Sangue Maldito

15 Adormecida


Notas iniciais
Bem, e venho repetir a mesma coisa de sempre... Eu nunca tenho muito o que falar, não é?

Tora — Sonho

Tudo estava escuro, a única luz vinha de uma fina fatia de lua minguante, eu repousava no meio do jardim da mansão e meus cabelos voavam ao meu redor ricocheteando para todos os lados. Eu usava apenas uma longa camisola branca com poucos detalhes dourados, algo me disse para levantar e não hesitei em obedecer.

Meu corpo começou a se mover sozinho em direção à um banco de madeira e ferro pintado de branco, ele ficava sobre a grama e eu me sentei nele, um vento extremamente gelado passou por mim e eu ouvi alguém sussurrando.

— Cordelia.

Minha visão escureceu e me senti quebrando em pedaços, cada membro do meu corpo foi separado violentamente e sugado para a escuridão, tentei gritar, mas nenhuma voz saiu então eu voltei a ver normalmente, meu corpo ficou inteiro e eu estava sentada em uma cadeira dentro de um belo coreto de mármore branco. Havia uma sombra disforme sentada na minha frente, sendo que somente uma mesa nos separava.

— Beatrix. – a sombra murmurou se desintegrando logo em seguida.

Então senti inúmeras mãos me agarrando por trás, elas cobriam meus olhos e boca, apertavam-me sem medir força e me arrastavam para algum lugar enquanto eu me debatia desesperada.

Logo as mãos desapareceram e eu percebi que estava dentro de algum lugar fechado, havia apenas uma pequena janela com grades já enferrujadas pelo tempo e mais grades formavam a porta do lugar.

Percebi que aquilo era uma cela e me aproximei da janela, eu estava em uma torre e lá em baixo avistei alguém que não consegui distinguir direito, pisquei, a pessoa sumiu e senti que ela estava atrás de mim, porém não podia me virar, pois estava paralisada, como se meu corpo não mais me obedecesse.

— Christa. – uma voz assoprou em meu ouvido pouco antes de o chão começar a ceder. A torre estava desmoronando e eu caí junto com ela e continuei caindo infinitamente até que senti algo perfurando meu coração, o sangue começou a jorrar e eu morri.

Yui

Já fazia três dias que Tora estava desacordada, às vezes ela abria os olhos ou gemia, no entanto continuava em estado de inconsciência. Muitas vezes durante esse tempo eu pensei que ela não fosse resistir e rezava muito pela sua sobrevivência.

Raramente alguns dos irmãos passavam aqui para vê-la, quando vinham era apenas porque queriam meu sangue e nas pouquíssimas vezes que alguém veio especificamente pela Tora não passava mais que 3 minutos e já ia embora. Entretanto, eu saía somente para usar o banheiro e era Edgar quem trazia a comida com a qual eu deveria me alimentar, por sorte Reiji não parecia se importar com minha ausência nas horas das refeições e nem mesmo por eu faltar à escola e eu agradecia por isso, não queria passar um segundo longe da Tora e correr o risco de encontrá-la morta quando voltasse.

Devido a minha constante presença ao lado dela, na manhã do segundo dia acabei flagrando Ayato trocando os curativos da Tora, achei a cena uma coisa inédita e, apesar de ter ficado com um pouco de raiva por encontrá-lo ali, preferi não falar nada já que ele estava apenas ajudando.

Na tarde do quarto dia eu fui trocar os curativos dela e reparei que os furos já estavam se fechando, era algo extraordinário, pois mesmo que déssemos uma vez por dia o remédio que Reiji fazia para ela ainda era anormal sua cicatrização estar nesse nível. Bom, talvez ela já fosse uma humana com a cicatrização boa e o remédio tenha apenas potencializado isso o que era ótimo já que agora eu tinha certeza que ela sobreviveria. De qualquer forma, após ver o estado de seus ferimentos decidi que já era possível trocar os curativos que eu colocava em cada machucado por ataduras.

Abri a gaveta da minha cômoda, que agora se encontrava cheia de materiais de primeiros socorros, tirei todos os rolos de ataduras que encontrei e deixei separado. Comecei a tirar a camisola da Tora e a coloquei em um canto, tirei também seu sutiã, pois um dos cravos havia perfurado seu seio esquerdo.

