Sangue Puro
3 Capítulo 3 - Um gato?
Notas iniciais
Espero que gostem!
A experiência da sua primeira gala na alta sociedade – Puros sangue e grandes figuras do Ministério da Magia – fora, no geral, positiva, Cherise pensou. Não tinha cometido qualquer erro grave, ou menos grave para efeito, não que alguém – muito menos ela própria – suspeitasse que o faria. Ela era em tudo perfeita! Não se tinha associado com pessoas impróprias, que apesar de escassas marcavam presença naqueles eventos, e tinha, para seu grande prazer, humilhado Marvolo em frente aos amigos. Para completar só se tivesse feito o mesmo com Merópe... Infelizmente a irmã optou por não aparecer.
Chenillus tinha muita sorte em tê-la como filha!
Se fosse honesta, Cherise não saberia dizer concretamente o que a leva a odiar os gémeos. Não conseguia encontrar na memória um acontecimento ou situação que fosse a causa para o desagrado que sentia por eles. Era assim… Sem motivo outro que a pessoa em si, neste caso: as pessoas.
Marvolo, um feiticeiro arrogante, e Merópe, uma bruxa insonsa e emproada, mereciam todos os bocadinhos do seu desprezo. Eram patéticos, ridículos e incapazes. Tudo o que um Gaunt não deve ser. E para piorar seria o irmão quem iria herdar o título da família.
Fechou o livro de capa preta que segurava aberto no colo, embora não o lesse por estar perdida em pensamentos, e foi guardá-lo no compartimento secreto dentro do pequeno armário na ponta da divisão. Naquela tarde iria ao Beco Diagonal tratar de comprar o único livro que lhe faltava da lista que recebera, anexada a uma carta de Hogwarts. O conteúdo da emissiva era claro e conciso: Tinha o seu lugar reservado na escola e o ano lectivo começaria dia 1º de Setembro – dali a 4 dias -. Deveria apanhar o Expresso de Hogwarts na plataforma 9 ¾ da estação de Kings Cross, em Londres, às 11 horas em ponto. Relativamente à lista extensa de materiais que iria precisar para o 6º ano, apenas lhe faltava o manual de Transfiguração, Um Guia Prático para Transfiguração e Conjuração, Nível V (Avançado).
Ela nunca fora grande apreciadora daquele ramo de magia. Transfiguração não era o seu forte, antes pelo contrário, era a matéria onde tinha mais dificuldade. Era medíocre… Embora nenhum dos seus tutores admitisse sequer pensar isso na sua presença. Como tal nunca procurou aprofundar muito os estudos nessa área em particular. Preferia dar mais atenção às coisas em que era excepcional: Feitiços, Encantamentos, Maldições… O seu conhecimento de poções também podia ser considerado extenso, mas ela desvalorizava-o. Para quê fazer com uma poção o que se pode fazer com uma varinha?
Ouviu-se um estalido breve no ar e o elfo doméstico materializou-se à sua frente, assustando-a.
- Pensei já ter avisado para não fazeres isso na minha presença! És uma desgraça de elfo se nem as ordens dos teus mestres consegues cumprir! – Disse azeda. Observou enquanto Soma se derretia em vénias e pedidos de perdão.
- Menina Cherise perdoe Soma. Soma é um elfo mau, um elfo ruim, merece ser castigada. Soma irá castigar-se. Soma irá! Nobre senhora Gaunt mil perdões!
- Chega! – A voz era final e o som encheu a sala. – Vinhas fazer alguma coisa ou foi por divertimento que resolveste incomodar-me?
- Perdão senhora. Perdão! Soma vinha chamar a menina Cherise porque a Senhora Savell deseja a sua nobre presença, disse a Soma a menina Arigna…
- Onde está Arigna?
- No aposento da senhora, menina Cherise. Perdão. – O elfo andou até ao corredor e quando estava fora de vista aparatou, provavelmente para a cozinha.
