Notas iniciais
Bem, antes de mais queria pedir desculpas por ter demorado uma eternidade a actualizar a história... Mas as aulas começaram e o trabalho também e não tenho tido tempo para me sentir inspirada e continuar a escrever.
A boa notícia é que aqui a história vai começar a sério e já tenho também o próximo cap. escrito!

Espero que gostem :)

Chenillus achou ao animal magnífico. As cores, o bico redondo dourado, as garras afiadas da mesma cor, mas sobretudo foi o porte régio da criatura que mais o fascinou. Era obviamente superior a qualquer ser que já vira! Secretamente invejou Cherise por ter tido a possibilidade de adquirir uma coisa tão única e esplêndida. Não se tratava de uma inveja maldosa, era mais uma pena escondida. Ele sempre soubera que seria aquela filha quem iria chegar mais longe e atingir mais objectivos, era apenas natural que lhe surgissem estas oportunidades.

Aquele animal seria sem dúvida uma peça central na sua colecção de artefactos únicos e objectos mágicos. Naturalmente que todas aquelas coisas iriam para Cherise, já há muito tinha tomado essa decisão, na altura em que percebeu que Marvolo nunca atingiria o nível de poder que a filha mais nova mostrava já tão jovem… E ultimamente vinha a pensar na hipótese de desafiar todas as regras da sociedade bruxa e transmitir o título da família para ela também. Sabia que a filha não pretendia casar-se, embora nunca falassem desses assuntos ele conhecia o seu desejo de fazer os seus conhecimentos crescerem, sabia da sua vontade de se tornar maior que todos os outros. Eram parecidos nesse aspecto e Chenillus desejava que a filha tivesse mais sucesso que ele. Não que fosse um fracasso, estava muito longe de poder ser considerado algo assim. Era um homem influente, era um homem poderoso e importante, as pessoas respeitavam-no e temiam a sua ira. Mas… Talvez pudesse ter chegado mais longe.

Claro que toda a euforia que sentiu ao admirar a criatura pela primeira vez se evaporou ao saber que era uma meia raça. Uma mistura de sangues entre uma Fénix e outro qualquer animal trouxa. A admiração foi substituída por um nojo comedido, não deixava de o achar muito bonito, mas agora estava mesclado por sangue sujo. Curiosamente esse pequeno pormenor não parecia incomodar Cherise que, tendo profunda aversão a trouxas e feiticeiros meio sangue, continuava atraída ao animal.

Como era estranho tratá-lo por “criatura” ou “animal”, ou mesmo “meio sangue”, como o pai passara a fazer com desdém, um nome teve de ser escolhido. Cherise passou várias horas a observá-lo, a decorar o padrão das penas, todos os reflexos esverdeados, admirou fascinada o comprimento das penas verdes que compunham a cauda esvoaçante… Parecia ter uma expressão inteligente, olhava-a com a mesma intensidade que ela usava e quando a ouvia suspirar piava suavemente, em tom de gozo. Era interessante, divertido e irritante, tudo ao mesmo tempo.

- E se te chamar Cole? – Perguntou ao animal, que em resposta fez um som cortante. Uma negativa. – Muito bem. E Saraíd? – À mesma reacção por parte do pássaro, concluiu que aquilo não ia funcionar. – Não achas que estás a ser um bocado esquisita? – Disse ríspida. Viu-o levantar primeiro uma pata e depois a outra do ferro onde se apoiava, como se estivesse a fazer uma pequena dança de triunfo. – Idiota. – Acusou-o e o animal parou o movimento. – Talvez deva chamar-te assim! Hmm…

O animal que agora olhava para ela com aspecto sério não mostrou qualquer reacção em especial ao que Cherise dizia e como ela não gostava de ser ignorada virou-lhe costas e concentrou-se no livro que tentava estudar. As instruções daquela poção tornavam-se mais complicadas à medida que avançava a leitura.

“ Recolher um pedaço de Visgo do Diabo com 15 centímetros (deve ser feito durante um noite sem lua). Após o corte a madeira não deve entrar em contacto com ambientes quentes.