— Bitch-chan, sua pervertida, o que você está fazendo? – Laito questionou aparecendo do nada e me dando um enorme susto, virei-me e lá estavam todos os seis irmãos me encarando. Espantei-me por vê-los todos juntos em um lugar aqui, mas não queria imaginar o motivo disso, esperava sinceramente que não fosse nenhuma notícia ruim relacionada a situação da Tora.

— Eu vou trocar os curativos por ataduras. – respondi calmamente enquanto tirava curativo por curativo, a maioria deles estava manchada com um pouco de sangue. Em seguida desenrolei um dos rolos de atadura que eu havia separado e tentei levantá-la, todavia não dava para colocar as ataduras e segurá-la ao mesmo tempo. Laito percebeu isso e veio me ajudar, eu quis rejeitar, afinal ele poderia só estar se aproveitando da seminudez da ruiva, mas eu não deveria demorar muito para cobrir os furos, por isso seu auxílio era necessário.

Comecei a enrolar a atadura no pescoço dela, mesmo que não tivesse nenhum furo lá era somente um modo de conseguir firmeza para enrolar pelo resto do corpo. Fui fazendo voltas e enrolei o ombro e o braço esquerdo dela até os nós dos dedos, peguei outro rolo e cobri os seios, a barriga e depois a perna esquerda, depois vesti a camisola nela novamente e a deitei. Todo esse processo demorou uma boa parte da tarde devido ao cuidado necessário para manuseá-la.

— A Tora-chan está parecendo uma múmia. – Kanato constatou enquanto brincava com o Teddy. Eu dei uma risadinha e concordei, ela estava mesmo parecida com uma múmia.

— Até que enfim você sorriu, Yui. – Subaru comentou. Realmente, desde que eu peguei a Tora dos braços do Ayato eu não havia sorrido sequer uma vez.

— Espero que a Tora-chan também sorria quando acordar. – pensei alto. Todos olharam para mim e eu fiquei rubra de vergonha, tinha que parar com essa mania de falar alto as coisas que eu pensava.

— É só a gente fazer cócegas que rapidinho ela ri. – Ayato brincou. Eu revirei os olhos, mas não consegui segurar um sorriso pela sugestão infantil.

— Não sugira idiotices, Ayato! – Reiji advertiu severamente, ele não estava com paciência para o ruivo esses últimos dias. E não era para menos, pois parece que o pai deles não mandou uma punição para o Ayato pelo que ele fez o que era estranho já que o costume era castigar qualquer um por qualquer coisa e agora que algo tão gravr aconteceu não havia sequer sermão. Era impossível entender o pai deles.

— Seria menos problemático se ela continuasse dormindo. – Shuu disse colocando uma mão atrás da cabeça em cansaço por imaginar quando ela acordasse, realmente não seria fácil.

— Se a Muchi-chan continuar dormindo eu não vou ter como me divertir com ela. – Laito retrucou fazendo uma careta chateada.

— Se a Tora-chan continuar dormindo eu não vou poder brincar com ela. – Kanato contrapôs com seu jeito infantil, porém eu estremeci ao pensar nas coisas que ele poderia fazer quando dizia “brincar”.

— Nesse caso é melhor ela continuar dormindo. – Reiji provocou com seu senso de humor seco. Kanato se emburrou e começou a sussurrar coisas inaudíveis para Teddy, eu sabia que devia ser algo bem macabro pela expressão dele.

— Eu não entendo porque ela ainda está dormindo depois de tanto tempo. – Subaru ressaltou intrigado.

— Provavelmente é algum efeito colateral do remédio do Reiji. – Shuu falou só para provocar o irmão mais novo.

— Meu remédio não tem nada a ver com isso. – retrucou insatisfeito em tom superior, a rixa desses dois era muito tensa, até hoje eu não conseguia acreditar como é que a Tora teve coragem de usar isso para convencer o Reiji a ser professor dela. Pelo menos ela teve sorte de favorecer ele e não o Shuu, porque era bem mais fácil conseguir se livrar da punição do preguiçoso que da punição do moreno. E, cá entre nós, a do Reiji seria um milhão de vezes pior.

— Oe, vampirinhos, por que vocês não param de brigar e pegam algo para eu comer, hum?

Notas finais
Você é um sacrifício tolo e patético, por isso, deve aceitar a dor dada a você com honra. Se é um prazer mais profundo o que deseja, então pegue e segure-o, se puder. Como recompensa, vou cortá-la mais profundamente com o meu chicote. Reiji Sakamaki