Sangue Maldito
50 Eu Prometo
Notas iniciais

Eu já havia acordado há algum tempo e estava observando o rosto tão sereno do Kou dormindo, ele ficava tão bonito assim, parecia tão inofensivo com aquela carinha calma. Nós estávamos um de frente para o outro, a franja dele estava caída o que me permitia uma visão muito melhor do rosto dele e eu não consegui resistir a toca-lo.
Lembrei-me de ontem quando ele me disse que havia arrancado o próprio olho, deslizei meu polegar pela pálpebra do olho direito, que era o que ele havia arrancado.
– Eu sei que dói. – sussurrei num lamento e beijei seu olho fechado. Ao dizer isso eu não estava me referindo ao que ele fez a si mesmo, até porque a dor que ele sentiu ao arrancar seu globo ocular já deve ter passado há muito tempo, eu me referia à dor que ele guardava no coração, porque eu sabia que para alguém se auto-mutilar tinha que estar sofrendo muito. Kou apertou os olhos e eu percebi que ele estava prestes a acordar, então quando ele os abriu eu disse com um sorriso gentil. – Ohayo, Kou-kun.
– Ohayo, Ningyo-chan! – retribuiu já com um sorriso pervertido, agarrando a minha cintura e colando meu corpo ao dele. – Cadê o meu beijo? – perguntou sedutoramente, dei uma risada.
– Já acorda assim, é? – falei brincalhona, ele estreitou os olhos em reprovação e antes que ele dissesse algo juntei nossos lábios. Pedi passagem com a língua e logo ele concedeu, assim eu dei a ele um beijo calmo e cheio de carinho, nossas línguas se entrelaçavam bem lentamente e eu tentava ser o mais terna possível. – E então? Foi bom o suficiente para você? – perguntei depois de me separar dele. Kou somente deu um sorrisinho e subiu em cima de mim, mostrou as presas e foi em direção ao meu ombro para beber meu sangue, foi aí que eu percebi algo. – Kou-kun, espere! – pedi com urgência.
– O que foi? – perguntou me encarando confuso.
– Ontem você bebeu meu sangue e dormiu aqui ao invés de ir atrás da Yui, então você não devia estar morto? – falei meio desesperada, ele deu uma risada com minha preocupação.
– Eu fui depois que você dormiu, Ningyo-chan. – respondeu se divertindo com minha situação, eu suspirei aliviada. – Ficou preocupada comigo, é? Aposto que sentiria muito a minha falta! – disse convencido, eu dei língua para ele, mas não neguei que sentiria sua falta. Bem, eu não tinha certeza se sentiria ou não, contudo algo dentro de mim me dizia que sim, me dizia que eu sentiria falta se algum desses vampiros idiotas morressem.
Kou lambeu minha bochecha e eu corei com o ato inesperado.
– O que está fazendo? – perguntei envergonhada e irritada ao mesmo tempo.
– Eu não pretendo morrer tão cedo, Ningyo-chan. – sussurrou em meu ouvido de um jeito sexy e sumiu. Eu fiquei lá deitada na cama com o coração acelerado, me perguntando qual era o problema com aqueles vampiros para me deixarem dessa forma.
Levantei-me e fui até o guarda-roupa pegando um short jeans rasgado, uma bata de seda azul-claro bem simples e coturnos de couro preto até o joelho, hoje eu iria começar a arrumar o jardim abandonado com a Yui e precisava de uma roupa confortável.
Yui.
Lembrei que Kou me disse ter ido até a ela depois que eu dormi para beber o sangue dela, mas ele voltou para dormir comigo, o que significava que ele a havia largado que nem uma bolsa de sangue vazia para trás. Uma enorme raiva fervilhou em mim, e eu pensei em como Yui deve ter se sentido tão humilhada sendo usada e depois jogada fora dessa forma, só que o pior é que eu estava com raiva de mim mesma, porque se não fosse pela minha maldição ela não estaria passando por isso.