Cherise subiu a escadaria e lembrou-se que seria conveniente levar a carta da escola consigo, já suspeitava o que a irmã tinha para lhe dizer.
- Accio Carta de Hogwarts – murmurou o feitiço com a varinha e viu o pergaminho voar na sua direcção.
No piso superior Arigna esperava por ela no quarto que fora seu, antes de se casar com Cormack. Cherise reparou que a irmã parecia impaciente e aborrecida, o rosto normalmente calmo e angelical mostrava agora algumas rugas de expressão e sinais de pouco descanso.
- A que horas pretendes ir então? – Perguntou-lhe sem deixar que a mais velha falasse primeiro. Sabia bem que o objectivo de Arigna era acompanhá-la a Londres, onde poderia visitar o marido.
- Ah! – A irmã sorriu-lhe levemente em agradecimento pelo gesto. Tinha receado que não fosse aceitar a sua companhia e realmente quando Cherise vinha ao seu encontro era essa a resposta que pensava dar, mas ao ver a preocupação dela mudou de ideias.
- Não quero a tua companhia Arigna. Não quero que me acompanhes até ao Beco Diagonal, mas não vejo problema em seguirmos as duas para Londres e lá cada uma ir para seu lado. Não direi a Chenillus o que pretendes fazer. – Arigna acenou com a cabeça e levantou-se até ao toucador.
- Vamos daqui a uns minutos então. Estás pronta? – Era um hábito irritante, a mania que Arigna tinha de querer comandar tudo. Infelizmente para Cherise a maioria das pessoas acatavam as suas ordens, o que a encorajava ainda mais.
- Tens dez minutos Arigna, nem mais! Ou partirei sem ti…
***
Dez minutos depois Cherise esperava enquanto a irmã descia as escadas até à porta principal da mansão. Vinha perfeita, teve que admitir. Mas era uma Gaunt, logo isso era normal.
- Avisaste o teu marido que ias acompanhar-me até Londres? – Perguntou-lhe mesmo já sabendo a resposta.
- Não. Vou fazer-lhe uma surpresa… — A irmã disse séria. Ambas pareciam saber que a surpreendida podia ser ela, e não no bom sentido.
- A escolha é tua… — Saiu pela porta e deu passagem à outra, depois acrescentou: — Não te metas em escândalos. – Não sabia bem se o motivo para este conselho vinha da afeição que sentia por ela ou do medo de ter o nome Gaunt envolvido, ainda que indirectamente, numa situação vergonhosa. Talvez dos dois, pensou.
- Pensava que íamos pela rede de Pó de Flu…
- Já que vais comigo é muito mais prático desta maneira. – Descartou o que a outra ia dizer. – Vamos, dá me o teu braço! – Ordenou-lhe impaciente. Assim que a irmã obedeceu desapareceram.
Surgiram poucos segundos depois nas movimentadas ruas de Londres junto a uma porta preta, arredondada, onde, por cima, uma tableta tinha escrito a letras amarelas: Caldeirão Escoante.
- Volto a encontrar-te neste sítio daqui a duas horas. Não devo demorar mais que isso, e tu também não.
- Vou demorar muito menos que isso… — Cherise informou chateada, não ia esperar pela irmã!
- Aproveita para conhecer as lojas, ou compra um gato! – E dizendo isto voltou a desaparecer.
Cherise abriu a porta escura e passou para o interior. O ambiente era pesado, sombrio. Uma nuvem de fumo parecia encher o ar e os poucos feiticeiros que se encontravam sentados nas mesas pobres tinham um aspecto nojento. Velhos, desgrenhados… Ela podia apostar uma fortuna em como cada um deles tinha pelo menos dois dentes podres! Ao balcão estava um homem de estatura média com a cara vermelha. Uma barba cinzenta, suja, cobria-lhe todo o queixo e parte das bochechas e parecia ser a quantidade exacta de cabelo que lhe faltava no topo da cabeça. O feiticeiro olhou para ela sem grande preocupação, e em seguida examinou-a de cima a baixo divertido. Provavelmente perguntava-se o que uma menina chique fazia sozinha naquele lugar.