Com uma faca de prata cortar em pequenos cubos o ramo de Visgo do Diabo. O número de pedaços não deve ser superior a 35 ou inferior a 20: a quantidade aconselhada é de 28 pedaços que deverão ser adicionados à mistura em grupos de três, com intervalos de quatro minutos entre cada novo acrescento. {Guardar o último pedaço para uso posterior}

(…)

Triturar cinco folhas de Acônito até formar uma mistura pastosa (…)”

- Ai!! – O grito de Cherise ecoou pela mansão. A dor aguda que sentiu na mão esquerda sobressaltou-a, fazendo-a gemer o berro por impulso e largar o livro que caiu no chão num Bac.

Olhou o animal que mantinha um porte de desafio. Tinha lhe bicado a mão e o dedo agora mostrava um corte de onde jorrava um fino fio de sangue. Estúpido pássaro sem nome! Ela pegou a varinha rapidamente mas não foi a tempo de evitar que umas gotas lhe manchassem o tecido cinzento do vestido.

-“Vulnera Sanentur” – murmurou como se entoasse uma canção, apontando a varinha para a ferida na mão. Esta começou a fechar-se e deixou no seu lugar uma marca avermelhada que rapidamente desapareceu. A pele voltou ao seu tom pálido normal.

- Se voltares a repetir a brincadeira pego-te fogo como a galinha assada! – Ela ameaçou e, apesar das palavras em si serem para além de ridículas, a sua voz saiu séria e rancorosa. Apontou lhe a varinha violentamente para mostrar que cumpriria as palavras, mas a meia-Fénix manteve-se imóvel com uma expressão satisfeita, quase divertida.

Enquanto Cherise soltava um “Targeo” para limpar as marcas de sangue, o animal aproximou-se sorrateiramente e com o bico, afiado na ponta, puxou-lhe um caracol negro, fazendo-a chiar de dor novamente.

- Tu! ... Faço com que te arrependas de alguma vez teres cruzado o meu caminho seu traste ingrato! – Gritou chateada e irritada com as próprias reacções, abanando a varinha com impetuosidade. Viu o animal encolher-se ante o som alto da sua voz, mas continuava altivo e arrogante. Abriu as asas majestosas e do seu interior saiu um grito agudo e desconfortável.

- Muito bem! Se queres assim, seja! – Dito isto fez surgir à sua volta uma gaiola de metal com uma corrente que se prendeu em torno das garras da criatura. – Eu tenho sempre a última palavra, meu amigo! – Informou com evidente superioridade.

Deixou-a encerrada no local e foi até aos seus aposentos onde um malão de couro castanho-escuro se encontrava aberto no chão, sobre um tapete peludo cinzento. No seu interior podiam ver-se vários objectos: algumas penas de escrever e pergaminhos, uma balança de prata; um caldeirão de cobre, tamanho 2; vários ingredientes aos quais com certeza não teria acesso na escola; um conjunto de frascos de cristal, guardados cuidadosamente para não quebrarem; um telescópio e um globo da lua, assim como várias cartas lunares e estelares; e um par de luvas de pele de dragão. Dobradas a um canto encontravam-se várias peças de roupa: três camisas brancas que faziam par com três saias pretas, compridas até um palmo abaixo do joelho, e três coletes da mesma cor; ao lado uma capa grossa de inverno tão negra quanto o resto.

Eram estes os materiais que precisaria para Hogwarts, além dos livros, é claro, e esses também já se encontravam dispostos no meio das outras coisas, eram oito encadernações ao todo, para as oito cadeiras que frequentaria no seu sexto ano. Optou por não participar nas disciplinas de Runas Antigas e Tratamento de Criaturas Mágicas. Runas não lhe interessava, de todo, era uma das matérias mais aborrecidas que tivera o desprazer de estudar e, embora admitisse a sua importância, não precisaria de as aprofundar até mais tarde e isso seria fora de Hogwarts. A decisão de não fazer Tratamento de Criaturas Mágicas tinha sido ponderada e, após pesar os prós e os contras, concluiu que era a mais acertada, embora eventos recentes – a aquisição de uma criatura tão temperamental como era a meia-Fénix -, a fizessem vacilar.