Ou quem sabe se eu tivesse pensado antes de chamar o Kou para dormir comigo, ele não tivesse feito o que fez com ela. Eu não acreditava que estava sendo tão egoísta, roubando o que era dela por direito, foi a Yui que chegou nessa casa primeiro, foi ela que conheceu todos eles antes de mim, era ela quem os amava e olha o que eu estava fazendo!
– Grrrrr! Você é pior que a Cordelia, Tora! – xinguei a mim mesma. Eu estava sentindo tanto ódio de mim.
– Tora-chan, por que você está falando isso? – Yui perguntou atrás de mim, virei-me assustada.
– N-não é nada, Y-Yui-chan! – respondi forçando um sorriso, ela estreitou os olhos e chegou perto de mim.
– Você disse que é pior que a Cordelia por causa dos meninos? – perguntou desconfiada e preocupada ao mesmo tempo. Eu suspirei e resolvi falar, afinal mais cedo ou mais tarde a gente iria acabar tendo essa conversa.
– Não, é pelo que eu estou fazendo com você. – respondi de cabeça baixa. Eu me sentia tão imunda tomando o que era dela.
– O que você está fazendo comigo? – questionou confusa.
– Eu estou fazendo os meninos te desprezarem. – falei me sentindo pior a cada momento, fiquei esperando ela falar alguma coisa sobre como eu sou mesmo uma imunda por ficar roubando os meninos dela.
– Da onde você tirou essa ideia, Tora-chan? – perguntou preocupada e um pouco chocada.
– É que hoje o Kou-kun dormiu comigo, mas antes disso ele havia bebido meu sangue e precisou ir até você para curar o veneno, só que ao invés de ficar contigo ele voltou para mim. – expliquei sem coragem de olhar nos olhos dela.
– Olha para mim, Tora-chan. – pediu suavemente e eu fiz um enorme esforço para olha-la, estava com medo do que veria, mas ela estava sorrindo para mim. – Você não tem que se comparar a Cordelia só por causa disso, você não é igual a ela e nunca pense que você está roubando os garotos de mim ou que eles estão me desprezando. Não se chateie por essas coisas, eu estou feliz quando os meninos estão felizes e cá entre nós eles parecem cada dia mais bem-humorados tendo nós duas aqui. – falou com firmeza em sua doce voz.
– Está falando sério, Yui-chan? – perguntei um pouco incrédula.
– Claro que estou, sua boba! Acredite, essa mansão fica muito mais divertida com você aqui e também eu não sou possessiva, sei dividir! – respondeu brincalhona.
– Então a partir de hoje, declaro você, Komori Yui, a noiva de sacrifício mais bondosa e maravilhosa de todas e minha melhor amiga para sempre. – falei com um sorriso.
– E eu declaro você, Takayma Tora, a noiva de sacrifício mais sincera e compreensiva de todas e, sem dúvidas, minha melhor amiga para sempre. – disse me retribuindo o sorriso. Eu fiquei tão feliz, tão feliz que resolvi fazer algo, estendi o dedo mindinho para ela.
– Vamos fazer uma promessa, Yui-chan. – eu disse e ela entrelaçou o mindinho dela com o meu.
– Hai! – aceitou empolgada.
– Eu prometo ser sua amiga em todos os momentos, prometo sempre tentar olhar as coisas pelo seu lado para nunca te magoar e, acima de tudo, eu prometo nunca brigar ou me ressentir com você por causa dos meninos. – falei um pouco emocionada e acrescentei. – Se eu quebrar essa promessa morrerei esmagada pela culpa de ter te magoado.
– Eu prometo estar ao seu lado durante todo seu caminho, prometo ser sempre uma amiga compreensiva para nunca te tratar da forma errada e, acima de tudo, eu prometo nunca deixar que os meninos estraguem nossa amizade. – disse calmamente, ela parecia muito feliz. – Se eu quebrar essa promessa morrerei despedaçada pela dor de ter te magoado.