Cherise ajeitou a luxuosa capa preta que cobria o seu vestido amarelo de tecido pouco pesado que lhe vincava a cintura fina e cuja saia caía livremente até ao chão. O tom ligeiramente mais escuro que o amarelo normal e os padrões quase abstractos, um pouco mais carregados, combinavam muito bem com a cor da sua pele. As mangas compridas estreitavam-se no pulso e o decote da peça era quase inexistente.
Sim, pensou para si, nada em si combinava com aquele lugar repulsivo. Apressou-se a indicar ao senhor onde pretendia ir e este indicou-lhe uma porta lateral onde a entrada para o Beco Diagonal se situava. Infelizmente o traste fez questão de a acompanhar, para abrir a passagem, fora a desculpa usada.
- Basta pressionar a varinha nestes três tijolos, é simples – o velho disse enquanto tocava com a varinha alternadamente em algumas partes da parede avermelhada. As pedras vibraram assim que terminou e começaram a mover-se, dando lugar a uma abertura.
Cherise atravessou-a sem agradecer ao homem, não perdia tempo com gente assim. A probabilidade de ser um meio sangue era grande de mais.
Uma vez no Beco observou o movimento das ruas. Inúmeros feiticeiros e feiticeiras andavam de loja em loja, montra em montra, conversavam entre si… Numa pequena esplanada viu vários jovens que levavam canecas pesadas à boca, o nome do estabelecimento estava escrito a letras grandes e gordas, roxas, numa faixa imóvel: Licor de Dragão.
Dirigiu-se até à Penas e Pergaminhos e entrou na loja com dificuldade. O interior estava apinhado de gente e por onde quer que olhasse um chapéu pontiagudo ou um amontoado de cabelos despenteados tapava-lhe a vista. Assim não ia funcionar! Pensou em lançar algum feitiço que os afastasse a todos dali, mas resolveu comprar o livro noutro local, parecia-lhe que ali deixavam entrar qualquer um...
Saiu rapidamente e foi em direcção a uma zona menos movimentada onde as montras mostravam agora objectos mais interessantes. Numa pequena placa de metal dourado o nome da rua estava quase escondido por várias camadas de pó: Nockturn Alley. Dirigiu-se a uma requintada loja com aspecto sombrio, Livraria Obscurus, e lá dentro apenas se encontrava uma mulher elegante atrás do balcão de madeira negra. Entrou e andou até à feiticeira que usava um vestido cinzento adornado por um corpete preto cujas fitas caíam pesadas pela frente. O nariz da mulher era de um formato estranho, quase raquítico e o chapéu preto que usava parecia coberto de teias de aranha.
- Preciso de um Manual de Transfiguração. – Informou a senhora que lhe sorria.
- Tenho todos os tipos de manuais, é só procurar menina. – Disse simpática, mas sem grande preocupação. Estava habituada a receber clientes pouco importantes naquela altura, quando os alunos de Hogwarts decidiam evitar as longas filas da Floreios e Borrões ou da Penas e Pergaminhos…
- Com certeza não espera que eu vá procurar! – Cherise estava ultrajada com a ideia! – Conhece as ascendências da família Gaunt? – Praticamente cuspiu para a mulher que rapidamente adoptou uma postura mais profissional, o seu olhar aterrado. Viu-a acenar – Com certeza não espera que um descende do próprio Salazar Slytherin desça tão baixo ao ponto de fazer o seu trabalho de terceira categoria! – Que insulto!
- Peço imensas desculpas Senhorita Gaunt! Vou já tratar de a atender. Diga-me qual o nome do Manual que procura? Transfiguração tinha dito? – A feiticeira falava rapidamente enquanto passava pelas várias estantes negras da loja em busca do livro.
- Um Guia Prático para a Transfiguração e Conjuração, Nível V.
Observou a mulher agitar a varinha e rapidamente um livro voou de uma prateleira superior para as suas mãos. A capa creme de couro tinha a imagem de um cálice de prata e o título a letras castanhas.
