Notas iniciais
Heey readers *---*

Antes de me tacarem pedras, eu estava muito ocupada. Semana de provas, vocês sabem como é. E eu sou do tipo que detesta ler aquele capítulo ENORME e fazer uma prova|bíblia de sete folhas.

Mas, ai está :D

Boa leitura.

– Eu ainda não estou acreditando que você disse isso para Paige. – Matthew exclamou, esparramado no sofá ao lado de Donna e rindo até não poder mais.

– Só você? – Kevin riu, junto a Thomas no tapete empoeirado de frente para o sofá. — Eu to chocado! Tipo, Paige é muito neurótica!

– Esse é o nome do projeto de garota, então? – Donna caçoou, enrolando um cacho com o dedo. – Mas, gente, se vocês analisarem bem, eu não fiz nada!

– Isso é meio que verdade. – Corrigiu Thomas. – Você só disse três palavras para ela.

– Você a chamou de projeto de garota. – Kevin se ajeitou no tapete. – Paige chama as outras de projeto de garota.

– Eu queria estar lá para ver a cara dela quando a chamou de projeto de garota. –Disse Thomas.

– Vocês tinham que ver! – Donna riu. — Ela ficou vermelhinha de raiva!

– Paige acha que é a garota mais cobiçada de Wonder Hill, e trata todas as outras mal. – Matthew foi segurando o riso, até que parou completamente. – E, tipo... – Ele ficou um pouco vermelho e passou as mãos nos cabelos.

– Ela não pode com você – Thomas soltou, e Matthew ficou ainda mais vermelho – É isso que o garotão ai estava querendo falar.

Donna inclinou a cabeça para trás e riu junto a Thomas e Kevin. Matthew passou as mãos nervosas nos fios castanhos.

– Matt, eu não sei por que você está vermelho como aqueles batons que minha mãe usa. – Donna colocou uma mecha atrás da orelha, parando de rir, mas ainda sorrindo.

– Não é nada, é só que eu me lembrei de uma coisa que Paige me falou.

– Claro. – Ela rolou os olhos, e passou a mão na testa logo depois. Estava com um pouco de dor de cabeça. Não fora a conversa com Evan, mas, sim, seus pais e os Dias Trevosos. Aquilo tudo, incluindo Evan, a deixava assim. Principalmente Evan. A conversa dos dois nas ruínas a deixou pensando sobre si mesma. Ela era importante para alguém então? Ela era algo além de um simples desastre, considerada por si mesma como uma aberração que bebia sangue? Certo, Evan havia dito que era tudo pelos limites e uma possível guerra, mas ela sentiu que estava mentindo. Talvez ele não achasse que ela fosse uma aberração que bebe sangue como quem bebe água.

O problema é que isso era só um “talvez”.

– Donna, você tá legal? – Perguntou Matthew, pondo a mão em seu ombro.

– Sim. – Ela respondeu, esforçando um sorriso. – Só estou com um pouco de dor de cabeça, nada demais. Os Dias Trevosos me deixaram atordoada, só isso. Quando chegar ao castelo, pedirei a Margareth para preparar algo para mim.

– Se você diz que está tudo bem...

– Mas está tudo bem. – Ela o cortou, indo até a porta. – A gente se vê outra hora. – E saiu da casa, mergulhando no mar de escuridão da floresta.

–♥-

Olhou para os lados, certificando-se de que ninguém a veria. Subiu as escadas nas pontas dos pés, a capa arrastando pelos degraus de mármore dourado cobertos com tapete de veludo vermelho. Aparentemente, seu avô, Octavio e seu pai estavam nas Reuniões, enquanto as mulheres – Avery, Zoe, Emma e sua mãe — estavam fazendo qualquer coisa por ai. Talvez fazendo a prática feminina chamada dia de beleza, que consiste ficar um dia sobre os mimos da equipe de beleza vampiresca. Donna odiava isso. Para ela, se estava decente estava bom. Nada mais.

Subiu as escadas da torre na maior velocidade, tropeçando no vestido às vezes. Abriu a porta do quarto, entrou, e trancou o mesmo. Exausta, tirou a capa, jogando-a em qualquer canto, e se jogou na cama. Suas mãos cobriram os olhos, que fechados formaram a imagem de Evan sorrindo. Abriu os olhos na mesma hora, e jogou uma almofada na direção da varanda, caindo no chão pouco antes de se aproximar da porta. Donna sentou-se e foi acompanhando, com o olhar, o caminho da almofada, até parar na varanda. Era tarde, o sol provavelmente estava se pondo, e ela não poderia ver isso que todos chamavam de maravilha. Claro, o lugar onde vivia era coberto por nuvens, e ela viraria pó se ousasse chegar perto do sol.