Obviamente também levava alguns dos seus livros, não iria descurar os outros estudos enquanto estivesse no castelo, isso estava fora de questão. Só precisava ser discreta… Além de que iria ter tempo livre a mais. Pelo que Marvolo e Merópe tinham descrito do seu sexto ano percebeu que tinham várias horas vagas. Claro que eles, assim como a maioria, se não todos os alunos, as utilizavam para colocar trabalhos em dia ou para estudar as matérias complexas. Ela não teria essa necessidade, depois de folhear alguns dos livros, mais especificamente Feitiços, Herbologia e Defesa contra as Artes das Trevas, percebeu que já tinha coberto e dominava várias partes da matéria. Mas outra coisa não seria de esperar com as notas que recebeu dos seus O.W.L.S.: oito Brilhantes e um Excede as Expectativas, embora Cherise desconfiasse que apenas tinha conseguido um E.E a transfiguração porque o examinador ficara intimidado pela serpente que conjurou, mesmo não sendo aquilo que tinha pedido. As notas mais altas a não a surpreenderam no mínimo.

“Flap… Flap”.

Cherise olhou para a origem do som e viu, para seu espanto, o animal pousar suavemente nas costas do divã luxuoso que, de momento, acomodava alguns pergaminhos velhos ali esquecidos. Olhou nos seus olhos sem saber o que pensar. Tinha-o deixado fechado! Como estava ali agora? Não era possível!

Correu até ao andar inferior para inspeccionar a gaiola de metal, tentar perceber alguma falha nas suas grades ou qualquer outra forma que tivesse usado para escapar, mas quando chegou ao local não encontrou qualquer vestígio da jaula que fizera surgir com magia. Nada… Aquilo foi uma surpresa e uma ideia, ou teoria, começou a formar-se na sua mente. Talvez aquela criatura fosse ainda mais espantosa do que tinha pensado…

Fez o caminho de volta até ao quarto onde o pássaro a esperava sossegado. Quando a viu passar pela porta fez um voo curto até ao seu ombro onde cravou as garras afiadas propositadamente. Cherise afugentou-o com um movimento rápido dos braços e massajou o local dorido.

- Não penses que não arranjo forma de te castigar! – Gritou-lhe chateada e depois controlou a voz com uma tosse surda. Achou que já começava a perder o controlo vezes de mais à volta do animal e isso não podia acontecer! Um Gaunt tinha que aparecer composto e superior, sempre!

Com um movimento da varinha fechou o malão e fê-lo flutuar até ao piso de baixo. Faltavam apenas alguns minutos para as dez e meia e ela queria partir para Kings Cross o quanto antes, de forma a evitar quaisquer imprevistos.

- E tu?! Voas até Hogwarts ou vais comportar-te o suficiente para me acompanhares no Expresso? – Exigiu a resposta do animal que a seguia. Como ele não fez qualquer menção de apaguizar a sua ira deixou-o o estar.

Arigna tinha se despedido dela no dia anterior, antes de partir para sua casa e esperar Savell. Como consequência da sua ausência, Cherise pensou que a mansão estava estranhamente vazia. Isso não parecia incomodá-la de mais, só deixava com uma sensação estranha de abandono.

- Cherise. Estás pronta? – O pai esperava junto da escadaria principal. Envergava um fato formal, com um lindo colete de costas compridas e a camisa imaculada apertada até ao último botão, por cima uma capa negra compunha o traje.

Cherise observou o pai. Já não aparentava os traços joviais que antes tivera, o seu queixo largo e forte apresentava-se coberto de uma barba impecavelmente aparada, mas que ainda assim deixava transparecer a sua cor cinzenta. As rugas de expressão que sempre caracterizaram o canto dos seus olhos ambiciosos vinham a acentuar-se com a idade e a dar-lhe uma expressão calculista, rígida. No geral era um homem bonito, atraente, mas o tempo tinha feito os seus estragos…

- Estou. Podemos partir assim que achar conveniente. – Informou o homem. Reparou como a sua estatura média contrastava com a altura imponente das figuras de metal que guardavam a entrada.