- Quanto lhe devo? – Cherise perguntou ainda desagradada pela atitude miserável da feiticeira. Apertou ligeiramente as luvas pretas que lhe cobriam as mãos antes de retirar a grande bolsa de veludo do bolso.
- São 2 galeões, senhora Gaunt…- Um pouco mais caro do que noutro sítio e Cherise torceu o nariz. Mulher idiota!
Assim que entregou a quantia à mulher saiu da loja sem responder à despedida que a outra lançou. Agora que tinha o que precisava podia ir embora, mas ainda faltava pelo menos uma hora e alguns minutos para que Arigna regressasse, isto se chegasse à hora certa. Paciência!
Sendo que não tinha outra coisa para fazer deixou-se seguir o caminho, observando as montras por que passava. Uma loja recente chamou-lhe a atenção, os vidros limpos e resistentes e a pintura fresca destoavam com o resto da rua, mas foram os objectos que encontrou na montra que mais a atraíram. Várias Cabeças Encolhidas olhavam para o exterior, como se pudessem ver tudo o que se movia lá fora, duas máscaras com aspecto cruel pousavam sobre um tecido negro e finalmente diversas filas de velas venenosas com formatos estranhos e cores variadas. Cherise pensou em entrar para ver que outros artefactos podia encontrar na Borgin & Burkes, mas preferiu continuar caminho.
A rua agora tornava-se mais escura e estreita e poucas pessoas se viam. Passou por baixo de uma pequena ponte de pedra, cheia de musgo, onde as sombras cobriam o ar.
- Estás perdida menina? – Uma voz rouca perguntou e Cherise quase se sobressaltou ou deparar-se com um velho feiticeiro. As suas costas estavam vergadas pelo peso dos anos e o cabelo cinzento era fino e escasso.
- Não estou perdida e não desejo companhia. – Disse rispidamente ao homem que tinha as suas vestes pretas imundas e fracas.
- Mas não é companhia o que eu estou a oferecer criança… Tenho algo muito mais valioso que isso. Único! – A sua voz adquiriu um tom de negócios e ao mesmo tempo urgência.
- Se queres dizer-me que coisa tão valiosa é essa apressa-te, não me faças perder tempo! – disse, embora não tivesse nada para fazer. Além disso ficou curiosa com as palavras do homem. Coisas únicas eram de um grande interesse para si.
- Um animal. O mais belo animal de todos. Único! – E quando viu que a possível cliente o olhava com escárnio e divertido aborrecimento apressou-se a acrescentar: — Não é um animal doméstico. Nem é um animal fácil. É uma criatura brava e magnífica.
- Não estou à procura de qualquer tipo de animal. Não disse que não buscava companhia?
- Ah! Mas esta criatura não oferece companhia ou lealdade.
- Então qual seria o objectivo de um animal assim? – ela perguntou céptica.
- Qual outro que não a ostentação? Os feiticeiros mais fortes gostam de exibir aquilo que os torna ímpares! O que o conseguiria melhor que algo magnífico e único por completo? – Esta ideia pareceu pairar na sua mente e ganhar consistência. Algo único por completo… — E claro que uma criatura assim não nasce sem poder!
- Poder?
- Oh sim! A senhora conhece as características de uma Fénix, claro… — O homem pressupôs e assim que mencionou o nome viu o interesse na cara da jovem esvanecer-se. Uma Fénix… Era uma criatura que nada tinha a ver com ela. O seu temperamento doce e fiável era enjoativo.
- Uma Fénix não me interessa. – Respondeu num tom final.
- Eu não estou a falar de uma Fénix madame. Pelo menos não no sentido tradicional. Como já informei esta criatura é única.
- Quero vê-la. – Deu a ordem e observou o velho pegar um baú de tamanho médio. Estava fechado por um pesado cadeado de bronze.