E minha mãe ainda diz que vampiros são mais vivos que humanos, ela pensou se jogando novamente na cama e se cobrindo com as cobertas grossas. O dia não havia sido esplêndido, mas apenas uma coisa havia sido boa.

E ela odiava admitir que não fora o encontro com seus amigos.

–♥-

Donna olhou para o relógio. Cinco da manhã. Todos estavam dormindo, então era a hora perfeita para aquilo. Sentou-se na cama e mirou a varanda que estava com uma das portas meio abertas, onde não havia claridade alguma. As nuvens estavam incrivelmente negras, como se ainda estivesse à noite. Era incrível como nenhum raio de sol conseguia penetrar as nuvens. Isso era mais uma das coisas que ela odiava. Deu de ombros e levantou-se indo até seu guarda roupa. Pegou um vestido azul clarinho com as mangas largas e pouco longas — até pouco depois de suas mãos. Era longo demais. Pegou a faca que estava em sua bota e cortou, de modo que ficasse no joelho. Estava perfeito. Ela se vestiu com o novo vestido, as botas, e sua capa.

Fechou as portas da varanda e cobriu as janelas com cortinas negras. Abriu a porta do quarto com cuidado, certificando a possibilidade de estar sendo vigiada, e saiu, saltitando pelos degraus, feliz. Era bom estar animada, porque a Taverna do Warg não gostava de desanimados. Principalmente de madrugada. Desceu todas as escadas nas pontas dos pés, para não chamar a atenção de ninguém.

Nos últimos degraus da escada do vestíbulo, havia um bilhete caído no chão, escrito com caligrafia delicada e bonita.

Não volte tarde; as Reuniões começam mais cedo hoje.

Emma.

Sorriu com o pensamento que sua irmã era uma das poucas pessoas da família que não a odiava. Colocou o bilhete virado para baixo na cômoda pequena que havia ali e saiu do castelo, saltitando.

Depois de algum tempo caminhando pelas ruas pedregosas de Wonder Hill, chegou à taverna, uma construção de dois andares onde antes fora uma casa, localizada num ponto mais afastado e pobre do reino, próximo a floresta.

Donna sorriu ao avistar o local, e foi caminhando até este. Entrou na taverna e parou na porta. Todos os olhares se voltaram para ela. Por mais que frequentasse aquele lugar desde que tinha quatorze anos e meio, era sempre uma surpresa ela por ali, por pertencer à classe dos metidos de nariz empinado, que era como ela chamava a classe alta de Wonder Hill. Mas quase sempre as pessoas dali “mudavam”, ou as que ela conhecia desde sempre não estavam ali, e sim os novatos, como ela chamava os que iam ali pela primeira vez ou pouco.

Ela foi desfilando até o balcão, sendo vítima de olhares indesejados e estranhos vindo das pessoas desconhecidas. Sentou-se em um banco, debruçou os braços agora cruzados sobre o balcão e pediu uma bebida a um cara qualquer que estava do outro lado do balcão.

– Fazendo caridade para manter a imagem da sua família, Van Gould? – Disse uma voz feminina ao seu lado. Donna virou o rosto, dando de cara com Brianna, a filha de Margareth. Ela só havia visto Brianna quando esta estava na cozinha ajudando sua mãe e ela ia lá fazer qualquer coisa. Brianna não era muito diferente da mãe; tinha longos cachos loiros que iam até a cintura, sobrancelhas finas e ao mesmo tempo expressivas, bochechas cobertas de uma maquiagem que Donna sempre esquecia o nome, lábios finos e compridos, um nariz empinado. Ela parecia como alguém da alta sociedade, e não com uma plebéia filha de uma empregada. – Você é mesmo igual a todos daquela casa.

– Você não sabe nada sobre mim, Lewis. – Respondeu com frieza enquanto bebericava a bebida.

– Garota, você é mesmo muito estúpida. – Brianna riu, balançando seus cachos loiros. – Eu sei mais do que deveria saber sobre você.

– Eu duvido muito. – Donna já estava ficando com raiva, e segurava o copo com força. – O que você sabe sobre mim? Que eu sou rebelde e não sigo as regras? A estúpida aqui é você, Brianna.