- Vamos. Esse pássaro não devia estar preso? – Perguntou.

- Hum… — Ponderou. — Acho que vou deixá-lo ir solto até ao castelo.

-É uma longa viagem… — Chenillus, embora não sentisse o mesmo fascínio inicial, ainda achava que seria um desperdício perder uma criatura assim, pelo simples facto de que era realmente bonita.

- Não mais longe que qualquer coruja já viajou. Com certeza irá fazer-lhe bem, para que aprenda alguma disciplina! – Ainda não havia esquecido o incidente com o bico cortante.

- Bom. Então vamos, pega o malão. – Ordenou depois de lhe lançar um feitiço surdo para que este ficasse com um peso suportável.

Assim que lhe pegou o braço Cherise sentiu novamente o formigueiro de Aparatar, todo o seu corpo foi sugado e ajustado e poderiam ter demorado pequenos segundos ou várias horas até que finalmente “aterraram” nas sombras da Plataforma 9 ¾. Ela começava a achar que aquele meio de transporte era muito desconfortável.

O fumo branco que saía pela chaminé escura do comboio pairava sobre as muitas figuras ao longo da plataforma, jovens e adultos que se entretinham em conversas amigáveis e discussões alegres. Várias gargalhadas ou vozes mais altas ouviam-se por todo o lugar. O comboio, de um vermelho escuro e brilhante, impunha-se gigante nas linhas à espera de partir. Uma placa de bronze acima de Chenillus informava:

Expresso de Hogwarts, 11 horas

Enquanto caminhava para mais próximo de uma entrada, Cherise avistou várias pessoas conhecidas. Viu Marvolo e ao seu lado Rick Barto que se juntavam a vários outros amigos escanzelados. Viu Merópe dirigir-se apressadamente para o comboio e atrás dela uma morena de cabelos ondulados abanava as ancas de forma provocadora, atraindo o olhar de vários rapazes à sua volta… Reparou também em duas raparigas franzinas que tinha a certeza tinha visto durante a gala no ministério.

- Acho que é melhor entrar e procurar um vagão livre. – Disse ao pai. O pio das corujas descontentes era incessante e estava a irritá-la. – Obrigada… por me deixar ir, pai. – Continuou, quase envergonhada.

- Sim… – Ele respondeu e depois adoptou uma postura quase desconcertada. – Bom, espero que tenhas um bom ano. Qualquer problema podes enviar uma coruja e eu verei o que posso fazer. – A sua voz saiu poderosa mas ao mesmo tempo acanhada e Cherise controlou-se para não sorrir.

- Pretendo enviar-lhe uma mensagem por mês, pelo menos. Posso até precisar de ajuda nos meus estudos. – Brincou… Ambos sabiam que isso não iria acontecer.

- Certo. Adeus então. Faz boa viagem. – E dito isto desapareceu num estalido, deixando-a a olhar para o vazio.

No interior do comboio seguiu o corredor estreito e apinhado de pequenos feiticeiros, provavelmente do 1º ano, de malões e gaiolas no chão. Fez um esforço para se desviar daquelas coisas e encontrar um vagão vazio onde pudesse colocar os pensamentos em ordem depois de toda aquela agitação e apreciar a viagem em sossego. Esta última tarefa provou ser impossível, uma vez que todas as divisões já tinham pelo menos uma ou duas pessoas no interior.

Virou-se para seguir a direcção oposta e chocou bruscamente com uma bruxa de vestes azuis que parecia ter surgido do nada.