- Não é um animal fácil, mas uma mão poderosa como a sua não terá problemas em lidar com ele. – Por baixo do manto escuro que lhe cobria as costas tirou uma chave estranha, cuja ponta formava uma gaiola de metal e abriu o baú.
Lá dentro estava o que poderia ser confundido ao longe por um pássaro exótico, mas daquela distância assemelhava-se muito a uma Fénix em crescimento. Não era grande o suficiente para uma Fénix adulta e não era pequena o bastante para poder dizer-se que tinha acabado de renascer, mas a sua pelagem magistral era definitivamente a de uma Fénix. E ainda assim não era…
O animal lançou um grito estridente que ecoou pelo ar durante vários segundos, tinha uma expressão perfeita, séria, e uma postura real. Preso por uma corrente com a anilha ligada à pata dourada mostrava-se muito digno e despreocupado, e não fosse pelo choro gritante, Cherise diria que não lhe importava minimamente estar fechado naquele baú. Estava impressionada. Aquela criatura era magnífica sem dúvida. E o que mais lhe agradou foi que, ao contrário da Fénix vermelha e dourada, este animal possuía um tom negro e acinzentado. As asas pareciam reflectir uma luz verde misteriosa que estava presente nas enormes penas da cauda majestosa.
- Deduzo que lhe agradou… — Era a única conclusão a que qualquer um chegaria ao ver a expressão de interesse e satisfação marcada nas feições da feiticeira mais nova.
- Muito. Que criatura é esta? Parece-se com uma Fénix mas é tão diferente ao mesmo tempo, magnífica…
- É uma criatura única e é realmente em parte Fénix…
- E a outra parte? – Cherise estava muito interessada em observar o animal que a olhava penetrante através de pequenas esferas pretas.
- Um animalzinho curioso, Cormorão de Brandt, um pássaro marítimo, o que torna toda a mistura muito mais interessante. Esta criatura é única e possui poderes únicos! Alguns muito semelhantes aos da Fénix, outros nem tanto… Veio discretamente do continente americano através de um contacto seguro. – Por contacto seguro o feiticeiro queria dizer traficante, era óbvio, mas Cherise não deu importância a esse pormenor.
- Que poderes tem a criatura então? – Pensou em passar a mão pelas penas do animal mas achou melhor ouvir primeiro.
- Tal como a Fénix, renasce das cinzas, embora leve mais tempo a completar o processo, cerca de três dias, nos quais precisa de estar perto da água, seja salgada ou doce.
- Interessante… Que mais?
- O canto. Normalmente não é intenso, mas em raras ocasiões torna-se insuportavelmente doloroso. Apenas o presenciei uma vez, é como se pequenas facas se nos cravassem os ouvidos! Foi assim que me descreveram pelo menos, embora eu não tenha sentido nada. – Observou o sorriso da jovem alargar-se mais e a sua expressão sombria ganhar um brilho de renovado interesse.
- O que lhe garante que, uma vez solto, desapareça e não regresse? – O receio de possuir uma criatura destas só para deixá-la escapar era muito.
- Nada. – Disse simplesmente – Mas de todas as vezes que o larguei, regressou. Tenho que fazê-lo com frequência, para que se alimente, já que não ingeria qualquer dos alimentos que lhe dei…
- Talvez se tenha afeiçoado a si…
- Isso não! É uma criatura difícil, esta! Completamente selvagem. Ataca-me a cada hipótese que tem e estou admirado que ainda não o tenha feito! – Respondeu divertido.
- Quero-o! – Ela declarou com urgência.
- Não sei se poderá pagar o meu preço, jovenzinha… — O feiticeiro olhava para ela, desconfiado, era jovem e provavelmente não teria a quantia necessária para um bem daqueles… Não sabia dizer bem porque a tinha abordado, mas alguma coisa nela, possivelmente o poder que emanava, impunha respeito.
