Sangue Real -

4 Entre Dédalo e Ícaro


Notas iniciais
Estamos aqui dando seguimento a nossa historia. Digam ai o que estão achando nos coments ^^ A saber, Dédalo foi o arquiteto que construiu o Labirinto do Minotauro junto a seu filho Ícaro.

— Dimitri! — berrou Austin correndo a seu encontro. — Caralho que foda, você voltou!

O rapaz apenas sorriu sem muita animação. “O filho pródigo sempre retorna a casa”.

A malas foram desfeitas, a recepção foi realizada com animação. A família havia crescido por um lado, e por outro, havia diminuído com a morte de Vicktor. Darya continuava linda como em suas memórias, os rapazes continuavam arruaceiros, Nicolai continuava lhe dando medo. Não importava quantos sorrisos ele distribuísse, quão afável ele demonstrasse ser, vampiros não tinham emoções, emoções são coisas de humanos, e aquelas feras, não eram nada humanas.

Sanguinárias.

Inescrupulosas.

Que vêem a humanidade como algo inferior.

Gado para matar a fome.

Operários para fornecer riquezas e conforto.

Marionetes para seus estratagemas sociais.

Entretenimento para passar o tempo.

Era assim que Dimitri via os vampiros, grandes aranhas tendo tudo preso a suas teias.

Ainda carregava em seu pescoço “as asas de cera e penas”, um presente dado por Nicolai no dia em que partira para fazer faculdade fora. Na opinião do jovem, o presente mais parecia uma ameaça velada. As asas que salvaram Dédalo do labirinto, eram as mesmas de Ícaro, que ludibriado pelo voo, pela falsa liberdade, por achar que podia fazer o que não podia, tentou alcançar o sol, e despencou para morte.

Era doloroso ver Austin tão animado com algo tão repugnante. O garoto que agora tinha dezessete anos, “finalmente” passara a ser parte do rebanho. Era como ver um boi alegre por ser encaminhado ao matadouro. Para sua sorte, Dimitri nunca chegou a participar dos criados de sangue, afinal quando completara a idade para tal, ele já havia ingressado na universidade.
Mas agora, não bastasse um sanguessuga naquela casa, outro havia chegado. E os seus serviços, ou melhor dizendo a sua vida, seriam requisitados.

~x~

— Você ainda está apaixonada por aquele cara? — Perguntou o jovem quando estava a sós com Darya.

— Sempre. — Ela respondeu convicta enquanto admirava a paisagem pela janela de vidro.

Houve um momento de silêncio depois da resposta. Alguns goles de chá quente foram tomados numa contemplação pensativa.

— Como foi na inglaterra?

— Nada demais, eu estava estudando, não fazendo turismo.

— Ignorante como sempre.

Dimitri apenas sorriu. Era sempre bom estar na companhia de Darya.

— E por aqui, como estão as coisas? Eu soube que estão acolhendo uma assassina, e a tratando como uma convidada de honra.

— Ah — Ela sorriu — Então você ficou sabendo.

— Me deram a tal da ampulheta.

Darya riu satisfeita enquanto bebia o chá quente.

— Austin está completamente em defesa da “moça”, não só ele como a Vó também. Eu particularmente acho ridículo esse paparicado, essa coisa de “ela é quase uma inválida”, lugar de doido é no hospício.

— Ela não é “doida” ela é um monstro que mata. Vicktor concordaria se pudesse.

A garota riu mais uma vez.

— Seu humor continua completamente ácido. Senti sua falta durante esses anos.

— Não… não sentiu, ou você teria entrado mais em contato. — Ele a encarou, sem uma cobrança real no olhar, ela desviou os olhos numa culpa divertida. — Mas, de todo modo, é bom ver que você não está iludida com tudo isso. Com essa coisa de servir a uma homicida.

— Claro que não.

— Então por que você continua colocando um óculos cor de rosa em relação a ele?

Dessa vez foi Darya quem o encarou severa.

— Não os compare. — Ela teria continuado se o celular do rapaz não tivesse alarmado.

— Desculpe, mas nossa conversa vai ter que ficar para depois. Tenho que ir doar sangue agora.

— Ah, vai voltar apaixonado. — Ela brincou voltando a beber o chá.

— Eu não sou um adolescente.

— Eu tenho minhas dúvidas.

~x~

Dimitri parou em frente a porta de madeira. Respirou fundo e apertou a maçaneta com força. Não deveria estar nervoso, mas estava, era a primeira vez que seria mordido. Tentou afastar os gritos de desespero e agonia de sua mente. Tentou afastar a imagem da figura monstruosa e sedenta, desfigurada com a besta que era, de sua memória.

Abriu a porta e anunciou um “Dimitri” seguro. O quarto, em contrapartida, parecia vazio. Todo decorado em tons de branco e rosa. Exibia uma cama sultuosa, digna dos sonhos de princesa de qualquer menina de dez anos, com várias almofadas, cortinas amarradas com laços a seus suportes, e tudo mais. Havia uma penteadeira com vários frascos de perfume em formatos diversos, esculpidos de forma que mais pareciam obras de arte em vidro. O quarto tinha um cheiro agradável, suave, delicado. Dimitri observava os detalhes com atenção. Até que seu olhar esbarrou numa figura sentada em um canto do quarto.

Ela era linda, não linda como Darya, ou como qualquer garota que tivesse visto durante a faculdade, ou mesmo como qualquer mulher que tivesse visto na tv. Ela parecia uma pintura, mais que isso... Os cílios longos, as bochechas rosadas, os lábios vermelhos, o olhar curioso, acanhado.

Dimitri deu um passo em sua direção, ela recolheu-se ainda mais abraçando as pernas. Então era isso, essa era a máscara que ela usava. A dama indefesa. Malditas criaturas manipuladoras.

— Então você é a criatura que matou Viktor. — Inquiriu com asco na voz. — Você me enoja. — Dimitri começou a procurar a ampulheta no bolso, a garota se fechou em seu casulo, encostando a testa nos joelhos, balançando levemente para frente e para trás num murmúrio lamurioso.

— Vamos, eu não tenho o dia todo para os seus teatrinhos. — Ele reclamou indiferente, em inglês, por costume. Ela parou. — Ah, então você não entende russo, sinceramente…

Dimitri afastou a manga e estendeu o braço. Ela o segurou com as mãos de um cadáver enterrado no gelo. Por deus, aquilo era assustador. Ele esperou pela mordida, mas ela não veio, a garota apenas tremia segurando seu braço. Tanta fragilidade fingida, tanto falso desespero, a cena estava começando a lhe irritar.

— Vamos logo com isso. — Ele girou a ampulheta e a colocou no chão.

Ela segurou o seu braço de uma forma firme, abriu a boca e fincou-lhe os dentes.

Então aquela era a sensação.