Sangue Negro

2 Lar Doce Lar...


Itália – Vaticano, 21 de setembro de 2013.

Laura estava em casa, depois de seis meses da morte de Miguel ela enfim conseguiu ser expulsa do Internato Cockran, o problema era que, depois que seu irmão se fora, ela decidiu que queria continuar naquele lugar. Ela estava com seu pai, eles estavam jantando sozinhos, na sala da mansão, um jantar formal demais entre pai e filha.
—Laura – chamou seu pai, um homem alto, de meia idade, embora fisicamente parecesse um velho, extremamente magro, pele enrugada, o rosto sempre com uma expressão rígida e fria, e estava trajado com seu típico terno preto – Laura! – chamou de novo, vendo a falta e atenção da filha.
—O que excelentíssimo senhor Lorenzo Delarian deseja? – debochou Laura, uma garota de 16 anos, mais ou menos 1,65m de altura, magra com algumas curvas que ela fazia questão de esconder debaixo de jeans largos e moletons compridos, a pele bem pálida, quase como a de uma pessoa doente, seus olhos são de um azul escuro e profundo, e seus cabelos negros, ondulados e compridos, sua boca vermelha e pequena, formava um pequeno sorriso irônico, desafiando o próprio pai.
Lorenzo bufa em resposta, já cansado da falta de respeito da filha.
—Eu não quero discutir com você Laura, quero apenas que você me entenda, quero que você pare de agir dessa forma imatura e irresponsável que você vem agindo desde que sua mãe morreu. Eu entendo que isso tenha mexido com você, afinal você só tinha oito anos quando ela se foi, eu sei como isso dói filha, eu também perdi meus pais, não tão novo quanto você, mas mesmo assim sei que enfrentar isso é muito difícil, mas Laura já faz sete anos que Helena se foi, e veja o que você se tornou é uma garota linda, divertida, inteligente, mas sinceramente, as atitudes que você tem tomado... Eu não sei mais o que fazer com você – lamentou Lorenzo.
"Eu já perdi as contas de quantas escolas você foi expulsa – continuou seu sermão – mas desta vez você passou dos limites, se envolver com um professor Laura, isso é muito baixo, ate mesmo para você."
— Você não sabe o que aconteceu. Você não sabe o que está falando! – respondeu Laura exaltada.
— Como não sei o que aconteceu? O diretor do internato me ligou desesperado em pleno domingo me falando que te encontrou na casa do filho dele aos beijos, e como se não bastasse estar se envolvendo com o filho do diretor, que era seu professor, você tinha que estar no apartamento dele sozinha! Eu nem quero imaginar o que teria acontecido se o Sr Augustus não tivesse chegado lá quando vocês estavam apenas se beijando – Lorenzo levou a mão no rosto, demonstrando, pela primeira vez em muito tempo, algum tipo de emoção, a decepção.
— Não teria acontecido nada! – gritou Laura.
— Você que sempre foi tão próxima a Miguel, que sempre disse ama-lo tanto, fazendo uma coisa dessas, ate ele estaria decepcionado com você – continuou como se Laura nunca o tivesse interrompido. Ate ele, que é homem, nunca agiu de uma forma tão baixa.
— Você não resistiu a isso, não é? – Laura respondeu secamente – Você não conteve a vontade de me ferir em nome de Miguel, não é pai? – perguntou olhando diretamente nos olhos do pai, e após uma pausa, prosseguiu – Mas, sinto lhe informar que não vai conseguir, você não pode me atacar com acusações no nome do Miguel, você não o conhecia, você nunca soube nada sobre ele, você o odiava, a ele e a mim, você nos separou você o mandou para morte, você o prendeu naquele maldito reformatório de loucos e não deu a ele nem mesmo uma chance de defesa. E agora você quer me falar sobre o que Miguel sentiria em relação as minhas ações? – Laura riu irônica – Não é como se você soubesse como ele se sentia a coisa alguma.
— Você pode não acreditar, mas eu amava o seu irmão, assim como amo você, e o lugar para onde eu o mandei, é uma das instituições mais respeitadas do planeta, o que aconteceu com ele foi uma fatalidade, que poderia ter sido evitada se vocês dois não tivessem feito aquele pacto ridículo de fazerem de tudo para voltarem a conviverem juntos.
— Como é que você sabe do nosso pacto? – pela primeira vez Laura ficou perplexa, ela não imaginava que o pai sequer suspeitasse daquele plano.
— Como eu sei? – ironizou- Como se vocês dois não fossem óbvios o bastante? Desde que eu separei vocês, tudo o que faziam era para que voltassem a ficar perto, às vezes eu tinha ate medo daquela relação, quando vocês ficavam juntos não se desgrudavam, irmãos normais não se comportam daquele jeito, não se amam daquele jeito.
— O quê?! – a expressão de Laura era de puro espanto e nojo — Eu... Você pensou... Você é mais imundo do que eu pensei. Você nos separou porque achou que eu e Miguel pudéssemos sentir algo mais do que amor fraterno um pelo outro? Você é doente! É claro que eu amo o meu irmão, mas, ELE. É. O. MEU. IRMÃO. Entendeu? IRMÃO!
— Agora nada disso importa mais, mesmo que você esteja mentindo agora não preciso mais sentir medo de nada.
— Falando desse jeito parece que foi um alivio para você a morte de Miguel, a cada segundo que passo ao seu lado só vejo o quão desprezível você é. Eu tenho nojo de ficar ao seu lado, nojo de mim por ser sua filha.
— Você não sabe o quanto me magoa ouvir você falando esse tipo de coisa Laura, me dói saber que você não acredita no meu amor por você e por Miguel, mas já estou cansado disso! – gritou Lorenzo — Não vou mais permitir que você fale desse jeito comigo, sua garota mal criada! Independentemente do que você pense, eu sou seu pai! Eu mando em tudo por aqui! Eu pago as suas contas, os seus remédios, a sua comida, tudo! Você se acha independente demais para chegar ao ponto de sentir nojo de estar ao meu lado, mas se esquece de que se você tem um lugar para viver é graças a mim! Você acha que boa demais para ser minha filha, acha que eu sou um monstro e você é a salvadora do mundo? Você é apenas uma criança, que acha que tem uma vida, mas deixa eu te contar uma coisa, você não tem uma vida, você não tem liberdade, você não tem escolhas! A sua vida é minha! A sua liberdade é minha! Você não tem nada Laura! Você não é nada! Assim como o seu irmão. E assim como na vida dele, você vai para onde eu quero, e quando eu quero. E no final você vai se tornar o que eu quiser que você seja, entendeu?
— Você acha mesmo que é meu dono? Mas se você mandasse mesmo em mim, acredito que não permitiria que, como você mesmo disse, eu agisse de uma forma imatura e... – de repente a visão de Laura se embaçou e sentiu seu corpo ficar mais pesado, ela ficou grata por estar sentada, ao contrario acabaria caindo de tamanho peso que seu corpo adquirirá.
— Laura, você está se sentindo bem? – perguntou preocupado – Você ficou pálida de repende.
— Estou, só foi um mal estar passageiro – respondeu, com sua visão voltando ao normal – Vou me deitar, acho que a viagem de volta para casa não me fez bem, ou pensando melhor, acho que o que não me fez bem foi voltar a te ver. Com licença- pediu já se levantando da mesa, mas mal depois de dar alguns poucos passos sua visão se escureceu de vez e perdendo a consciência caiu ao chão.