- Ah! Vê por onde and… — Ouviu a rapariga começar e parar a meio da frase, felizmente, porque a reprimenda com certeza ia deixar Cherise muito irritada. A feiticeira olhou para ela e pegou no pequeno colar que se soltara do seu vestido e balançava livremente no seu pescoço. Cherise deu um passo atrás e enxotou a mão da outra. – És uma Gaunt!! – Ela informou entusiasmada, como se a própria desconhecesse a notícia. – Nunca te vi em Hogwarts, é a tua primeira vez não é? – A voz alegre e o interesse que mostrava impulsionaram Cherise a responder, mas nem lhe deu tempo para isso. – Que pergunta! É claro que é! Toda a gente conhece os Gaunts em Hogwarts, portanto só podes ser a mais nova. –

Cherise prestou mais atenção quando a rapariga quase referiu provavelmente os seus irmãos, mas não se alongou no assunto.

– Vais ser seleccionada hoje? — E quando viu a outra acenar em resposta continuou o discurso. – Para que casas tencionas ir? … Que disparate! É claro que Slytherin vai ganhar um novo membro! – A voz suave da moça entrava incessantemente pelos ouvidos de Cherise que, pensou curiosamente, ainda não tinha dito uma sequer palavra… Já começava a ficar aborrecida. – Em que ano vais entrar? Sim, e como te chamas? –

Cherise arqueou uma sobrancelha como perguntando à outra se tinha a certeza de ter organizado o longo discurso na ordem correcta. Além de que não se via com grande vontade de responder a todas aquelas perguntas, se conseguisse lembrar-se de todas! Nem sequer sabia quem era aquela rapariga.

- Oh! Desculpa, não me apresentei! Sou Ádria Lestrange! Slytherin. Estou no 6º Ano. – A outra continuou como se adivinhasse os pensamentos de Cherise.

“Ah, a filha de Thomas e Helga Lestrange… Isso muda um pouco as coisas”, pensou. Olhou-a com renovado interesse e examinou a sua figura voluptuosa. Curvas por todo o lado! Os cabelos cor de bronze caíam como um manto liso pelas costas direitas e os olhos cinzentos brilhavam de vida e excitação nas suas feições de porcelana. Era muito bonita, Cherise concluiu com inveja. Perguntou-se quantos pretendentes teria… Mas Cherise sabia pelo pai que todos os filhos dos Lestrange, assim como na maioria das outras famílias de sangue puro, tinham os seus casamentos arranjados desde sempre. Com ela não seria diferente… Thomas Lestrange era o assessor do Ministro da Magia e um membro do pequeno círculo de amigos de Chenillus.

Assim apertou a mão da rapariga quando esta a estendeu num cumprimento simpático.

- Cherise Gaunt. – Apresentou-se. – Vou entrar no 6º ano. Suponho que seremos colegas. – Disse. Nunca lhe passara pela cabeça a hipótese de ser seleccionada para outra casa que não a do seu antepassado. Isso simplesmente não acontecia! Não a um Gaunt, cujo sangue vinha misturado com o de Salazar Slytherin! E muito menos a Cherise.

- O comboio vai partir em breve, quero que conh… — Mas foi interrompida.

- Ah!... Ádria, andas a angariar mais idiotas para o vosso ninho de cobras é? – A voz partiu de uma figura baixinha atrás de Cherise. Quando esta se virou para passar o olhar sobre o dono daquele comentário viu um rapaz de cabelos ruivos e olhos verdes. Até seria bonito, não fosse pela forma achatada do nariz ou pelas sobrancelhas demasiado grossas que se uniam uma à outra no meio.

Dirigiu-lhe um sorriso altivo. Ninguém insinuava que ela era idiota sem ter consequências…

- E nem sequer estás a escolher uma muito bonita desta vez… — O rapaz continuou.

Humilhação total ou dor agonizante? Naquele momento Cherise estava mais inclinada para a segunda opção. Retirou rápido mas discretamente a varinha do manto.

- Expelliarmus! – Murmurou e a varinha do outro caiu por terra, bem longe.

Ária soltou um “woow” entusiasmado e ficou a observar a cena.

Cherise empurrou o corpo do ruivo contra a janela, colocando o braço esquerdo forçado sobre o seu pescoço e a varinha cravada violentamente na bochecha gorda que se ia mexendo enquanto o outro tentava dizer qualquer coisa que lhe morreu na garganta. Poucas eram as pessoas que não temiam o olhar gelado que ela agora apresentava.