- Garanto-lhe que ficará mais do que satisfeito com o ouro que tenho! – Gritou. Um ser deplorável como ele ousava desconfiar do seu dinheiro?! Imundo! — No entanto se pretende insultar a família Gaunt ao duvidar da minha palavra terei que encontrar uma forma de castiga-lo.- E dizendo isto rolou a varinha por entre os dedos, parecendo examiná-la atentamente.
O velho feiticeiro não se deixou enganar pela falsa simpatia da sua voz. Por trás escondia uma ameaça perigosa e real! Cometera um terrível erro ao questionar o pagamento da rapariga, mas não pudera adivinhar que era uma Gaunt!
- Lamento imenso tê-la ofendido. As minhas mais sinceras desculpas excelência! – Dobrou-se ainda mais numa vénia formal. – O preço são mil e quinhentos galeões… — Informou, já retirando algum valor ao que tinha pretendido pedir pelo animal, mas pretendia desculpar-se ante a jovem.
- O preço original homem! – Cherise disse numa voz fria.
- Dois mil… — respondeu num sussurro. Ela pegou na bolsa de veludo verde e lá dentro procurou a quantia que o homem pediu. Felizmente Chenillus mantinha uma conta em seu nome e naquela manhã tinha entregado uma grande soma nas suas mãos. Contou os galeões que tinha no interior para confirmar se chegava e ao ver que tinha mais do que o suficiente entregou a bolsa recheada ao homem.
- Estão aí quase 3 mil galeões. Que nunca mais duvide da fortuna de um Gaunt! – Ordenou arrogante. O homem voltou a fechar a bela criatura dentro do baú e entregou-lhe a chave com um fio. Ela colocou-o à volta do pescoço e escondeu o objecto pendurado no interior do decote.
- É prudente que mantenha o animal escondido por estes lados ou irá atrair muitos olhares para além de curiosos... Foi um prazer negociar consigo senhorita Gaunt, a sua família é tao nobre quanto dizem! – O feiticeiro despediu-se e seguiu caminho pela sombra.
- Wingardium leviosa – murmurou com um movimento redondo da varinha e o baú elevou-se no ar, acompanhando-a enquanto seguia até ao Caldeirão Escoante. Já tinham passado quase duas horas e mais valia ir esperar Arigna.
Ao entrar novamente no Pub reparou que atrás do balcão já não se encontrava a personagem de há pouco e sim uma mulher baixa e cheia, com cabelos ruivos e sardas no rosto. Olhou em volta e descobriu a irmã especada num canto. Tal como ela destoava em tudo com a aparência do lugar.
- O que é isso? – Perguntou assim que se aproximou da mais nova e viu o baú flutuante. Cherise pareceu notar certa tristeza no seu rosto, mas não fez qualquer comentário
- Uma prenda para mim. – Respondeu alegre.
- Hum, mas o que é? – A curiosidade da irmã era por vezes irritante…
- Não me disseste para comprar um gato? Entao eu…
- Não me digas que está um gato aí dentro! Cherise! Não… — Interrompeu-a alarmada.
- Não é um gato! – A resposta veio num tom final e chateado e Arigna percebeu que a irmã tinha ficado aborrecida. Não fez mais perguntas e quando a outra lhe segurou o braço, após pegar o baú com a mão esquerda, aparatou.
Notas finais
PREÇOS: Os dois galeões que Cherise gastou no manual de transfiguração valem um pouco mais do que dois galeões em 1991. A moeda não estava tão valorizada.
BIRGIN & BURKES: A loja foi inaugurada em 1863, logo nesta história é bem recente.
LICOR DE DRAGÃO E PENAS E PERGAMINHOS: São duas lojas da minha autoria, provavelmente ultrpassadas nos anos seguintes devido ao desenvolvimento da Floreio e Borrões e pela Florean Fortescue's Ice Cream Parlour.
LIVRARIA OBSCURUS: É uma loja real do Beco Diagonal.
CORMORÃO DE BRANDT: É um pássaro real, marítimo. Da família dos Cormorões, vive na costa do Norte da América. (Fonte - http://en.wikipedia.org/wiki/Brandt%27s_Cormorant)
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