Nós sorrimos uma para a outra e nos abraçamos fortemente, depois nos separamos e eu disse.
– É melhor nós irmos logo até a sala de jantar antes que o Reiji tenha um chilique! – falei brincalhona.
– É mesmo! E também precisamos comer, porque teremos um longo dia! – disse alegremente. Nós descemos para tomar o café-da-manhã, nos sentamos lado a lado e comemos um monte da comida da mesa do jeito mais rápido que conseguimos, afinal se demorássemos mais não conseguiríamos arrumar nada no jardim.
Logo que terminamos, levantamos e fomos em direção a cozinha falar com Edgar, nós duas ignorávamos todos os meninos, eles ficavam olhando para a gente com uma cara engraçada, Reiji ficou irritado pelos nossos modos, mas Yui e eu nem ligávamos, estávamos mais interessadas em começar logo a arrumar o jardim e por isso deixamos os vampiros lá com caras de tacho.
Achamos o Edgar e pedimos a ele onde havia ferramentas e produtos de limpeza de vários tipos, ele disse que havia uma pequena dispensa parecida com uma casinha nos arredores do jardim e que lá teria tudo que precisaríamos. Yui já foi logo procurar a tal casinha para pegar as ferramentas, porém eu fiquei para trás quando vi um vidro cheio de cubos de açúcar e decidi pegar alguns e levar para o Yuma, já que ele tinha sido tão fofo me dando aquela tulipa.
Peguei cinco cubos, só que acabei comendo dois antes de chegar ao jardim para encontrar Yuma. Logo que saí pela porta o avistei cuidando de algumas roseiras, andei até ele e parei ao seu lado.
– Yuma-kun, eu trouxe algo para você. – falei suavemente.
– O que é? – perguntou não muito interessado, eu me agachei ao lado dele e estendi minhas mãos com os cubos de açúcar, ele olhou para minha mão e depois para o meu rosto.
– Eu queria te agradecer pela flor, só que não consegui pensar em nenhum jeito melhor do que cubos de açúcar. – expliquei meio sem jeito.
– Certo, me dá aqui. – disse e abriu a boca para que colocasse os cubos. Coloquei logo dois de uma vez, pois não tinha tempo a perder e comi o último. – Pensei que todos fossem para mim. – falou erguendo uma sobrancelha.
– E eram, mas agora eu tenho que começar a arrumar o jardim e não dá para ficar enrolando. – retruquei calmamente. – Outra hora eu pego mais para você, está bem? – ofereci e me levantei para ir atrás da Yui, no entanto ele me puxou e me deu um beijo rápido com gosto de açúcar.
– Arrume direito aquele jardim. – mandou voltando a cuidar da roseira a sua frente, eu estava um pouco desnorteada por ter sido beijada tão abruptamente, entretanto me recompus rapidamente e fui até o jardim abandonado encontrar Yui, encontrei-a tirando várias ferramentas de dentro da dispensa. Tirou ancinhos, tesouras de poda, vassouras, rodos, panos de limpeza, também tirou uma caixa de ferramentas com martelo, chaves de várias formas e tamanhos, alicates, pregos e parafusos.
– Yui-chan, deixa que eu pego os produtos de limpeza agora. – falei, ela se virou e assentiu me dando espaço. Eu peguei uma cesta e comecei a jogar nela sabão em pó, detergente, verniz de madeira, esponjas, água sanitária e até um ácido de remover ferrugem. Saí da dispensa fechando a porta.
– Nós vamos começar por onde? – perguntou Yui, pensei um pouco e decidi começar pelo pior lugar para me livrar dele de uma vez.
– Vamos começar pelo lado da Cordelia. – respondi calmamente, Yui deu um sorriso de aprovação e nós pegamos as coisas e nos dirigimos para o lado da vaca.
– Está na hora de por a mão na massa! – Yui disse assim que chegamos ao banco de madeira.
– Vamos nessa, baby!
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