- Isso não foi muito boa educação, foi?... – Perguntou com falsa simpatia. — Acho que mereces uma aula de boas maneiras. O que te parece? – Perguntou, mas não esperava resposta e nem lhe deu hipótese para falar. – Tens que aprender o teu lugar… — Cuspiu. — Como te chamas? – Ela soava meiga e paciente, como se repreendesse uma criança travessa, mas por trás escondia um frio cortante. O outro não respondeu. – Portanto… — Continuou como se não tivesse feito qualquer pergunta. – Vamos começar por aprender a respeitar os feiticeiros que te são superiores. E como falhaste totalmente com a primeira atitude é necessário desculpares-te. – O rapaz estava vermelho de raiva e a sua frustração era evidente. Lá fora a paisagem começou a mover-se com o solavanco que marcou o início da marcha do expresso.

- Ainda és mais idiota do que pensava, se achas que vou mesmo fazer seja o que for! – Ele atirou. Era evidente que já que não podia defender-se com magia, fá-lo-ia com palavras e insultos. Uma escolha errada para a situação. As pessoas eram muito estúpidas, Cherise pensou.

- Ah, mas tu vais fazê-lo… — Ela disse, agora sem amabilidades e forçando ainda mais a varinha na cara do outro. – É que vês… Eu conheço uns feitiços interessantes que estou ansiosa por te mostrar caso não o faças. – A ameaça poderia parecer vazia, mas o olhar quase insano que acompanhou as palavras sérias e venenosas fazia difícil duvidar. Cherise viu como ele se encolheu mais sobre si mesmo.

- Não percas tempo com ele. Quero que conheças umas pessoas! – Cherise ignorou a voz de Ádria. Tinha o feitiço debaixo da língua e queria muito…

- Nada?... Que pena… — Mentiu. – Expuls… — Mas foi interrompida no último minuto por alguém que abriu violentamente a porta de um dos compartimentos mais longe no corredor. De lá saiu um rapaz alto de cabelos castanhos. Cherise não se deu ao trabalho de o encarar.

- O que se passa aqui? O que raio é que estás a fazer?! – Ele perguntou a Cherise quando viu como segurava o outro.

- Ah! Edvard. Estávamos só a ensinar boas maneiras ao teu amigo. – Ádria respondeu levemente.

- E quem vos deu o título de professor? Posso saber… — Perguntou sarcástico.

Cherise virou-se ligeiramente na sua direcção, para lhe dar uma qualquer resposta mais desagradável ou lhe lançar um olhar superior, mas os seus olhos apenas tiveram tempo de se focar no emblema vermelho e dourado, com um leão ao centro, que adornava o seu uniforme Só podia ser um Gryffindor!; antes de ser empurrada pelo ruivo que correu a pegar a varinha. Felizmente conseguiu equilibrar-se e evitar uma queda pouco graciosa.

- Tempest! – Murmurou o feitiço e uma rajada de vento forte e gelado embateu com violência contra o rapaz, arrastando-o pelo ar vários metros até colidir contra um miúdo baixinho que saíra de outro compartimento para ver a comoção.

Quando se levantou apressadamente a sua pele estava escarlate de vergonha e raiva. Apontou a varinha para Cherise, murmurando o feitiço de pernas bambas (Locomotor Wibly) que ela facilmente evitou com um Protego silencioso que fez o ataque ressaltar e embater no conjurador.

O ruivo perdeu a rigidez das pernas e estas cederam sobre o peso do seu corpo, deixando-o estendido no chão, num ângulo estranho. Por mais que tentasse levantar-se não conseguia mover as pernas sem força e, aparentemente, não parecia lembrar do contra-feitiço.

“Não funciona muito bem sobre pressão”, Cherise tomou nota mentalmente.

O corredor estava agora cheio de olhares curiosos…

- Vamos, quero apresentar-te umas pessoas… — A voz de Ádria cortou o ar, impaciente. Cherise seguiu-a, alheia à forma como o outro Gryffindor, a observava.

