Sangue Monstro
35 Reiniciando.
Notas iniciais
Lembro-me pessimamente do que acho que aconteceu depois: estava fora da piscina, olhando os refletores com lâmpadas estouradas logo acima, Damian estava encharcado e tentando dar vida ao meu coração parado. Anne também estava ali, até que o ruivo falou algo e ela saiu correndo.
***
Abri os olhos e uma luz amarela refletia nas paredes brancas do quarto, tudo estava em silencio, exceto os pássaros que em algum lugar faziam barulho para começar o novo dia. Eu estava vivo, em um quarto com aparelhos ao lado da cama desligados e estava bem calmo, extremamente calmo como nunca estive, e estranhei.
Sentei na cama e fiquei enjoado, respirei fundo me contendo e percebi que não havia dores no meu corpo, nem mesmo os machucados ainda se curando da minha demonstração de poder para Raphael estavam visíveis.
Observei o quarto iluminado pela luz do sol nascente que entrava atravessando os vidros de uma janela, e em um sofá preto vi uma garota de cabelos escuros escondendo o rosto da luminosidade com cobertor marrom claro, Jennifer. Não entendi bem o que levaria alguém a passar a noite em um hospital sem ter a necessidade. Depois me levantei e sai sem acorda-la. A calça de moletom cinza era larga como a blusa branca e eu podia sentir um pouco do frio da manhã enquanto caminhava pelos corredores sem ninguém. Vaguei por alguns andares podendo sentir o cheiro de sangue em muitos lugares, seria bem interessante ir atrás desses aromas, mas não me importava como antes. O que achei muito estranho.
***
–Roan nós estávamos te procurando. -Disse Melanie me olhando de cima.
Estava deitado no terraço do hospital. Assisti o céu mudar do violeta para o laranja e depois para o azul claro. Devia estar dopado ou coisa assim para apreciar algo tão fora da minha antiga realidade em que ficaria de mau humor por ter acordado tão cedo. O que fizeram comigo? Onde o eu de antes estava?
–Então me acharam Mel. — respondi. — Agora sai da frente. -continuei deitado sendo aquecido pelo sol e a menina me olhou estranhando.
–Ele esta bem?- era a voz de Anne em algum lugar.
–Acho que sim. Mas está... Estranho.
–Vamos contar para ele agora? – perguntou Anne para a menina loira.
–Eu não sei se é uma boa ideia, ele acabou de acordar de um coma de duas semanas.
De repente fez sombra no meu rosto e vi a face de Jennifer sobre mim, com o véu escuro e denso escorrendo de sobre os ombros como uma cortina pesada, suas sobrancelhas escuras quase se juntavam tentando desvendar alguma coisa em mim. Sorri vendo os olhos âmbar curiosos e então ela se afastou avermelhando. Me sentei envolvendo os joelhos com os braços e olhei Jenn rapidamente sobre meu ombro e ela desviou o olhar para o horizonte.
Então me virei para as duas que discutiam algo com sussurros não muito baixos:
–O que foi que aconteceu? — Elas se encaram sérias e indecisas por um momento. -Digam logo.
–Roan, desde que você caiu na piscina da escola e ficou inconsciente, os policiais se aproximaram. A Vanessa, que você conheceu, sumiu e isso chamou a atenção deles e dos investigadores especiais. — continuei prestando atenção. — Um dia Jennifer foi convencida e ir visitar a casa antiga dela por Alex, que estava atrás de uma companhia para um passeio de final de semana. -Olhei a morena já não gostando da historia, e ela abaixou o olhar para o chão abatida. -Alex encontrou um lago próximo da casa e ficou “brincando” com a agua, enquanto esperava Jennifer que foi ver a casa de perto e como estavam as coisas. Ninguém sabe como ou porque os homens estavam lá, só que o descobriram e quando tentaram cerca-lo para prendê-lo, Alex se defendeu com o que podia por medo e eles atiraram.
Um arrepio percorreu meu corpo, um peso se formou no meu peito fazendo com que eu não conseguisse continuar respirando calmamente como estava.
–Quer dizer que por minha causa — por ter ignorado a regra de não matar ninguém uma noite — Alex foi morto e consequentemente todos estão em perigo?
–Sim. Agora eles têm mais certeza de que estamos aqui. — disse a ruiva de braços cruzados.
Quando fiquei com esse grupo pela primeira vez eu recebi um aviso. Eu devia ter entendido. Como eu fui idiota! Escolhi tirar a vida de Vanessa por desejo e levei outra, que querendo ou não, me afetou. Não posso deixar que mais alguém se junte a isso para os policias me atingirem. Levantei-me e encarei a paisagem por um tempo.
–Como você saiu de lá Jenn?- perguntei e a olhei intrigado.
Ela me olhou e depois as meninas, que pela expressão que fizeram também não tinham feito aquela pergunta antes. Jennifer ficou um pouco imóvel.
– É uma reserva de jaguares... — ela disse baixo sem olhar para ninguém. — E e-u... – ela gaguejou depois suspirou se concentrando para dizer de uma vez: — Eu me transformo em um se quiser.
Minha expressão mudou e acabei sorrindo. Transformação é legal, é uma das coisas que sei fazer. Mas tive que espantar os pensamentos, pois tinha resolver meus assuntos com esses policiais.
–O que vocês vão fazer agora?- perguntei para Melanie e Anne.
–Raphael acha que uma das opções é fugir, se esconder. — respondeu a ruiva. — Acha que não podemos enfrentar o comando dos especialistas em criaturas quando eles chegarem.
Rio e nego com a cabeça:
–Fugir pode funcionar por um tempo, mas não soluciona o problema. Eles saberão que vocês sumiram e ligarão os pontos. Assim se um dia voltarem pra a ver qualquer um de suas famílias, eles ainda estarão de olho e mais alguém morre.
Não podia deixar os descendentes serem ameaçados por humanos com armas e não podia deixa-los simplesmente fugir do inimigo.
–Tenho que falar com Raphael.
Elas concordaram comigo e Anne dirigiu a van até a casa de Raphael.
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