estava, apenas parte de seu rosto era visível, mostrando apenas os olhos negros e o cabelo preto. Ele deu a volta na mesa e foi até o centro do cômodo, então esboçou um sorriso ao ver Donna.

— Menina Van Gould — disse, abraçando-a. — Não esperava vê-la de volta tão cedo.

Ela se separou e sorriu.

— E este é o humano do qual ouvi falar, presumo.

Evan tentou sorrir e Donna colocou um braço em sua cintura.

— Eu sou Evan — apresentou-se. — Evan Harris.

— Um Harris, uh? Nunca pensei que um Harris a deixaria tão feliz, criança.

Donna sentiu o rosto queimar, mas não negou, ao invés disso, cruzou os braços, ajeitou os ombros e olhou séria para Foster.

— Queria que tivesse vindo apenas para uma visita, mas as circunstâncias não permitem. Temo que já tenha ouvido.

— Sim, sim, ouvi sobre sua mãe, suas primas e seu casamento. — falou. —Sinto muito, Donna. Mas espero que tenha vindo aqui para pedir ajuda para fugir antes do ataque.

— Na verdade eu... Espere, ataque?!

Ele franziu o cenho e guiou os dois até um sofá azul escuro disposto no canto do cômodo.

— Noah teve uma visão. — Ela assentiu. Lembrava-se de Noah, o garoto das visões, que as vezes no meio de uma conversa olhava para o lado e começava a falar coisas sem nexo. Ele nunca errada uma previsão. — Os Noturnos tentarão um ataque no jantar de noivado, prenderão os Van Gould e os Wolff que não fazem parte da irmandade e começarão a instalar seu governo. Essa parte do reino ficará sob o controle deles.

— Mas então... Se eles irão aprisionar os Van Gould, porque toda a farsa de um casamento entre Matthew e eu?

Foster suspirou. Pegou as mãos de Donna nas suas enrugadas e olhou alarmado para os dois.

— As visões podem estar erradas.

— As visões de Noah nunca erram. — rebateu.

Outro suspiro.

— De acordo com ele, os Noturnos iriam pegá-la e levá-la com eles. Então, quando tomassem o território humano, iriam realizar o casamento e ele — olhou para Evan. — iria assistir tudo. Tudo, criança.

Donna achou que fosse vomitar. Arquejou, as mãos tremendo e trancou a mandíbula. Olhou para Evan, mas ele estava olhando para o chão, os olhos verdes que ela tanto amava nervosos, correndo todos os detalhes do piso.

— Mas isso não vai acontecer — ela bradou, se levantando. — Eu não vou me esconder, Foster. Não foi para isso que vim aqui. Eu vou lutar, e preciso da sua ajuda para isso.

Foster ficou em silêncio por um tempo, até que se levantou e sorriu para Donna como um pai orgulhoso.

— Me conte seu plano, criança.

Evan sorriu para ela. Os dois se sentaram novamente e Donna explicou seu plano, passo a passo, contando todos seus objetivos e porque precisava da ajuda dele. No final, ele balançou a cabeça e sorriu.

— Realmente, você pensou em tudo, Donna. Eu vou te ajudar com a queda dos Noturnos, e conheço um lugar onde você pode se refugiar junto com ele. Só precisamos ajeitar os detalhes.

— Claro, claro. O jantar será em um mês. Até lá temos bastante tempo. Voltarei aqui depois junto de Evan para acertarmos os detalhes.

Ela se levantou e abraçou Foster.

— Obrigada por me apoiar. — murmurou. — Evan, eu já vou, quero só pegar uns livros. Pode me esperar lá fora, se quiser.

Ele pareceu confuso e franziu o cenho. Então, assentiu e saiu, fechando a porta atrás de si. O coração de Donna doeu ao vê-lo sair e ela olhou para Foster.

— Eu preciso — disse num fio de voz. Pigarreou — Eu preciso saber se você sabe algum feitiço para tornar Evan imortal.

— Donna...

— Por favor, Foster. Eu preciso saber se existe a possibilidade...

— Donna — Ele colocou as mãos em seus ombros. — Não é um feitiço fácil. Consume muito do alvo e do feiticeiro. Se eu fizer isso, pode ser que não funcione e eu não saia vivo.

Ela sentiu o peito doer, o coração murchar, todas as esperanças escorregando por seus dedos. Se sentou, os ombros encolhidos, e mordeu os lábios. Fungou.

Foster abaixou-se ao seu lado.

— Eu não sabia que você gostava tanto desse garoto, criança. — falou. — Olha , existe uma possibilidade. Uma feiticeira jovem que eu conheço. Ambrose, eu sei que você conhece. Ela conhece esse feitiço, tem os livros. Diga que você me conhece e não custará nada a você. — Ela o olhou em confusão. — Longa história. Ache-a, Donna. Antes que os Noturnos a achem antes.