As duas chegaram ao último vagão e entraram num compartimento. Lá dentro quatro cabeças viraram-se para as ver entrar. Cherise reconheceu imediatamente o loiro sentado junto à janela, um Malfoy.

- O que é que se passa lá fora Ádria? Esta viagem parece sempre uma selva… — Um rapaz moreno perguntou enquanto afastava a franja dos olhos carregados.

- Tivemos um contratempo. Nada que não se resolvesse… — A outra respondeu apressada e sentou-se num dos lugares vagos, apontando o outro para Cherise. – Senta-te Cherise. Vou apresentar-te! – Era uma rapariga alegre.

- Andas outra vez a trazer gatinhos perdidos, Lestrange? – Desta vez o comentário veio de um rapaz sentado com uma pose séria e intimidante, consequência provavelmente da sua fisionomia forte e com alguns músculos. Os seus olhos eram de um tom dourado, quase ouro e completavam as feições bonitas, bem definidas, do seu rosto.

- Para tua informação, este “gatinho perdido” – E gesticulou as mãos em desdém para o outro. – Acabou de mandar um Gryffindor quinze metros pelo ar para depois lhe acertar com um Wibly! Deviam ter visto! – E desatou a rir divertida.

- Só me limitei a reflectir o feitiço dele… Se a escolha fosse minha – e as circunstâncias outras – provavelmente estaria ainda a contorcer-se no chão, apenas não seria de frustração… — Cherise não gostava de usar maldições leves.

- Quem é esta?! Nunca te vi por Hogwarts. – A única outra rapariga no compartimento era… peculiar. Tinha um rosto comprido, magro e seco, com um nariz torto e esticado e os seus olhos tinham um toque frio enquanto falava, com a sua voz fina e extremamente irritante, Cherise pensou.

- Esta! É Cherise Gaunt, Pamona. – Ádria aborreceu-se. – Mas deixa-me apresentar-te a todos. – Virou-se para Cherise e de seguida indicou para cada um dos jovens ali presentes, dizendo os respectivos nomes. – Pamona Abbott. Este é o Arcturus Black – mencionou o rapaz sério e intimidante. – Septimus Malfoy. –

- Já nos conhecemos… — O loiro interrompeu com um cumprimento ligeiro para Cherise, que respondeu igual.

- Ah! Óptimo! – Ádria continuou e apresentou o último, o rapaz da franja, com grossas sardas sobre o nariz redondo. – Este é o Colin, Yaxley…

- Mais um Gaunt em Hogwarts! Perfeito! – Cherise não perdeu o sarcasmo na sua voz.

- E o que é que ela está a fazer aqui? – Pamona perguntou com desdém, reacção realmente desnecessária, mas os cíumes que sentiu ao ver que Black observava a novata com alguma atenção impeliram-na a falar. – Ela ainda não é um Slytherin. Tanto quanto sabemos pode ir parar a outra casa qualquer… Pode ser um futuro Gryffindor! Agora também nos associamos com essa escumalha?!

Cherise manteve-se perfeitamente calma, mas o seu olhar adquiriu um tom gelado e ameaçador quando se dirigiu à outra.

- A minha legitimidade como Slytherin não está em causa e não preciso que um chapéu me diga isso. – Depois adoptou uma voz mais suave e ao mesmo tempo sinistra. – A minha presença na casa de Salazar está mais garantida que a de qualquer outro. Eu sou, afinal de contas, descendente do próprio. E farias bem manter isso em mente antes que eu sinta necessidade de te lembrar por outros meios… — Acariciava a varinha suavemente por entre os dedos e viu Pamona ganhar um súbito interesse no cabedal castanho dos assentos.

