Sangue Real -
1 Um Inicio
Notas iniciais

Tão preciso quanto o badalar dos sinos de igreja, às sete horas a porta se abria. Alguém, entrava, normalmente um homem, sempre bem vestido, retirava uma pequena ampulheta do bolso e a colocava no chão, diante de Meredith, enquanto lhe estendia o pulso.
Como se a própria força do inferno lhe subjugasse, por mais que odiasse aquilo, por mais medonha e repugnante que considerasse aquela cena, a garota não conseguia fazer outra coisa se não tomar o braço do homem e fincar- lhe os dentes. Ao cair do último grão da ampulheta, como se a força lhe voltasse aos músculos ela soltava o braço. O homem recolhia a ampulheta e saia, indiferente ao choro e repudio que se apoderava da jovem.
Como ela odiava toda aquela situação, como ela odiava a ampulheta de Nicolai.
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DIAS ANTES
Um desastre ocorreu manhã nas obras da rodovia R252. Um vazamento de gás natural durante a escavação do túnel teria causado a morte de oito operários que trabalhavam no local. As autoridades já assumiram o caso e estão isolando a área para prevenção de novos acidentes.
Acompanhe a nossa programação para mais informações, agora, vamos ao Clima...
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Relatório do caso.
Há uma semana, um antigo foi desenterrado durante uma escavação próximo à fronteira do país. A criatura matou oito operários em seu despertar, um casal de idosos em sua fuga, e feriu gravemente um dos servos de Erast em sua captura.
Nota 1: Embora ela não tenha sido encontrada em uma cripta, ou local adequado a seu sono – o mais provável é que tenha sido soterrada em um desabamento, mas ainda estamos averiguando – suas vestes aludem a algum tipo de status social, a época sugerida é anterior a vitoriana, contudo ainda estamos verificando pelas vestimentas a região e época com mais precisão.
Nota 2: Não possuímos maiores informações sobre a criatura, como sua linhagem, estirpe ou mesmo seu nome dado o conturbado estado mental no qual ela se encontra. A criatura, sexo feminino, idade não confirmada, se encontra aos cuidados de Nicolai Hunt.
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Nicolai estava cansado de sempre dar as mesmas respostas a Dominc. Isso lhe estressava. “Ela não fala, ela não come, ela está sempre encolhida em um canto do quarto”. Preferia que tivesse uma explosão de raiva a que continuasse definhando como estava. Respirou fundo dobrando no corredor; tenhamos bom senso, quem iria abraçar a alguém tão novo? Alguém tão...
Mulheres não deveriam receber o dom das trevas...
Seguiu aos aposentos sem muita expectativa. Austin estava a porta, estralava os dedos em um nervosismo controlado.
— O que houve ?
— Ela matou Vicktor, senhor. — O garoto fez menção de começar a explicar algo, mas Nicolai lhe interrompeu. Não se fazia necessário. Sabia bem o que havia acontecido.
— Venha comigo. — Ordenou.
Meredith estava como sempre, encolhida no mesmo canto o quarto. Apenas mais um adorno na decoração.
— Boa noite — Soltou indiferente. — Nicolai e Austin. – Anunciou em bom tom. A menina permaneceu imóvel. Nicolai insistiu autoritário — Boa noite! A senhorita poderia ao menos fazer a gentileza de erguer a cabeça em sinal de boa educação?!
Então ela o fez, embora sua fisionomia estivesse mais saudável, pelo sangue tomado recentemente, seu olhar apresentava uma desolação que poucas vezes se vira. A expressão de um moribundo que anseia pela morte. Uma expressão que irritou particularmente ao vampiro.
— Recusar-se a se alimentar diariamente só trará mais transtornos. — Imperou entrando no cômodo. A garota não se moveu. — Austin, sente-se diante dela e estenda o braço. — Então voltou-se para Meredith — Morda!
Austin mantinha o braço estendido, e tentava não demonstrar o nervosismo estando entre Nicolai e a pessoa que matara a Vicktor. A garota entretanto, fitava para o vampiro com uma expressão suplicante, dolorosa.
Impaciente com a hesitação da garota, Nicolai se abaixou, de modo a ficar na altura de seus olhos.
— Quando eu disser "morda", você vai morder o pulso de Austin e beber seu sangue até que eu lhe diga "pare".
O vampiro se levantou novamente e ordenou.
— Morda.
E os dentes da garota perfuraram o braço de Austin, o carniçal fraquejou apoiando-se na parede. Nicolai tocou-lhe as costas com o pé e soltou um "Modos..." impositivo, fazendo-o recompor a postura.
Passados alguns momentos o vampiro ordenou novamente.
— Pare.
Meredith afastou o braço do rapaz em desespero, os olhos embebecidos de lágrimas e a impotência que sufocava. O pior de todos os agouros, era perceber que se sentia melhor.
Nicolai procurou algo em seu bolso e abaixou-se.
"Todos os dias, ao bater na sétima badalada noturna, alguém vai entrar por essa porta e estender-lhe o pulso. Ao cair do primeiro grão de areia da ampulheta, até o ultimo, você vai alimentar-se do sangue da pessoa que lhe estender o pulso. E depois vai lamber, pra fechar a ferida."
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