Donna se levantou, sorriu para Foster uma última vez antes de sair, fechou a porta e encontrou Evan do outro lado. Jogou os braços em volta dele antes de qualquer coisa.

— Você confia em mim? — sussurrou. Ele a apertou mais em seus braços.

— Claro que confio. O que aconteceu.

Ela se afastou e olhou-o nos olhos.

— Você me pediu para torná-lo imortal uma vez. Eu acho que tenho a resposta.

••

Donna percebeu que havia algo errado bem antes de chegarem à casa de Ambrose. Os galhos das árvores ali estavam quebrados, como se alguém tivesse passado abrindo caminho, e havia gotas de sangue em alguns pontos. Donna desceu de Brieta, amarrando-a na árvore, e olhou em volta. Checou a espada embainhada, a adaga enfiada na bota e deu uma última olhada em Evan antes de ir a frente.

A porta da frente estava entreaberta e havia sinais de arrombamento. Donna parou e inspirou fundo.

Sangue.

Passou pela entrada lentamente, um passo de cada vez, e segurou o grito ao entrar na casa.

O sofá estava rasgado — sem dúvida de que foi um lobisomem — a mesa de centro quebrada, os livros na estante espalhados no chão, sangue por todo lado. Ela engoliu em seco, lutando para que as presas não saíssem. Evan fez um sinal com a mão e foram conferir o andar de baixo. Uma faca de cozinha estava banhada em sangue e jogada na pia. A torneira ainda estava aberta; ela fechou.

As janelas estavam quebradas e as panelas no chão, mas não havia tanto sangue como na sala. Por último, foram para o andar de cima. Donna abriu a porta do quarto e tentou segurar a ânsia de vômito. Na parede oposta, uma frase estava escrita em sangue.

AVISAMOS VOCÊ

A mão de Evan estava em suas costas quando ouviram um barulho e uma voz vinda de baixo.

— Eu sei que você está ai, donzela. — Era Matthew. Donna se arrepiou e olhou para Evan, com a espada já empunhada. Desceu à frente e parou no último degrau.

Matthew estava esparramado no sofá com um sorriso perverso no rosto. Um garoto de cabelos acobreados estava na porta. Ross. Ela se lembrou daquela noite, de lutar ao lado de Evan, de pensar que Matthew estava ao seu lado. Cerrou os punhos e correu os olhos pelo resto da sala. Eles quase se arregalaram quando ela viu Thomas apoiado na parede. Seu coração doeu. Outro. Ele estava sem expressão, os braços muito rígidos, o cabelo acobreado cobrindo o rosto e não olhava para ela.

Matthew riu ao perceber a expressão de Donna e se levantou.

— Abaixe a espada, Van Gould. Minhas intenções são as melhores.

— Acho que nós dois sabemos que isso não é verdade. — respondeu lacônica.

Ele sorriu.

— Prefere que eu te lembre? — Cruzou os braços. — Porque seria muito, muito interessante recitar tudo com seu namoradinho escutando.

Ela ficou em silêncio. Queria atravessar sua espada nele. Aquele já não era seu amigo, era um psicopata Noturno que havia tomado seu lugar. Ela não hesitaria.

— Tudo bem então. — Se aproximou, a voz ficando mais grave. — Não tenho boas intenções. Nunca tive. Nunca quis só sua amizade. Quero que esse vestido saia, quero que esteja entregue a mim como nunca esteve a ninguém. Quero que Wonder Hill toda escute que você é minha, que eu fui seu primeiro e não haverá outro.

Seu rosto estava vermelho. A mão na espada vacilou e Matthew percebeu isso. Sorriu. Ergueu os ombros e aumentou o sorriso.

— Realmente, Wolff — As cabeças se viraram para Evan, que falava enquanto mexia a espada. — Suas intenções são muito divertidas. Só temo que tenha que arranjar novos planos, porque já fizemos isso tudo. Não é mesmo, amor.

Donna franziu o nariz e virou-se para Matthew.

— Sinto muito, Matt.

Tudo aconteceu muito rápido. Donna viu o brilho da lâmina de Matthew passar por ela e ir até Evan, e no próximo segundo sua espada já estava contra a dele. Ela se virou para ver Thomas e Jayden avançando e não pode mais prestar atenção em Evan.

Girou, subindo na mesa de centro, sua espada atingindo a de Thomas, outro que um dia fora seu amigo, enquanto Jayden lentamente assumia sua forma lupina. Golpeava com afinco, conhecia os pontos fracos de Thomas e ele conhecia os dela, haviam lutado muitas vezes antes, mas apenas como uma espécie de diversão, nunca como inimigos. Thomas com um golpe conseguiu cortá-la no braço e desarmá-la, sua espada caindo longe.

Ela não precisava disso.