– Donna, todo mundo sabe que você é rebelde e não segue as regras. – Donna rolou os olhos e terminou de beber. – Mas ninguém sabe dos seus amiguinhos lobisomens?

– Talvez seja porque eles não existam, não é mesmo? – Sorriu torto, zombeteira e um pouco aflita. Mas ela sabia esconder suas emoções e sentimentos muito bem, além de mentir incrivelmente bem.

– Vamos lá, Donna, nós sabemos que tem lobisomens envolvidos. – Brianna se virou no banco, ficando de frente para Donna.

– Nós quem, cara pálida?

– Admita a verdade. Diga logo que você tem amigos lobisomens.

– Tá bom. – Um sorriso perverso se formou nos lábios da loira. – Você tem amigos lobisomens.

– Patética. – Grunhiu Brianna entre dentes. Donna apenas riu e se levantou para se divertir um pouco, sibilando alguma coisa com o cara atrás do balcão.

– Donna Van Gould! – Uma voz masculina ralhou atrás dela, fazendo a virar com desgosto. O sorriso que havia em seus lábios morreu e ela pôs as mãos na cintura.

– Senhor Van Gould, o senhor por aqui? – Zombou, inclinando a cabeça para o lado.

– Donna, chega de brincadeiras e vá para casa agora. Aqui não é um lugar para pessoas como nós, ainda mais gente da nossa família. – Nesse momento, a música parou e todos os olhares estavam fixos nos dois.

– Eu não sou uma pessoa como você. – Gritou ela. – E dane-se de qual família eu sou!

– Donna, já chega! – Ralhou o homem. – Vá para casa, agora!

– Você não pode me privar das coisas que eu gosto!

– Que culpa eu tenho se você é um desgosto para toda a família? – Havia lágrimas se formando nos olhos de Donna, mas ela não ia se permitir chorar na frente de alguém. Ela nunca se permitia isso. E não havia exceções. – Eu tinha razão, você é mesmo um desastre.

Ela deu uma risada seca e sem humor.

– Só porque eu não sou canalha como você não quer dizer que eu seja um desastre. – Disse em um tom baixo, já que o único com ali era o dos gritos dos dois e os murmurinhos baixos das pessoas que ali estavam.

– Donna! Você está passando dos limites! Vá para casa agora!

– Eu não obedeço a ordens de gente como você! – Bradou. Em fração de segundos um tapa foi desferido no lado direito de seu rosto, deixando uma marca. Sua boca se abriu para dizer alguma coisa, mas a única coisa que aconteceu foi mais lágrimas em seus olhos. Mas ela não as derramou. – Agora vai me bater? – Ela esfregou o rosto. – Você não merece o poder que tem.

Dito isso, ela passou correndo pelo pai e saiu da taverna correndo sem rumo. Sua casa não era uma opção, a casa na árvore muito menos, então só sobrava a floresta.

Seus passos eram pesados e desesperados, lágrimas grossas desciam pelo seu rosto, suas pernas estavam trêmulas e ela só queria cair e chorar todas. O sol já dava seus primeiros sinais de existência através das nuvens, que ficavam mais claras a cada segundo. Corria desviando das árvores escuras, e dos seus galhos retorcidos que estavam em seu caminho. As palavras de seu pai ecoavam em sua mente.

Você é um desgosto para toda a família.

A casa da árvore parecia ainda mais longe.

Você é mesmo um desastre.

Será que ninguém naquela família a entendia?

A claridade invadia a floresta pelas frestas das folhas das árvores, e ela se deu conta que estava bem longe de casa. Mas perto o bastante do mar. Foi caminhando em passos lentos até chegar ao alto penhasco. Era muito alto. Era preciso habilidade para saltar de lá. E ela tinha isso de sobra. Deu passos lentos e leves até a beirada. Estava bem na ponta agora. Era só saltar. Olhou para baixo mais uma vez. Uma brisa gelada passou, deixando-a arrepiada e seus cachos roçando nos ombros. As palavras cruéis de seu pai ainda ecoavam em sua mente. Uma lágrima grossa escorreu por sua bochecha.

Desastre.

Já estava quase pulando.

Desgosto.

Ela não ia aguentar.

Por um momento pensou ter ouvido alguém gritar:

– Donna!

E pulou.

Notas finais
Até os reviews ;*