- Afinal que Gryffindor é que a nossa amiga mandou pelo ar? – O objectivo de Malfoy era aliviar o ar pesado que se sentia, mudando de assunto. Ele já ouvir falar de Cherise e achava que era melhor para a Pamona que a atenção fosse direccionada para outra coisa. E como se tivesse feito de propósito para o ajudar a porta do compartimento abriu-se e uma velhinha de cabelos brancos, presos no topo da cabeça por um coquete rígido, entrou. Trazia umas vestes cinzentas e brancas, curiosamente joviais, e atrás de si um carrinho transbordava de guloseimas e doces coloridos.

- Alguma coisa do carrinho, meninos? – Disse sorridente e Ádria pediu uma caixa de serpentes encantadas de açúcar. A mulher procurou um pacote no meio de toda a confusão e entregou-o à cliente. Assim que a jovem lhe pagou saiu para o corredor, fechando a porta atrás de si.

- Estava a dizer… Foi o Burke! Devias ter visto a cara dele! Parecia uma abóbora… — Ádria respondeu à pergunta do loiro, o que provocou alguns risos nos restantes. O incidente anterior já esquecido.

Cherise, no entanto, não ia esquecer, mesmo que por agora o deixasse de lado. Mentalmente acrescentou o nome da morena à lista de pessoas a quem teria de ensinar algumas coisas. Não era uma lista muito extensa com apenas quatro nomes: Marvolo; Domic Orion; o ruivo de há pouco, Burke; e agora ela, Pamona Abbott.

Se tivesse em conta que apenas tinha começado a listagem há quatro dias e dois nomes tinham entrado só naquela manhã, só podia imaginar qual seria o tamanho da lista no final da noite… Sorriu dos seus pensamentos.

- É para combinar com as cores nojentas de Gryffindor… — Colin dizia e ela perguntou-se se teria perdido alguma parte da conversa.

- Então Cherise, é verdade que o teu irmão ficou dividido no exame de Aparição? – Black perguntou com um sorriso provocador. A este comentário Cherise não resistiu e gargalhou com vontade. O seu pequeno divertimento na gala do Ministério devia ter-se espalhado e ela não podia ficar mais contente…

- Onde ouviste isso? – Perguntou-lhe quando conseguiu controlar a expressão do rosto.

- Oh… Aqui e ali. Um Black não revela as suas fontes. – Colocou a mão pesada no peito ao fingir-se ofendido.

- Bom.. É verdade? – Yaxley parecia radiante com a ideia.

- É o que comentam. – O loiro respondeu para nenhum deles em particular. — Que Marvolo foi… abordado, pela irmã no sábado durante a gala do Ministro, sobre este assunto. – A voz de Septimus atingiu um tom de seriedade falsa impressionante. – E como duvido que Merópe fizesse isso ao próprio gémeo…

- Até porque estava na nobre casa dos Black com a minha querida prima. – Arcturus acrescentou com falso afecto.

- Só podemos concluir que foste tu! – Ádria terminou com diversão comedida. As cinco figuras olhavam para Cherise com expectativa e alguns sorrisos maliciosos.

- Um Gaunt não revela os seus segredos. – Disse, imitando a frase de Black, que a cumprimentou divertido.

- Este ano vai ser muito interessante. – Colin afirmou com um olhar calculista.

- Sim, e devíamos ir trocar-nos para os uniformes, porque estamos a chegar! – Ádria era realmente muito alegre, e normalmente Cherise não suportava pessoas assim, mas parecia ser suportável.

Os rapazes foram saindo e depois de Pamona ter fechado as cortinas da porta com um movimento da varinha as três feiticeiras vestiram os uniformes de Hogwarts.

Cherise observou-se no reflexo da janela e ajeitou o colete preto. Estava muito bem, pensou satisfeita.

Lá fora o sol praticamente já não brilhava e o céu escurecia rapidamente. Após passarem os montes verdes avistou ao longe o brilho do castelo e sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Sorriu.

“ Bem vinda a Hogwarts!”, disse para si mesma.

Notas finais
Aqui está! Espero que tenham gostado!!

Gostava de saber o que acharam... Preciso de me decidir quem será a "outra metade" de Cherise e ainda não consegui...

Prometo que coloco o próximo cap. mais rápido!
Obrigada :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.