Suas presas desceram e ela sabia que seus olhos estavam inteiramente vermelhos. Thomas pareceu engolir em seco, deu uma olhada para trás e Jayden avançou em sua forma de lobo. Donna foi pega despreparada quando a mesa virou e ela caiu, o lobo avançando. As unhas dele a cortaram na perna, sangue manchando ainda mais o tapete. Ela tentou chutá-lo, rolar, usar suas unhas, mas ele era muito forte e a prendia no chão. Então, quando ele foi voltando a sua forma humana e as mãos perto demais de seu corpo, ela percebeu com desespero que não queria matá-la apenas.

— Medo de ser tocada, princesa?

Mordeu a língua para não responder. Quando o rosto dele foi até seu pescoço, suas presas caíram rasgando por ali e ela conseguiu empurrá-lo. Retirou as presas, um rasgo enorme no pescoço dele, e colocou um joelho ali. Viu um pedaço de madeira perto, poderia pegar e usá-lo...

Thomas chamou-a e ela se virou. Surpreendentemente, ele lhe jogou sua espada. Ela pegou-a e levantou, cravando-a no coração de Jayden sem dó. Estava cega de raiva e nojo. Retirou a espada e olhou nos olhos cheios de pânico de Jayden.

Não sentiu remorso.

Virou-se, olhando para Thomas.

— Me deixe explicar depois, Donna, por favor. — pediu, já se aproximando, mas Donna cortou-o.

— Eu cuido de Matthew. Você espera lá fora.

Correu para cozinha, onde sabia que os dois estariam e encontrou Evan com a mão na barriga, a camisa rasgada mostrando um largo corte ali, mas ele continuava com a espada empunhada. Seu olho estava inchado e o lábio inferior sangrava. Matthew não havia sido piedoso com ele.

Evan a viu, e antes que Matthew pudesse se virar e atacá-la ela pegou uma panela da prateleira e jogou com toda força na cabeça do lobisomem. Atingiu como ela queria e ele soltou um gemido de dor, virando-se lentamente.

— Você me atingiu com uma panela. — disse. — É o melhor que pode fazer, Van Gould?

Ele virou-se totalmente, descendo sua espada contra a ela enquanto ela desviava. Mas este era Matthew, que conhecia todos seus truques, seus movimentos secretos, o que passava por sua mente durante uma luta. Ele não desistiria fácil. Tanto que, depois de alguns golpes, conseguiu rasgar a lateral de seu vestido e deixou um corte enorme por ali. Ela desviou antes que ele pudesse enfiar a espada ali.

Ele aproveitou o momento e chutou-a, usando toda a força de um lobisomem, e ela caiu do outro lado, o armário despencando em cima dela enquanto protegia a cabeça com as mãos. Jogou tudo para o lado e se levantou com dificuldade. Desviou pouco antes de uma adaga de Matthew a atingir no peito.

— Vamos lá, Donna. Sabe que eu sou mais forte.

Tudo se acumulou — a raiva, a mágoa, a dor, a traição — e ela desceu as presas e pegou a espada novamente. Pegou a adaga e aproveitou enquanto Matthew ria para atingi-lo no ombro. Evan passou-lhe sua espada e ela avançou com as duas em punho.

— Você está errado, Wolff. — rosnou. — Eu sou mais forte. Eu sempre fui mais forte. E você sabe disso, bem no fundo, porque sempre teve inveja.

Chutou-o, fazendo arriar contra a bancada, já se transformando, mas antes disso ela pegou a adaga e enfiou no outro ombro. Imaginou que ele devia ter se cansado com Evan, porque em outras circunstâncias estariam duelando.

— Não importa o que sente por mim. Sempre teve inveja. Da minha habilidade, do meu poder, da minha força. Aposto que foi uma das razões pelas quais se apaixonou por mim. Eu sou uma guerreira criada do sangue e do aço. Você não pode me deter.

Ele a olhava em descrença, a mandíbula cerrada, e ela cravou a espada em sua barriga, se afastando.

— Aproveite sua dor sozinho, traidor.

Deixou-o ali e foi até Evan, que havia saído e estava nos fundos da casa, sentado num tronco caído. Thomas estava em pé ao seu lado e os dois conversavam.

— Evan — suspirou. Ele se levantou e olhou para ela, mas não durou muito porque logo seus braços estavam ao redor do pescoço dele e ela o abraçava com força. Afastou-se antes que o machucasse. — O que ele fez com você?

— Nada demais. — Sua voz estava fraca. — Só preciso descansar, juro. A cabana da minha família é aqui perto. Tenho o que preciso lá. E leve seu amigo, porque tenho a impressão de que vocês dois tem muito que conversar.

Donna cerrou os olhos e olhou para Thomas, que engoliu em seco.

— Tudo bem. Vamos antes que eles se recuperem e decidam vir atrás de nós.

Donna deu uma última na casa então eles seguiram pela floresta escura.